Para ter ovos, é preciso pô-los

Sempre interessante a questão hipotética de se existirão “votos liberais“, levantada pelo Adolfo no A Arte da Fuga. Em grande medida, esta dúvida é consequência do conventional wisdom instalado de que:

1) Se os políticos disserem a verdade aos eleitores não ganham eleições;

2) Se os governantes tomarem medidas liberalizantes não são reeleitos; e

3) Os eleitores vivem demasiado alienados dentro de um universo socialista para entenderem o liberalismo.

Como todo o conventional wisdom, estas preposições têm uma parte de verdade. Mas são enganadoras. Creio ser um erro menosprezar o discernimento das pessoas. Um exemplo disso foi a forma como os governos PSD/CDS entre 2002 e 2004 perderam apoio popular tão rapidamente. Por uma lado, muito barulho sobre reformas que acabaram por ser irrelevantes devido ao receio dos governantes em perder as eleições subsequentes; por outro, a “mudança de discurso” de Santana Lopes, pensada como forma de “levantar o astral” antes das eleições, que estariam (teoricamente) a cerca de ano e meio, e que não convenceu ninguém.

É claro que numa sociedade tão corporatizada e cheia de grupos de interesses como a nossa existirão sempre enormes resistências à mudança. Há muitos (ou talvez apenas os suficientes) que estão confortáveis com a situação. Mas à medida que a realidade invariavelmente cair em cima das cabeças dessas pessoas, a sua capacidade de resistir ao inevitável será muito diminuída. Será nessa altura que os outros terão a oportunidade de agir. Se exisitir uma alternativa liberal (de que o JLP dá um bom exemplo) poderão segui-la. Se não existir, seguirão outro caminho. As convulsões sociais são terreno fértil para os ditadores; e seria trágico que a falência (inevitável) do regime social-democrata acabásse num qualquer autoritarismo por falta de comparência dos liberais.

Para termos então os ditos “ovos para omeletes”, é preciso fazer por isso. Quando comentei isto no post do Adolfo, estava apenas “meio a brincar”. A existência de partidos ou outras instituições que difundam ideias liberais é essêncial. O exemplo paradigmático é o Institute of Economic Affairs no Reino Unido, que contribuiu (mesmo) muito para que este país ultrapassasse a mentalidade socialista que quase o arruinou entre a segunda guerra mundial e a eleição de Margaret Thatcher. As recentes recaídas colectivistas do governo britânico só mostram ser esta uma batalha que requer constante alerta…

Outros ovos:  Partido Liberal ou Greve Subversiva, Sobre a emergência de um pensamento liberal, A palavra ao JLP.

3 pensamentos sobre “Para ter ovos, é preciso pô-los

  1. CN

    Acho bem mais importante que se troquem listas concretas de medidas do que na discussão partidária.

    Como a apresentada por JLP ou como as do MLS(Porquê ignorar esta?).

    O que sugiro é assim que nos concentremos numa “lista” que vai crescendo naturalmente e onde com o tempo em cada item se vai detalhando.

    Assim uma espécie de “ongoing project” colaborativo (tipo wiki).

    Pode começar assim simplesmente como uma lista que se vai alimentado. Aliás esta lista pode começar por ser classificada em duas partes.

    1. Aquelas que podem ser implementadas imediatamente no curto prazo porque não implicam alterações profundas da estrutura de receita/despesa:

    ex: desregulamentação, descriminalização disto ou daquilo, descentralização, taxa unica (ou seja, é positivo mesmo que mantenha a receita total porque aumenta transparencia), etc

    2. as outras: tipo cortes substanciais com a despesa e respectiva baixa de impostos (e da taxa unica)

    PS: Tenho de acrescar que se “As convulsões sociais são terreno fértil para os ditadores” as guerras são o caminho certo.

    Tudo começou com a “WWI”, não esquecer, todo o século 20 (comunismo, nazismo, WWII, fascismo, guerra fria) saiu dessa guerra total entre cristãos.

  2. “Como a apresentada por JLP ou como as do MLS(Porquê ignorar esta?).”

    O CN conhece algum programa político, alguma visão do futuro, no MLS, que não seja a embarcar na “causa fracturante da moda” ou comunicados feitos em resposta ao “assunto da ordem do dia”?

    Eu não.

    “O que sugiro é assim que nos concentremos numa “lista” que vai crescendo naturalmente e onde com o tempo em cada item se vai detalhando.

    Assim uma espécie de “ongoing project” colaborativo (tipo wiki).”

    Para mim, esse também é em grande parte o caminho. Compartilho da ideia da “wikização” do programa político, ideia que também vou acalentando há algum tempo.

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