A falta de médicos em Portugal e o Serviço Nacional de Saúde

Há várias afirmações neste post do Bruno das quais discordo, mas vou concentrar-me apenas em duas questões centrais: a alegação de que não há falta de médicos em Portugal e a preocupação com a capacidade do Sistema Nacional de Saúde para absorver mais médicos.

Quanto à primeira questão, a única forma de a resolver seria liberalizar completamente o sector da saúde, a começar pela formação. Sendo permitida a criação de novas faculdades de medicina e eliminadas (ou pelo menos substancialmente reduzidas) as barreiras de entrada na profissão, caminharíamos gradualmente para uma situação em que os fortíssimos bloqueios actualmente existentes à oferta seriam levantados e acredito (embora não o possa garantir) que o número de novos médicos aumentaria muito substancialmente.

No contexto actual, de captura corporativa do sector por parte da Ordem dos Médicos e do poderoso lobby que lhe está associado, só podemos olhar para alguns indicadores parciais, mas parece-me que apontam todos no mesmo sentido:

– As elevadíssimas (e completamente injustificáveis) médias de entrada em todos os cursos de medicina;

– A ida sistemática de jovens portugueses para o estrangeiro para estudar medicina, por falta de vagas em Portugal;

– A necessidade de recorrer à contratação de médicos estrangeiros;

– Os elevados preços dos serviços médicos no mercado português quando comparados com os de outros serviços.

É possível argumentar que a procura de cursos de medicina está inflaccionada pelo facto de os estudantes não suportarem mais do que uma pequena fracção dos custos da sua formação, mas tal será um argumento para fazer aumentar substancialmente as propinas nesses cursos (ou – no mínimo – para permitir a abertura de novos cursos em instituições privadas) e nunca para justificar a continuação de um dos mais gravosos – para a economia e para a saúde dos portugueses – bloqueios corporativos existentes actualmente em Portugal.

Quanto à segunda questão – a preocupação com a capacidade do Sistema Nacional de Saúde para absorver mais médicos – reproduzo o que o Luís Lavoura escreveu:

A questão não é saber quantos médicos o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai absorver. O objetivo do SNS é dar saúde aos portugueses, não é dar emprego aos médicos. Se os médicos não encontrarem emprego no SNS, têm diversas soluções – empregarem-se em hospitais privados, exercerem clínica em consultórios privados, ou emigrarem. Isso será lá com eles, médicos. O SNS não tem nada que dar emprego a todos os médicos que se formem.

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15 thoughts on “A falta de médicos em Portugal e o Serviço Nacional de Saúde

  1. Pingback: A destreza das dúvidas :: Corporativismo médico :: October :: 2007

  2. André,

    “Quanto à primeira questão, a única forma de a resolver seria liberalizar completamente o sector da saúde, a começar pela formação. Sendo permitida a criação de novas faculdades de medicina e eliminadas (ou pelo menos substancialmente reduzidas) as barreiras de entrada na profissão, caminharíamos gradualmente para uma situação em que os fortíssimos bloqueios actualmente existentes à oferta seriam levantados e acredito (embora não o possa garantir) que o número de novos médicos aumentaria muito substancialmente.”

    A ser verdade que existe uma substancial falta de médicos em Portugal, esta estratégia daria frutos a médio prazo. É preciso não esquecer que uma licenciatura em medicina não é suficiente para iniciar a prática clínica. A especialização, que ocorre exclusivamente no SNS, é indispensável para a formação de médicos.

    O que tenho criticado no anúncio do ministro, é o aumento abrupto das vagas, sem qualquer explicação de como se processará a educação dos profissionais. Nos últimos anos, as diversas faculdades têm aumentado significativamente as vagas, estando no limite das suas capacidades. Para a maioria dos alunos dos primeiros anos, as dificuldades de aprendizagem são notórias, devido à falta de infraestruturas necessárias para um número elevado de alunos.

    Em segundo lugar, o ministro não deu qualquer pista no sentido de haver uma efectiva liberalização o sector do ensino da medicina. Daí as minhas críticas. A ser anunciada tal medida, em que a abertura de mais vagas estará exclusivamente em faculdades privadas, nada tenho contra. Nas actuais universidades é simplesmente insustentável. É a qualidade destes profissionais que está em jogo, nada mais.

    “- As elevadíssimas (e completamente injustificáveis) médias de entrada em todos os cursos de medicina;”

    Eu sinceramente não compreendo o “injustificável”. Dada a enorme procura, não é normal as médias de entrada serem essas? E nem vou me pronunciar sobre a quantidade de pessoas que encontram formas de contornarem os concursos normais, através de contingentes.

