Distopia Regressiva

Anthem foi o segundo livro de Ayn Rand, publicado em Inglaterra no ano de 1938, depois de Rand não ter conseguido um editor nos EUA (facto que mostra bem o ambiente cultural americano da altura). Colocado entre We The Living (sobre o qual escrevi aqui) e os muito mais conhecidos The Fountainhead e Atlas Shrugged, Anthem tem a característica curiosa de estar, por lapso do editor, no domínio público nos Estados Unidos, que na altura não eram signatários da Convenção de Berna sobre copyrights. Por esta razão, está disponível livremente na internet.

Em termos filosóficos, Anthem é uma espécie de prelúdio às ideias subjacentes aos livros seguintes de Rand. Em termos literários é uma peça muito interessante, tanto ao nível da forma, com uma linguagem que se aproxima de um “poema em prosa”, como na sua singulardade: É a única obra do género – ficção futurista que representa sociedades distópicas – e do periodo – antes de ser conhecida a verdadeira extensão da falência dos sistemas socialistas – onde o futuro é mostrado como uma distopia regressiva, civilizacionalmente decadente, consequência directa das ideias dominantes na sociedade nele descrita. O mais conhecido Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell, escrito dez anos mais tarde, apresenta uma distopia progressiva (um futuro cientificamente avançado); tal como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou Nós, de Ievgueni Zamiatine.

Podemos dizer que a opção de Rand por esta evolução incomum é, em primeiro lugar, visionária e, em segundo, solidamente fundamentada nas ideias por ela defendidas. Estas ideias são, resumidamente, que o mal é impotente e que a criatividade individual é a fonte do progresso da humanidade.

O mal é impotente porque é, pela sua natureza, parasitário. A força do mal só é conseguida à custa da capacidade produtiva do bem e da cooperação forçada de indivíduos inocentes. Contudo, a prazo as pessoas deixam de dar o seu melhor sob coação. Rand não chegou a assistir ao colapso final da União Soviética, mas teria certamente reservado um “I told you so” para quem a criticou, cinquenta anos antes, por “não perceber” como a gestão científica da economia soviética haveria de resolver todos os problemas do mundo.

A criatividade individual é a fonte do progresso da humanidade porque são indivíduos livres e independentes que produzem saltos qualitativos na evolução do conhecimento; saltos esses que permitem a produção de utensílios, produtos e ideias que aumentam o nível de vida e o bem estar das pessoas. Não é nenhum indivíduo em particular que domina todo o conhecimento; todos “bebem” nas ideias uns dos outros para derivar os seus contributos. No entanto, são esses saltos individuais, essencialmente anárquicos na medida em que não seguem nenhum plano, que permitem o progresso; qualquer tentativa de planear centralmente o progresso acaba por secar a criatividade individual, levando a um colapso regressivo.

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2 pensamentos sobre “Distopia Regressiva

  1. Deixa-me só saudar-te por teres trazido aqui essa obra. Foi a segunda que li do espólio de Ayn Rand e a que mais me marcou, acredita. Que se lixe o Francisco, quero lá saber do Galt à mesa dia após dia a falar com o outro meco, pese embora o julgamento do Rearden: o que importa realmente é concluir pela preservação do ego, sob pena de estarmos a desperdiçar a chave da imortalidade.

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