Re: Poder de mercado

Escreve o “ladrão de bicicletas” João Rodrigues:

A liberalização [dos medicamentos de venda livre] conduz a uma diminuição dos preços? Quando as empresas detêm poder de mercado que lhes permite fixar os preços (o que acontece inevitavelmente na maior parte dos sectores económicos relevantes), a liberalização pode bem conduzir a um aumento dos preços que alimenta o crescimento das suas margens de lucro. À custa de todos nós.

Breves comentários:

  1. Quem fixa os preços da maioria dos medicamentos é o Estado português, não as farmacêuticas.
  2. As farmacêuticas podem tentar compensar a perda de rentabilidade em alguns dos seus medicamentos comparticipados com o aumento do preço dos medicamentos de venda “livre”.
  3. Em Portugal, a venda de medicamentos não é livre. Se o fosse, alguns medicamentos até poderiam ser gratuitos (via LRC).
  4. Ao dizer que são as empresas que fixam os preços na maior parte dos sectores económicos relevantes, o economista(?) João Rodrigues mostra total desconhecimento do importante papel dos consumidores no mercado. Ninguém, a não ser o Estado, pode obrigar um consumidor a pagar preço superior ao valor que este atribui a determinado produto ou serviço.

19 pensamentos sobre “Re: Poder de mercado

  1. Se deixados nas mãos das empresas, os preços serão correspondentes ao valor que os consumidores atribuem aos remédios.
    Se o Estado vende os remédios a preços mais baixos do que os que vigorariam no mercado, isso significa que quem compra não está pagando tudo; uma parte é paga pelos que não consomem.

    Além disso, como quem consome paga menos do que teria que pagar, há um incentivo de se consumir ainda mais remédios, o que apenas aumenta o rombo que os não-consumidores têm que tapar.

    A empresa que lucra nada mais fez do que prover aos consumidores bens de um certo valor usando recursos que, até onde as pessoas sabiam, podiam ser usados apenas para produzir coisas menos valiosas. É isso que faz com que exista, temporariamente, uma diferença entre o preço dos produtos finais e os preços somados dos fatores de produção.

    Manter a venda de remédios nas mãos do Estado é garantir a ausência de inovações, sem falar no grande custo para a sociedade de financiar todo o esquema.

  2. ADIÇÃO: sem falar que é exatamente a concorrência no mercado que garante que os preços tenderão a baixar; e baixar de fato, não apenas ter parte deles repassada para quem não consumiu o remédio.

  3. JoaoMiranda

    ««Quando as empresas detêm poder de mercado que lhes permite fixar os preços (o que acontece inevitavelmente na maior parte dos sectores económicos relevantes)»»

    Não percebo porque é que as empresas que têm poder para fixar os preços não os fixam no ponto mais elevado possível, i. e., no infinito.

  4. Alfredo f.

    Em economia de mercado, o preço é determinado pelo cruzamento entre a oferta e a procura, i.e., se a procura for superior à oferta o preço tende a subir, e o inverso se a procura for inferior à oferta, tão simples quanto isto! Se em algum momento o Estado ou uma empresa pode controlar a oferta (já que a procura, não pode), tem remotamente, algum poder em fixar preço.

  5. “Não percebo porque é que as empresas que têm poder para fixar os preços não os fixam no ponto mais elevado possível, i. e., no infinito.”

    Joao Miranda, nao me parece que o Joao Rodrigues tenha dito que as empresas tinham um poder de mercado infinito, pelo que esta tua resposta nao me parece muito pertinente. (isto independentemente de concordar com a analise do Joao Rodrigues)

  6. JoaoMiranda

    ««Joao Miranda, nao me parece que o Joao Rodrigues tenha dito que as empresas tinham um poder de mercado infinito, pelo que esta tua resposta nao me parece muito pertinente.»»

    Não, o que ele disse foi:

    ««Quando as empresas detêm poder de mercado que lhes permite fixar os preços»»

    e foi isso que eu comentei. Se as empresas têm poder que lhes permite fixar os preços porque é que não fixam um preço qualquer? A resposta, como ambos sabemos, é que as empresas não têm poder que lhes permite fixar os preços. Os preços dependem do jogo da oferta e da procura. Mesmo que o fornecedor seja monopolista, ele tem que se sujeitar às leis da escassez, à necessidade de maximizar o lucro e à necessidade de competir com substitutos ou com start ups. Não pode fixar um preço qualquer.

    O post do João Rodrigues baseia-se no conceito de “poder de mercado” que não tem qualquer significado em economia.

  7. “Se as empresas têm poder que lhes permite fixar os preços porque é que não fixam um preço qualquer?”

    Porque esse poder é limitado, e não ilimitado. Ele não pretendeu dizer, e penso que qualquer pessoa compreende isso, que as empresas tinham uma discricionariade completa.

