Há ser conservador e ser conservador

Rui Albuquerque escreveu um excelente artigo explicando porque, sendo um liberal é necessariamente também um conservador. Concordando com a generalidade do seu raciocínio, não posso deixar de ter em consideração que o conservadorismo não é igual em todo o lado. Que é preciso distinguir dois tipos de conservadorismo e que, assim sendo, há algo que falta quando se lê o que o Rui escreveu. Falta sair da Inglaterra e falta sair dos EUA. Falta vir à Europa. À Alemanha (e lembrar com que sonhavam os conservadores prussianos e austríacos), a Espanha e até a Portugal. Recordar o que foram os conservadores portugueses. O que quiseram fazer de Portugal. As ideias porque lutaram. A sua nostalgia, o seu saudosismo, os seus suspiros pelo passado. Os países europeus não são a Inglaterra, nem a América. O conservadorismo europeu não é inglês, nem americano. É aqui que é preciso pôr o dedo na ferida e esclarecer o que distingue os diferentes conservadores.

Existem hoje, em Portugal, conservadores que renegam o conservadorismo europeu. Começaram a ler o Miguel Esteves Cardoso e acabaram com Oakeshott e é com eles que os liberais têm algo em comum. O conservadorismo anglo-saxónico, apostou nas pessoas, acreditou que cada ser humano tem algo de muito específico para dar. Que cada um é um mundo a ser descoberto e que a ninguém deve ser imposto um ponto de vista. Estes conservadores não têm saudades do passado, mas também não anseiam pelo futuro. Vivem o presente, porque é esse o único tempo que existe.

Ao contrário, em Portugal, França, Espanha e na Alemanha, fomos demasiado racionais. Excessivamente objectivos. Ora, a objectividade tem de ser declarada por uma pessoa e para essa função muito especial encontrámos o estado. Os conservadores descobriram a força do estado e o seu papel na interpretação das nossas necessidades, da urgência de nos fazer iguais a um modelo pré-definido. Isto nada tem de semelhante com os liberais. Nada, porque este conservadorismo peca dos erros que conduziram ao socialismo.

Qualquer tentativa de aproximação entre conservadores e liberais passa obrigatoriamente por esta distinção, porque se os liberais têm muito em comum com o conservadorismo Oakeshottiano, nenhum interesse existe na confusão com os conservadores que ainda querem mudar a sociedade, fazendo-a voltar para trás.

Anúncios

12 pensamentos sobre “Há ser conservador e ser conservador

  1. CN

    Talvez distinguir o conservadorismo americano de todos os outros, que pretende “conservar” a liberdade contra um governo centralizado e nacional(ista). Quase o oposto do conservadorismo europeu (incluindo , inglês).

    (de neo-conservadores nem vou falar)

    O conservadorismo inglês (não, não é Burke que mais próximo está está de um liberalismo clássico) também tem muito de europeu.

    Quanto ao conservadorismo europeu é preciso distinguir o da velha ordem monárquica (e que se adpatou a muito do liberalismo) da nova ordem republicana (primeiro com a rev. francesa, e depois o fascismo, etc).

    Um conservador pode ser liberal se perceber a anulação do autonomia da familia, comunidade, propriedade – que representa o Estado.

    Um conservador nunca poderá ser liberal (será até anti-liberal) se vir no próprio Estado a razão última da política.

  2. «Que é preciso distinguir dois tipos de conservadorismo»

    Claro que sim, caro André. Mas é igualmente necessário ter em conta que existem vários tipos de liberalismo. Pelo menos, um racionalista e revolucionário de ascendência francesa e um evolucionista e tradicionalista (conservador?) de ascendência anglo-saxónica. Cá por Portugal, há semelhança dos nossos conservadores, os nossos liberais também não lhes ficam atrás: anti-clericais na segunda metade do século XIX e na República, a herança que deixaram ainda hoje se faz sentir. Por outro lado, no que respeita aos conservadores, o que eu penso é que estão completamente desprovidos de quaisquer referências valorativas. O conservadorismo prussiano e austríaco do passado já não tem hoje qualquer ressonância. Ao contrário, prefiro o conservadorismo de um Adanauer ou de um Kohl, eles também oriundos dessas paragens. Foram homens que trouxeram paz, liberdade e prosperidade ao seu país. Em conclusão, o que digo é que se os liberais e os conservadores têm queixas recíprocas uns cos outros, é altura de as ultrapassarem: o liberalismo possui uma visão do Estado e da sociedade que falta ao conservadorismo, o conservadorismo está habituado a uma praxis política e partidária que os liberais desconhecem. É um casamento perfeito, salvo melhor opinião.

