Razão vs Emoção (4)

Para comentar sobre o salário mínimo, Daniel Oliveira usou – à falta de melhor! – os argumentos do João Rodrigues, co-autor do “Ladrões de Bicicletas” (meus destaques):

Este é um assunto que divide a «comunidade» e que, mesmo dentro da teoria económica dominante, é altamente disputado. Por exemplo, os prémios Nobel Kenneth Arrow, Lawrence Klein, Paul Samuelson, Robert Solow e Joseph Stiglitz, juntaram-se, em 2006, a mais de 650 economistas académicos na defesa de um aumento do desvalorizado salário mínimo norte-americano, considerando que seria um bom instrumento de combate à pobreza e à desigualdade e que poderia contribuir para reequilibrar as relações laborais. Depois temos, entre outros, o famoso estudo empírico de David Card e Alan Krueger mostrando que o salário mínimo não provoca necessariamente desemprego.

Porque 5 de 35 prémios Nobel e 650 dos 20.000 economistas americanos desejam fazer experiências com as vidas dos trabalhadores menos qualificados, isso é razão suficiente para existir (e aumentar) o salário mínimo?

Mas o referido “ladrão de bicicletas” sugere, também, a leitura de artigo em que é publicado o seguinte gráfico:

Produtividade vs Salarios

No entanto, quem consultar os dados que lhe deram origem (pdf – 5,3 MB; págs. 338 e 340), poderá perceber o logro dos autores:

  1. A evolução do salário médio refere-se a trabalhadores fabris e o crescimento da produtividade a todos os sectores de actividade, excluindo a agricultura (logo, não são comparáveis);
  2. Entre 1972 e 2004 o número de trabalhadores no sector secundário reduziu-se em 1,86% (Tabela B-46; pág. 336);
  3. No mesmo período o número total de trabalhadores aumentou 78,16% (de 73,8 milhões para 131,5 milhões);
  4. Consequentemente, entre 1972 e 2004 a percentagem de trabalhadores do sector secundário em relação ao total diminuiu de 30,2% para 16,6%;
  5. Como resultado da abertura da economia americana ao exterior nas décadas de 80 e 90, o sector secundário foi o que mais sofreu com a concorrência estrangeira, ao contrário de todos os outros trabalhadores dos restantes sectores de actividade que beneficiaram da globalização (proporcionalmente maior; ver ponto 4.);
  6. Entre 1972 e 2004 os salários dos trabalhadores fabris diminuiram 8,45% (Tabela B-47; pág. 338) mas, por outro lado, beneficiaram da redução das medidas proteccionistas com a possibilidade de aquisição de produtos estrangeiros mais baratos;
  7. O gráfico apresentado pelo “ladrão de bicicletas” João Rodrigues deveria ter sido o seguinte (Tabela B-49; pág. 340)

Produtividade vs Salarios (2)

(clicar na imagem para aumentar)

61 pensamentos sobre “Razão vs Emoção (4)

  1. gpn

    Excelente posta!

    A esquerda quando se mete a argumentar em economia dá nisto…No fundo eles já tem uma conclusão definida para o “estudo” depois é só elaborar uns gráficos e uns bitaites…Claro que o DO (embora sem perceber muito bem o que significava) copiou logo o “argumento” do “ladrão de bicicletas”…

  2. Qual é o problema de eu usar um argumento de João Rodrigues e do Nuno Teles que linkam para argumentos de outros? Não estão os senhores a fazer o mesmo? Ainda assim, verifico que 5 de 35 prémios Nobel e 650 dos 20.000 economistas americanos são iletrados em matéria económica.

    O que ainda não conseguiram é responder ao meu desafio: algum dado que demonstre que o miserável salário mínimo nacional é responsável por desemprego em Portugal. Até agora, teoria económica (grande parte dela ideológica, como praticamente tudo o que aqui é linkado) e nenhum dado empírico verificável. Com a pequena diferença de, como sempre, tentarem que a ideologia seja lida como ciência.

    Senhor gpn, suponho que o senhor poercebe imenso da matéria, apesar de ainda não ter dito realmente nada sobre ela.

  3. “Ainda assim, verifico que 5 de 35 prémios Nobel e 650 dos 20.000 economistas americanos são iletrados em matéria económica.”