    “Os preços dependem do jogo da oferta e da procura. Mesmo que o fornecedor seja monopolista, ele tem que se sujeitar às leis da escassez, à necessidade de maximizar o lucro e à necessidade de competir com substitutos ou com start ups. Não pode fixar um preço qualquer.”

    O João não disse em lado algum que o fornecedor podia fixar um preço qualquer. Ler isso no que ele escreveu é extrapolar em demasiada e, permite-me que te diga, argumentar contra algo que ele não defende.

    “O post do João Rodrigues baseia-se no conceito de “poder de mercado” que não tem qualquer significado em economia.”

    Como? Não tem qualquer significado? Já que tantas vezes ciotas a wikipédia, podes começar por ver: http://en.wikipedia.org/wiki/Market_power
    Depois, se fizeres uma pesquisa no GoogleScholar, com as palavras chave “market power” e “economics”, obténs mais de 45500 entradas relevantes.
    Se fizeres uma pesquisa na Econlit (base de dados de artigos científicos de Economia) encontras, numa primeira pesquisa, 2500 artigos com as palavras-chave “market power”. Só artigos com as palavras “market power” no título são mais de 700. E vens dizer assim sem mais que o conceito de “poder de mercado” que não tem qualquer significado em economia?

  8. JoaoMiranda

    ««Porque esse poder é limitado, e não ilimitado. Ele não pretendeu dizer, e penso que qualquer pessoa compreende isso, que as empresas tinham uma discricionariade completa.»»

    Há algumas situação em que, num mercado, as empresas não tenham o poder limitado de fixar os preços?

    ««O João não disse em lado algum que o fornecedor podia fixar um preço qualquer. Ler isso no que ele escreveu é extrapolar em demasiada e, permite-me que te diga, argumentar contra algo que ele não defende.»»

    Bem, mas então se o fornecedor não pode fixar um preço qualquer, se tem um poder limitado para fixar os preços, o que é que isso tem de especial? Não conheço nenhuma situação em que o fornecedor não tenha um poder limitado para fixar preços. O poder para fixar preços é sempre limitado pela oferta e procura.

  9. “Há algumas situação em que, num mercado, as empresas não tenham o poder limitado de fixar os preços?”

    De uma forma simples. O facto de todas terem um poder limitado, não quer dizer que sejam todas iguais. Umas são mais limitadas do que outras. Vou-te dar um exemplo a ver se percebes:
    (1) Num mercado cheio de empresas concorrentes, se uma empresa sobe os preços, os consumidores irão procurar outras empresas que fornecem o mesmo produto. (2) Num mercado onde a empresa actue sozinha, por exemplo por causa de uma regulamentação do estado. Se a empresa sobe o preço os consumidores só têm uma alternativa. Ou compram mais caro ou não compram. Claro que a empresa perde alguns clientes (aqueles que decidem deixar de comprar o produto) mas não os perde todos (porque os consumidores não podem comprar na concorrência que não existe).

    Assim a empresa monopolista no mercado (2) tem menos limitações do que a empresa concorrencial no mercado (1). Já conseguiste perceber? Neste caso, diz-se que a empresa no mercado (2) tem mais poder de mercado do que a empresa no mercado (1).

  10. Nuno

    Já que o João Rodrigues mostra desconhecimento, mostrem lá os srs conhecimento!
    Se é só virtudes pq é que os medicamentos liberalizados estão mais caros? De acordo comos pontos 1 e 2 a culpa é do Estado?
    O poder do consumidor!! É para rir! Como se algum consumidor possuisse algum tipo de escolha que não seja comprar ao preço q é vendido!
    Cpmts

  11. “Se é só virtudes pq é que os medicamentos liberalizados estão mais caros? ” — Nuno

    Porque a unica coisa que se liberalizou foi mesmo o preco de alguns medicamentos, mais nada. O sector das farmacias e’ um mercado onde e’ quase impossivel de entrar. Basta lembrar que o numero de farmacias e’ definidop por lei. Ora o que num mercado liberalizado faz descer o preco e’ precisamente a concorrencia. No sector farmaceutico isso nao existe.
    Alias, e’ de alguma desonestidade intelectual pegar num sectar tao regulamentado como o das farmacias, onde a concorrencia esta’ limitadissima e as barreiras a’ entrada de novas empresas sao quase insuperaveis e culpar o liberalismo do quer que seja. Poucos sectores havera’ em Portugal com tantos constragimentos como este.

  12. “Poucos sectores havera’ em Portugal com tantos constragimentos como este”
    Constrangimentos legais, entenda-se. A concorrencia neste sector e’ tao limitada que ate’ Vital Moreira (que penso que nao pode ser admoestado por ser liberal) tem criticado violentamente as restricoes que existem neste mercado.

