Os sinos dobram por nós

O vazio francês

No próximo Domingo, os franceses vão a votos escolher o novo chefe de Estado. De acordo com as últimas sondagens, a luta será renhida com os indecisos a atingir os 42%. Ninguém arrisca projecções, mas há algumas conclusões que podem ser feitas.

Em primeiro lugar, as eleições francesas demonstraram, uma vez mais, o quanto os políticos daquele país não percebem a realidade que os envolve. Conforme Pedro Magalhães o notou, no Público da última segunda-feira, enquanto a maioria dos franceses se preocupa com a falência da segurança social, o desemprego e degradação contínua da situação económica, os diferentes candidatos explicam as suas posições sobre a imigração e a Europa. É engraçado o quanto esta campanha se tornou numa conversa de surdos. Que algo de errado existe no sistema político francês, não permitindo a quem o governa, acompanhar o passo da sociedade e discute, em 2007, os problemas que deveriam ter sido debatidos em 2002.

É este problema de comunicação que explica o grande número de indecisos. É ele também que nos faz compreender dois outros fenómenos que até agora marcaram esta campanha: A surpresa de Bayrou e a falta de entusiasmo que Ségolène Royal tem provocado. A candidata socialista era a grande esperança da esquerda dita moderna. Uma esquerda que crê numa certa candura aliada a alguns retoques nas políticas sociais, postas em prática desde pós-guerra, como bastantes para travar o declínio. Por seu lado, o centrista Bayrou que, quando liberto da pressão eleitoral, ensaiou algumas verdades, parece falhar por não conseguir explicar como vai exercer o poder a partir do Eliseu sem o apoio de um partido forte na Assembleia Nacional.

Ouvi uma vez o embaixador José Cutileiro considerar a França como um irmão gémeo da América que, ao contrário desta, foi definhando e guardou consigo um rancor que a consome. É fatal como o diabo o quanto esta análise tem de certeira. Nas décadas de 60 e 70 do século passado, os EUA viveram crise atrás de crise que fazem ver os problemas franceses de então e de agora como uma brincadeira de crianças. Foram a luta pelos direitos civis dos negros, o Vietname, o forte défice comercial, a inflação que atingiu os 12%, a teimosia de LBJ, as mentiras de Nixon e as indecisões de Carter. O sistema político norte-americano estava em crise, mas foi ele precisamente que a salvou. Foi quem permitiu o surgimento de novas ideias, que estas fossem discutidas, experimentadas e mantidas. A lógica do New Deal já não era a única resposta e os supply-siders entravam em acção.

A França não viveu nada disto. Foi-se governando com políticas ultrapassadas mas que ainda iludiam num mundo não globalizado. O tamanho do mundo foi-se encurtando, mas a França não encontrou forma de se adaptar. Sarkozy tem sido uma decepção a acenar com um Estado forte para agradar aos eleitores de Le Pen. A falta cumplicidade entre eleitores e candidatos foi marcante nesta campanha. É como uma praça que até pode estar cheia, mas com todos a falar ao mesmo tempo e sempre de assuntos diferentes, onde ninguém se entende e revê. Na França de hoje, a concórdia é um lugar vazio.

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6 thoughts on “Os sinos dobram por nós

  1. Áurea

    André,
    Na França de hoje já não existe mesmo concórdia, só mesmo a Praça!
    Concordo e subscrevo o seu raciocínio em relação a esta temática – tão pertinente e actual – e, cujos resultados eleitorais trarão certamente consequências para a França e não só! A França de hoje em nada se parece com a França do passado, muito devido às suas políticas sociais e de emigração; hoje em dia, debate-se com gravíssimos problemas, difíceis de ultrapassar; só espero que haja bom senso da parte dos políticos franceses, e que esta fase crítica seja debelada com inteligência e a eficácia das boas práticas políticas!
    Abraço cordial e saudações liberais

  2. HO

    “Conforme Pedro Magalhães o notou, no Público da última segunda-feira, enquanto a maioria dos franceses se preocupa com a falência da segurança social, o desemprego e degradação contínua da situação económica, os diferentes candidatos explicam as suas posições sobre a imigração e a Europa.”

    Pois, mas por alguma razão os pollsters não se limitam a fazer sondagens sobre as preocupações das pessoas. Os políticos querem ganhar eleições e falam dos assuntos que podem motivar os eleitores a entregarem-lhes os votos, não dos assuntos que, numa sondagem, estes afirmam ser os que mais os preocupam – foi feita uma aos monegascos, em que, tal como na que o Pedro Magalhães cita, no topo das preocupações estava a… pobreza.

    Não se trata de nenhum autismo dos políticos franceses, eles têm uma percepção bem aguda da realidade que os envolve.

    “Ouvi uma vez o embaixador José Cutileiro considerar a França como um irmão gémeo da América que, ao contrário desta, foi definhando e guardou consigo um rancor que a consome”

    Boa boutade, mas pouco fiel à realidade – excepto na perspectiva de que até dois gémeos podem ser muito diferentes. Há diferenças culturais e históricas – que se reflectem no regime político -, abissais entre os EUA e a França. Até foi um francês o primeiro a perceber isso com clarividência, há século e meio. Os problemas americanos foram conjunturais (embora não tenham ficado nada bem resolvidos…), os franceses já têm muito de estrutural.

  3. António Bastos

    A que francês se refere, HO? A Tocqueville, presumo?
    Quanto às imprevisíveis eleições francesas não me surpreenderia uma enorme subida do Le Pen.

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