    Tem toda a razão.
    Ou seja, retirando a ironia da sua frase, pode-se afirmar que os 4 prémios Nobel citados em posts abaixo, são iletrados em matéria ecnómica.
    Só para lembrar: Milton Friedman, Gary Becker, Merton Miller e James Buchanan.
    Vale que o Stigliz mudou de opinião há uns tempos e está hoje do lado da “letrada” maioria. Porque antes de mudar de ideias, dizia coisas como:
    “Price floors have predictable effects too…. If government attempts to raise the minimum wage higher than the equilibrium wage, the demand for workers will be reduced and the supply increased. There will be an excess supply of labor. Of course, those who are lucky enough to get a job will be better off at the higher wage than at the market equilibrium wage; but there are others, who might have been employed at the lower market equilibrium wage, who cannot find employment and are worse off.”
    1993, Economics (citado aqui: http://www.mises.org/story/2266 )

  4. “O que ainda não conseguiram é responder ao meu desafio: algum dado que demonstre que o miserável salário mínimo nacional é responsável por desemprego em Portugal”

    Espere aí que já publico.

    “(grande parte dela ideológica, como praticamente tudo o que aqui é linkado)”

    Pois. Só a que o Daniel Oliveira “linka” é que é ciência séria.

  5. “Milton Friedman, Gary Becker, Merton Miller e James Buchanan.”

    E falta pelo menos o Hayek. Parece que em Prémios Nobel já atingimos a paridade.

  6. «Porque 5 de 35 prémios Nobel e 650 dos 20.000 economistas americanos desejam fazer experiências com as vidas dos trabalhadores menos qualificados, isso é razão suficiente para existir (e aumentar) o salário mínimo?»

    Não. Mas é razão mais do que suficiente para não chamar iletrado a quem discorda.

  7. “Suficientemente a par para saber que nenhum deles é iletrado. Não basta?”

    Até estou espantado por não os ter puxado logo para o seu lado nas alegações iniciais!

  8. Eu?! Puxá-los para o meu lado?! não sou eu que contraponho os economistas à população ignara. Você é que usa o artigo definido para dar a ideia de que todos os economistas pensam o contrário do que o povo quer. E com este truque de linguagem não erra: mente.

  9. Não é uma alegação. É a correcção de um erro, que por sua vez tinha sido a conclusão (errada) de um raciocínio. Mas o raciocínio está certo, e a correcção também: quem, apresentando-se como não-iletrado em Economia, afirma que existe entre os economistas um consenso que não existe está a mentir. E está a mentir aos iletrados, o que é particularmente feio.

    A alegação de que «o povo, essa massa informe», se opõe ao «conhecimento» dos economistas foi feita neste blogue, mas não por mim.

    Por mim, sei tão pouco de Economia como de Medicina. Isso não me impede, quando vou ao médico, de lhe fazer as perguntas e de lhe pôr as objecções que entendo pertinentes. Se o que ele me diz não me agrada, reservo-me o direito de consultar outro médico. Se lhe digo que o vou fazer, ele responde-me: «você é que sabe».

    E de facto eu é que sei. Não de medicina, mas de mim próprio. Do mesmo modo que a comunidade política é que sabe se quer ou não quer seguir as indicações dos economistas.

    O meu médico, por muito que saiba de Medicina, tem a humildade de me deixar tomar as minhas próprias decisões. sabe que quem manda não é ele, sou eu.

    É esta humildade que exijo aos economistas. Podem saber muito de economia política, mas quem sabe de política económica não são eles: são as pessoas que têm que viver com as consequências dessa política.

    Se eu decido alguma coisa sobre o que me diz respeito contra a opinião do meu médico, ele não me chama iletrado; não o chame você à maioria da população que é a favor, racional ou irracionalmente, da existência dum salário mínimo.

  10. O Sr. Sarmento conta uma história comovente em que apela à humildade. Porém, entra em contradição quando pretende que quem decide quanto pagar aos empregados ou (como já referiu noutros posts) quem pode ou não pode abrir aos Domingos e feriados) são outros que não o empregador e os lojistas. Pretende pois decidir por ele. Pelo vistos não partilha da mesma humildade do seu humilde médico.

  11. Quem decide quanto é que um patrão paga ao empregado não é o patrão. Nem é o empregado. São os dois, por um processo de negociação. Se neste processo a relação de poder está desiquilibrada, o Estado intervém como é sua razão de ser.

    Quem decide se um comércio abre aos domingos e feriados não é o dono. É ele, e são todas as pessoas que têm algum interesse legítimo nessa decisão. Também aqui a decisão é negociada. Se nesta situação alguém tem poder a mais ou poder a menos, o Estado intervém. É para isso que ele serve.

