Razão vs Emoção (5)

Os “ladrões de bicicletas” João Rodrigues e Nuno Teles leram o meu anterior post e – como podem verificar pelos posts linkados – continuam a defender a existência (e aumento) do salário mínimo. Alguns excertos:

o crescimento da produtividade ultrapassou em 50% o crescimento do salário real mais outros benefícios auferidos pelos trabalhadores (por exemplo, com prémios de seguro de saúde). O meu ponto mantém-se portanto. Bz não apresenta nenhum argumento que justifique esta divergência (como poderia ser de outra forma?).

Pensei que o João Rodrigues conseguisse fazer o raciocínio sozinho mas vejo que o insurgente Migas já lhe deu uma ajuda (último parágrafo!).

Continuando com o “ladrão” Rodrigues:

Se complicarmos um pouco [o modelo teórico] e considerarmos que as empresas têm algum grau de discricionariedade na fixação dos seus preços e processos de produção, salários mais altos podem ser ajustados através de diferentes mecanismos que não afectam o nível de emprego: melhores técnicas de produção, melhores técnicas de vendas, aumento dos preços, redistribuição da massa salarial na empresa em benefício dos trabalhadores mais mal pagos, etc.

Ênfase no “podem”… Fazer experiências com a vida dos outros é uma característica muito socialista! Talvez o Nuno Teles possa arranjar tempo para ler o post do Luís Aguiar-Conraria intitulado “Serviço Público”.

E finalizando com o “ladrão” Teles:

Por exemplo, na Florida, o salário mínimo horário foi aumentado dos 5.15$ dólares federais para 6.15$. Um aumento de quase 20%. O número de trabalhadores beneficiado pela fixação do salário mínimo passou de 310 000 para 850 000. Os custos associados aumentaram de 140 milhões de dólares para 410 milhões. E, no entanto, mesmo nos sectores mais dependentes de mão-de-obra não qualificada, como a hotelaria, tal aumento traduziu-se num custo de 1% do seu volume de negócios. Eloquente, não?

Vamos supor que apenas 1% dos 850.000 trabalhadores afectados perderam o emprego devido à subida dos custos salariais. Alguém lhes perguntou se preferem o desemprego a um salário baixo?

10 pensamentos sobre “Razão vs Emoção (5)

  1. Ainda estou para perceber como é que um aumento de 20% faz os custos passarem de 140 milhões para 410 milhões. Ou estes custos são calculados em relação a um benchmark qualquer?

  2. Nuno Teles

    Bz,

    Este é um post preguiçoso.

    1- O post do Migas nada diz sobre a crescente divergência da produtividade com os salários. O ponto mantém-se.

    2- Se tivesse lido com atenção o post do João, bz teria visto referências aos dois artigos de que LA-C fala.

    3- Escrevi “podem” porque não sou adivinho quanto à forma como cada empresa se ajusta. Limitei-me a apresentar diferentes alternativas.

    4- O caso da Florida serve só (e já é o suficiente) para mostrar que um aumento do salário mínimo pode (outra vez o “pode”!) resultar num aumento de custos negligenciável para as empresas.

    Isto tudo para chegar ao ponto essencial: ao contrário do que aqui escrito, na questão do salário mínimo não existe divergência entre “os economistas” e o “senso comum”. O argumento de autoridade é inválido.

    P.S. Um pormenor: a leitura apressada fez com que confundisse a autoria dos posts.

  3. Caro Nuno,

    Ou leu o meu post na diagonal ou estamos a falar de coisas diferentes. O meu argumento limita-se a explicar essa divergência. O ponto principal é que à medida que o capital passa a ter cada vez maior preponderância, sendo a fonte da maior parte do crescimento da produtividade, é perfeitamente natural (e expectável) que o crescimento do rendimento real do trabalho cresça menos. No fundo, se foi o factor capital a ser aumentado, é normal que seja esse factor a ser remunerado. No limite, até poderia acontecer o rendimento do trabalho não crescer de todo. Este efeito é reforçado pelo contexto de concorrência maior no mercado de trabalho resultante da globalização. Estes são os factos. O Nuno estava à espera de quê? De uma defesa ética dessa divergência? Pensei que a ideia era deixar a “ideologia” de fora do debate. Pelo menos foi essa a atitude do Daniel Oliveira. Agora, é evidente que a perspectiva liberal sobre o assunto pode fazer um juízo ético: e esse juízo é que se o preço dos factores resultar da interacção livre entre as partes, isso é compatível com a liberdade. Por isso se critica o argumento, bastante marxista, de que a distribuição do “excesso” da actividade económica deve ser “arbitrada” num contexto de “luta de classes” ou que o retorno ao investimento do capital é de alguma forma “apropriação indevida”.

  4. AS

    «… salários mais altos podem ser ajustados através de diferentes mecanismos que não afectam o nível de emprego: [ … ] redistribuição da massa salarial na empresa em benefício dos trabalhadores mais mal pagos, etc.»

    Mas, se é assim, então a fixação do salário mínimo torna-se desnecessária: as empresas e os empregados já dispõem de mecanismos de ajustamento voluntário que podem usar.
    Só que a palavra “voluntário” faz aqui toda a diferença.
    Assim, a fixação intervencionista, e com base em critérios arbitrários, do salário mínimo serviria apenas para obrigar as empresas e os empregados a comprarem e a venderem o factor trabalho por um preço que de outra forma não aceitariam (as empresas não aceitariam pagar um preço tão elevado e os empregados aceitariam receber um preço mais baixo).

  5. AS

    «… salários mais altos podem ser ajustados através de diferentes mecanismos que não afectam o nível de emprego: [ … ] aumento dos preços …»

    E se o contexto em que essas empresas operarem for de redução de preços ? Nesse caso, defende o autor do post citado que as empresas possam realizar o ajustamento correspondente ? O ajustamento é de sentido único (e ascendente) ou pode ser de dois sentidos (ascendente e descendente) ?

  6. AS

    «… salários mais altos podem ser ajustados através de diferentes mecanismos que não afectam o nível de emprego: melhores técnicas de produção, melhores técnicas de vendas, …»

    Mas por alma de quem ?
    Se as melhores técnicas de produção corresponderem a investimento em capital e se as melhores técnicas de vendas corresponderem a formação fornecida e paga pela empresa, por que é que tais melhorias devem ser convertidas em “distribuição” salarial em vez de em acréscimo da remuneração dos accionistas ?

  7. Se as melhores técnicas de produção corresponderem a investimento em capital e se as melhores técnicas de vendas corresponderem a formação fornecida e paga pela empresa, por que é que tais melhorias devem ser convertidas em “distribuição” salarial em vez de em acréscimo da remuneração dos accionistas?

    Porque nem as melhores técnicas de produção nem as melhores técnicas de vendas seriam possíveis se não radicassem num «capital social» acumulado ao longo de muitas gerações, para a formação do qual contribuíram não só os trabalhadores, mas todos os outros cidadãos presentes e passados, capital esse que é preciso preservar para o futuro.

    A economia deve muito, deve quase tudo, à civilização; e começam a ser cansativos os liberais que não querem reconhecer nem honrar esta dívida.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.