O obreiro de grandes passos em direcção a um estado policial foi-se

Tony Blair Hitler

E já foi tarde, quanto a mim. Afinal, o seu curriculum fala por si, naquilo que define um inimigo da Liberdade, que conseguiu transformar porventura um dos países europeus com maior tradição de respeito por esta e pelos cidadão num estado sob vigilância, e onde a marca da subjugação por um estado policial e com tiques totalitários se vai tornando mais distinta a cada dia.

Senão vejamos a herança Blair: as Anti-Social Behaviour Orders (ASBOs para os amigos – e onde o nome diz muito – em que se permitiu ao poder judicial a privação de liberdades e a sanção de comportamentos baseada em princípios de prova de direito civil, e não de direito penal e em juízos abstractos de perigosidade); a possibilidade de deter alguém arbitrariamente durante um período de 28 dias (que, se tivesse vingado a posição do governo seria de 90 dias); a promoção do vigilantismo como mecanismo de segurança; a imposição de um projecto megalómano de cartão de identificação nacional, com informação biométrica, num país sem tradição de identificação civil; a construção de uma massiva base de dados de ADN, englobando informação genética de todos os detidos, mesmo que nunca tenham sido acusados; o ter transformado o Reino Unido no campeão mundial da videovigilância, em que existe uma média de uma câmara por cada 14 pessoas; o ter patrocinado uma intervenção ao nível da cultura do politicamente correcto na publicidade e na actuação dos media, na melhor tradição do nanny state; afinal, last but not least, ter patrocinado e participado numa invasão ilegítima de um país soberano, e contribuído para o descrédito do direito internacional público, promovendo um clima internacional de extremismos e de unilateralismos.

São estas algumas das coisas que se pode agradecer ao senhor Blair e à sua política governativa. Numa sucessão de mandatos pautada por um total vazio de oposição, sustentado em grande reconhecimento do seu carisma e da sua visibilidade mediática, e em que poderia ter feito a diferença tentando herdar da sólida tradição política britânica, foi a este ponto que chegámos.

Assim como Thatcher não acautelou a sua sucessão (mas deixou melhor obra), também Blair sai sem o fazer, promovendo Brown ao estatuto de ser o Major do Labour.

Ontem, o Reino Unido perdeu um inimigo, que deixa marcas difíceis de reverter. Trocou-o por em cenário político em que um Cameron perdido nas suas campanhas de imagem e uns LibDems folclóricos se opõem a um cinzentão de serviço, que faz opor à opulência de carisma do seu antecessor uma imagem desprovida de qualquer gota deste.

Trocou-se a ambição desmedida e perigosa pelo deserto de ideias e de protagonistas. Mas, mesmo assim, parece-me melhor o desfecho.

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14 pensamentos sobre “O obreiro de grandes passos em direcção a um estado policial foi-se

  1. Carlos G. Pinto

    Tendo em conta o contexto internacional, penso que poucas alternativas teriam feito melhor que ele. Mas isso nunca saberemos.

  2. A culpa de Blair na questão do Iraque foi ter forçado o ponto das armas de destruição macissa, quando se sabia que seriam difíceis de encontrar.

    Mas é óbvio que a intervenção não é certa ou errada por ser «legítima» aos olhos de uma comunidade internacional sem quaisquer escrúpulos. O problema de certas discussões em blogs é o seu pretensiosismo quando deviam sempre, sempre, avaliar as questões de ética elementar em primeiro lugar. Por isso muitos ditos liberais têm desiludido ao aderirem a causas abortistas e, como veremos nos próximos tempos, irão encontrar discursos rebuscados para defender a eutanásia comparticipada, colocanso-se ao lado daqueles que defendem a cultura da morte pura e simples.

  3. João Luís Pinto

    “Mas é óbvio que a intervenção não é certa ou errada por ser «legítima» aos olhos de uma comunidade internacional sem quaisquer escrúpulos.”

    Caro Mário,

    Não ouvirá de mim o discurso da “comunidade internacional”, nomeadamente de acordo com os contornos que o costumam definir.

    Digo “ilegítima”, porque acredito na soberania absoluta dos estados, ou tendo estes acordado em regras que permitam a sua violação, que estas sejam cumpridas, naturalmente numa perspectiva de igualdade soberana entre estes.

    Naturalmente, como referido defensor dessa soberania, não tenho problema em aceitar a ausência de regras de relacionamento internacional. Mas, desse modo, deixa de haver superioridades morais, e depois os países não se podem vir queixar quando as vítimas forem eles.

  4. Caro JLP

    Não é você que defende uma lei qualquer da blogoesfera, da qual não recordo o nome, que diz que invariavelmente ao fim de algum tempo de debate, alguém chama nazi a outrém ?
    Desta vez o JLP atalhou caminho.
    Quem tiver a mais leve simpatia pela personagem em questão fica logo classificado, não é ?
    .

