Quem conta um conto, acrescenta um ponto

No domingo, ao fim da manhã, a Rititi perguntava-me se eu sabia de sites onde pudesse encontrar padres giros. Eu respondi-lhe que, infelizmente, não a podia ajudar, pois apesar de conhecer algumas pessoas nesse ramo de actividade, não tinha fotos deles a rezar. Na sua intensa investigação, a Rititi descobriu o calendário romano, capaz de agradar a meninas de várias crenças e orientações religiosas, e alguns meninos também.

As fotos fizeram escola, e não é que as encontro hoje no Arrastão? Na boa, que é sempre positivo quando representantes da Santa Madre Igreja marcam presença num local de culto da blogosfera portuguesa, ainda por cima num blogue de tão larga audiência. Mas, lendo o que lá se escreveu, cheguei à conclusão que o DO anda distraído. Na verdade, uma das mais difíceis literacias na era da internet é saber separar aquilo que é verdade do que não é. Ora, o Daniel, sendo bom rapaz, anda um bocadinho para o crédulo (admito que ambas as características andem de mão dada). Depois desta semana o DO ter lido num blogue de uns tipos que se apelidam Ladrões de Bicicletas (muito literato o nome) que não há relação entre a fixação de um salário mínimo e o desemprego, quando aquele é fixado acima do patamar de produtividade de algumas actividades – e ter acreditado – ainda o vemos a achar – num post, há que dizê-lo com toda a frontalidade, homofóbico, pois só o dedica às meninas (ai, se fosse o AAA a escrever “Meninas, é só para ver e não tocar”, caia o Carmo e a Trindade) – que o calendário dos meninos penteadinhos de sotaina é uma publicação oficial do Vaticano. Por este andar, da próxima vez que a Playboy publicar umas fotos com umas enfermeiras semi-despidas, ainda vamos ver o DO a felicitar o Correia de Campos e a dizer: “Este é o Ministério da Saúde de que eu gosto”. No que, diga-se de passagem, terei de concordar.

P.S. O dito calendário é uma iniciativa de um tipo italiano que vende souvenirs no Vaticano, chamado Piero Pazzi, como facilmente podem ver, aqui, não é, obviamente, nenhuma publicação oficial do Vaticano.

P.S.2. O DO reconheceu que afinal tinha sido crédulo, confiando numa notícia de um site chamado “mixbrasil”, com o qual justifica a sua confusão. Mudou o post. Fica a lição sobre as literacias necessárias para navegar na net e o cuidado que importa ter na filtragem do que se lê.

12 pensamentos sobre “Quem conta um conto, acrescenta um ponto

  1. Quanto ao resto, os rapazes dos ladrões de bicletas têm credenciais académicas na sua área superiores às da esmagadora maioria dos blogues de direita que não se cansam de usar de argumentos de autoridade. Informe-se

  2. “Quanto ao resto, os rapazes dos ladrões de bicletas têm credenciais académicas na sua área superiores às da esmagadora maioria dos blogues de direita que não se cansam de usar de argumentos de autoridade.”

    Isso é um argumento de autoridade?

  3. Daniel,

    Não pondo em causa a qualidade académica dos elementos do blogue Ladrões de Bicicletas, defender que o salário mínimo não induz necessariamente ao desemprego só faz sentido num cenário residual, em que o dito salário é inferior à produtividade, circunstância em que o próprio salário mínimo não tem qualquer interesse prático.

    A defesa do salário mínimo só faz sentido na esfera política, ou com argumentos económicos de outra linha. É defensável que se assuma um dado salário mínimo, remunerando o desemprego (numa espécie de seguro social?). Faz sentido, esta é uma linha de defesa plausível. Mas negar que quanto maior for a diferença entre salário mínimo e produtividade, maior será a taxa de desemprego ou de emprego informal, é meter a cabeça debaixo da areia, por mais qualificação académica que tenha quem defende tal tese.

    A União Soviética também tinha economistas e académicos de deixar o mundo estupefacto, deslumbrando gerações inteiras com as suas teses sobre a economia planeada.

  4. “A União Soviética também tinha economistas e académicos de deixar o mundo estupefacto, deslumbrando gerações inteiras com as suas teses sobre a economia planeada.”

    E um deles até ganhou o Nobel da Economia!

  5. Rodrigo Adão da Fonseca

    Miguel, ganhou o Nobel? E já agora, foi para a cerimónia de carro particular ou de transportes públicos?

  6. Pingback: É preciso muita fé… « Farmácia Central

  7. Apenas acho disparatado confundir um erro factual, que corrigi (ainda assim a maioria daqueles senhores são padres e mesmo para isso precisei de ser crédulo), com uma divergência de ipinião. E demasiadas vezes esta corrente política tem a tendência por confundir as suas convicções ideológicas com verdades científicas.

    Devo recordar que a quase totalidade dos países da OCDE tem salário mínimo. Ou seja, vocês são ultra-minoritários no vosso ponto de vista e ainda assim insistem em falar como se houvesse um consenso onde ele está longe de existir.

  8. É impressionante ver como um tema tão pouco interessante (padres giros e líbido feminina) dá nestas profundezas.
    Obrigada, Rodrigo, pelo link, coisa que parece não ser hábito em certos blogues.
    (que tal Madrid?)

  9. Helder

    Daniel,

    a falta de consenso é mais política que económica e o RAF já o referiu aqui e noutros lugares. Já agora, o estudo referido pelo ladrões de biclas já foi desmontado por outros académicos. Por mim vou lendo o que escreve o LA-C e os economistas cá da casa.

  10. Olá Rita,
    Madrid estava como sempre, buenissima, o people todo na rua, apesar do frrrioooooo, muiito frriooooo.
    Quanto ao tema, concordo que padres giros é um assunto com pouco interesse.
    Mas ver o DO a fazer de um poster para aquecer mulheres de meia idade em peregrinação ao Vaticano uma espécie de fraqueza da dita ICAR (a sigla dá-me vontade de rir), não deixa de ser um bom motivo de reportagem.
    Felices Fiestas,
    RAF

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