DESMISTIFICAR A ‘LONGA NOITE’

SALAZAR E A POLÍTICA EXTERNA (1)
Porque se irritam os comunistas?

Nada mais irrita os comunistas como a desmistificação da política externa de Salazar. É compreensível! Uma grande parte da demonização do Salazarismo depende do mito, repetido ad nauseam que ele era pró-nazi e favoreceu os alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Este junta-se a outro mito, querido dos comunistas e outros revisionistas, que Hitler nunca teve a intenção de prosseguir a guerra no ocidente e que a URSS foi sempre o alvo principal. O objectivo deste mito, da parte dos comunistas portugueses, é duplo: 1º, diminuir o significado do Pacto Germano-Soviético e fazer esquecer a sua defesa por Álvaro Cunhal; 2º eliminar o papel de Salazar na preservação da paz na Península.

Em Portugal não são só os comunistas encartados que engoliam a historiografia soviética mas também a esquerda em geral, e também alguns não-alinhados. Este fenómeno pode ser, com justeza, atribuído à falta de liberdade de expressão durante a ditadura. (Hoje já não há desculpa.)

Para melhor entender como uma boa avaliação da política internacional fora sempre prejudicada pela falta de liberdade, convém, antes de falarmos sobre os anos 30 e 40, lembrar o que se passou nos anos 1956-57. E isto porque é nestes anos que encontramos dois exemplos paradigmáticos.

O relatório Khruchtchev sobre os crimes de Estaline
1. Depois da publicação no ocidente deste relatório, apesar das desesperadas manobras dos dirigentes comunistas em todos os países, alegando que se tratava de uma invenção da CIA, tornou-se rapidamente óbvio no mundo livre que o documento era autêntico. Seguiu a conhecida debandada de uma grande parte dos efectivos dos partidos comunistas ocidentais. Estes nunca mais recuperaram a sua influência quase hegemónica nos meios intelectuais, embora tivemos que esperar para a queda do sistema soviético para o desmascaramento total do que Mário Soares, num momento de lucidez, chamou ‘o maior embuste do século XX’.

A revolução húngara
Uma consequência directa das revelações de Khruchtchev foi a revolta de Hungria que só terminou quando os tanques soviéticos entraram em Budapeste e esmagaram os revoltosos, causando muitas perdas de vidas e bens e 200 000 refugiados que fugiram para o ocidente onde quase todos sabiam que os revoltosos húngaros não estavam interessados em restabelecer o capitalismo. Eram na maior parte simpatizantes do socialismo democrático, vulgo social-democracia. Por isso eram apoiados pelos partidos socialistas e social-democratas no ocidente

As repercussões em Portugal
Em Portugal o entendimento era outro. Em geral o regime de modo pouco subtil pegava com entusiasmo em qualquer notícia que parecesse prejudicial para o comunismo. Os anti-salazaristas também não se distinguiam pela subtileza. Assim, a publicação de excertos do relatório era mais que prova para eles que esta fazia parte de uma conspiração fascista. E quando foram encorajadas manifestações de rua em Lisboa em apoio dos revoltosos húngaros lá estava outro prova. De facto, para a Igreja Católica a libertação pelos rebeldes do Cardeal Joszef Mindszenty, (condenado à prisão perpétua pelos comunistas) era um sinal positivo que ela não podia deixar de apoiar. Para a oposição anti-salazarista as manifestações eram mais um perigoso sinal da natureza fascista da revolta dos húngaros. Não tinha Salazar sempre apoiado o fascismo húngaro? Lá estava o exilado Almirante Horthy, acolhido por Salazar desde 1945.

Não se admira que nestas condições esses acontecimentos de 1956-57 não tiveram em Portugal o mesmo significado que em outros países. O PCP não sofreu. A ‘unidade antifascista’ continuou o seu caminho periclitante e foi só o aparecimento do General Humberto Delgado na cena que ameaçou ter um efeito fracturante. Mas essa é outra história. O que interessa aqui é a demonstração do modo que a falta de liberdade de expressão, e por conseguinte a falta de debate, sempre prejudicou o bom entendimento do que se passava no mundo além fronteiras. Durante décadas os anti-salazaristas, mesmo quando se encontravam no estrangeiro, acreditavam piamente na versão que o PCP contava. Tal como ainda hoje acreditam na versão cunhalista do que foi o começo da Segunda Guerra Mundial
(Continua amanhã.)

