A Festa dos assassinos (2)

Interessante em relação à anunciada participação de membros da FARC na Festa do Avante vai ser ver a respectiva resposta das forças de segurança e dos organismos governamentais de controle das nossas fronteiras. No ano passado foi o que se conhece: em termos de SEF, não se passou nada.

Este ano, vamos ver. O pré-aviso já está em cima da mesa, e que eu saiba, o terreno onde se faz a festa não é nenhuma embaixada nem goza de privilégios de imunidade perante a lei portuguesa, nem é inalcançável às forças de segurança. Afinal, espera-se que não seja somente a ASAE a única autoridade publica diligenciosa.

Não nos podemos esquecer que as FARC são uma organização referenciada como terrorista pela União Europeia. Acho que não ficaria muito bem perante os nossos parceiros europeus (ainda mais em tempos de presidência portuguesa) a informação de que, em dois anos consecutivos, uma organização terrorista se faz representar num evento aberto ao público em Portugal, com total complacência e ineficácia das forças de segurança em impedir que tal aconteça.

Afinal, se acontece com estes, como podemos esperar que seja diferente com outros? Como é que se pode esperar que assim seja em relação a uma organização extra-europeia, e se queira ter credibilidade a lidar com organizações terroristas europeias intra-fronteiras livres e abertas como a ETA?

E fica também um pensamento: em circunstâncias normais, a colaboração com uma organização terrorista (Quem é que pagou as viagens? Que garantias foram dadas da “segurança” aos seus enviados?) por parte do PCP mereceria uma investigação rigorosa e dura das respectivas entidades públicas. Quem sabe, até se candidatariam a medidas preventivas até se apurar o real grau de colaboração entre as organizações. Coisas tipo contas congeladas e responsabilização (e aplicação das respectivas medidas de coacção) dos seus responsáveis e dirigentes.

Vamos mostrar que somos um Estado de Direito, ou que as nossas instituições são ridicularizadas pela sistematica posição de desafio da organização de uma festa de um partido político?

Há ser conservador e ser conservador

Rui Albuquerque escreveu um excelente artigo explicando porque, sendo um liberal é necessariamente também um conservador. Concordando com a generalidade do seu raciocínio, não posso deixar de ter em consideração que o conservadorismo não é igual em todo o lado. Que é preciso distinguir dois tipos de conservadorismo e que, assim sendo, há algo que falta quando se lê o que o Rui escreveu. Falta sair da Inglaterra e falta sair dos EUA. Falta vir à Europa. À Alemanha (e lembrar com que sonhavam os conservadores prussianos e austríacos), a Espanha e até a Portugal. Recordar o que foram os conservadores portugueses. O que quiseram fazer de Portugal. As ideias porque lutaram. A sua nostalgia, o seu saudosismo, os seus suspiros pelo passado. Os países europeus não são a Inglaterra, nem a América. O conservadorismo europeu não é inglês, nem americano. É aqui que é preciso pôr o dedo na ferida e esclarecer o que distingue os diferentes conservadores.

Existem hoje, em Portugal, conservadores que renegam o conservadorismo europeu. Começaram a ler o Miguel Esteves Cardoso e acabaram com Oakeshott e é com eles que os liberais têm algo em comum. O conservadorismo anglo-saxónico, apostou nas pessoas, acreditou que cada ser humano tem algo de muito específico para dar. Que cada um é um mundo a ser descoberto e que a ninguém deve ser imposto um ponto de vista. Estes conservadores não têm saudades do passado, mas também não anseiam pelo futuro. Vivem o presente, porque é esse o único tempo que existe.

Ao contrário, em Portugal, França, Espanha e na Alemanha, fomos demasiado racionais. Excessivamente objectivos. Ora, a objectividade tem de ser declarada por uma pessoa e para essa função muito especial encontrámos o estado. Os conservadores descobriram a força do estado e o seu papel na interpretação das nossas necessidades, da urgência de nos fazer iguais a um modelo pré-definido. Isto nada tem de semelhante com os liberais. Nada, porque este conservadorismo peca dos erros que conduziram ao socialismo.

Qualquer tentativa de aproximação entre conservadores e liberais passa obrigatoriamente por esta distinção, porque se os liberais têm muito em comum com o conservadorismo Oakeshottiano, nenhum interesse existe na confusão com os conservadores que ainda querem mudar a sociedade, fazendo-a voltar para trás.