    Só há um grupo a quem <b<nunca deve ser reconhecido poder de decisão: os especialistas. Porque já têm, em grau suficientemente elevado, outro poder, que é o de aconselhamento. Quer se trate de economistas, quer de médicos, quer de arquitectos: se já têm a autoridade do saber, não podem ter a autoridade do mandar.

  12. A mim parece-me é que andam a falar de economia a mais e de sociologia a menos…

    Mas eu compreendo, o pseudo-liberalismo que tem vindo a ser advogado neste blog é cinge-se à economia, apesar de quererem aparentar um liberalismo mais abrangente.

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  14. Compreende-se o Daniel Oliveira.
    O salário mínimo (SM) é uma das medidas emblemáticas da esquerda que hoje, à falta de projectos próprios, gosta de se reservar o monopólio retórico do “social”.
    Resulta de uma visão ideológica da realidade e trata-se de uma imposição bem intencionada que visa ajudar as pessoas mais desfavorecidas.

    Como todas as medidas bem intencionadas, traz consigo efeitos perversos nos quais as boas almas nunca pensam:

    Para começar, choca frontalmente com uma lei imutável do trabalho: quando muitas pessoas querem e são capazes de fazer um trabalho, esse trabalho geralmente é mal pago e é essa a razão pela qual uma prostituta ganha, em média, mais que uma professora.

    Para além disso o SM leva os empregadores a exercer descriminação contra as pessoas pouco habilitadas. Por exemplo, um jovem sem muitos conhecimentos ainda, e cujos serviços valem digamos 400 euros por mês, pode não se importar de trabalhar por esse preço a fim de adquirir experiência que lhe permita um melhor emprego. Mas se a lei diz que o mínimo é 500, e se nenhum patrão quiser acrescentar uns caridosos 100 euros, ele não ganha o emprego.
    E para o jovem, a opção pode ser simplesmente entre ganhar 400 ou zero. Normalmente optará pelos 400…no mercado negro.

    Na realidade do nosso país, o SM tem um carácter residual do ponto de vista estritamente económico, mas transcendente do ponto de vista político…. é uma bandeira ideológica.

    É a expressão do intervencionismo estatal. Uma terceira parte (o estado) arroga-se o direito de impor às livres partes contratantes um preço para o factor trabalho, tal como antes fazia para os preços do pão, do açúcar etc.

    O facto de o SM ser pouco aplicado, demonstra que pouca gente lhe encontra vantagens significativas.
    Todavia, o facto de existir como lei, sendo um hino ao politicamente correcto, prejudica jovens desempregados e contribui para a informalidade do mercado de trabalho, tal como o preço tabelado de determinados produtos estimula o mercado negro.

    No caso do trabalho, as empresas organizadas ficam limitadas na sua capacidade de contratarem pelo justo valor e reduzem as contratações. A procura diminui e o princípio da concorrência faz inevitavelmente baixar o preço de equilíbrio.
    Quem se “safa” é a chamada economia “informal”.

    Assim sendo, o SM é uma medida negativa que, pretendendo proteger o trabalho face ao capital, substituindo-se ao livre jogo do mercado, acaba por prejudicar ambos.
    No fundo, o que salvaguarda os trabalhadores é a concorrência e a pujança empresarial, e não as imposições estatais.
    Há vários países europeus onde não há SM e naqueles em que há, acontece o mesmo que cá: as entidades patronais recorrem a imigrantes e a processos informais e imaginativos de contratação.
    E fazem-no com inteira lógica, concorde-se ou não com a “moralidade” dos processos.
    É que visões morais e ideológicas, cada um tem as suas, mas a realidade é feita de interesses e a economia é o tabuleiro onde a realidade se instala. Não há almoços de borla. Todos aqueles que acham que é possível escamotear a realidade com retórica ideológica e boas intenções paroquiais, acabam por pagar o preço mais tarde ou mais cedo.
    A derrocada do comunismo e a miséria dos povos que viviam nesses países, demonstra-o à saciedade.

    Quanto aos economistas citados pelo Daniel, o argumento de autoridade é uma treta. Keynes teve sucesso numa determinada conjuntura, mas só a um idiota se lhe ocorreria replicar no mundo de hoje as receitas keynesianas.
    O problema é que ainda há muitos idiotas por aí…na América do Sul nascem como gorgulhos.

  15. Luis Oliveira

    Pelos vistos a ciência resulta do somatório do que os prémios Nobeis têm dito sobre os pontos em análise ao longo do tempo.

    Aristóteles achava que F=mv. Newton que F=ma. Portanto F=m(v+a)/2. Juntando o Einstein fica ainda mais engraçado.

