Lá em casa, damos pontapés ao aspirador quando ele não arranca

No dia em que é publicada no Diário da República a Lei n.º 16/2007, “Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez”, a Fernanda Câncio não rejubila, está triste. Desgraça! Luto! O seu aspirador morreu; sonha-se no Glória Fácil com um céu para os aspiradores:

o meu aspirador morreu. tinha-o há 17 anos. era uma espécie de pet. na verdade, uma das mais compridas relações da minha vida. estou desfeita. já tem substituto – a minha empregada obrigou-me a comprar outro e a traí-lo, assim, como se isto não fosse nada.

apetece-me pôr o tom waits a cantar ‘broken bycicles, ooooh busted chairs…all those things that we don’t want anymore’ e dar-lhe umas festinhas. devia haver um céu para os aspiradores, também.

e, já agora, uma forma leal e digna de nos desfazermos (terrível, esta palavra) dos electrodomésticos que se estragam. em vez de os pôrmos na rua, à porta, e afastarmo-nos a assobiar para o ar, como quem abandona. às tantas até há um serviço de recolha ou assim. não sei. nunca me tinha morrido um aspirador.

– Fernanda Câncio, blogger e jornalista, a quem desfazer-se (terrível, esta palavra) de um aspirador lhe custa horrores

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16 thoughts on “Lá em casa, damos pontapés ao aspirador quando ele não arranca

  1. RMR

    Mas é que há um céu para os aspiradores – fica mesmo ao lado do céu dessas coisas humanas, os fetos. Quem se desfaz de uns e de outros já sabe, nem precisa virar tanto à esquerda.
    Esse problema do céu está resolvido. Difícil mesmo é encontrar a tal “forma leal e digna” de nos desfazermos dos electrodomésticos. A menos que, à semelhança das coisas humanas, também arranjemos um estabelecimento autorizado para a “interrupção”. Seria mais um problema solucionado por este admirável mundo novo!

  2. Afinal, os seres racionais, frios, calculistas, autónomos e livres, por vezes, não estão em condições de tomar as decisões mais básicas:

    – Desconhecem as alternativas de que dispõem: “às tantas até há um serviço de recolha ou assim. não sei.

    – E têm de recorrer ao aconselhamento de alguém que nem acabou os estudos: “a minha empregada obrigou-me a comprar outro“.

  3. Rodrigo Adão da Fonseca

    Caro AA,
    Cada um defende o que entende, até um céu para os electrodomésticos que nos asseguram a limpeza doméstica. E não serei eu quem irá criticar uma manifestação pública de afecto. Apenas constato que no dia em que é publicada uma lei pela qual a Fernanda Câncio tanto batalhou, ela está triste, porque faleceu o seu aspirador. Fiquei sensibilizado com o dilema quase-moral que é a dificuldade em desfazer-se – palavra horrivel – do seu electrodoméstico, com quem mantinha uma longa – das mais longas – relações da sua vida.

    Lá em casa o aspirador é algo maltratado, ao pontapé. Será que sou um criminoso? Será que o meu aspirador chora à noite os maus tratos que sofre?

  4. Luís

    No que ainda ninguém terá reparado é que a autora deste texto, para além de grande repórter e de comentadora – funções que mistura ao ponto de se confundirem, tornando-se impossível determinar, apenas pela leitura dos textos publicados no jornal onde trabalha, se se trata de uma notícia escrita por uma repórter, um texto de opinião escrito por uma comentadora ou uma notícia escrita por uma comentadora ou ainda um comentário escrito por uma repórter – dizia eu que a Sra. (penso que será Dra., pelo menos em abrev.) também gostaria de ser escritora, e moderna, daquelas que escreve sem maiúsculas e sobre os temas que atormentam a juventude: a esperança de vida cada vez menor dos seus aparelhos eléctricos, desde o aspirador (paz ao seu motor e ao seu saco colector) até à epilady (deve ser uma por mês).
    Ao ler este texto, escrito por quem foi, não consigo de deixar de pensar noutros aspiradores: naqueles que se usam em blocos operatórios de obstetrícia.
    De resto, tenho para mim que o aspirador não terá morrido de morte natural, apesar da sua provecta idade, mas que terá aspirado deliberadamente uma palete de algum sedativo ou de um hipnótico. Ou talvez tenha aspirado acidentalmente, julgando que se tratava de uma tablete de chocolate, uma barra de uma substância ilícita (até ver) que afinal parece não ser completamente inócua, como se pode verificar.
    Cumprimentos,

