CENSURA DE LIVROS E FASCISMO

Um esclarecimento para quem desconhece a história da censura

A discussão sobre as características do regime salazarista parece estar viciada desde o princípio—pelo fanatismo e pela ignorância dos anti-salazaristas primários. Entre os comentários sobre os meus apontamentos recentes houve objecções à minha afirmação de que não havia censura prévia aos livros no Estado Novo. Eu mencionei esse facto precisamente porque era hábito na Oposição acusar o regime de censurar os livros— não foi por eu considerar que a censura aos livros seja uma característica do fascismo. Nem o é a censura de filmes, de teatro ou de TV. Ou então tinhamos que classificar os EUA, o Reino Unido e tantos outros países democráticos como fascistas.

Resolvi descrever exactamente o que se passava, nomeadamente a apreensão pós-publicação de livros no Estado Novo.

Se quiserem consultar qualquer boa enciclopédia, irão constatar que no Reino Unido, até muito recentemente, o Lord Chamberlain’s Office era muito activo e nenhuma peça de teatro podia aparecer no palco sem a sua autorização prévia – e várias foram as obras censuradas ou proibidas.

Os livros também. Até o famoso julgamento em 1960 do livro de D.H. Lawrence, Lady Chatterley’s Lover, muitos foram os livros censurados, proibidos e apreendidos. Caso famigerado foi o de Ulisses de James Joyce. O Reino Unido não figura normalmente entre os países fascistas. O Estado Novo, em comparação com o RU, até não era tão severo nesse campo como o país da Magna Carta.

Ulísses também foi proibida em vários estados dos EUA. Até tempos muito recentes havia em Hollywood o famigerado Hay’s Office que censurava, cortava ou simplesmente proibia muitos filmes.

Conclusão: medidas anti-liberais que eu e todos os insurgentes condenam, não servem para classificar um regime como fascista.

Evidentemente, se formos falar da União Soviética o caso é um pouco diferente, não porque se trata de um regime comunista, mas porque lá não era só censurar livros, mas também de prender, torturar e matar escritores. Como também tem feito Fidel Castro em Cuba e outros monstros do comunismo.

Para alguns, esta discussão sobre Salazar e o Estado Novo pode parecer ultrapassada. Mas se formos ver o estado de espírito de certo comentaristas, parece que ainda precisam de muito esclarecimento.

28 pensamentos sobre “CENSURA DE LIVROS E FASCISMO

  1. Cristina Ribeiro

    Patrícia,está a prestar um muito bom serviço ao informar-nos acerca de aspectos desconhecidos de muitos de nós,desconstruindo muitos dos mitos com que encheram a cabeça dos portugueses.
    Como bem diz,são medidas que vão contra a liberdade,mas daí a demonizá-las,DO MODO COMO TEM SIDO FEITO,vai uma grande distãncia.
    Só quem estiver de má-fé é que vê neste esforço de clarificação uma “tentativa de branqueamento,até porque não se está a escamotear o seu carácter autoritário,iliberal,portanto.

  2. Fernando S

    “Conclusão: medidas anti-liberais que eu e todos os insurgentes condenam, não servem para classificar um regime como fascista.”

    Os pontos nos is ! Excelente !

    Mas não tenhamos ilusões : nem este esclarecimento exemplar vai mudar a atitude dos tais “anti-salazaristas primarios” !!

    Claro que esta discussão não esta ultrapassada. A desmistificação de certas versões propagandisticas da historica é indispensavel a uma adequada compreensão do mundo em que vivemos.

    Mas mesmo que não fosse : a invocação e a analise do passado não é, não deve ser, um privilégio e um exclusivo dos “historicamente correctos” !!

  3. É preciso ver que enquanto aqui falamos e nos congratulamos pela lucidez da Patricia, lá fora o tempo escoa como se nada fosse e, enfim, the abyss still beckons. A luta tem que transcender as palavras.

  4. Concordo um pouco com a ultima frase do artigo. Existem mentes a precisar de esclarecimento. Uma delas é a autora do artigo. Está a precisar de muito esclarecimento.

  5. chiça penico

    Patrícia Lança,não gaste cêra com ruins defuntos.A petulância pateta e oca de certos comentários não merece a sua disponibilidade para reduzir a ignorância e vacuidade de quem os debita.

  6. Esta mania desta senhora de ir constantemente buscar a URSS (eu, por sinal, nunca repito nunca volto a repetir nunca fui PCP) mostra bem que vive de fantasmas.

    Para esta senhora, toda a gente que não tenha a sua perspectiva sobre o salazarismo é comuna. Coisa em que, sintomaticamente, é muito semelhante à visão do regime do Botas.

  7. Fernando S

    “Esta senhora” faz muito bem em falar na URSS e na ideologia comunista a propósito do salazarismo.