    “A questão não é saber quantos médicos o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai absorver. O objetivo do SNS é dar saúde aos portugueses, não é dar emprego aos médicos.”

    Mas é óbvio que concordo. Nunca disse o contrário, embora muitos tenham entendido como tal. O que escrevi foi simples: dado o modelo vigente no nosso país, em que o SNS é o grande responsável pela acção médica, caso este tenha um défice de profissionais, o estado deve ser responsável por contratar mais. Apenas caso se verifique um défice, obviamente. E tive o cuidado de afirmar que isto é de acordo com o actual modelo, pois como o André bem sabe, já escrevi sobre uma possível reforma deste modelo em dois artigos na Dia D.

    “- A necessidade de recorrer à contratação de médicos estrangeiros;”

    A contratação de médicos estrangeiros não é nada de outro mundo. Vejamos, se existe um sistema nacional de saúde em que nem todos os profissionais lá trabalham, vamos ter duas realidades. Se vários profissionais decidem não trabalhar no SNS, o sistema terá que procurar recursos para colmatar esse défice, daí a contratação de médicos de outras nacionalidades. Ora isso não é um indicador de falta de médicos, pelo menos na minha perspectiva. É um indicativo de falta de médicos no interior do SNS, pois não está preparado para cativar esses profissionais no sector público. E sobre isto falei no meu artigo sobre uma efectiva remodelação do SNS.

    “- Os elevados preços dos serviços médicos no mercado português quando comparados com os de outros serviços.”

    Por último, embora a escassez pudesse ser uma razão perfeitamente plausível para este facto, julgo que talvez exista um factor bem mais importante: o bom lobby que é a Ordem dos Médicos.

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  5. GC

    “A questão não é saber quantos médicos o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai absorver. O objetivo do SNS é dar saúde aos portugueses, não é dar emprego aos médicos. Se os médicos não encontrarem emprego no SNS, têm diversas soluções – empregarem-se em hospitais privados, exercerem clínica em consultórios privados, ou emigrarem. Isso será lá com eles, médicos. O SNS não tem nada que dar emprego a todos os médicos que se formem.”

    Se o SNS não empregar os licenciados (ou mestres, no pós-Bolonha) durante 4-7 anos, estes não são médicos, como tal não podem exercer clínica em rigorosamente lado nenhum e é aqui que reside o problema fulcral das palavras do ministro e de todos os argumentos daqueles que acham que ele está correcto. De facto, a partir de um determinado x número de licenciados/mestres (x = capacidade de formação de internos por ano pelo SNS), não haverá benefício nenhum para o SNS ou para as populações se as vagas aumentarem para 2000, porque o número de médicos por ano estagnará no x. O único problema é que a qualidade desses 2000 será vergonhosa.

  6. Libertas

    nem o ministério da saude deve dar emprego a todos os médicos, nem o ministerio da educação deve dar emprego a todos os diplomados

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  8. trintaferreira

    porque é que considera injustificável classificações referentes a 3 anos do ensino secundário mais os exames nacionais realizados no decorrer do concurso? Porque são notas elevadas? porque alguns dos estudantes não conseguem obter essas classificações e assim ficam fora do curso que desejariam frequentar?
    mas não será essa a substância de qualquer concurso?
    será plausível ou justificável liberalizar, como diz, o acesso ao curso de medicina, extinguindo numeros clausos?
    ficaria certamente com um pais de medicos, mas seriam eles capazes de, sem outros profissionais bem formados, governar todos os sectores do país?
    e os contribuintes, estariam dispostos a financiar esse desvario?

    não lhe fará também alguma confusão que outros meninos com objectivo de obter formação em engenharia ou direito ou outra área qualquer, não o consigam, por não ter nota para o efeito, ficando exclúidos do concurso?