  13. Bz, só uma nota. Não compreendi se a citação do exemplo no ponto 3 vinha no seguimento da venda livre de medicamentos. Nos EUA, a venda de medicamentos não é livre e, por isso mesmo, existe um mercado negro enorme, em que medicamentos por prescrição são vendidos “over the counter”.

    As cadeias de supermercados da notícia estão a usar estes antibióticos em particular como “loss leaders” extremos, ou seja, o exemplo que deste podia perfeitamente acontecer em Portugal (em teoria) se aos supermercados fosse permitido vender medicamentos com as regras de prescrição actuais (mesmo que não fosse totalmente livre, portanto), tal como acontece nos EUA.

  14. JoaoMiranda

    ««Assim a empresa monopolista no mercado (2) tem menos limitações do que a empresa concorrencial no mercado (1). »»

    LA-C,

    Se o monopólio da empresa monopolista no mercado (2) resulta da regulamentação do Estado quem tem poder é o Estado e não a empresa. A empresa é uma mera beneficiária do poder exercido pelo Estado pelo que nesse caso não me parece que o conceito de poder de mercado faça sentodo.

    Se o monopólio da empresa monopolista no mercado (2) resulta apenas de factores de mercado então um monopolista que fixa um preço que não seja o preço óptimo paga um preço. As empresas monopolístas que cobram um preço acima do valor óptimo perdem quota de mercado para start ups ou para produtos alternativos. Ou seja, o monopolista não tem poder nenhum, apenas troca os lucros futuros por lucros presentes.

    O conceito de poder num mercado livre só faz sentido se se olhar para o mercado de consumo. Acontece que tem que se olhar para o mercado de consumo e para um mercado de capitais. Uma empresa que resolva subir os preços, exercendo dessa forma o seu poder de mercado, está na realidade a abrir o flanco para ataues do lado do mercado de capitais.

    Aliás, num mercado livre todas as transações são voluntárias não havendo lugar a conceitos relacionados com poder.

  15. JoaoMiranda

    Outro problema do conceito de “poder de mercado” é que ele tem que ser medido em relação a um preço de referência. Só que não é possível determinar a priori tal preço de referência. O único preço determinável é aquele que o mercado pratica. Se um monopolista vende um produto a 20 euros como é que eu sei se esse monopolista está a exercer um poder de mercado? Qual é o preço do produto? Como se sabe, o preço é uma relação entre a oferta e a procura e não depende das características intrínsecas do produto. O preço só é determinável pelo mercado que existe. Nunca pode ser determinado teoricamente.

    Outro ponto importante é que não é possível distinguir:

    1. Uma empresa com poder de mercado

    2. Uma empresa que aproveitou uma oportunidade de negócios.

    Tanto a empresa 1 como a empresa 2 praticam preços elevados e têm rentabilidades acima da média do mercado, mas faz algum sentido dizer que a empresa 2 que cria valor através da inovação tem poder de mercado? Ela limita-se a prestar, de forma voluntária, a clientes voluntários, aos preços acordados com todos e aproveitando uma capacidade inovadora.

  16. “Se o monopólio da empresa monopolista no mercado (2) resulta da regulamentação do Estado quem tem poder é o Estado e não a empresa. A empresa é uma mera beneficiária do poder exercido pelo Estado pelo que nesse caso não me parece que o conceito de poder de mercado faça sentido.”

    Parece-me que te estas a dedicar a um jogo de palavras e pouco mais. Uma coisa e’ falar da origem do poder de mercado (que pode ser devido a excessiva regulamentacao, patentes, investimentos iniciais de entrada altissimos, conluio, etc) outra coisa e’ dizer que ele nao existe. Alem disso, a tua opniao e’ altamente discutivel, especialmente quando dizes: “A empresa é uma mera beneficiária do poder exercido pelo Estado “. Na verdade, este tipo de empresas sao muito mais do que meras beneficiarias. Muitas destas empresas fazem lobby activo para influenciarem as decisoes tomadas pelos governantes. Muitas vezes compram, ou corrompem, os agentes deste Estado. Falar delas como meras beneficiarias e’ altamente discutivel.

    “Aliás, num mercado livre todas as transações são voluntárias não havendo lugar a conceitos relacionados com poder.”

    Isso e’ porque estas a dar uma carga pejorativa a’ palavra poder. Chama-lhe o que quiseres, desde que digas que a empresa enfrenta uma curva de procura negativamente inclinada. Quanto mais vertical for essa curva maior o seu poder de mercado (ou capacidade de fixar precos, ou capacidade de influenciar o mercado, ou capacidade para aumentar o mark-up, ou que quer que lhe queiras chamar)

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