    Eu diria que o que vale é o entendimento ACTUAL sobre as matérias, e esse é que o salário mínimo é uma medida prejudicial.

    É pegar em qualquer texto *universitário* de economia publicado nos últimos dez anos (descontando algum esquerdista parolo) e verificar!

    Se querem estudos recentes sobre isso vão à biblioteca nacional e procurem nas teses de mestrado! Não sei quem mais iria perder tempo com isto…

  16. «Para começar, choca frontalmente com uma lei imutável do trabalho: quando muitas pessoas querem e são capazes de fazer um trabalho, esse trabalho geralmente é mal pago e é essa a razão pela qual uma prostituta ganha, em média, mais que uma professora.»

    Ora aqui está uma excelente razão para que o Estado interfira no Mercado e crie mecanismos artificiais que corrijam as leis naturais e imutáveis do trabalho. Queremos que a professora ganhe mais que a prostituta. E não sacralizamos a Natureza.

  17. Luís Oliveira:

    Eu quero uma coisa. Você, pelos vistos, quer outra. Temos que contar quantos cidadãos querem o mesmo que eu, e quantos querem o mesmo que você. Cidadãos, note bem, e não «agentes económicos». Porque a questão, como me tenho fartado de insistir, é ética e política, e não científica ou técnica.

  18. Luis Oliveira

    [Temos que contar quantos cidadãos querem o mesmo que eu, e quantos querem o mesmo que você]

    É isso que faz o MERCADO.

    É precisamente a soma dessas opiniões todas sobre o valor do trabalho de uma prostituta e de uma professora que determinam os salários respectivos.

    Obviamente não é isso que quer. O que vc queria é que toda a gente quisesse o que VOCÊ quer.

  19. Luis Oliveira

    «Quer VOCÊ.»

    E você, não quer?

    Não, não quero. Não me sinto com capacidade para determinar o preço relativo dessas duas especialidades. Quanto é que acha que devia ser o racio? O dobro para a professora? Ou uma vez e meia? Ou dez vezes?

    Prefiro que sejam os consumidores dos respectivos serviços a determinar o preço.

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  22. «É precisamente a soma dessas opiniões todas sobre o valor do trabalho de uma prostituta e de uma professora que determinam os salários respectivos.»

    O que é estranho é a soma das opiniões todas ir no sentido exactamente oposto ao da opinião de cada um (a não ser que você ache que há mais pessoas a querer que os rendimentos duma prostituta sejam superiores aos duma professora do que o contrário, caso em que serei obrigado a perguntar-lhe que planeta é o seu).

    Se o mercado é isto, tenho uma alternativa melhor. Chama-se democracia. Já ouviu falar?

  23. Luis Oliveira

    [O que é estranho é a soma das opiniões todas ir no sentido exactamente oposto ao da opinião de cada um ]

    DA SUA. Chiça!

    [a não ser que você ache que há mais pessoas a querer que os rendimentos duma prostituta sejam superiores aos duma professora do que o contrário]

    Eu não acho nada! É O QUE SE VERIFICA!

    [Se o mercado é isto, tenho uma alternativa melhor. Chama-se democracia]

    Também tenho uma alternativa melhor, ir trabalhar e parar de aturar a sua ignorância e a sua demagogia. A sua alternativa não se chama democracia, chama-se comunismo, a ditadura dos “iluminados”.

  24. Nuno

    Falam falam, neste caso escrevem escrevem e não dizem nada q responda ao desafio do Daniel Oliveira! “Algum dado que demonstre que o miserável salário mínimo nacional é responsável por desemprego em Portugal”
    Sr Luis Oliveira chama-lhe de forma intelectualmente desonesta comunismo, deve ser para meter medo a alguém ou talvez a si pp! Eu chamo-lhe justiça social e moralidade!
    Já vimos o que os mercados desregulados fazem no seu “melhor” no caso Northern Rock, agora usando a sua linguagem é preciso chamar os comunistas do governo inglês para nacionalizar o banco!

  25. “Já vimos o que os mercados desregulados fazem no seu “melhor” no caso Northern Rock”

    Acha que o mercado bancario é desregulado?!! Experimente lá abrir um banco.

  26. “Sr Luis Oliveira chama-lhe de forma intelectualmente desonesta comunismo, deve ser para meter medo a alguém ou talvez a si pp! Eu chamo-lhe justiça social e moralidade!”

    Caro Nuno, não é por chamar sabonete a um autocarro, que se pode ensaboar con ele.

