Pontos de Fuga

O governo La Féria

Nem Santana Lopes se lembraria de tão inusitada coisa: contratar figurantes para se fazerem passar por agradados alunos na apresentação do Plano Tecnológico para a Educação e chamar jornalistas para registarem o momento em que os alegados alunos tomam contacto com os seus computadores, felizes e contentes.

Mesmo que quisesse, Santana Lopes (ou mesmo Durão Barroso) nunca poderia levar esta ideia avante. Se acaso se descobrisse, como veio a acontecer, logo se levantaria o coro dos indignados do regime, bradando contra a propaganda fascista. Até os sindicatos dos professores viriam a terreiro, que uma sala de aulas fictícia é coisa que não se admite.

Mas José Sócrates pode lembrar-se disto. Disto e muito mais, que a esquerda goza da insuportável presunção de bondade e candura. Uns risinhos aqui e ali, um abanar de ombros, uma palavrinha mais amarga e já está. Tudo se passa como se o governo não tivesse recorrido a técnicas de propaganda de regimes totalitários. Coitado. Foi um deslize, uma ideia infeliz, mas coitado do homem, não fez por mal, que ao PS ninguém dá lições de liberdade e democracia e amor ao povo.

Imagino Augusto Santos Silva, irado, insistindo que é preciso tratar rapidamente de acabar com a sarjeta dos jornalistas. Então não é que os jornalistas se dedicaram a descobrir de onde vinham os “alunos” em vez de se dedicarem a destacar as vantagens do Plano, as inovações do Plano, as maravilhas do Plano, a vanguarda do Plano e a destreza do Plano? O que interessa se aquelas crianças eram actores representando um papel se os sorrisos eram genuínos e o Plano, afinal de contas, só não está entre as 7 maravilhas porque não foi lançado a tempo?

Não fossem estes jornalistas de sarjeta, sempre em busca do acessório e não do essencial, e a coisa tinha passado ás mil maravilhas: os portugueses muito impressionados com a garra e determinação do governo na distribuição de computadores a tão bonitas criancinhas, todas elas muito morangos com açúcar, muito clean, uma nova geração que tem oportunidade de brilhar porque o governo se preocupa com elas.

Aquela sala de aulas fictícia, poucos dias depois de termos vistos lisboetas fictícios saudando António Costa e José Sócrates, demonstra afinal que o governo que temos não passa de uma ficção, mais preocupado em criar uma ilusão que caiba num ecrã de televisão do que propriamente alcançar um resultado.

Há gestos que marcam, opções que nos caracterizam e tornam irreversível o julgamento do nosso carácter. Ao preferir a encenação à realidade, o primeiro-ministro demonstrou ao que vem. Como já tive oportunidade de dizer, ele está cansado dos portugueses, está farto desta realidadezinha que o impede de ser reconhecido, adorado, glorificado. Não suporta mais esta ingratidão com que vem sendo brindado.

Vai daí, deu-lhe para encenar inaugurações sem povo, encenar manifestações com povo não lisboeta e, agora, encenar criancinhas adoráveis recebendo computadores. E é isto que temos. Um governo que encena. Como La Feria, em que tudo canta e pulula muito alegre pelo palco, também o governo canta e ri a bandeiras despregadas, como se o país não passasse de um cenário de papel.

6 pensamentos sobre “Pontos de Fuga

  1. Pingback: Cortar a Direito :: Governo La Féria :: July :: 2007

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  3. lucklucky

    Confesso que não vejo problema nessa propaganda, é um serviço que existe para o mercado e legal. O meu problema é obviamente a hipocrisia do Governo da esquerda PS e dos Srs. Jornalistas.

  4. Já repararam que as criticas ao Governo e ao Sócrates são invariavelmente sobre a forma e não sobre o conteúdo (ok, admito que linha de fronteira nesta caso seja muito ténue)?
    A verdade é esta: apesar de propagandista, vêem-se resultados (basta ler os relatórios do Portugal, para os mais distraídos). Enquanto os outros falam, falam e não apresentam projecto nenhum para Portugal. Entre este Governo e a direita (onde está ela?) que temos, prefiro, a léguas, este Governo.

  5. lucklucky

    “A verdade é esta: apesar de propagandista, vêem-se resultados (basta ler os relatórios do Portugal, para os mais distraídos).”

    Eu não vejo nenhuns resultados. Crescer a 1-2% quando o mundo cresce a 5-6%? Mesmo fazendo tudo o que criticou quando estava na oposição…

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