A guerra dos laranjas

A Semana Política
23/09/07-29/09/07

Quando Luís Marques Mendes fez o seu discurso de aceitação da derrota nas eleições directas para a liderança do PSD, os apoiantes de Luís Filipe Menezes, candidato vencedor, começaram a apupar o antigo líder. Era o culiminar de um triste espectáculo que durava há muito e que teve durante esta semana o seu ponto mais baixo. A “questão das quotas” monopolizou (ou melhor, inviabilizou) por completo o debate eleitoral do partido laranja, que em vez de permitir a credibilização do partido contribuiu apenas para a troca de insultos que marcou a semana, e tanto agradou ao recém coroado líder.

Mas se a “questão das quotas” não importava muito aos portugueses, significava muito para o aparelho do PSD. Pois a insistência de Marques Mendes na sua regularização mostrou a muito boa gente que ele pretendia limpar alguma da porcaria que se alojava nas gavetas dos arquivos do partido, e uma vez percebendo isso, correram a votar em Menezes para que o pó continue a proliferar, e as suas vidinhas não sejam afectadas. Como correram a votar nele devido à esperança de que dois gritinhos de manhã junto às fábricas que fecham, e três lágrimas à tarde nos centros de saúde que encerram, devolvam o PSD ao poder e aos seus boys os empregos públicos.

Fora do PSD, se se correu para algum lado, foi para o mais longe possível desta “guerra dos laranjas”. Para uma larga maioria dos portugueses, a continuidade ou o afastamento de Marques Mendes era um assunto que não motivava paixões. Até mesmo os mais politizados, e em particular os que, de entre eles, se contam entre os eventuais eleitores do PSD, pouco ou nada viam em jogo na sobrevivência do ex-líder. Era uma atitude injusta, como injusta foi sempre a avaliação do trabalho feito por Mendes. No meio de muita inconsistência, no meio de muitos erros, começava a esboçar-se uma linha de acção que poderia conduzir a uma alternativa ao PS. Propostas na educação e na segurança social mostravam que o PSD de Marques Mendes havia percebido a falência do actual modelo social. Era pouco, é certo, mas era alguma coisa. E acima de tudo, Mendes limpara da “marca” PSD a imagem descredibilizadora criada pela fuga de Durão e pelo consulado de Santana, e que a gritaria contraditória de Menezes certamente reinstalará nos próximos tempos. Com Mendes, o PSD ia no bom caminho, apesar de andar devagar. Com Menezes, haverá grande correria, mas toda ela a andar para trás.

Liberdade e mercado livre

Donald Tusk, o presidente do partido polaco Platforma Obywatelska (Plataforma Cívica) está em Inglaterra a fazer campanha (para as legislativas a 21 de Outubro) junto da crescente comunidade polaca emigrante.
A mensagem que lhes leva, na esperança de que eles contribuam para tornar a Polónia num “país ocidental” que permita aos seus cidadãos beneficiar do mesmo nível de vida que os britânicos, é (minha tradução, via BBC):

Nós não iremos descobrir petróleo ou ouro. O único recurso que temos é a nossa liberdade. A chave é o mercado livre.

Posso estar enganado, posso não ter prestado a devida atenção, mas não me recordo de nenhum presidente do PSD ou do CDS ter formulado em tão poucas palavras todo um programa que permita uma alternativa de oposição ao socialismo que, desde 1974, tem levado o nosso país ao ponto a que chegou.

O conforto do assegurado rotativismo PS / PSD não obriga a grandes coragens políticas na demarcação de novas posições por parte dos partidos não situados ao fundo da esquerda. Será que a perspectiva da renovação da maioria eleitoral do PS não ajudará o ambicioso novo presidente do PSD a reformular o posicionamento tendencialmente socialista do seu partido, optando por alternativas não antes exploradas?
Podem chamar-me pessimista ou mesmo derrotista, mas não creio. Falar alto e falar muito, atacar sempre e ser do contra, propôr diferente porque feito por diferentes pessoas, parece-me que será assim a continuação da prática da oposição em Portugal.

Pela minha parte, a esperança continua. Tal como o presidente da Plataforma Cívica prefiro ter esperança que de uma nova geração de portugueses, mais ambiciosos, menos presos à tradição socialista pós-revolução, possa um dia surgir a mesma formulação que o pleno usufruto da Liberdade e o mercado livre indicam o caminho para a prosperidade.

A estupidez da causa saudável não tem limites

Starting today, state Department of Revenue agents will begin stopping Tennessee motorists spotted buying large quantities of cigarettes in border states, then charging them with a crime and, in some cases, seizing their cars.

Critics say the new “cigarette surveillance program” amounts to the use of “police state” tactics and wrongfully interferes with interstate commerce. But state Revenue Commissioner Reagan Farr says his department is simply doing its job, enforcing a valid state law while protecting Tennessee retailers who properly pay state taxes.

Knoxnews.

Santana na Sic

Santana Lopes foi interrompido quando falava na SIC Notícias, para em directo aquela estação mostrar a chegada de José Mourinho a Portugal. Perante o insólito, o ex-primeiro-ministro recusou continuar a entrevista e disse tudo sobre o PSD. Que o partido está a descambar, mas ele não. Santana sabe quais os limites da decência, sente os limites da decência e aproveitou a oportunidade que lhe caiu no colo para demonstrar isso mesmo. É nestas pequenas grandes coisas que se vê um político e se aferem as suas qualidades. Não precisou de muito mais para explicar o que está mal no PSD. Cuidado com ele.

É já a seguir…

No DN de hoje, Estado lança pensões complementares em 2008 [negritos meus]:

«Em 2008, os portugueses vão poder fazer descontos adicionais para fundos públicos de reforma, além das contribuições obrigatórias para a Segurança Social.»

Porreiro. I can’t wait. O que eu mais quero fazer, no fim de cada mês, é pagar ainda mais à mesma entidade que torra habitualmente o meu dinheiro. Mas há mais:

«Questionado sobre as vantagens de criar um tipo de produto financeiro que já é disponibilizado pelo sector privado, [o secretário de estado] Pedro Marques explicou aos jornalistas que “deste modo, os portugueses terão mais uma opção para as suas reformas” (…) Pedro Marques adiantou que “a gestão pública está associada a um menor risco”, mas não respondeu se haverá ou não diferentes produtos consoante o perfil do aforrador.»

Há pois. Está tudo explicado. Amanhã algum iluminado há de decidir que o estado deve abrir uma cadeia de supermercados para dar “mais uma opção” à malta. Faz todo o sentido. Gostava é que ele respondesse às seguintes perguntas:

  • Se é um fundo de capitalização, presumivelmente composto de activos financeiros disponíveis no mercado, inevitavelmente os mesmo que constituem os fundos privados, como é a sua gestão é de menor risco?
  • O estado tenciona garantir esse fundo contra evoluções negativas do mercado? Como? Com dívida pública?
  • Se não garante, como é que o risco é menor? Os gestores do fundo são génios financeiros? Se sim, não virá o Goldman Sachs ou outro banco qualquer recrutá-los?

Para terminar, a peça do DN brinda-nos com uma afirmação digna do Igor Caldeira a falar de “anarco-libertarianos”:

«Pedro Marques lembrou que não existem estudos que mostrem que o sistema de capitalização (fundos de pensões) responda melhor aos desafios demográficos do que o sistema de capitalização (…)»

Não deve ter sido isto que o secretário de estado disse… Mas, de uma forma ou de outra, dá para perceber que também era algo disparatado.