    Quanto à “moralidade” e “justiça”, porque razão se acha o supremo árbitro desses conceitos?
    Quem lhe garante que é “justo” e “moral” aquilo que você acha justo e moral?

    Essa arrogância totalitária não faz acender nenhuma luzinha vermelha na sua cebecinha?

  27. Caramba, que falta de imaginação! Arranjem outro argumento, que esse já não pega!

    Se dizemos que a maior parte das pessoas provavelmente entende que uma professora deve ganhar mais do que uma puta, estamos a armar-nos em supremos juízes das opiniões. Se dizemos que a neve geralmente é branca, estamos a armar-nos em supremos juízes da brancura. Se dizemos que a noite muitas vezes é escura, estamos a armar-nos em supremos juízes da escuridão. Se dizemos que ser pobre é chato, estamos a armar-nos em supremos juízes da pobreza. Se dizemos que a relva é verde, estamos a armar-nos em supremos juízes da viridez.

    Irra! É demais! Que raio de trauma é esse? Que mal vos fizeram os juízes? Ou será que já estão com medo da trombeta do arcanjo?

  28. Caro JLS, não se irrite.
    Eu entendo que a generalidade das pessoas ache bem que uma professora ganhe mais do que uma prostituta.

    Está-se do lado “certo”, é uma posição fácil de verbalizar.
    Mas uma coisa é o que se acha que deve ser, outra aquilo que é e a diferença tem a exacta latitude da natureza humana.
    Estamos sempre dispostos a grandes sentenças morais sobre o certo e o errado, no que toca aos outros e fica bem largar postas grandiloquentes.

    Mas a realidade é determinada não pelo que dizemos que somos, mas pelo que de facto somos.
    Uma boa prostituta ganha mais, pela mesma razão do Cristiano Ronaldo: oferece um serviço para o qual a procura é maior que a oferta.
    E de quem é a procura?
    Exactamente daqueles que, como o meu amigo, estão na primeira linha da retórica.

    Se a rapariga ganha bem, é porque há quem esteja disposto a pagar por isso.
    Como pretende resolver o assunto?
    Nacionaliza a prostituição?
    Faz tabelas de salários para as diversas profissões?
    E então se eu quiser específicamente aquele trabalhador e estiver disposto a pagar o que achar conveniente?
    Quem é você para se meter na minha liberdade de escolha e na de outra pessoa igualmente livre?
    De onde lhe vem a prosápia de saber melhor que as pessoas, aquilo que é bom para elas?

    A solução, meu caro, é a regulação estatal, afinal o que se passou na União Soviética ( faça uma pesquisa sobre “Gosplan”, e entenderá as dimensões tenebrosas da utopia).

    Acha mesmo que isso funciona?
    Em que galáxia?

  29. Lidador:

    E eu entendo bem que uma coisa é o que achamos que deve ser e outra coisa é o que é. E só não concordo que a diferença tem a exacta latitude da natureza humana porque há muitos outros factores além da natureza humana a contribuir para ela.

    Mas, que diabo! A diferença, mesmo que não possa ser eliminada, pode ser reduzida. Temos mãos, temos cabeça, temos conhecimentos, temos técnicas. Achamos que a tuberculose não deve ser e tanto andamos que inventamos os antibióticos: apesar de todos os efeitos secundários, e até dos perigos da solução que encontrámos, o que é facto é que neste particular o que deve ser fica mais próximo do que é.

    Sabemos que a força da gravidade opera inevitavelmente; mas, como achamos mal que as pessoas morram de quedas, inventamos parapeitos para as varandas. E até conseguimos andar pelos ares, cumprindo a velha utopia, em aparelhos «mais pesados do que o ar».

    Praticamos engenharias de toda a ordem, às vezes com consequências desastrosas, as mais das vezes com recompensas recompensas que antes mal conseguiríamos imaginar. Só há duas engenharias que proibimos a nós próprios: a engenharia social e a engenharia económica. Se me apresento perante um economista a dizer que não quero que as prostitutas ganhem mais que as professoras, a reacção dele é, mais coisa menos coisa, a de um médico que me dissesse que o melhor é deixar a peste bubónica seguir o seu curso.

    De onde vêm estas proibições? De um qualquer tabu supersticioso que sacraliza o mercado? Se é daqui, eu, como escrevi acima, não sou muito adepto de sacralizar a Natureza. Ou virão de experiências anteriores mal sucedidas? Penso, ao ler os liberais, que ambos os factores estão presentes.

