Lava mais branco

OMO

Podia dizer-se que foi um azar. Um azar a primeira revolução socialista vitoriosa ter acontecido num país imperial e pobre, feudal e habituado a viver às ordens soberanos. Tudo teria sido diferente se não tivesse sido na Rússia. Não seria apenas a primeira experiência socialista que teria sido diferente. Teria sido todo o movimento comunista internacional que teria sido uma outra coisa. Sem Estaline o comunismo teria tomado seguramente outro rumo. Teria muito provavelmente mantido a sua matriz internacionalista. Seria menos monolítico. Não teria empobrecido até ao primarismo o pensamento marxista, uma das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos. Para quem se revê e não se revê nele.

[…]

O que celebro aqui hoje não é, na realidade, a chegada do comunismo a terras russas. O que se passou nos 70 anos seguintes à revolução na URSS foi suficientemente trágico para tal não merecer grandes festejos. O que celebro aqui hoje é esse momento em que tudo pareceu possível e o que essa simples esperança fez pela dignidade de milhões de homens e mulheres em todo o planeta.

Daniel Oliveira.

Daniel Oliveira interrompeu por conta da efeméride do dia de hoje a peregrinação rumo à social democracia, para tecer os mais rasgados elogios à ideologia do marxismo, segundo o próprio “uma das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos”.

Aparentemente, e segundo a sua argumentação, o problema não foi o da ideologia, meritória, bem intencionada, e abraçando a causa dos trabalhadores oprimidos. O problema foi o sítio, o “país imperial e pobre, feudal e habituado a viver às ordens soberanos”, e os protagonistas. Nada mais. Não fosse isso, e os amanhãs que cantam ter-se-iam consumado, e o povo viveria feliz e contente liberto do capitalismo opressor.

Ora, quanto a mim, a argumentação de Daniel Oliveira esbarra, quanto a mim, em duas questões de realidade que dificilmente serão ultrapassáveis.

A primeira é a de que, sendo o marxismo uma ideologia essencialmente totalitária e movida pela igualdade (uma definição essencialmente externa que depende, como tal, da definição de terceiros), e sustentada e implementada pela intervenção das “elites” populares no exercício de uma mandato plenipotenciário (ou limitado, quando muito, peles princípios marxistas), a sua própria génese torna-a indissociável e escrava dos seus protagonistas. A perspectiva de crer numa ideologia que mandata com enormes poderes a sua elite política e lhe confere largo mandado na regulação de todas as relações sociais, achando que se consegue afastar da natureza desses protagonistas e dos seus próprios objectivos de realização pessoal e ambições, demonstra o estado de ilusão auto-imposta em que ainda subsiste grande parte do pensamento de esquerda, mesmo nos tempos presentes.

Dizer que Estaline foi um “problema” autónomo do marxismo (um “azar” que acontece às melhores ideologias) e não se concluir sim que Estaline foi uma consequência natural da ideologia marxista é escamotear e seguir em frente de analisar aquela que é provavelmente uma das maiores falhas do marxismo.

O outro problema é que Daniel Oliveira parece ignorar todas as outras experiências marxistas passadas ou em curso. Quando diz que a mensagem é boa mas que o problema foi ter sido aplicada na Rússia do início do séc. XX, e pelos protagonistas que se conhecem, parece querer-se ignorar todas as outras realidades conhecidas no restante século (e já no presente), em realidade geográficas completamente diferentes, com outros protagonistas e sustentadas em realidades sociais distintas. E com relações ténues (ou nalguns casos distantes ou mesmo adversariais) com o modelo e a influência soviética.

Parece ignorar o facto de as experiência marxistas na China, na Coreia do Norte, em Cuba, em várias das nossas ex-colónias ou nos casos recentes da Venezuela ou da Bolívia terem culminado (ou irem culminando) no mesmo género de graves problemas, abusos e desvarios totalitários, e no emergir de outros protagonistas com os traços bem conhecidos. A doutrina, a génese de todos esses casos, é sempre a mesma e bem conhecida. Daí, ou é mesmo muito azar em todas as “experiências” terem ido parar ao mesmo, ou então o que se vai é tentando ignorar as evidências e os erros crassos que sustentam a ideologia.