4 pensamentos sobre “DESMISTIFICAR A ‘LONGA NOITE’

  1. CN

    ” Hitler nunca teve a intenção de prosseguir a guerra no ocidente e que a URSS foi sempre o alvo principal. O objectivo deste mito, da parte dos comunistas portugueses, é duplo: 1º, diminuir o significado do Pacto Germano-Soviético ”

    Não é bem assim, não sabemos é com toda a certeza se tinha ou não, porque foi a França e Inglaterra a declarar guerra à Alemanha e não o contrário.

    E o motivo foi a Polónia. A Polónia, que vamos recordar (o antes, tenho a certeza que muito pouco gente sequer sabe disso), tal como a Hungria, foram buscar território checo-eslováquio no acordo de Munique (Chamberlain).

    Quanto ao acordo de Estaline, até o podemos ver como algo racional.

    A parte da Polónia que invadiu na sequência do acordo, foi uma parte que a Polónia tinha conseguido retirar à Ucrânia no conflito com a URSS nos anos 20. Isso e as constantes hesitações em os ingleses e franceses em chegarem a acordo com Estaline. Atrasaram-se e Estaline receava uma frente comum.

    Depois da declaração de guerra e da invasão a oetes, sabemos que foi Goering que insistiu em tentar vencer primeiro a Inglaterra antes de ir para Leste. Depois Hitler desistiu (a aviação não estava preparada, apesar de Churchill ter vendido números e realidades inflaccionadas durantes os anos 30 como o antes o tinha feito com entusiasmo e falsidade antes da Primeira Guerra quanto ao poderio naval) e invadiu a URSS.

    A tese de que era bem possível que Hitler se tivesse virado a Leste, invadido a URSS, e pelo caminho ambos os regimes e destruissem ou ficassem debilitados para depois, uma intervenção aliada, é razoável. Fica no domínio das hipóteses mas é uma hipótese.

    Sabemos sim o que se passou.

    Estaline que matou muito mais gente (uns bosn Milhões) que o regime Nazi até à invasão da Polónia (umas centenas?), foi feito aliado e acabou a ganhar o mundo, com Roosevetl a tratá-lo como “Uncle Joe” e a dar-lhe tudo (uma vitória total não negociada sobre a Alemanha, causa directa do avanço Soviético), por causa do sonho da ONU.

    Se conseguem ver nisto alguma vitória e honra…

    PS: é sempre bom ver pró-americanos a destilar desprezo pelo “American First” (sim, comunistas a “isolacionistas revisoinistas” é tudo a mesma coisa…) e a tradição neutral e de prudência que constitui o mais originário espírito americano. Afinal, dado o resultado da guerra, estes tiveram toda a razão, mas quem foi o responsável por tamanho desastre fica com os louros não se sabe bem de quê.

  2. Nunca disse que salazar era pro-hitler. Mas a sua politica externa deve ser criticada, uma vez que era uma politica externa que nunca se adaptou às mudanças de circunstancias que ocorreram no mundo. Foi preciso uma revolução até que se pensasse em dar as independencia às colónias, algo que a Europa começou a fazer bem mais cedo.

  3. Esta mania de diabolizar os comunistas sempre que se fala de Salazar tem óbvia e manifestamente tradição em Portugal. Data do tempo de Salazar.

    PS- Nunca fui, não sou comunista. Nunca simpatizei com o PCP (nem com nenhum dos seus satélites).

  4. Nicolau da Romênia

    Os mais miseraveis países do mundo são os comunistas: China, Coreia do Norte,Vietnã, Laos, Cuba, Angola e Moçambique! Os mais ricos são os “capitalistas” USA,Inglaterra,Japão,Alemanha,Suiça,Austria,França e outros do Ocidente onde trabalham milhares de portugueses, até idiotas comunistas e socialistas!

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