Teoria da Relatividade

O DN hoje conta-nos que há mais de 36 milhões de pobres nos Estados Unidos, ou 12,3% da população. Bom, para ser inteiramente correcto, conta-nos que eles estão abaixo do limiar de pobreza. Ao contrário de outras reportagens que ocasionalmente tocam neste assunto, esta menciona qual o referido limiar: 13167 dólares para um agregado familiar com duas pessoas. Não está mal, hã?

O problema destas coisas é a impressionante relatividade das medidas. A ONU, por exemplo, considera esse limiar como dois dólares por dia per capita, que é como quem diz 1460 dólares anuais para o mesmo agregado familiar de duas pessoas acima referido. Mesmo admitindo que o valor da ONU seja líquido enquanto o do U.S. Census Bureau seja antes de impostos, a relatividade destas medidas é enorme.

Mas há mais. Mesmo se ignorarmos o limiar da ONU, que, afinal de contas, é um exemplo limite de subsistência, a estatística americana acaba por não ter muito significado. O valor determinado para o limiar é único para todo o país. É como se quiséssemos comparar o nível de vida de um português com o de um luxemburguês. Só para termos um termo de comparação: Em Espanha, há três anos, a percentagem da população abaixo do limiar de pobreza (usando uma medida nacional) era de 16,9%. Contudo, se fosse usado o limiar médio europeu essa percentagem subiria para 43,7%. De igual modo, a taxa europeia (média ponderada das várias taxas nacionais) era de 15,5%. No entanto, se fosse usada um único limiar médio europeu essa taxa subiria para 18,2%. Se a mesma metodologia fosse usada na UE (a 15), o DN teria de reportar que “mais de 65 milhões de europeus vivem abaixo do limiar de probreza”.

Não percebo bem mas parecem-me elogios

Ouvi, de manhã, na TSF, Baptista Bastos a falar sobre Francisco Umbral, escritor espanhol que hoje faleceu. Fiquei a saber que Umbral era um verdadeiro “escritor de jornais”, parece que como Vasco Pulido Valente mas (ainda) mais violento. Até aqui tudo bem. Fiquei no entanto irremediavelmente perdido quando ouvi dizer que ele era “um grande leitor omnívoro, um grande comedor de vida e um grande pescador do eterno“!!!

A moral Individual (2)

O Pedro Picoito comentou e respondeu ao meu texto sobre a moral individual. Comecemos pelo seu comentário e terminemos, depois, no seu ‘post’.

No comentário, o Pedro lembra que “nem na América dos sécs. XIX e XX nem na Inglaterra dos sécs. XVII-XIX a religião e a moral eram estritamente escolhas individuais.” Recorda que “a Inglaterra ainda hoje é um Estado confessional, (…) tem uma religião oficial (o anglicanismo).” Quanto aos EUA, refere que aí “a religião tem uma identidade comunitária fortíssima”, havendo ‘igrejas evangélicas quase exclusivamente negras, assim como os descendentes de irlandeses ou italianos são quase por definição católicos”. Posto isto, conclui que mitifiquei a realidade anglo-saxónica. No entanto…

No entanto, o Pedro não deu conta da palavra flexibilidade que, com todo o cuidado, coloquei no meu ‘post’. Ela não está lá por acaso. Serve para salientar que a força da religião na Inglaterra e nos EUA não advém de as religiões se aceitarem umas às outras, mas de permitirem que os seus fiéis fossem cépticos no que diz respeito à interpretação religiosa de Deus. Foi a permissão deste cepticismo que impediu as certezas religiosas e foi a inexistência de certezas religiosas que permitiu o desenvolvimento material. A tolerância inglesa e norte-americana está aqui e foi a isto que me referi e não à convivência pacífica entre religiões.

Por fim, o Pedro, neste seu ‘post’, escreve que o meu erro na distinção entre moral e escolha está no diferente entendimento que cada um tem do que é a liberdade, a moral e no que se deve traduzir o seu direito de escolha. Sucede que, é precisamente por esta razão que se deve alargar o espaço de manobra dos indivíduos. É assim que, e pegando no exemplo da proibição de fumar em locais públicos dado pelo Pedro, este se resolve facilmente com o exercício da escolha do dono do estabelecimento comercial. Uma decisão que, favorecendo a escolha, não favorece ninguém e também não prejudica ninguém. Apenas se protege o direito de propriedade, de quem investiu e daí retira o seu rendimento e sustenta a sua família. Na verdade, garantir o exercício da liberdade faz-se sempre não se atribuindo direitos, mas impedindo restrições. Este é o ponto e é não esquecendo este ponto muito específico que é possível não recear a livre escolha e as diferentes interpretações que cada um faz do que pode e não deve escolher.