I beg to differ

A propósito de uma recente declaração do economista-chefe da OCDE (que recomendava que o BCE, o FED e o BoJ não aumentassem mais as taxas de juro), Henrique Burnay [HB] acusa o BCE de ser pelo “seu modelo de governação e actuação (…) uma poderosa arma no empobrecimento da UE“.

Ainda que algumas criticas possam ser feitas ao BCE (e, já agora, ao sistema de bancos centrais) confesso não perceber a razão das criticas da HB. Ainda para mais quando pretende imputar ao BCE um papel principal no (relativo) empobrecimento da UE.

Aproveito para recordar o Economic survey of the Euro Area 2007 publicado pela OCDE a 04/01/07.

No capitulo 2 (“Monetary Policy”) aponta o papel positivo que a política do BCE teve na contenção das pressões inflacionistas durante o ano de 2006.

Afirma, inclusivamente que a união monetária trouxe vantagens para países como Portugal: “The single currency has undoubtedly brought benefits. It has two basic aims: to deliver price stability and to foster economic integration. On the first goal it has been a clear success, especially for those countries which had a history of high inflation and erratic monetary policy. Inflation has been stable and inflation expectations have remained well anchored despite the large energy price shocks.”

Quanto aos problemas que obstam a um crescimento sustentado: o relatório afirma que: “A self-sustaining recovery will also depend on the willingness of euro area countries to pursue supply-enhancing structural reforms, especially those focused on boosting labour participation, competition and innovation. These are needed to address the euro area’s Achilles heel: slow potential growth.”

Relativamente aos problemas decorrentes da política monetária poder não ser a mais ajustada para todos os países, a OCDE “aponta o dedo” não ao BCE mas sim, mais uma vez, à falta de reformas que flexibilizem os mercados.

Voltando à notícial inicial que motivou o post de HB, penso que a critica de Jean-Philippe Cotis será mais conjuntural que estrutural. Na sua opinião estará debelada a ameaça inflacionista pelo que não existem razões para o BCE aumentar mais as taxas directoras.

Quanto ao modelo de governção, também criticado pelo HB, apesar do BCE não ser completamente independente (afinal o seu presidente é nomeado por políticos) penso que o sucesso do BCE tem sido, precisamente, ter-se mantido indiferente às pressões dos políticos que pretendem que a recuperação económica ou que a competitividade das empresas europeias se faça à custa de políticas inflacionistas e depreciações da moeda que têm provado apenas terem resultados (discutiveis) no curto-prazo.

Julgo ser lícito sustentar dúvidas quanto ao nível actual das taxas de juro, no entanto culpar a actuação e o modelo de governação do BCE pelo “empobrecimento” da UE parece-me absolutamente errado.

0 pensamentos sobre “I beg to differ

  1. lucklucky

    A única critica que eu faço é precisamente á não democraticidade do cargo. Sim traria problemas mas também traria educação económica.

  2. Não vejo de onde viria a “educação económica”. A não ser, talvez, quando os políticos vissem o desastre que trariam as suas “receitas”. O pior é que pagariamos bem caro por isso e a experiência de intervencionismos passados não revelou ter ensinado grande coisa.

    O presidente e os directores são nomeados pelos estados-membros da Zona Euro pelo que não percebo as criticas quanto à democraticidade.

  3. I Beg to insist, mais ou menos.
    Pedro, por um lado, insisto, no que disse, na medida em que acho que a tese de que os bancos centrais devem ser umas entidades clean, sem a mácula do político, me parece um erro. Não acredito nem aprecio essa tese. Depois, e é por aí que ía, acho que no último ano e meio, mais coisa menos coisa, o BCE tem mostrado que tem de economia um entendimento curto e o resultado são estas taxas que me parecem promover o empobrecimento, quando fazia falta investir, arriscar e, sobretudo, distinguir uma inflação que resulta de aceleração económica e uma que tem uma enorme componente “importada por via energética”. De resto, não, não sou contra o euro. No fundo acho que a alguns de nós nos disciplinou. Mas se fosse britânico ficava como estava.

