Transparência II

Em comentário a este post, Daniel Oliveira escreveu:

«Eu acabei a frase. Talvez não tenha ouvido. Disse: isso nunca nos impediu de o criticar. E referia-me obviamente à sua acção criminosa. Mas se não o referi explicitamente, era exactamente para que não diss[ess]em que estava a comparar as duas coisas. A comparação era só esta: as dívidas que temos em relação ao passado não nos impedem de julgar o presente. E acabava aí a comparação.»

De facto não ouvi, embora calculasse que era aí que queria chegar. Talvez porque estavam todos a falar ao mesmo tempo e acabaram por mudar de assunto. É evidente que créditos passados não isentam ninguém de críticas presentes. Julgo que isso será consensual. No entanto, o comentário/comparação não veio apenas nesse contexto (se o Rei de Espanha estaria ou não acima de críticas). Veio no seguimento da afirmação de que o Rei terá menos legitimidade democrática que o Presidente da Venezuela Hugo Chávez e que não “servirá para nada”.

Não sendo monárquico, tenho sérias dúvidas quanto à origem da legitimidade de um monarca. Contudo, quando estamos perante estados indubitavelmente democráticos, como Espanha ou o Reino Unido, cujas populações reconhecem constitucionalmente essa legitimidade, essa questão perde muita da sua pertinência. No caso do Rei Juan Carlos, o assunto vai até mais longe, na medida em que é inegável o seu papel na implantação e preservação da democracia em Espanha (sendo mesmo protagonista no episódio do golpe de Tejero).

As comparações são quase sempre subjectivas na medida em que reflectem as ideias ou convicções do “sujeito comparador”. Isso não quer dizer que sejam todas igualmente verdadeiras, o que já é outro assunto. É pela revelação associada a essa subjectividade que acho relevante a comparação que fez, independentemente do Daniel afirmar que não pretendia ir mais longe. Na verdade, tal como ao dizer que Hugo Chávez (tendo em conta todo o seu contexto) tem toda a legitimidade por ser eleito, deixa transparecer a ideia de que reconhece como absoluta a vontade da maioria; ao comparar Otelo e o Rei de Espanha está a subestimar o lado negativo de Otelo e a sobreestimar o seu papel na nossa democracia. Por isso parece-me imprópria e desadequada a comparação. É claro que este meu juízo também é subjectivo. O que não quererá dizer que não esteja, eventualmente, certo.

4 pensamentos sobre “Transparência II

  1. Migas, esclareci até onde ia a minha comparação. Quer ir mais longe com ela, vá. Mas eu disse o que disse e queria dizer o que disse. E disse-lhe o que acho de Otelo. Não posso evidentemente (nem me apetece) evitar os seus processos de intenção.

    AAA, esse seu hábito de fazer esses bonequinhos denuncia a sua idade. E aí fica muita coisa explicada.

  2. “AAA, esse seu hábito de fazer esses bonequinhos denuncia a sua idade. E aí fica muita coisa explicada.”

    É verdade. Mas, ao contrário dos factores que explicam a conduta do Daniel, cura-se com o tempo.

    Só tenho pena de não ter um bonequinho com o Comandante Chávez a segurar uma bandeirinha do BE…

  3. João

    “Mas, ao contrário dos factores que explicam a conduta do Daniel, cura-se com o tempo.”

    Frases feitas à la Churchill é que não pah…

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