Daniel Oliveira glorifica as “vitórias revolucionarias” dos trabalhadores. O “fim da opressão”. Eu pergunto-me mais qual terá sido benefício continuado e, principalmente, qual terá sido a avaliação final e total desses mesmos trabalhadores em relação à duração total dessas “vitórias”.

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16 pensamentos sobre “Lava mais branco

  1. É extraordinária a forma como selecciona o texto.

    «Aparentemente, e segundo a sua argumentação, o problema não foi o da ideologia, meritória, bem intencionada, e abraçando a causa dos trabalhadores oprimidos. (…) Dizer que Estaline foi um “problema” autónomo do marxismo (um “azar” que acontece às melhores ideologias) e não se concluir sim que Estaline foi uma consequência natural da ideologia marxista é escamotear e seguir em frente de analisar aquela que é provavelmente uma das maiores falhas do marxismo.»

    Ora no meu texto eu escrevo: «Mas olhando para o marxismo percebemos que há mais do que as circunstância. Que a semente está lá.» Está então a debater com quem?

  2. lucklucky

    Quando se diz a semente está lá mas ao mesmo tempo das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos fico estupefacto. Não encontro nada de apelativo numa ideologia que se baseou na mentira e intimidação desde o principio. Que nada criou ou deixou criar excepto talvez na industria de armamento e na doutrina militar. Para as dimensões da catástrofe a semente não é só semente é o todo.

    E como sempre mistura-se as revoluções para lavar mais branco. A Revolução Comunista não foi a Revolução para derrubar o Czar.

    No Ocidente atrasou o desenvolvimento umas décadas e instítuiu a classe dos trabalhadores condenados até ao fim da vida a viverem no mesmo emprego e sem mobilidade social para manter o poder do partido pois o Comunismo é um movimento que reforça a sociedade de classes.

  3. «das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos». E acrescento no texto: para quem se revê e não se revê nela. Não consegue sentir-se entusiasmado pela complexidade de algo com o qual não concorda? Eu consigo. E acho mesmo impossível entender o Capitalismo sem ler Marx. Aliás, essa falta nota-se muito em alguns dos jovens libeais que escrevem aqui na blogosfera.

  4. Adoro isso das «classe dos trabalhadores condenados até ao fim da vida a viverem no mesmo emprego». Aliás, é das queixas que mais ouço aí nas classes trabalhadoras. Não nota a alegria estampada no rosto dos trabalhadores a recibo verde? Dá gosto ve-los.

  5. lucklucky

    “Não consegue sentir-se entusiasmado pela complexidade de algo com o qual não concorda? Eu consigo.”

    Eu não acho que seja complexo é um filme populista já muito visto até na antiguidade clássica. Entusiasmo no meu português implica uma concordância e uma aproximação.

    “Aliás, é das queixas que mais ouço aí nas classes trabalhadoras. Não nota a alegria estampada no rosto dos trabalhadores a recibo verde? Dá gosto ve-los.”

    A maior parte das vezes ouço-os a falar contra a barbaridade de impostos que pagam.

  6. Miles

    Um dia ainda os nossos descendentes ainda vão descobrir uma nova classe de portuguese: marrano-comunistas com as suas camisolas do CHE e o manifesto religiosamente escondidos em compartimentos secretos no sótão… e com uma história d conto de fadas de fazer chorar as pedras da calçada.

  7. Basta a citação estar truncada para dizer o contrário do que afirmo para o AAA achar excelente. É o seu estilo. Compreende-se.

    Resumir o pensamento marxista a “populismo” é de quem nunca teve contacto com a obra do rapaz. Faz mal.

  8. Vocês são mesmo mauzinhos. Qual o problema do Daniel Oliveira estar entusiasmado com uma ideologia que fez 100 milhões de mortos, se isso só aconteceu por azar?

    Muitos países tiveram experiências comunistas e todos terminaram na miséria. Mas isso prova que o Comunismo não funciona? Não, apenas prova que esses países não souberam por o Comunismo correctamente em prática.

