A Cimeira de Lisboa

A Semana Política

Gente cheia de qualidades, como Mugabe, Khadaffi e outros grandes humanistas africanos vieram a Portugal experimentar a hospitalidade que nos tornou famosos por esse mundo fora. Como seria de esperar, não desiludimos. Os jornalistas trataram os “libertadores” como as estrelas rock que costumam visitar os seus países, o trânsito vergou-se às necessidades das várias comitivas, e o Presidente da República andou de palácio em palácio, sempre pronto a receber tudo e todos, mesmo aqueles que, como o líder líbio, nunca tiraram os óculos escuros para poderem dormitar enquanto Sócrates discursava. Até deixámos que apoiantes e críticos do dito estadista transformassem a Gare do Oriente num campo de batalha, naquele que foi o momento alto do fim-de-semana. E no entanto, para além dos hotéis que ganharam o ano em três dias, e dos jornalistas que viveram num extâse permanente durante a “Cimeira Europa/África”, ninguém quis realmente saber do que lá foi tratado. A começar pelo comum cidadão português, passando pela “Europa” (os canais noticiosos estrangeiros pouca ou nenhuma atenção deram à festa), e a acabar no próprio Primeiro-Ministro português.

De facto, José Sócrates passou o fim-de-semana a pregar sobre a importância da “parceria” entre os dois continentes. Mas, na realidade, o seu pensamento estava na RTP, que não se cansou de dizer que este era “o maior evento diplomático da história de Portugal”, e que pela voz do inqualificável Esteves Martins, bolsou toda a propagandazinha do Primeiro-Ministro. Afinal, foi para isso que a Cimeira serviu: como tudo aquilo que o Primeiro-Ministro faz, teve como propósito a sua promoção pessoal. O Governo quer alimentar a ideia de que Portugal é indispensável à “Europa” na ligação com o continente africano: a última Cimeira semelhante ocorreu à sete anos, na última presidência portuguesa, e em vez de daí concluir que o exercício era considerado dispensável pelos restantes parceiros europeus, o Governo crê (ou quer fazer crer) que só o nosso país consegue realizar tão árdua tarefa. Como temia que, caso Robert Mugabe não fosse convidado, os outros países africanos boicotassem a coisa, o Governo preferiu que Gordon Brown não viesse, a deixar de organizar o sarau. Esse era o verdadeiro (e largamente ignorado) problema da “polémica Mugabe”. A questão não estava em o Governo apreciar a companhia de gente duvidosa (afinal, este país até é uma “casa” de Hugo Chávez), está em, por razões meramente propagandísticas (querer organizar uma Cimeira que alimente a ilusão de que Portugal é, por causa de África, “indispensável” à UE), preferir a ausência de um aliado na NATO e parceiro na UE, a ter de obrigar os outros países africanos (independentemente da natureza dos seus regimes) a demarcarem-se de alguém como Mugabe. Se realmente quisesse ser importante para África, e assim, “essencial” à UE, talvez não fosse má ideia começar por aí. Mas como, ao contrário do que pensa o dr. Menezes (que o acusa de pensar demasiado na presidência europeia e pouco no país), Sócrates só tem olhos para o eleitorado português, nada disto lhe ocorre.

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2 pensamentos sobre “A Cimeira de Lisboa

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