Lava mais branco (2)

É extraordinária a forma como selecciona o texto.

Estranhamente, em comentário ao meu artigo abaixo, Daniel Oliveira critica as citações que escolhi do seu artigo original, considerando-as “extraordinárias” e portanto, sugerindo desse modo que tenha citado as suas afirmações fora do contexto. Algo que me parece ser uma hipótese remota, tendo eu citado na íntegra dois dos nove parágrafos do seu artigo, ainda mais sendo um a sua introdução e outro a sua conclusão.

Mas, afinal, temos que condescender: quem, como o Daniel Oliveira, gere o seu posicionamento político estando em cima do muro, umas semanas insurgindo-se (no pun intended) contra e migrando em direcção à soft social-democracia, outras de efeméride ou quando é preciso cair bem face aos ultras tecendo loas à “vitória dos mais explorados entre os explorados” e “[à] esperança e optimismo que ofereceu a milhões de trabalhadores miseráveis [e] permitiu uma capacidade de organização e de luta completamente novas”, é natural que possa achar estranha e distorcida (eventualmente incoerente) a leitura como terceira pessoa das suas próprias palavras.

Afinal, tão somente experimentou aquilo a que nós que o lemos já estamos habituados.

E fica outra vez a dúvida: afinal, qual será o comunismo visto pelos olhos de Daniel Oliveira, sentado em cima do muro? O do “rico pensamento marxista”, originador das grandes “vitórias dos oprimidos e explorados” e que tanto fez pela “dignidade de milhões de homens e mulheres em todo o planeta”, ou o da “semente” que já lá estava desde o início de Lenine e dos bolcheviques, ditando o futuro da desgraça que se seguiu?

«das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos». E acrescento no texto: para quem se revê e não se revê nela. Não consegue sentir-se entusiasmado pela complexidade de algo com o qual não concorda? Eu consigo.

No reconhecer da complexidade e da autonomia da corrente filosófica e científica, sem dúvida terá Daniel Oliveira a minha companhia, afinal no que será o observar do comunismo como teoria de interesse intelectual. Já no “entusiasmo”, a coisa será diferente. Entusiasmo não será um qualificativo que poderei associar a teses que considero erradas, esfasadas da realidade da condição humana, e que o tempo ocupou a demonstrar com a maior das crueldades as consequências da sua concretização, por mais estimulante que fosse em termos intelectual. E fica a dúvida: será que Daniel Oliveira também considera teorias comparavelmente complexas e densas como o liberalismo clássico (ou o “neoliberalismo”) “estimulantes”? Como o nazismo? Ou a eugenia?

Será que também essas são capazes de o deixar com tão elevado nível de entusiasmo?

4 pensamentos sobre “Lava mais branco (2)

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  2. “Verdadeiramente extraordinária é a hipocrisia e desonestidade de Daniel Oliveira.”

    Não vejo hipocrisia nenhuma – nos paragráfos citados ele expõe os argumentos dos que dizem “a ideia era boa, mas o isolamento internacional e o estalinismo levaram a que as coisas corressem mal” (basicamente, o argumento trotskista) e a seguir expõe as razões porque não concorda (ou, pelo menos, desconfia) desse argumento. Querer colá-lo ao primeiro argumento que ele expõe é que não faz sentido nenhum.

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