O descalabro do ensino inglês vai continuar
Falo do ensino inglês porque a Escócia sempre teve total autonomia em matéria de ensino. Tiveram a sorte de escapar da acidentada história da educação na Inglaterra. De facto, esse país de Hume, Adam Smith e a Scottish Enlightenment, desde de há séculos teve um avanço sobre a Inglaterra. Antes do fim do século dezoito, a imensa maioria da população masculina da Escócia já era alfabetizada.
Infelizmente David Cameron, também ele de origem escocesa, ou desconhece ou não aprecia as virtudes dos seus antepassados. Revelou através do seu porta-voz da Educação, em precisamente o mesmo dia em que outro escocês, Gordon Brown se tornou líder do Labour Party, que em matéria de Educação os tories agora estão à esquerda de Tony Blair.
Antes da unificação do ensino secundário inglês ao meio do século passado, havia as chamadas grammar schools, mais ou menos equivalentes aos liceus portugueses ou os lycées franceses. Depois, impulsionado pelos igualitaristas do socialismo, começou o processo de unificação e a pressão central sobre as autarquias locais para acabar com as grammar schools e a instalação das comprehensive schools. Foi o modelo para a unificação do ensino português. Foi também a receita para uma degradação crescente do sistema inglês de educação. Como as autarquias na Inglaterra têm uma larga autonomia, conseguiram em alguns lados que as grammar schools sobrevivessem. Muitas, porém, sucumbiram ao diktat dos socialistas. Durante décadas o Partido Conservador tem tido a restauração das grammar schools num lugar de destaque no seu programa.
Desde os anos sessenta do século passado, dezenas de estudos e, também muita perseguição, tem vindo a demonstrar que o primeiro objectivo da instalação do ensino unificado foi a destruição da classe média inglesa. A história desta atrocidade da engenharia social precisava de mais espaço do que dispõe um simples post. Basta agora chamar atenção ao facto que Tony Blair (produto do ensino escocês) simpatizava em privado com o projecto de restaurar as grammar schools, mas não ousava desafiar a sua ala esquerda. Este facto é significativo por desmascarar a verdadeira face de David Cameron. Abandonou a semana passada uma das mais importantes reivindicações do seu partido para correr atrás dos votos dessa mesma esquerda. É tão mau político que ignorou uma parte importante do seu tradicional eleitorado.
A lógica é típica dos oportunistas. Pensa Cameron e os seus conselheiros de Notting Hill que os tradicionais eleitores tories continuarão fieis e podem ser tratados com desprezo enquanto os tradicionais votantes Labour, serão aliciados pela nova política demagógica dos conservadores. A ver, vamos! Quem está a esfregar as mãos de contente é com certeza outro escocês, Gordon Brown.
PS: A minha insistência na proveniência escocesa de dirigentes políticos ingleses pode ser atribuída à minha costela irlandesa e o meu reconhecimento da superioridade do ensino escocês
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