    Mas se uma tentativa de aproximar aquilo que é daquilo que deve ser corre mal, o que há a fazer é aprofundar os conhecimentos e corrigir as técnicas. Não é deixar a natureza seguir o seu curso. Vamos lá por tentativa e erro, sempre foi assim.

    Tenho por hábito ir todas as semanas almoçar com um grupo de professoras reformadas ou perto da reforma num pequeno restaurante da Baixa, numa rua estreita que é pouso de prostitutas. Não se trata de raparigas novas nem bonitas; mas às vezes uma delas entra no restaurante para tomar um café ou beber um copo de água, e às vezes há conversas. Fiquei assim a saber, de uma delas, que ganha por mês aproximadamente o triplo do que ganham as professoras que ali estão.

    Isto escandaliza-me um pouco, mas não demasiadamente. Como de resto às minhas comensais, a quem não passaria pela cabeça trocar a sua condição pela da outra só por causa da diferença de rendimento.

    Quanto às causas dessa diferença, são as que vê apontou e não vale a pena falar mais delas. Quanto aos remédios…

    Bom, aí é melhor não insistir no que já sabemos que não funciona. Não vamos legislar tabelas. Não vamos nacionalizar a prostituição. Mas talvez possamos restringir o acesso à profissão docente a pessoas que saibam da matéria que são supostos ensinar e que a ensinem bem: isto terá, como efeito colateral positivo, um aumento dos salários dos professores. E talvez possamos legalizar a prostituição e as actividades que nascem à sua volta, regulamentando tudo aquilo eficazmente, trazendo transparência total ao processo, tornando a profisão menos perigosa. Se isto resultar em que haja mais prostitutas e por consequência em que os seus rendimentos baixem, paciência: ganharam em segurança e conforto o que perderam em dinheiro.

    E no fim disto tudo talvez as prostitutas continuem a ganhar mais do que as professoras, embora por uma margem mais estreita. Se assim for, paciência. Eu nunca disse que quero um mundo perfeito: quero apenas um mundo melhor.

  30. Lidador:

    Outra questão que eu quero esclarecer consigo é essa história de eu saber melhor do que os outros o que é bom para eles. Eu não pretendo saber melhor do que os outros o que é bom para eles: reservo-me apenas o direito, que considero também o dever, de ter uma opinião sobre o assunto. O mesmo direito e o mesmo dever que eles têm em relação a mim.

    Quer você impedir-me de achar que é melhor para o meu amigo fazer a quimioterapia que o médico lhe prescreveu? É claro que acho que é melhor para ele. E digo-lho. Se ele decidir não a fazer, tenho que respeitar essa decisão: trata-se de um homem livre. Mas não me peça que fique contente nem que lhe diga que faz muito bem. Ele recusa-se a fazer a quimioterapia, morre em consequência dessa decisão, e eu fico triste: ele tem o direito de morrer, eu o de ficar triste.

    Passo à porta do supermercado depois das nove da noite. Olho lá para dentro e vejo, a conferir a caixa, uma das empregadas que estiveram lá todo o dia. Tem ar de cansada. No rosto, a rigidez e a palidez de quem já está por um fio. Sei que tem marido e filhos, que mora em cascos de rolha, e que depois de sair dali ainda vai ter que se meter nos transportes públicos. Fico incomodado? É claro que fico. Não encolho os ombros, não fico indiferente, não digo a mim mesmo que se ela está naquela situação isso é consequência duma decisão tomada em liberdade perfeita. Até porque sei que no mundo real a liberdade perfeita não existe.

    Se me puser à conversa com ela e ela me explicar a cadeia de opções que tomou que a puseram naquela situação, provavelmente até concordarei que foram as melhores opções dadas as circunstâncias. E mesmo que não concorde, tenho que as respeitar.

    O que também posso é não gostar mesmo nada das tais circunstâncias; e fazer todo o possível, enquanto cidadão, para as mudar. Talvez até me ocorra que nos casos concretos pode muito bem ser que certas proibições libertem e certas liberdades oprimam. Mas isto já é outra conversa.