  5. Pingback: blogue atlântico » Blog Archive » O legado de Blair

  6. lucklucky

    Se fosse como João Luís Pinto diz uma parte dos problemas Ingleses teriam acabado. Eu não tenho essa opinião. Blair sempre me pareceu um Poncio Pilatos, sempre me pareceu que Blair fez um acordo tácito de não agressão com a ala burocrata do Labour e dos “Liberal-Democrats” que controla o Civil Service, a Educação o NHS a BBC.

  7. João Luís Pinto

    “Não é você que defende uma lei qualquer da blogoesfera, da qual não recordo o nome, que diz que invariavelmente ao fim de algum tempo de debate, alguém chama nazi a outrém ?”

    😀

    Não vou tão longe até lhe chamar isso, quer em termos de ideologia, quer em termos de objectivos e personalidade. A escolha da imagem foi só motivada por me parecer bem conseguida.

    Além disso, admito que possa haver simpatias em relação a ele. Afinal, não foi de outra maneira que ele lá conseguiu ficar tanto tempo. Também não digo que quem concorde com ele em qualquer coisa é tão mau como ele. É tudo uma questão de prioridades…

  8. João Luís Pinto

    “Se fosse como João Luís Pinto diz uma parte dos problemas Ingleses teriam acabado.”

    Era a isso que me queria referir quando disso que tinha deixado marcas difíceis de reverter… 😉

    A “slippery slope” geralmente é uma “one way street”…

  9. Jose Sarney

    Caro João Luis Pinto,

    Tenho em grande consideração, os “Insurgentes”, apesar de não conhecer pessoalmente nenhum.

    Não sou admirador de Blair. Como não sou admirador de Bush.

    Se vivesse nos EUA, votaria, sempre, GOP, mesmo que fosse para votar em George W. Bush….engoleria um sapo!

    Mas, daí a colocar o “bigodinho” em Blair! For God sake! Blair, fez mais pela Grã-Bretanha e pelo Ocidente, do que Major ou James Calaghan.

    Claro que a Baronesa Margareth Tatcher está em outro patamar……mas acho que Você derrapou e estatelou-se.

    O mundo livre deve muito a Blair, apesar de ele não ser um “menino do coro”. Mas, quem é que é?

  10. João Luís Pinto

    Caro José Sarney,

    Como pode imaginar, o que penso em relação ao Blair empalidece em relação ao que penso em relação ao Bush.

    Se vivesse nos EUA, também votaria, tendencialmente, republicano. Mas não tenho vocação para engolir sapos. Afianço que nas últimas duas eleições teria concerteza votado democrata.

    Uma coisa são idiotas mais ou menos inúteis, rodeados de outros que tais. Outra são idiotas rodeados de gente perigosa.

    Aliás, adianto que a renovação do mandato de Bush me fez perder bastante consideração pelo americano médio.

    Quanto aos méritos de Blair em prol do ocidente, por mim não os senti. Nem de forma directa, nem através da UE, onde se demonstrou sempre como um bom aluno, contradizendo em grande parte o tradicional eurocepticismo britânico, esse sim que eu poderia ter achado útil.

    Antes, senti como estrangeiro ao seu país o contributo para importar para esse ocidente, e concretamente para o palco da Europa, problemas que deveriam ser deixados para resolver aos povos a que dizem respeito.

  11. lucklucky

    Eu poderia dizer que a renovação do mandato de Bush foi o que me fez reforçar a consideração pelo Americano médio.

  12. lucklucky

    ” “It has been a very emotional day,” said Sky News’s Adam Boulton. “I have seen some incredible things today, things I never thought I would see.” What were these incredible things? “I have seen the Blairs’ exercise bicycle removed from Number 10,” groaned the honest fellow; and across Britain one imagined the Sky audience returning their sodden handkerchiefs to their eyes as they were racked with fresh bouts of sobbing. The exercise bicycle! The Prime Ministerial exercise bicycle! Never more to be used in Downing Street again! Woe, woe and thrice woe…Sky News may be treating it like the funeral of Queen Victoria, but I am really feeling quite chipper about the political extinction of Tony Blair. Yes, I was going to say, there are some of us who are bearing up pretty well, on the whole, and there are some of us who can’t think of a better fate for Tony than to be carted off to the Middle East. I was just about to launch into a polemic on these lines, when something happened on the television that caused the words to die on my lips. Suddenly my mood changed; suddenly I felt a sense of desolation and morosity that we had lost Tony Blair, and I can tell you the exact moment when I caught the bug and joined the national mourning. It was the moment Gordon Brown opened his mouth, and, with every word he uttered, the mercury of my mood started to sink and the clouds rolled in…Gordon croaks, “Let the work of change begin”, like some mad professor hunched over a necromantic experiment. What he means is “let the blizzard of legislation continue”, with all the dire consequences that implies for the size of the state and the burden of tax. There will be no change: only an intensification of the rhythm that has criminalised 3,000 courses of human conduct over the past 10 years, a process in which Gordon Brown has been the principal player.”

    http://www.telegraph.co.uk/opinion/main.jhtml?xml=/opinion/2007/06/28/do2801.xml

    via The Corner

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