A partir do dia de amanhã, se tiver que fumar, fume droga

Se alguém for apanhado a fumar um charro ou a inalar cocaína em pequenas quantidades no distrito de Santarém pode ter que pagar uma coima ou ser mandado para tratamento, se o mesmo acontecer no distrito de Lisboa, Bragança, Guarda, Viseu, Coimbra e Faro nada acontece. Neste momento há seis distritos do país onde a compra, posse e consumo de droga em pequenas quantidades não tem consequências porque as comissões de dissuasão da toxicodependência (CDT) destes distritos estão sem poder decisório por falta de pessoal.

(…)

Em 2001, a lei que descriminalizou a posse, compra e consumo de droga até um máximo de “consumo médio individual para dez dias” (no caso da cannabis ronda as 25 gramas) veio tirar estes casos dos tribunais, transferindo-os para as então criadas CDT.

O problema é que nestes órgãos as decisões têm que ser tomadas por pelo menos dois dos três técnicos que compõem a comissão – há seis CDT em que ou não existe quórum ou não há qualquer membro. Os tribunais continuam a transferir processos para as comissões, no ano passado foram 524.

Público Última Hora.

Veja-se também o exemplo de Umberto Eco no jantar das quartas.

Berardices

Armando Vara

Acabei há minutos de ouvir o sr. Berardo cumprir o seu papel (e encaixar nas expectativas que temos desse mesmo papel), avançando em defesa da lista de Santos Ferreira e criticando a lista contrária de Cadilhe.

Às tantas, a critica era de que a lista que apoia não tinha influência política, sendo que na lista oponente se podia verificar o contrário pela participação de dois ex-ministros (referindo-se com certeza a Cadilhe e Bagão Félix).

Pois não, senhor comendador, na sua lista não há ex-ministros.

Nos anos 40 como agora, ou teoria do “juizinho” aplicado

Unpopular ideas can be silenced, and inconvenient facts kept dark, without the need for any official ban. Anyone who has lived long in a foreign country will know of instances of sensational items of news — things which on their own merits would get the big headlines-being kept right out of the British press, not because the Government intervened but because of a general tacit agreement that ‘it wouldn’t do’ to mention that particular fact. So far as the daily newspapers go, this is easy to understand. The British press is extremely centralised, and most of it is owned by wealthy men who have every motive to be dishonest on certain important topics. But the same kind of veiled censorship also operates in books and periodicals, as well as in plays, films and radio. At any given moment there is an orthodoxy, a body of ideas which it is assumed that all right-thinking people will accept without question. It is not exactly forbidden to say this, that or the other, but it is ‘not done’ to say it, just as in mid-Victorian times it was ‘not done’ to mention trousers in the presence of a lady. Anyone who challenges the prevailing orthodoxy finds himself silenced with surprising effectiveness. A genuinely unfashionable opinion is almost never given a fair hearing, either in the popular press or in the highbrow periodicals.

George Orwell, The Freedom of the Press – Orwell’s Proposed Preface to ‘Animal Farm’

Um conto de Natal

As semanas do Natal e do Fim de Ano costumam ser uma pasmaceira. Nada acontece, e o assunto mais vibrante dos telejornais costuma ser as queixas dos comerciantes acerca de como “isto” está “mau” este ano (todos os anos). Mas desta vez, a animada “crise” do BCP veio mudar as coisas. Poucos dias antes da celebração do nascimento do Menino Jesus, o empenho de Vitor Constâncio, Teixeira dos Santos, António Mexia, Joe Berardo e outros corajosos homens de negócios deram à luz (de forma muito pouco imaculada) um outro menino, o novo Banco Millennium PS.