    Ou só a nota de medicina constitui problema?

    será então pelo baixo número de vagas em medicina?
    para que fique informado, actualmente, por ano, entram mais de 1000 estudantes em medicina nas faculdades portuguesas.
    certamente que, se se informar, as vagas são atribuídas e financiadas com base nas necessidades do país.
    se actualmente atingimos racio de profissionais médicos equivalente, ou ligeiramente superior, ao da média europeia, então que falta de médicos temos nós?

    não existe falta de médicos, será essa a conclusão de qualquer mortal que se digne a ler um bocadinho.
    poderá, isso sim, haver algumas especialidades deficitárias, onde seja necessário alargar a capacidade formativa.

    mas esta questão já não será tão interessante discutir!
    é muito mais giro dizer que quem entra em medicina é marrão; burro porque tem de estudar para ter notas, enquanto os outros vão ver o benfica ou passear ao parque das nações.
    também é engraçado realçar a tremenda injustiça que resulta do facto dos meninos que mais estudam conseguirem notas mais altas, e os que menos fazem não consigam iguais classificações.
    igualmente porreiro é dizer que há falta de médicos e os que existem não prestam, quando um dos melhores e mais prestigiados (fora do nosso quintal, claro!)sectores do país é precisamente a saúde…mas dirá…isso resulta do trabalho de todos os outros profissionais de saúde…não médicos.

    enfim, infelizmente aquilo que nos move é tão somente a pura inveja, quando deveria ser o trabalho, a responsabilidade, a seriedade, o comprometimento, o estudo a dedicação.

    não vem nem virá mal nenhum ao mundo quando para se alcançar o desejado seja necessário trabalho, muito trabalho!

  9. Eu estou de acordo que seja necessário “trabalho, muito trabalho”. E por lo tanto sugiro que as vagas para Medicina sejam cortadas para metade, e que os candidatos sejam obrigados a viver na selva durante dois anos antes do seu curso. Voltando à discussão séria, as pessoas não têm direito a gerir a sua própria saúde, pelo não há qualquer necessidade de haver um mercado de oferta de médicos e serviços de saúde. Pode ser tudo centralizado por um conjunto de sábios desinteressados, garantindo assim a “saúde pública”, o “bem comum” e a “qualidade”. Uma liberalização do sector seria um desastre, porque como sabemos, num mercado laboral liberalizado, as pessoas não “trabalham, muito trabalham” para satisfazer os seus clientes.

  10. Justiça

    Só alguém que nunca passou pelo esforço inerente a tirar um curso de Medicina e exercer nas condições humilhantes q se enfrantam no nosso país, nomeadamento no trabalho 36h seguidas, sem pagamento de horas extra.
    Só alguém que não chega aos 38 anos com avaliações regulares dos seus conhecimentos.
    Só alguém q não tem q lidar com o sofrimento diário
    Só alguém q não ganha 1300 euros (ordenado base por 42h)e se quiser aumentar o ordenado tem de fazer mais horas.
    Só de alguém que tendo uma vida de m… inveja a dos outros
    Só assim se compreende este comentário
    Ser médico (salvo raras especialidades) é uma vida desgastante, stressante e de injusta falta de rreconhecimento. Tanto esforço não pode ser mal pago e não merece estes comentários…

  11. A crise está para vir…o SNS ficará de certeza depauperado de clínicos com a progressiva abertura de hospitais privados, mais grave ainda será a falta de memória institucional caso os melhores e mais experientes forem atraidos para o privado!

  12. Olá !
    Sou ginecologista-obstetra , com especialidade em colposcopia formada há 22 anos . Estou interessada em mudar me para a Europa, e o local de eleição é Portugal .Gostaria que algum colega de profissão ,entrasse em contato, para elucidar me sobre a crise mencionada no texto acima.Assim terei uma noção da realidade que vocês têm enfrentado.
    Atenciosamente;
    Elizabeth( vidaeaf@hotmail.com )

  13. Arzuman

    Olá !
    Sou medico-pediatra e anesteseologista e ranimatologista , com especialidade formad há 21 anos tarabalho em angola e falo e escrivo portuges bem.. Estou interessada em mudar me para a Europa, e o local de eleição é Portugal .Gostaria que algum colega de profissão ,entrasse em contato, para elucidar me sobre a crise mencionada no texto acima.Assim terei uma noção da realidade que vocês têm enfrentado.
    Atenciosamente;
    Elizabeth( vidaeaf@hotmail.com )

  14. Marcos Andre Cortez

    Ola,Sou medico brasileiro,formado a 20anos,com especilizacoes em cirurgia geral e tocoginecologia,exercendo minhas atividades medicas em hospitais publicos e privados e despertei o interesse em trabalhar em Portugal…Observei os comentarios acima citados q nao sao atuais, portanto ,queria saber se algo mudou desse perfil;Obter informacoes de colegas q exercem a profissao no Pais ou de orgaos competente,como o proprio SNS. Grato desde ja,Marcos Andre Cortez.

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