O método socrático

A Semana Política

Para se perceber a acção de José Sócrates no poder, convém recordar a forma como ele lá chegou. Na campanha eleitoral para as legislativas de 2005, o Partido Socialista prometia “confiança”. Queria ver Portugal com esperança. Com dinamismo. Queria criar “auto-estradas para o desenvolvimento”, em vez das que Cavaco Silva havia mandado construir, que ligavam apenas as cidades do país. Ao contrário de Durão, que aumentara os impostos, Sócrates prometia “investimento público”. Ao contrário de Durão, que conduzira uma política “neo-liberal” e “obcecada com o défice”, Sócrates prometia “defender o Estado social”. Ao contrário de Durão, que se refugiara (mudando até de nome) em Bruxelas, e de Santana, que fizera da governação um circo, Sócrates (e a nunca desmentida ideia de que António Vitorino faria parte do governo, um sinal de desonestidade que apontava para o que estava para vir) prometia “competência”. Acima de tudo, era preciso “acreditar”. E a maioria “acreditou”. O PS conquistava a sua primeira maioria absoluta, e o país que se inquietara com o reboliço santanista adormecia agora ao colo do novo Primeiro-Ministro.

Sócrates chegou ao poder com propaganda, iludindo os eleitores com palavras bonitas e promessas irrealistas. E agora, governa da mesma forma, prometendo aquilo que não pode cumprir e mascarando a realidade. A necessidade de vencer as eleições levara o PS a, na campanha, ser no mínimo irresponsável, quem sabe, desonesto, na apresentação de determinadas propostas. Os constrangimentos da governação obrigaram o PS a ir contra algumas dessas promessas, e a necessidade (principalmente com a “mentira” de Durão ainda fresca na memória dos cidadãos) de justificar essas contradições obrigou o PS a mentir quanto à natureza da própria governação, escondendo as razões para as suas propostas, razões essas que poriam a nu a desonestidade da campanha. Para esconder uma mentira, o PS e o Governo lançavam outra para cima da mesa.

Um bom exemplo do “método socrático” de governação é a reconversão da Estradas de Portugal em empresa privada de capitais públicos. Algumas almas ficaram preocupadas, por o Estado supostamente se retirar da prestação de um serviço que elas julgam dever pertencer-lhe. Tendo em conta que a empresa continuará a ser detida pelo Estado a 100%, fica claro que o Estado não deixará de desempenhar esse papel. Apenas o passará a fazer fora do Orçamento de Estado, para que a propaganda do “controlo” do défice não caia por terra, e para que a “empresa” fique livre para gastar o que o Estado quiser de acordo com os mais variados critérios eleitoralistas. A nomeação de Almerindo Marques, anterior Presidente do Conselho de Administração da RTP/Secretariado Nacional de Informação, é um bom indicador do que aí vem. E a garantia dada pelo Secretário de Estado do sector de que sempre que a dívida da “empresa” atingir um determinado valor (cujo montante exacto não me recordo agora), a empresa terá de pedir autorização ao Ministro das Finanças, caso entenda ser necessário excedê-lo, garante apenas que a Estradas de Portugal vai poder endividar-se, sempre que o Ministro das Finanças, por razões eleitoralistas ou para arranjar emprego a uns boys, precisar que ela o faça.

5 pensamentos sobre “O método socrático

  1. João

    “Sócrates chegou ao poder com propaganda, iludindo os eleitores com palavras bonitas e promessas irrealistas.”

    Acredita mesmo nisto? Sócrates chegaria ao poder com ou sem promessas. Poderemos até dizer que Sócrates chegou ao poder apesar das promessas. Ninguém no seu perfeito juízo iria votar na continuidade do governo anterior, que em 2005 era a alternativa ao governo Sócrates.

  2. Pingback: blogue atlântico » Blog Archive » O “método socrático” de governação

  3. ALFREDO

    Socrates, considerado o grande maioral, até mesmo pelos educadores atuais, não passou de um ilusionista inteligente demais para sua época, vindo a usar a grande massa para situar-se junto ao poder…

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