Aproveitando-se da situação de indefinição no BCP, o Banco de Portugal e o Governo “ofereceram” aos accionistas do banco uma solução de compromisso para a liderança que, segundo se diz por aí, evitará que o banco venha ser prejudicado pelas investigações à actividade das Administrações anteriores. Assim, Carlos Santos Ferreira, acompanhado de Armando Vara (que nem para a fraude foi competente), deixa a Caixa Geral de Depósitos para presidir ao “maior banco privado português”, como os jornalistas televisivos não se cansam de dizer. O PCP, claro, já se veio queixar do perigo de um banco privado ser dirigido por gente que conhece os negócios da Caixa. O problema de o Estado conseguir impor uma direcção a um banco privado e aos seus accionistas não os preocupa. É pena, porque foi essa triste realidade que este “caso” revelou, ou, dirão alguns, apenas veio confirmar.

O que também confirmou foi a pouca credibilidade que se pode atribuir à actual liderança do PSD. Dias antes, Luis Filipe Menezes dizia ao Expresso que, em “seis meses”, conseguiria “desmantelar o Estado”. Em três dias, já estava a pedir que o Governo entregasse o lugar deixado vago na presidência da CGD a um militante do PSD, em nome do “saudável equílibrio de poder”. Em três dias, o líder do PSD passou de querer “desmantelar o Estado” a reclamar a equitativa partilha do mesmo, deixando assim bem claro que, como aqui se disse há já algum tempo, é esse o verdadeiro sentido da sua liderança. O Natal, essa quadra onde reina o espírito de partilha e generosidade para com o próximo, “é quando um homem quiser”: o PS e o PSD querem que ele seja eterno e permanente, e arranjaram maneira de fazer com que esse espírito reine supremo: o Estado toma conta de tudo, e o Governo assegura que a “oposição” fique sempre com alguma coisa, para que não tenha de se opôr muito.

Leitura recomendada

Mais à frente, entrámos na cidade de Pec. Havia kosovares que ainda não tinham voltado e havia sérvios que já tinham fugido e Pec era sons estranhos, como só fazem as cidades abandonadas. Portas que batem do vento e água que escorre de lavatórios cheios. O único sítio animado de Pec era a sede dos guerrilheiros do UKC, independentistas kosovares, de camuflados demasiado limpos para quem se arrogava do título de libertador – de facto, a vitória dera-lhes a NATO.

A 12 quilómetros dali, no mosteiro ortodoxo de Decani, o maior da Metohija e de sete séculos, encontrámos uma multidão de refugiados. Com rádio transmissores faziam apelos para as quintas sérvias da região e havia angústia com o silêncio como resposta. Olhavam os jornalistas com ódio e desprezo.

Estava ao lado da fonte encimada por uma cruz, quando um homem grande veio ter comigo. Pediu-me para tentar encontrar o irmão em Pec, um deficiente mental que ficara para trás na fuga. Entregou-me um bilhete com a morada. Eu expliquei-lhe que dificilmente o irmão acataria uma proposta de um estrangeiro e propus-lhe: porque não vinha ele comigo, no carro, buscá-lo? Ele aceitou, caminhámos até ao portão, mas veio uma mulher a correr do mosteiro. Agarrou-se ao marido, gritou-lhe e eu adivinhei-lhe as palavras. Não queria que o marido voltasse à cidade que caçava sérvios. O homem cedeu e eu tive a infeliz ideia de esperar uma resposta dele. Ele olhou-me como os homens que se julgam cobardes.

Ontem, li no jornal El Mundo uma entrevista de Peter Handke, o escritor austríaco que considera que deveria haver compaixão com os sérvios, os perdedores da História. Ele tem razão.

Uma excelente crónica sobre o Kosovo de Ferreira Fernandes, no DN.

Diz que é uma espécie de filme

Até me aperceber recentemente da bondade de Chavez, sempre pensei que as Farc eram um grupelho terrorista de extrema-esquerda com ligações ao narco-tráfico, cujas delegações eram bem recebidas pela usual hospitalidade dos comunistas portugueses. Engano meu. As Farc, os seus reféns, não passam de figurantes de um telefilme dramático que a TVI no seu pior momento de programação teria vergonha em emitir.

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