    Abç.,

  3. Essa definição de “objectividade” é um bocado estranha, caro André… Se a verdade tem de ser declarada, então não é objectiva. Poderá ser absoluta (e nesse caso será intrínseca) ou então relativa (e nesse caso subjectiva).

  4. A expressão “conservador” também tem que se lhe diga. Como diz o CN, os conservadores americanos pretendem conservar os valores da fundação dos EUA (life, liberty and the pursuit of happiness). No contexto actual europeu, e em especial português, o que será “ser conservador”? No sentido literal do termo, conservadores são aqueles que pretendem manter a todo o custo os valores falidos da constituição de 1976…

  5. CN

    Se falarmos na dicotomia esquerda-direita, não vejo casamento nenhum perfeito ente liberalismo e direita.

    W “Conservadorismo” não tem necessáriamente que se enquadrar nessa dicotomia.

    A esquerda também tem um sentido de comunidade (que depois resvala para o colectivismo – tal como a direita) e de “conservação”. Daí muitas das suas causas por comunidadades e modos de vida que são postos em causa por um desenvolvimento muitas vezes imposto ou snacionado por um Estado Central, passando por cima de soberanias locais (de direitos de propriedade não atribuidos?) mas que deviam ser reconhecidos.

    a facilidade de expropriar e de recorrer a déficits para construir vias para todo o território é uma imposição sobre o comunitarismo local, tendente a destruir as suas peculariedades (e até “Vontade” de assim continuar, a destruição dessa “vontade” é um dos objectivos do centralismo). E tem sido o instrumento de uniformização do seu domínio por parte do Estado Central.

    A direita dita liberal, creio, nerm quer saber disso para nada. Cosntruir estradas e impôr um código legal único sobre todo o território, é uma função de um estado minimo para aumetnar a eficiência.

    A direita não liberal, vê nisso também o aumento da autoridade do Estado, cuja sobrevivência é o seu último objectivo.

    Quanto ao liberalismo e conservadorismo (the real ones):

    Podemos esperar que quanto menor fôr a intervenção do Estado, mais ela tende a ser “conservadora”. É o Estado que destruiu e destrói as camadas de hierarquias naturais na comunidade e sociedade (e que o conservadorismo pretendeu manter através do Estado) e as relações de deveres/obrigaçoes construidas por um ética localizada, e não como uma peça de um sistema nacional-político abstracto (via Welfare-state).

    O Estado “liberta” o individuo de qualquer dever (e de qualquer sanção) para a sua comunidade.

  6. Pedro Picoito

    Concordo com os comentários do Carlos Novais. Mais uma vez, André, estás a simplificar a tradição conservadora, mesmo em Portugal. Um pequeno exemplo: o Alexandre Herculano, que para a Geração de 70 (Eça, Antero, etc.) representava o passado, era um liberal ou um conservador?

  7. É verdade, existem conservadores e conservadores…

    Curiosamente, o anarco-capitalista ultra-libertário mais radical que já li, Hans Hermann Hoppe, é também um dos pensadores mais reacionários e saudosistas dos bons e velhos tempos do… feudalismo europeu pré-centralização política!

    Aproveitando o tema similar, tenho pensado sobre as diferenças que existem entre os diversos grupos de “liberais” (no sentido econômico: defensores do livre mercado). Se alguém se interessar, o endereço é : http://protosophos.wordpress.com/2007/08/29/libertarismo-vs-liberalismo/

  8. CN

    “Curiosamente, o anarco-capitalista ultra-libertário mais radical que já li, Hans Hermann Hoppe, é também um dos pensadores mais reacionários e saudosistas dos bons e velhos tempos do… feudalismo europeu pré-centralização política!”

    Sim, mas o que não significa que pretenda voltar ao que de mau os velhos tempos tinham.

    Hoppe defende (na linha de Rothbard) que quanto menos poder político centralizado existir, mais a sociedade civil tende a ser socialmente “conservadora” (no melhor sentido que a classificação possa ter)

  9. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Liberalismo e conservadorismo em discussão

  10. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Há ser conservador e ser conservador (2)

  11. Pingback: Por que não sou conservador « Direitas Já!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.