  31. Caro JLS, as suas boas intenções são iguais às minhas e às da maioria das pessoas.

    A diferença é que o JLS acha que o melhor sistema de as concretizar é criando um organismo burocrático, supostamente acima da natureza humana, infinitamente bom e ciente.
    Numa palavra, Deus.
    Ora é justamente isso que foi tentado nas engenharias sociais comunistas, em todo o séc XX.
    Não resultou, meu caro, e pode crer que milhões de pessoas acreditaram ( algumas ainda acreditam), na suprema virtude de uma entidade superior ao indivíduo, capaz de o levar ao seu bem.
    É humano….sentimos todos necessidade de acreditar em algo maior do que nós, algo que vela por nós e nos protege do mundo e da adversidade.
    Criámos uma estrutura que o faz, o Estado. E deve fazê-lo.
    Até onde?
    Até ao ponto em que nãp começa a comer a carne de que é suposto ser o esqueleto.
    Até ao ponto em que a sua intervenção não cria efeitos perversos que causam mais mal do que bem.

    Tem razão, a perfeição não existe em nenhuma actividade humana. Todavia, os erros do mercado afectam apenas alguns embora o saldo, diz-nos Adam Smith, e confirma-o a estatística, seja francamente positivo, porque na verdade a generalidade das pessoas procura o seu próprio bem.
    Mas o amigo, ao investir sobre o mercado, parece não entender que os estados tb são actividade humana, sujeitos portanto ao mesmíssimo erro sistémico.
    Com uma agravante: como a experiência tem demonstrado, os erros do estado são GRANDES e muito mais perigosos do que os do mercado .

    Dou-lhe um exemplo banal:
    -O fabricante Alfa, produz o químico XPTO que usado na confecção de pijamas, evita que se incendeiem.
    Há empresa texteis que incorporam, pessoas que compram, outras não, afinal os pijamas são mais caros…é o jogo do mercado.
    5 anos depois, um estudo demonstra que o XPTO é cancerígeno.
    Houve gente prejudicada, haverá certamente vítimas, mas em pequena escala.
    Agora imagine que um departamento estatal, com base nos benefícios do XPTO, tinha não só recomendado, mas obrigado todos os fabricantes de pijamas a incorporarem o XPTO no fabrico.
    5 anos depois, teríamos milhões de pessoas afectadas e milhares de vítimas.
    O mesmo erro de base, tem efeitos limitados no sistema de mercado e brutais numa economia centralizada e intervencionada.

    E se acha que isto é um cenário improvável e muito imaginativo, saiba que foi exactamente o que aconteceu nos EUA em 1971 com o químico Tris.

    Quanto à metáfora da prostituição, por muitas voltas que o meu amigo dê, não há volta a dar à natureza humana.
    É devido a ela que estamos aqui e somos uma espécie bem sucedida.
    Em última análise, se quiser contrariá-la, terá de usar a repressão, e penso que não tenho de lhe recordar a História do sec XX.

    A mão invisível, meu caro….vai sempre tudo acabar em Adam Smith.

  32. Voltando ao SMN, um salário é um preço que 2 partes acordam entre si livremente.
    Se eu quiser vender um carro e o meu amigo quiser comprar, o preço justo é aquele que nos satisfaz aos dois. Imagine agora que acordamos em 1000 euros e vem uma terceira parte que não tem nada com o assunto, mas que, pretendendo saber melhor que eu, o que é melhor para mim, determina que só lho posso vender por 1500?
    Provavelmente você não comprará. E eu não vendo. Ninguém ganha nada com isto.
    Todavia você precisa de um carro e eu preciso de o vender…o nosso próximo encontro é no mercado negro.

    O Cristiano Ronaldo não tem problemas em ter um emprego bem pago porque há muitos clubes e poucos tipos iguais a ele.
    Quanto aos “protegidos” pelo Estado com o SMN, a única solução sensata é libertar a economia de forma a que surjam mais empresas e que estas possam competir entre si para obter os melhores trabalhadores, nomeadamente pagando-lhes mais.
    E depende tb dos trabalhadores, procurarem obter qualificações que os levem a ser procurados.

    Há já uns anos Milton Friedman propôs eliminar este tipo de patacoadas marxistas, criando um imposto de rendimento de geometria variavel. Negativo para quem ganha abaixo de um determinado limiar, positivo para quem ganha mais. Ou seja, não compete a uma das partes subsidiar directamente a outra, mas sim à terceira parte que se envolve nos contratos (o estado).
    Assim, se o limiar for 1000 euros, e o JLS ganha 2000, paga IRS sobre isso. Se ganha 500, recebe IRS.

    Essa sim, seria uma medida inteligente que faria com que o estado fizesse a redistribuição automática (sem o enorme aparelho burocrático da actual segurança social) para aqueles que efectivamente necessitam.
    O tal limiar, naturalmente tem de ser mantido a um nível baixo de forma a que as pessoas se sintam incentivadas a procurar trabalho

    Claro que é um bocado utópico pensar que seria políticamente viável aplicar tais medidas no quadro actual em que o marxismo cultural ainda domina as cabaças de muitos dos nossos decisores, mas lá chegaremos.
    A racionalidade acaba por ter uma oportunidade, mesmo num país em que as pessoas acreditam que “socialismo” é uma coisa “boa”.