  4. lucklucky

    Sim é precisamente isso. Os povos só aprendem quando são responsáveis.
    Durante alguns anos os Bancos Centrais escaparão mas mais tarde ao mais cedo o seu afastamento da política vai erodir as suas capacidades.

    *-Respeitante ao Euro :Outro dos problemas do Euro além de nos impedir o Comércio Livre com o resto do mundo foi de não nos ter avisado das asneiras de Guterres & Co. Resumindo a moeda deve ser uma imagem fiel da economia de um país para termos um feedback verdadeiro do nossa situação. O Euro mascara o estado da nossa economia e dá um informação errada a todo o mercado (neste contexto mercado=população). A OTA e o TGV só existem porque estamos no Euro.

    Nota* :também escrito no Blasfémias com algumas modificações.

  5. Por partes.

    1. Em primeiro lugar, quem é o Pedro?
    2. A indepedência dos Bancos Centrais é uma tentativa de isolar as decisões das autoridades monetárias dos ciclos politico-eleitorais (como a sucessivas tentativas francesas de intromissão são um exemplo gritante)
    3. O relatório da OCDE aponta aqueles que são as verdadeiras causas do atraso europeu. A política fiscal, a despesa pública, a sobre-regulação e as leis laborais. Eu acrescento o proteccionismo. Nada de novo poder-se-à dizer. Dezenas de relatório e especialistas apontam as mesmas causas. Os políticos europeus têm preferido evitar enfrantar estes problemas (que lhes lhes custarão votos) e preferem apontar a culpa a terceiros (como ao BCE) ou criar agendas mirificas.
    4. A taxa de juro (assim como outras variáveis macroeconomicas) não pode ser vista como um instrumento independente sobre o qual se pode agir de forma impune. Temos que ter em contas outras variáveis. A OCDE até dá uma boa pontuação ao BCE nesse campo.
    5. A inflação e um nível anormalmente baixo da taxa de juro distorcem as decisões de investimento. O resultado costuma ser uma recessão. Saimos agora de uma e não convém que tenhamos outra tão cedo.
    6. Se Portugal adoptasse políticas mais “ajuizadas” ao nível monetário e orçamental provavelmente também poderia passar sem o Euro. O problema é que poucos são os políticos portugueses capazes de justificar decisões difíceis sem a “muleta” da imposição externa.

  6. “Respeitante ao Euro :Outro dos problemas do Euro além de nos impedir o Comércio Livre com o resto do mundo foi de não nos ter avisado das asneiras de Guterres & Co.”

    Não é o Euro que impede o comércio livre. São as barreiras técnicas e alfandegárias e algumas “políticas comuns” da UE.

    Apesar de algumas limitações, a política orçamental continua a ser decidida por cada governo. O PEC só impõe limites ao endimendamente público e ao défice orçamental. Nada nos diz sobre o peso do estado na economia ou sobre as decisões de investimento.

  7. HO

    “Pedro, por um lado, insisto, no que disse, na medida em que acho que a tese de que os bancos centrais devem ser umas entidades clean, sem a mácula do político, me parece um erro.”

    Os bancos centrais não estão fora da órbitra do político – os directores são nomeados e demitidos por políticos eleitos. Não estão é maculados pelo democratismo, logo são imunes ao populismo e às conveniências eleitorais. Nada de novo: a delegação de poderes em instituições independentes, elementos não-democráticos, é uma característica das democracias liberais. Como bem aponta o Miguel, se há algo que tem corrido bem na Europa é política monetária. E também me parece demasiado arriscado assumir, neste momento, que não existe um perigo inflaccionista. E o investimento não está propriamente inanimado… Às vezes as pessoas esquecem as diferenças de perfomance a médio-prazo entre os países com bancos centrais independentes e aqueles em que estes são um braço do governo…

    Espero que não haja marcha-atrás possível na governação dos bancos centrais. Deveria era ir-se mais longe. O actual PR sugeriu, há uns anos, que a política fiscal deveria seguir o mesmo caminho – entregando a definição das linhas mestras orçamentais a uma comissão independente. Não a deveria ter deixado cair…

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