    Estou entusiasmado e concordo com o Daniel: Há que continuar a tentar! E há que apoiar mais uma tentativa a decorrer presentemente, e que está a ser levada a cabo pelo candidato a ditador Hugo Chavez.

  9. Infidel

    Como se já não existissem em número suficiente, temos aqui mais um fiel da religião marxista-leninista a reclamar para para esta o estatuto de ‘religião-da-paz’.

    Os profetas Mao e Lenine terão profetizado isto ?

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  13. Para crentes como o Daniel, o socialismo é “bom” porque quer a igualdade e a justiça e ponto final. A típica conversa de “Miss”
    Dizer-lhes que de boas intenções está o inferno cheio e que é pelos frutos que se conhece a árvore fá-los espevitar as orelhas. Gostam de imagens simples que funcionem como metalinguagem capaz de explicar ideias complexas.

    A resposta padrão destes Daniéis doutrinados relativamente à fraca qualidade dos frutos do socialismo é que, a ideia até é boa, mas os homens é que não a souberam por em prática. E as condições, o meio, o clima, e patati-patatá.
    Ou seja, no que toca ao socialismo, os factos não servem como critério, mas sim as intenções, razão pela qual o seu colapso é imputável ao mundo e não ao conceito em si.
    Alcançou assim o estatuto de crença religiosa e, tal como em qualquer religião, a bondade de Deus nunca está em causa, mesmo que o templo desabe sobre os fiéis.
    Eles têm fé e dirão, perante a terrível ditadura dos factos que o que se passou no país X, não foi o “verdadeiro socialismo”.
    Claro que um nacional-socialista, pode também dizer que aquilo não foi o “verdadeiro nazismo” e um fascista não perderá a oportunidade para dizer Mussolini não realizou o “verdadeiro fascismo”.
    Em suma, o socialismo é uma magnífica videira da qual, por culpa da maldade humana, só brotam cogumelos venenosos.
    Mas a culpa não é nunca da videira!

    Postas as coisas nestes termos, a culpa do falhanço do socialismo não é pois do socialismo “em si”, mas sim do malvado homo sapiens, que não se adapta à doutrina da colmeia.

    Nesta fase é necessária outra metáfora, porque na realidade o comunismo não falhou só na URSS,
    Falhou em todo o lado e se 50 fantásticos automóveis “socialistas”, os melhores do mundo, entram na corrida, pilotados por diferentes pilotos, nem todos incompetentes, frustrados ou mal intencionados, em competição directa com desprezíveis carros capitalistas e outras carroças de modelos vários e, lançada a corrida, 48 bólides socialistas atrasam-se, despistam-se e acabam por desistir ao fim de várias voltas, algo está fundamentalmente errado.

    Qual a explicação lógica? O carro, a pista, a chuva, ou os pilotos?
    O Daniel lá no fundo recusa que o carro é uma merda e dirá que os pilotos eram todos maus e chovia e a pista tinha curvas e buracos, etc.
    Mantem a fé no carro, e acredita que ele funcionará melhor se conduzido por um piloto diferente, um “piloto novo”, que tenha um corno debaixo do nariz, e um rabo com dois orifícios.

    Entretanto, a escuderia capitalista, com o seu modelo “democrático liberal”, que se adapta ao piloto tal como ele é, e não como ele “deveria ser”, vai dando um bigode monumental ao bólide “socialista” que, no entretanto, já atropelou mais de 100 milhões de espectadores.

    Gente com bom senso, percebe que o modelo “socialista” nunca irá funcionar porque a malta é teimosa e recusa-se a ter um corno debaixo do nariz e dois buracos no rabo.
    Mas o crente acredita…tem fé…é muito religioso…e berra contra os carros capitalistas, dizendo que têm riscos na pintura, que os assentos não são forrado a pele genuína, que atropelaram um gato, e que se vão estampar não tarda nada.
    E cada vez que um deles abranda ou muda um pneu, o crente “socialista” rejubila, espeta as orelhas e profetiza que agora é que vai ser o fim da “escuderia capitalista”.
    E, reduzido agora a mero espectador, anda nisto há mais de 100 anos!

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