  33. Eu conhecia essa ideia do Milton Friedman, mas fico um bocado confuso: o que ele propõe é um imposto sobre o rendimento ainda mais progressional do que os que actualmente se praticam, mas os neoliberais que o endeusam querem a flat tax…

    Por mim, acho óptima a ideia do Friedman, utópica ou não. As utopias só são impossíveis porque no momento em que se cumprem deixam de ser utopias. O que me parece também é que um IRS muito alto ou muito progressional exigiria que os outros impostos fossem muito baixos ou mesmo inexistentes.

    Que tal aplicar uma taxa de 0% ao IRC? Aí está uma medida neoliberal que eu aplaudiria de pé – desde que o imposto não pago pelas empresas passasse a ser pago também pelos empresários.

  34. Caro JLS, a ideia do imposto preconizado pelo Friedman, teria como consequência, emagrecer drasticamente os enormes aparelhos burocráticos que fazem a “justiça social”.
    O facto de isto ser “utópico”, no mundo socializante em que vivemos, é que leva a medidas boas mas não óptimas, como a flat tax. A ideia é justamente simplificar, reduzindo a paquidérmica burocracia que gasta metade do bolo a alimentar-se a si mesma.

    A flat tax é melhor do que o complicado sistema actual, mas pior que a ideia do Friedman, acho eu.
    Quanto ao IRC, não perde por esperar.
    Na Suécia, já há empresas como a Scania, que estão isentas de IRC.
    A sua contribuição é feita através do emprego e do facto de serem ancoras da actividade económica.

    E será cada vez mais assim. Os países que enveradarem, por essa via, ganham enormes vantagens competitivas e será natural qye muitas empresas os procurem .

    O futuro passa por aqui, não por fossilizações marxistas como o SMN.

  35. Caro Lidador, temos então que sendo as soluções melhores politicamente inviáveis, há que ficar pelas soluções possíveis, sendo que entre estas se conta, na sua opinião, a flat tax. Mas nesse caso também o SMN pode gozar desse modesto estatuto. Na tentativa de me informar melhor sobre as vantagens e desvantagens do SMN, encontrei vários textos, dos quais destaco dois. O primeiro é este, do qual só compreendi o segundo parágrafo, já que para compreender o primeiro teria que saber o que significa «monopsony», e não sei. O segundo é este, que tem sobre o outro a vantagem de poder ser compreendido por um não economista.

    O que eles me dizem ambos é que os aumentos do SMN não só não aumentam necessariamente o desemprego, como até o podem fazer baixar.

    Não me entendo com a Economia. Não é como a Física. Se um físico me diz alguma coisa, eu posso confiar em que atrás dele não vem outro físico dizer-me o contrário. Com os economistas, é o que se vê.

    O que põe um leigo como eu numa situação delicada: se os especialistas dão opiniões para todos os gostos, por que carga de água não hei-de eu escolher, mais ou menos arbitrariamente, a que melhor corresponder aos meus preconceitos?

  36. De todas estas opiniões contraditórias, sabe o que concluo sobre o SMN? Concluo que não é a única arma para combater a pobreza; que não é, possivelmente, a melhor; que até talvez seja uma das piores; mas que é uma arma.

    Se um dia for chamado como cidadão a decidir sobre este assunto, por via eleitoral ou referendária, votarei com base nesta conclusão. Isto, é claro, se até lá ninguém me tiver convencido do contrário.

  37. “Se um físico me diz alguma coisa, eu posso confiar em que atrás dele não vem outro físico dizer-me o contrário.”

    Acha mesmo?
    Ora revisite a controvérsia entre Einstein e Bohr, sobre a Teoria Quântica.

    “mas que (o SMN) é uma arma”
    Pois é…infelizmente explode nas mãos do utilizador mais vezes do que devia. Na verdade causa mais prejuízos a este do que ao alvo.
    Não, meu caro, não é uma arma…é uma bandeira. E é por isso que é defendida com unhas e dentes pelos socialistas fabianos e pelo orfãos do marxismo.
    A realidade não conta, quando se está no mundo dos símbolos.

  38. “sendo as soluções melhores politicamente inviáveis, há que ficar pelas soluções possíveis”

    A politica é justamente a arte do possível.

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