Os sinos dobram por nós

A extrema-direita e o Estado social

Na sua coluna no jornal Público de dia 3 de Abril, Rui Tavares afirma que a direita deve ter um discurso anti-racista. Só assim a extrema-direita perderá projecção e força. Infelizmente, a vida e a política não são assim tão simples e lineares.

Por muito que custe aceitar, o fantasma da extrema-direita interessa à esquerda. Qualquer delas: Seja radical ou mais moderada. Interessa ao PS porque, com essas distracções, ganha fôlego para os 6 anos que ainda conta permanecer no governo. Importa ao PC e ao Bloco porque lhes dá assunto para falar e vender. A hipotética ameaça da extrema-direita é também uma bênção para a esquerda, no que ao debate blogosférico diz respeito. Dois anos depois de divagações liberais na internet, uma direita em Portugal retrógrada e conservadora é uma verdadeira tábua de salvação para quem tem andado ausente do debate. Por inúmeras vezes n’O Insurgente fomos acusados de ‘liberais’ de fachada. O liberalismo seria uma máscara semelhante à utilizada por muitos radicais de esquerda. Por trás dela estaria a profunda convicção na força do Estado em fazer cumprir valores.

No que se pode considerar um jogo perigoso, se a extrema-direita interessa a esquerda, também a ameaça. Ao contrário do que quer fazer crer, a esquerda tem um papel fundamental no combate ao racismo, ao nacionalismo político, económico e a todo o discurso de partidos e movimentos ao género do PNR. Ficar na expectativa de pouco lhe serve e ao país de pouco aproveita.

A maioria da direita portuguesa sempre receou tudo quanto fosse estrangeiro. Mas neste ponto não está muito longe da esquerda moderna. Há em ambas um temor nascido de raciocínios erróneos: Se importamos têxteis da China, as fábricas portuguesas fecham; se deixamos entrar produtos indianos, os portugueses vendem menos. Da mesma forma, os imigrantes roubam empregos aos nacionais. Dificilmente são fonte de riqueza, antes sim um estorvo.

Estas conclusões simplistas nascem de um vício bastante marcado: A dependência do Estado. Um Estado que assumiu um poder imenso e que tem de se justificar. Primeiro, foi desenvolvendo o conceito de nação tão caro a uma certa direita. Agora, com a protecção dos direitos sociais tão importantes à esquerda. O que o PNR vem fazer é misturar tudo isto num só discurso. Defender o Estado social, mas só para portugueses, porque eles o pagam. A extrema-direita, ao se sustentar nos benefícios do Estado social (o que uma rápida vista de olhos pela história da Europa confirma não ser um fenómeno novo), é hoje e será cada vez mais no futuro, uma ameaça à esquerda. Por isso mesmo, tendo sucesso, os primeiros votos do PNR virão do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Combater o nacionalismo cabe a todos. Esquerda e direita. Liberais mais socialistas. Mas a dificuldade será muito maior para quem quer manter um Estado social.

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3 thoughts on “Os sinos dobram por nós

  1. Belo esforço, AAA. Talvez esforçado até demais: a ideia de que o fantasma da extrema-direita interessa à esquerda mas ao mesmo tempo é a esquerda que terá mais dificuldade em combater a extrema-direita porque o racismo está de alguma forma ligado à defesa do estado social e que essa defesa nasce do vício da dependência do Estado (com maiúscula) não só merece que você lhe dê uma olhada suplementar em busca de contradições como, se me permite, se aproxima um tudo nadinha da fronteira do sofismo. E isso prejudica as ideias interessantes, não tanto (do meu ponto de vista) as sobre o estado social, mas a parte da anti-globalização e xenofobia. Como é evidente, há aí muito para falar, e é sintomático como o discurso muda À esquerda e à direita conforme se fala de fluxo de capitais ou fluxo de pessoas. É raro (mas não impossível) encontrar uma posição consistente de um lado ou de outro. Contudo, se formos a ser justos com a esquerda e conhecer a sua história para lá dos clichés (e os seus argumentos só ganhariam com isso) seremos forçados a reconhecer que há um discurso do tipo “internacionalista” que os alter-globalistas têm tentado recuperar (por isso aliás a rejeição do termo anti-globalização). Digo eu que nem sou propriamente desse clube, mas isto se a esquerda fosse toda assim tão estúpida como os conservadores acreditam isto tinha pouca graça, não é?

    Pelo contrário, pelo que conheço da esquerda portuguesa o fantasma da extrema-direita só teria interesse se fosse para ir morrer longe, mas as dificuldades em combatê-lo não são particularmente grandes no contexto actual: o discurso está consolidado, os votos por agora também, as fracturas são claras, a tradição é de inimizade e a memória ainda está fresca. O risco que se corre é até de saturação e redundância porque o nosso auditório já sabe isso tudo.

    A direita não deve combater o racismo porque só assim a extrema-direita “perderá projecção e força”. A direita, como a esquerda, deve combater o racismo porque o racismo é anti-democrático, anti-indivíduo, anti-liberdade. Mas se isso não chegar para convencer a direita portuguesa, pensem ao menos que estão em crise e que é no vosso território que os racistas querem caçar…

  2. Rui Tavares,
    O que pretendi dizer foi que a extrema-direita entende que os estrangeiros roubam os benefícios sociais dos portugueses. Assim sendo, e se a falência do Estado social se concretizar – o que acredito venha a suceder-, muitos dos beneficiários do Estado social vão votar PNR. Ora, esses beneficiários, na sua maioria, votam actualmente PS, PC e BE. Logo, são estes os partidos que mais terão a perder com a ascensão da extrema-direita, embora (naquilo que considero um jogo perigoso) utilizem esse perigo para o atirar à cara da direita mais moderada.

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