Pontos de Fuga

O medo da sarjeta

Nos idos tempos de Pedro Santana Lopes no Governo, a nação acordou alvoraçada com a  possibilidade de o Governo criar uma central de comunicação. Coisa diabólica, censura política, lápis azul e coisas que tais, pressurosamente encontradas para adjectivar uma reorganização na forma de contacto do Governo com a comunicação social. E o Governo lá foi apascentado pelos cultores do politicamente correcto, eles sim detentores de lápis azuis, e a central de comunicação acabou por ficar pelo papel.

Ninguém espera, claro, que os cultores do lápis azul, os que verdadeiramente determinam quando é que a nação deve indignar-se, se esqueçam das suas simpatias políticas. Os censores servem para isso mesmo. O que já se esperava é que, 30 anos depois de Abril, os censores do regime disfarçassem melhor, e com maior pudor, ao serviço de quem pululam, permitindo que um véu, pelo menos ténue, lhes cobrisse as intenções.

Dois exemplos recentes demonstram o estado da coisa e desmascaram o Estado metido nela: as profusas declarações de Augusto Santos Silva, censor máximo do jornalismo de sarjeta e o tratamento jornalístico dado às constantes mutações na biografia oficial de José Sócrates.

Que um ministro se arrogue o direito de classificar, com força de lei ou regulamento, com eficácia geral, o que deve ser um (proibido) jornalismo de sarjeta, deveria provocar reacções proporcionais à enorme violação da liberdade de expressão, nas suas várias vertentes, que ali se espreita. Mas parece que não. Tudo calado, com raras – mas tardias, demonstrando que a blogosfera serve afinal para muito – excepções.

O que é o jornalismo de sarjeta? É o jornalismo de que não gosta Augusto Santos Silva. Como sair dessa sarjeta? Agradando a Augusto Santos Silva. Claro como água, azul como o lápis.

Claro que, se a mão que empunhasse o lápis não fosse canhota, ai Jesus que vem aí o Salazar e querem acabar com a liberdade. Mas como a mão que o empunha é a mesma que cerra os punhos, tudo se passa como se nada se passasse, e viva a regulação e viva a qualidade e mais não sei o quê. Já ninguém se lembra da central de comunicação de Santana, claro, nem do cuspo com que a recebeu, tão ocupados que estão no beija-mão oficial às canhotas mãos.

Tudo não passaria de uns maravilhosos parágrafos para enxertar no livro de Santana Lopes não fosse, final, verdade tudo quanto venho escrevendo neste post. Pois que foi em nome do jornalismo de sarjeta que a quase universalidade dos nossos meios de comunicação social se escusou a publicar e investigar um assunto de evidente interesse público.

Não falo de uma falta de licenciatura, não, sem esquecer que a falta da dita serve sempre para atacar e denegrir quem está na política: são os carreiristas e senhores do aparelho. Mas não. Nem disso falo, que nunca fui nessas cantigas. Falo da possibilidade de mentiras, as tais que matam os políticos, sobretudo à direita claro está e da eventualidade de favorecimentos, dos tais que matam os políticos, sobretudo à direita claro está.

Receosos de serem remetidos à sarjeta, quase tudo se calou. E os poucos que falaram, que ousaram colocar o pezinho em rama verde, fizeram-no com um respeitinho tal que nos vieram à memória primeiras páginas sem respeitinho nenhum. Munidos de paninhos quentes, que faltam quase sempre, infelizmente, os corajosos fizeram o que puderam para noticiar sem irritar, publicar sem denegrir, dizer sem contraditar.

E os telefonemas, centralizados ou não, lá se fizeram, claro, com os seus efeitos. Tudo muito normal, evidentemente, que o número foi digitado por mão canhota e é em nome da qualidade e do rigor da profissão e não, como esses diabos do Governo do Santana, que vinham acabar com a liberdade de abrir o bico.

11 pensamentos sobre “Pontos de Fuga

  1. “O que é o jornalismo de sarjeta? É o jornalismo de que não gosta Augusto Santos Silva. Como sair dessa sarjeta? Agradando a Augusto Santos Silva. Claro como água, azul como o lápis.