  5. ok ok vocês são pessoas muito esquisitas, só espero não ter escrito nada de ligeiro lá no meu pasquim…

  6. me

    “Lá em casa o aspirador é algo maltratado, ao pontapé.”
    Caro RAF, só não fico preocupada porque a sua capacidade para usar o pensamento abstracto está, definitivamente, limitada, caso contrário colocaria a hipótese de estar a falar de outra temática… Em todo o caso, sempre lhe digo que não é muito abonatório andar ao pontapé às coisas!!!

    “Ao ler este texto, escrito por quem foi, não consigo de deixar de pensar noutros aspiradores: naqueles que se usam em blocos operatórios de obstetrícia” Deixe-me corrigi-lo, Luís. “(..) que se PASSARÃO a usar SÓ (…)” porque, até agora, eram maioritariamente usados em locais clandestinos, sem condições médicas, e não morriam (os aspiradores)… matavam!!! Os outros, os iguais ao da f., serviam para aspirar os talos de couve que faziam as vezes dos aspiradores, desses que agora vão passar a ser utilizados só nos blocos de obstétricos (bo), mais exactamente nos bo legalmente autorizados.

    Só por curiosidade, Luís, de quantas epiladys necessita por mês?

    Cuprimentos

    AMP

  7. Luís

    Os aspiradores já eram usados, de forma ponderada, de acordo com as restrições impostas pela lei anterior, a qual procurava equilibrar direitos vários.
    Agora vai ser à farta. Com esta lei, o direito ao aborto sobrepõe-se ao direito à vida, sem mais considerações.
    Infelizmente, receio que se continuarão a usar em estabelecimentos não autorizados. Ou está mesmo convencida que o aborto clandestino vai acabar? Parece que acreditou nessa mentira – uma das muitas – da propaganda do Sim!

    É comovente o destaque que dá ao facto de os blocos onde se irá praticar abortos serem “legalmente autorizados”: imagino que concorde com a pena de morte, desde que aplicada em estabelecimentos autorizados, claro.

    Quanto às epiladys: preciso de muitas! Mas esteja descansada: hão-de sobejar várias, todos os meses, para si. A não ser que as compremos os 3 no mesmo estabelecimento.

    Quanto ao aspirador defunto: realmente, só algo destinado a engolir porcaria manteria uma relação de tantos anos com a enlutada.

    Cumprimentos,

  8. Ana

    A enlutada (adorei a expressão) presume que o seu aspirador interessa ao MUNDO, tal como os seus bróculos, as vistas da sua janela, os sapatos predilectos ou o seu pesto. A enlutada perde imenso tempo a procurar demonstrar que não obstante as aparências, em sentido contrário, é muito sofisticada, engraçada, feminina, muito «bcbg». E depois insurge-se (desculpem)com o interesse que a vida privada dela suscita (veja-se o caso da wikipédia).

  9. me

    À fartazana, caríssimo Luís, à fartazana! Até era rapariga para lhe explicar como está enganado, não sera já estar sem pachorra. O assunto entedia-me.

    E com que motivação as mulheres portuguesas recorrerão a estabelecimentos não autorizados? (Ah, é verdade, as gajas gostam de sofrer, foram feitas para isso, e assim…)

    Imagina o Luís que concordo com a pena de morte. Porquê, o Luís concorda? Pergunto porque, se a memória não me falha, lá mais para cima referiu-se à anterior lei como sendo “mais ponderada” aceitando, portanto, o aborto… logo, e usando o seu raciocínio, a pena de morte, certo? O que lhe encanita os nervos é o “por opção da mulher”?

