DESMISTIFICAR A LONGA NOITE

SALAZAR E A POLÍTICA EXTERNA (2)

Uma discussão franca do papel de Salazar na história de Portugal fica sempre dificultada pela atitude maniqueísta dos anti-salazaristas de serviço. Como a governação de Salazar era, para eles, o epítome do mal, é natural que quem não aceita esta atitude terá que ser um salazarista. E, corolário, quem aprova o anticomunismo de Salazar tem forçosamente de ser um obcecado com o comunismo. Como se o anticomunismo fosse irracional. Em vez do contrário.

Na discussão entre os comentaristas dos meus textos sobre aspectos do Salazarismo, além do maniqueísmo manifestado, houve vários erros que julgo conveniente corrigir. Por agora, eis três deles.

Desconhecimento da História

O comentarista Ricardo, falando da Guerra de Espanha e as intervenções estrangeiras nesse conflito diz: ‘os governos sociais-democratas de Paris e Londres ignoraram todos os apelos de Moscovo para reunir uma frente contra os intentos e ameaças de expansionismo alemãs.’ Este Ricardo falou muito da ignorância dos outros intervenientes na discussão mas é ele quem diz diversas barbaridades quanto aos factos. Na altura não havia nenhum governo social-democrata em Londres mas sim o governo conservador de Stanley Baldwin.

O R. tem uma visão ultrapassada e algo peculiar dos motivos bonitos da URSS em assinar o famigerado pacto. ‘O Pacto Germano-Soviético foi, reconhecido pelos historiadores, uma táctica de Moscovo (para) ganhar tempo e criar uma cortina de protecção de um pais e dum povo internacionalista, que recuperava lentamente da destruição da Guerra Civil.’ (O R. está presumivelmente a referir a Guerra Civil na Rússia dos anos 20). Quanto aos historiadores, estará a referir com certeza a Álvaro Cunhal, que, apesar da censura, conseguiu escrever sobre o assunto. (Ver a biografia de Pacheco Pereira.)

Quando os soviéticos em plena vigência do Pacto, e aproveitando-se dele, mataram a sangue frio em Maio de 1940 uns 40,000 polacos, incluindo mulheres e crianças na região de Katyn, estavam a criar uma linda cortina. E quando no próprio Katyn mataram com tiro na nuca muitos milhares de oficiais polacos estavam a continuar esse trabalho. Esta matança, conhecida há muitas décadas, foi sempre negada pela URSS que atribuía o crime aos nazistas. Mas, agora, nos anos noventa, com o processo de abertura de alguns ficheiros secretos, os russos viram-se obrigados a confessar e finalmente ilibar os nazis.

O que se seguiu à assinatura do pacto, que já estava a ser negociado antes da guerra começar, foi exactamente o que desejava a URSS: o avanço de Hitler contra as democracias ocidentais cuja declaração de guerra foi provocada pela invasão alemã da Polónia.

As intenções de Hitler

A interpretação que faz o Ricardo e outros sobre as intenções de Hitler é também caricata. E mais uma vez mostra ignorância da história. Para Hitler o primeiro inimigo a destruir foi a Grã Bretanha cuja ‘decadente democracia’ lhe parecia um alvo mais fácil do que a URSS. O Pacto foi negociado por Hitler para salvaguardar a sua retaguarda enquanto procedia à destruição da Grã Bretanha, o centro do Império Britânico, que possuía a mais poderosa marinha de guerra da história. Apostou tão forte que arriscou e perdeu o seu poder aéreo. Na famosa Battle of Britain a maior parte dos aviões, caças e bombardeiros, alemães fora destruída. E os alemães foram obrigados a abandonar o objectivo de conquistar as ilhas britânicas. O argumento sobre as matérias primas é absurda. O objectivo dos alemães era precisamente ter acesso às riquezas do seu vasto império e a neutralização da marinha inimiga.

Evidentemente nunca iremos saber exactamente o que os nazis projectaram para depois da desejada vitória sobre o Reino Unido. Mas é extremamente provável que se isto tivesse acontecido os alemães não tinham deixado de adquirir o controlo de toda a costa atlântica da Europa (incluindo a portuguesa) para que os seus submarinos tivessem portos abrigo donde podiam dominar todo o tráfico marítimo. E também a entrada para o Mediterrâneo pelo estreito da Gibraltar.

O que não foi destruído, porque não foi utilizado, foi o imenso exército alemão.

Salazar na corda bamba

Nos anos trinta Salazar mostrou ter um conhecimento apurado dos problemas internacionais e da vulnerabilidade de Portugal. Tentar desvalorizar os perigos que o país enfrentava com um olhar retroactivo é uma atitude pouco inteligente. Ninguém podia adivinhar a) que a RAF, com efectivos aéreos inferiores aos dos Nazis, iria ganhar nos céus, destruir uma grande parte dos aviões alemães e obrigar Hitler a abandonar o seu projecto de invadir a Inglaterra. Ou b) que Hitler, derrotado nessa tentativa, iria cometer o mesmo erro que Napoleão e invadir a URSS.

Quem estava em contacto com os meios diplomáticos portugueses em 1939-41, ou tenha consultado o Livro Branco sobe a politica externa portuguesa, sabe quão profundas eram as preocupações e as incertezas dessa altura. Salazar não dormia. Estava perfeitamente ciente do facto que havia entre os seus principais apoiantes internos duas facções poderosas: os anglófilos e os germanófilos. Desde a sua ascensão ao poder, com o duplo objectivo de preservar a unidade contra os saudosos da república jacobina e de não provocar nenhuma das grandes potências, Salazar tentou conciliar onde era possível conciliar. Liquidou o movimento, esse realmente fascista, de Rolão Preto. Fez-se amigo de Franco. Fez tudo ao nível diplomático para reforçar a aliança com os britânicos. Não tinha ilusões quanto à perfídia de alguns destes. É certamente provável que os alemães que andaram muito activos na promoção da sua causa em Lisboa, não deixaram de informar o governo de Salazar da oferta de Chamberlain das colónias portuguesas em troca de garantias de paz, facto tornado público só muito mais tarde com a abertura dos documentos do Public Records Office em Londres.

O mundo era realmente muito perigoso para Portugal. Quem hoje nega isso não sabe do que está a falar. Devia era passar uma temporada na Biblioteca Nacional e consultar os documentos.

4 pensamentos sobre “DESMISTIFICAR A LONGA NOITE

  1. António Bastos

    Portugal tem uma enorme dívida para com Salazar que soube aguentar-se na “corda bamba” e evitar que fossemos sugados pelos acontecimentos. O “Pacto Ibérico” é uma obra-prima da diplomacia que não deverá nunca ser menosprezado e cujo papel nesse aguentar-se na “corda bamba” foi fulcral.
    Quanto ao Pacto Germano-soviético nada como ler a obra, já aqui referida pela Patrícia, “The lost literature of socialism” e “Le passé d’une illusion” para compreender plenamente o contexto e tudo o que estava em jogo. Obrigado, Patrícia, por mais um excelente texto. Não se atreva a desistir!

  2. Mais um magnífico texto.

    É pena que alguns estejam tão cegos pela propaganda da extrema-esquerda que não compreendam o óbvio. Mas fica o esclarecimento inequívoco para todos os restantes e, especialmente para os mais jovens, que infelizmente são sujeitos à verdadeira lavagem cerebral que é a propaganda da “longa noite fascista”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.