    Claro que, se a mão que empunhasse o lápis não fosse canhota, ai Jesus que vem aí o Salazar e querem acabar com a liberdade. Mas como a mão que o empunha é a mesma que cerra os punhos, tudo se passa como se nada se passasse, e viva a regulação e viva a qualidade e mais não sei o quê. Já ninguém se lembra da central de comunicação de Santana, claro, nem do cuspo com que a recebeu, tão ocupados que estão no beija-mão oficial às canhotas mãos.”

    Magnífico post. Para ler, reflectir e divulgar.

  2. Cristina Ribeiro

    Lembrando George Orwell,algumas “trapalhadas”são mais iguais do que outras…

  3. invejoso anónimo

    A “clientela” deve estar a ser submetida a uma “avaliação” com o objectivo de serem premiados os “melhores” pelo que ninguém quer estragar o curriculo…
    O que me espanta é a a “auto contenção” das TV´s privadas que só acordaram tardíssimo…
    Percebe-se o porquê.Em portugal TUDO, como no outro tempo , mas de outra forma, depende do poder político que tem o económico…os subsídios e as licenças e outros rebuçados…
    Sociedade livre com este tipo de informação?Mais virada para a propaganda?
    Em segundo lugar quando existe um escândalo deste tipo verifica-se que “os agarrados” são de várias famílias…

  4. O papel dos jornalistas, não só relativamente a esta questão, mas no tratamento dos temas de actualidade em geral é uma questão importantíssima.
    Se não há liberadede, no sentido verdadeiro do termo, onde não há informação; não há democracia onde não há uma opinião pública, verdadeiramente, informada.
    Por isso é que os jornalistas têm a importância de quem faz um contributo fundamental para o vigor da democarcia e do Estado de Direito. São, de facto, o quarto poder – que se dissolve na população que vota dois dos outros três (ficam de fora, apenas, os Tribunais).
    É também por isso que os jornalistas estão adstritos por uma deontologia profissional.
    O cerne da questão parece-me ser: 1. Até que ponto as opções editoriais estão condicionadas, de forma mercantilística, à expectativa de “furos” futuros; 2. Até que ponto as opções editoriais contundem com a independência dos jornalistas; e, por fim, qual é a capacidade de “defesa” dos jornalistas neste contexto.
    Gostava de ouvir jornalistas a fazer uma discussão séria e consequente destas matérias.

  5. Maria Marques

    Excelente post! De facto é muito falada a fraca qualidade dos políticos, mas nunca se fala da igual mediocridade dos nossos jornalistas, sempre prontos a desculparem e justificarem e minimizarem as enormidades que venham de políticos de esquerda, afinal para esses lados ideológicos os fins sempre justificaram os meios.

  6. Clap Clap….
    Ouvi o debate parlamentar sobre o assunto, as denúncias sobre os telefonemas feitos para jormais e TVs com a intenção de calar a Comunicação Social sobre assunto inconvenientes para o governo. Até Sócrates virou telefonista…

    Um autêntico nojo, a resposta de Augusto Silva relegando para as conclusões duma comissão que o PS controla, a “verdade” das não-pressões !

    Sim. Vivemos em ditadura pura e dura. Há quem lhe chame Ditadura de Maioria. Temos a mais perfeita Central de Comunicação governamental desde o 25/Abr.

  7. David Ferreira

    Parabéns. Excelente Post!
    Tenho a certeza que não vivo numa democracia plural já que a comunicação social nunca o foi (desleixo? facilitismo? clientela? cegueira partidária?…)

  8. JP Ribeiro

    Este foi apenas mais um exemplo da doença mental do relativismo moral que afecta a mentalidade dita de esquerda, colocando umas vendas nos olhos sempre que conveniente. Lembro o caso da Mónica Lewinsky na América em que os conservadores foram acusados pelo jornalismo de esquerda dominante, de serem puritanos e se terem intrometido na vida sexual do Presidente Clinton, quando se tratava unicamentede de um caso de perjúrio, facto banal em Portugal, mas gravíssimo para a lei americana. O que passou à história foi o vestido conspurcado da Mónica e não o facto de um presidente ter mentido sob juramento.

  9. Pingback: Cortar a Direito :: O medo da sarjeta - por Adolfo Mesquita Nunes :: April :: 2007

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