Pontos de Fuga

O silêncio cobarde do animal feroz 

Os constantes episódios de deriva autoritária deste governo assustam mais pelo que não se vê do que propriamente pela diatribes que os altos funcionários do estado de todos nós vêm coleccionando.

Bem sei que ver Margarida Moreira dizer que a DREN ocupa o seu tempo a recolher o que sobre si é dito ou escrito, é algo de pasmar. E que igualmente não é com facilidade que se engole uma secretária de estado que se arroga o direito de definir os locais em que o comum funcionário público pode emitir opiniões negativas sobre o governo (uma vez que se presume que as positivas podem ser emitidas em qualquer parte). E que custa ver uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social perder o seu tempo a criar tempo de antena para o governo.

Mas tudo isso perde valor face ao silêncio absoluto dos altos responsáveis deste governo, que tudo consentem e permitem. Abre-se correspondência de funcionários públicos? Silêncio. Há um clima de bufaria nos serviços públicos? Silêncio. A ERC diz que as televisões privadas não são livres de fazer as suas escolhas editoriais? Silêncio. Uma secretária de estado elenca lugares próprios para se dizer mal do governo? Silêncio.

Pois bem. É este silêncio e esta indiferença que demonstram, afinal, o estado a que isto chegou. Porque é neste silêncio que reside a constatação de que o governo desvaloriza valores basilares da nossa democracia. Mais, é nesse silêncio que se escancara a forma como o governo faz dessa indiferença o seu mote político.

Pode admitir-se que fiquem à solta ministros preocupados em sancionar jornalismos de sarjeta e secretárias de estado que não toleram opiniões negativas em edifícios públicos?

Como esperar, com exemplos destes, que o maralhal não desate a vaiar a estátua da liberdade e se entretenha a aplaudir monumentos construídos com mão-de-obra escrava sob regimes pouco amigos dos valores democráticos?

Temos pois que este silêncio do governo é, afinal, ensurdecedor. Através dele, conhecemos uma outra face do poder político que vinha sendo mascarada com jeito e disfarçada com engenho. A face da intolerância, a que alguns chamam de determinação do animal feroz. A face da indiferença para com os governados e que mostra um primeiro-ministro que prefere manter o seu governo a cuidar de proteger os portugueses dos desmandos do seu governo.

O silêncio é tanto, mas tanto, que o próprio primeiro-ministro opta já por fugir do confronto directo com os portugueses, mesmo naquelas inaugurações cheias de festa e foguetes e abraços e fitas cortadas. Já se percebeu que o primeiro-ministro perdeu a paciência com os portugueses, que não lhe merecem o esforço. Cavalgando na absoluta e surpreendeste falta de oposição, acha-se no direito de virar costas a quem governa. A isso, chama-se cobardia. E os animais ferozes, que se saiba, não primam por faltar ao confronto.

6 pensamentos sobre “Pontos de Fuga

  1. zirpelino

    Depois de ler alguns blogs, começo a pensar se estou em Marte. Como o país real não lê blogs, a economia vai melhorando, devagar mas vai; o desemprego até desceu qualquer coisinha; o investimento vai subindo, a pulso, mas vai; a reforma da administração vai-se consolidando; os indíces de confiança dos investidores via subindo; as exportações continuam a crescer; a produção industrial cresce de forma consolidada. Mas isso não é notícia para alguns blobs, este incluido. Aqui só se vê a DREN, mais a DREN, mais a DREN e outa vez a DREN, depois o Babiano, mais a DRS de Vieira do Minho, mais a ERC. Como se estes problemas em, nem meia dúzia de estruturas do Estado, num universo de milhares, fossem o problema do país, fossem eles que determinassem a siruação política do país. Quem se distancia da luta partidária e do fanatismo intelectualóide, e vive no pais real, vê o rídiculo e o patético destas prosas.

  2. CN

    Pelo contrário, é sintomático da administração pública. A ideia com que se fica é que é completamente politizada não sendo a sua maior prioridade prestar serviços de qualidade ao público em geral. Em que o “mérito” que se quer instalar nos serviços é ver quêm dá mais graxa ao “querido líder”.
    De resto a economia está a crescer, mas devia estar a crescer muito mais para o nosso bem. É que a da Europa inteira está a crescer e nós somos o que menos cresce, o que não é bom sinal…

  3. Pingback: Cortar a Direito :: O silêncio cobarde do animal feroz :: July :: 2007

  4. calado

    zirpelino diz,… mas esqueceu-se de dizer. A Bem da Nação! Viva Salazar!
    De facto não está em Marte,… mas deveria começar a pensar em ir para lá. Espero que seja um lugar mais saudável que este!
    O País real não lê as estatísticas da UE que nos colocam sistematicamente nos últimos lugares de tudo o que é positivo e nos primeiros de tudo quanto é negativo?
    O País real não lê (e sente) que o poder de compra dos portugueses se afasta cada vez mais dessa Europa onde nos orgulhamos de pertencer?
    O País real é cego! Tão cego que até aplaude este estado de coisas.
    É surdo! Não ouve os avisos quando têm de votar.
    Mas não é mudo! Pelo menos para escrever nos blogs e para vaiar.

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