    Já que insiste em falar de aspiradores, de modo pouco razoável de resto, vou partilhar consigo a imagética que se me assomou ao espírito quando li o que escreveu. Imaginei-o, a si ou a quem usa o aspirador em sua casa, a aspirar pétalas de rosas. Que buito!… Ou a leitura deve ser outra e o Luís estava a sugerir que o aspirador defunto aspirava talos de couve? Se assim é está, de certeza absoluta, redondamente enganado! É que até ontem existia um pequeno número de mulheres neste país que não precisavam sujeitar-se aos talos de couve porque, caso necessitassem e assim o decidissem, tinham a possibilidade de fazer um aborto medicamente assistido, seguro e com salvaguarda da sua dignidade e intimidade.

    Continuando nos pequenos electrodomésticos, e já que insiste na epilady, faço votos que fique bem depiladinho, no final de tanta maquineta escavacada. E só mais uma coisinha, antes de acabar em definitivo. Presumo que a terceira pessoa a que se refere seja o seu melhor amigo, não? De qualquer modo não se preocupe comigo, não preciso, depilo-me com cera. Sabe, é mais simpático, a pele fica mais sedosa, consigo depilar zonas mais recônditas do meu ser e, dadas as alterações do folículo piloso que a técnica determina, o pêlo transforma-se em lânugo. São inúmeras as vantagens, acredite, nomeadamente para as pessoas com quem durmo, não picam nem arranham, os meus pêlos.

    Cumprimentos para si também, Luís.
    AMP

    Ps: Menina invejosa, Ana, não?

  10. Luís

    Lamento ter-me envolvido – e tê-la envolvido – numa discussão deste teor.
    Arrependo-me de ter feito comentários de mau gosto sobre f., os quais retiraria de bom grado, à excepção do que diz respeito à confusão repórter/comentadora. f. é livre de escrever o que quer; é livre de prodigalizar o seu afecto às pessoas ou aos objectos que escolher; AMP é livre de ler o que f. escreve; é livre de defender f. das afrontas que lhe são dirigidas.

    Não é por acaso que se chama “fracturantes” a questões como a do aborto. O tema liga-se a convicções profundas, a mundividências. Estas questões podem levar o cidadão mais pacato a cometer excessos – de linguagem e outros – dos quais, de imediato, se arrepende. A AMP, que é, estou convencido, uma cidadã exemplar, seria capaz – temo –, em condições extremas, de me arremessar, digamos, uma epilady à cara, ou até mesmo, num momento de raiva obnubilante, de derramar uma generosa dose de cera depilatória sobre o meu hirsuto couro. E eu, infelizmente, não posso afirmar categoricamente que em circunstância alguma cometeria actos de igual índole.
    A única justificação – mas não desculpa – que cada um de nós teria para semelhantes atitudes é o facto de estarmos ambos irredutivelmente convencidos de que temos razão, e de estarmos ambos de boa fé.

    Dito isto, queria afirmar que, honestamente, nenhum dos seus argumentos (por assim dizer) sobre o aborto me surpreendeu.
    A única coisa que me surpreendeu foi ler escritos por si, AMP – uma acérrima defensora de f. e, tanto quanto posso depreender, das causas de f. – piadas (por assim dizer) de teor homofóbico.

    Cumprimentos,

  11. me

    Não sendo exemplar, como cidadã ou como outra coisa qualquer, felizmente, também não sou histérica nem disfórica, por isso nem com muita raiva lhe daria cabo do coiro.

    Piadas homofóbicas? Deve ser mesmo muito por assim dizer, Luís.

    Cumprimentos
    AMP

  12. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Aspiradores e causas fracturantes

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