O que é que a ciência alguma vez fez por nós? (2)

A humanidade viveu muitos séculos, na realidade, milénios, sem ciência – a qual é um fenómeno relativamente recente – e uma boa parte da humanidade vive ainda hoje sem ela.

Li com alguma estranheza (mas não muita) a afirmação de Pedro Arroja de que a Ciência é um “fenómeno recente”. Sou levado a crer que Pedro Arroja estará a confundir o método científico (concretamente o cartesiano) com a Ciência como um todo, e como tal ajuizando a fundação da Ciência nos tempos próximos do estabelecimento deste.

A questão é que dificilmente é aceitável essa argumentação. Se a Religião predata, sem dúvida, algo que se possa assemelhar a “Ciência”, não é pelos “milénios” que Pedro Arroja parece sustentar, principalmente se nos ocuparmos em separar a Religião do Mito que a precedeu. E é de bom uso para a Humanidade há muito tempo.

Há muito tempo que os arquitectos das catedrais das religiões aprenderam a separar o falhanço ou sucesso dos seus planos da “vontade divina” da divindade, assumindo e tentando ultrapassar as suas falhas e limitações por meios bem distantes da “inspiração divina” ou da “verdade revelada”.

Muito antes da fundação da religião que Pedro Arroja sustenta como “definidora da verdadeira liberdade” e “mais-valia civilizacional para o progresso”, já Hipócrates fundava uma Medicina que separava o domínio do religioso do domínio do científico e objectivo, ou Euclides estabelecia os axiomas da Geometria que perduraram por séculos na sua função, e fundamentos essenciais da matemática e do método científico. Ou Pitágoras produzia os seus avanços que fizeram perdurar o seu nome até ao presente e durante milénios.

Muito antes, existiam já astrónomos que catalogavam constelações e descreviam cientificamente fenómenos astronómicos e físicos.

Naturalmente, a religião assumiu um papel em grande parte destes avanços científicos, moldando a consciência dos seus protagonistas. Os astrónomos egípcios sustentavam a sua investigação em objectivos religiosos. Pitágoras era um líder religioso e sustentava um dia-a-dia em que a religião praticamente era indissociável do resto da sua actividade. A engenharia civil foi alimentada pela vontade de construir grandes e cada vez mais sofisticados e complexos templos religiosos.

Mas entender a Ciência como subalternizada à Religião e não tendo mote próprio, e negar o facto de nos acompanhar há tempos imemoriais, por mais que possa dar jeito a Pedro Arroja na sustentação das suas teses, é profundamente desonesto e não condizente com a realidade dos factos.

Afinal, enveredando por um registo semelhante ao de Pedro Arroja, poder-se-ia dizer que o facto de a Humanidade ter chegado aos dias de hoje e de as religiões não se terem enredado na descrença motivada pela visão de um deus impiedoso ou alheado dos problemas do dia-a-dia humano, foi exactamente porque a Ciência e os seus benefícios vieram libertar o Homem da necessidade de recurso à Religião para aspirar pela resolução dos seus problemas diários. Quanto a Ciência erradicou pestes, providenciou alimento abundante e previsível ou aumentou a longevidade dos soldados em combate (nas guerras que foram, como parece esquecer Pedro Arroja, uma das principais contribuições da Religião – nomeadamente a organizada – para a Humanidade), afastou praticamente na mesma proporção a necessidade do refúgio na Religião para resolver os problemas quotidianos das pessoas.

Acabou com a Religião? Não. Eliminou o interesse e a função do pensamento religioso? Também não.

Mas tenhamos a honestidade de colocar cada coisa em seu lugar. E de não cair no discurso fácil da cátedra de uma vida sustentada pelas comodidades tomadas como garantidas, redundando na ingratidão de não reconhecer de onde vieram e do papel que tiveram para o desenvolvimento humano.

3 pensamentos sobre “O que é que a ciência alguma vez fez por nós? (2)

  1. Patricia Lanca

    Muito bem. Só acrescento a minha admiração (ou talvez não) que PA evidentemente desconhece as ideias tanto de Karl Popper sobre o conhecimento ciêntífico como as do Papa Ratzinger sobre a demarcação entre o ciêntifico e o divino.

  2. Daniel Azevedo

    O problema reside no facto de que desde o século XIX a hipótese metafísica ter deixado de ser necessária.
    Os antigos egípcios mediam a posição das estrelas mas como não sabiam o que eram, logo divinizavam-nas.
    A crença era o tapa-lacunas.
    Actualmente atribuimos a falta de conhecimento a incapacidade nossa – o divino foi despromovido, e pior, cada vez há menos coisas para o divino fazer.
    Claro que a discussão dos limites está na ordem do dia, pois cada vez mais se centra na ética de determinada pesquisa, argumentando-se não cientificamente contra a ciência e cientificamente contra a crença.

  3. Tales de Mileto

    Eu retenho apenas:

    “Mas entender a Ciência como subalternizada à Religião e não tendo mote próprio, (…) por mais que possa dar jeito a Pedro Arroja na sustentação das suas teses, é profundamente desonesto e não condizente com a realidade dos factos.”

    não há surpresas. se há coisa que caracteriza o pensamento do arroja, é a desonestidade intelectual e o total desrespeito pelos factos.

    este homem é um baralha mentes fracas.

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