    Quanto mais não fosse, pela simples razão de que foi a União Soviética que lançou e alimentou em grande parte a ideologia do “anti-fascismo”. Que consistiu em atribuir a qualidade “fascista” a todos os movimentos políticos e regimes que fossem um obstáculo à sua estratégia de conquista e dominação assente em frentes unitárias dominadas politicamente ou condicionadas ideologicamente pelos PCs e outras organizações satélites. Mesmo, e sobretudo, após a 2ª guerra mundial e a derrota definitiva do nacional socialismo e dos seus aliados fascistas. Na versão soviética dos “fascistas” estavam naturalmente incluídos todos os regimes autoritários de direita, como foi o salazarismo, que ilegalizaram e perseguiram sem tréguas os comunistas. Mas o termo “fascista” foi (e é) igualmente utilizado para classificar forças liberais e democráticas que pura e simplesmente não aceitavam e combatiam com firmeza a ideologia e a política soviéticas. De resto, já numa fase anterior, a União Soviética tinha instrumentalizado o termo para procurar atacar os sociais-democratas, designados “sociais-fascistas”, que se opunham ao nazismo e aos fascismos numa altura em que Staline se entendia com Hitler para a partilha da Polónia e da Europa de Leste (política que se traduziu em 1939 por um pacto germano soviético que apenas foi rompido em Junho de 1941 quando Hitler decidiu invadir a União Soviética). O que é espantoso, e difícil de compreender, é que mesmo uma parte significativa da esquerda moderada (sociais democratas e socialistas) e uma parte da direita (cristãos democratas, centristas, radicais, etc … e até alguns liberais), acabaram por aceitar e integrar a ideologia “anti-fascista” nos respectivos discursos políticos e ideológicos (sobre este aspecto das história das ideologias contemporâneas, ver por exemplo a explicação apresentada por François Furet no livro “Le passé d’une illusion. Essai sur l’idée communiste au XXéme siècle).

    Esta ideologia serviu igualmente para a União Soviética tentar esconder e escamotear a total ausência de democracia e liberdades e a repressão violenta de todo o tipo de opositores (e não apenas), no interior do seu território, nos países em que impôs pela força as “democracias populares”, e na acção dos partidos e movimentos por ela controlados no resto do mundo. Esta repressão e esta violência atingiram níveis que apenas são comparáveis com o que fizeram os nazis e alguns dos movimentos fascistas mais radicais. Globalmente muito pior do que foi feito pela esmagadora maioria das ditaduras de direita do século XX. Incluindo o próprio fascismo italiano de Mussolini (pelo menos até à sua última fase, a da República de Saló).

  8. “O Reino Unido não figura normalmente entre os países fascistas. O Estado Novo, em comparação com o RU, até não era tão severo nesse campo como o país da Magna Carta.”

    Isto só pode ser para rir.

    Já agora, onde era o Speaker’s Corner no Estado Novo?

  9. Fernando S

    “Pois claro, faz muito bem, assim nunca passamos de uma discussão que não interessa a ninguém.”

    Então, simples curiosidade, qual é a discussão que interessa … desde logo a si, supostamente a todos para além da Patricia Lança e de alguns poucos (como eu, claro) “anti-comunas primarios e anacronicos” ??!!

  10. Satisfazendo excepcionalmente uma curiosidade que não me parece genuina:

    O que se está aqui a abordar é o regime salazarista.

    Para se condenar esse regime, não é (repito NÃO É e volto a repetir NÃO É) preciso ser-se defensor do comunismo soviético ou cubano.

    Até parece que isto é difícil de compreender. Talvez uma simples leitura de textos de Francisco Sá Carneiro, um perigoso esquerdistta radical, ajude.

  11. Ricardo

    «De resto, já numa fase anterior, a União Soviética tinha instrumentalizado o termo para procurar atacar os sociais-democratas, designados “sociais-fascistas”, que se opunham ao nazismo e aos fascismos numa altura em que Staline se entendia com Hitler para a partilha da Polónia e da Europa de Leste (política que se traduziu em 1939 por um pacto germano soviético que apenas foi rompido em Junho de 1941 quando Hitler decidiu invadir a União Soviética)»
    Uma leitura mai atenta e objectiva da história revelará que os governos sociais democratas de Paris e Londres ignoraram todos os apelos de Moscovo para reunir uma frente contra os intentos e ameaças de expansionismo alemãs. Mais, revelará o oportunismo de Paris e Londres em relação à possibilidade do expansionismo alemão destruir a União Soviética e travar o crescendo de popularidade das teses bolcheviques entre o movimento operário.
    Como exemplo fica o abandono em que Londres e Paris deixaram o governo constitucional da República Espanhola perante a sublevação fascista de Franco e o apoio que os falangista obtiveram de Berlim e Roma. Apoio esse sempre negado e não reconhecido por Paris e Londres, mesmo perante a apresentação de provas por Moscovo.
    O Pacto Germano-Soviético foi, reconhecido pelos historiadores, uma táctica de Moscovo ganhar tempo e criar uma cortina de protecção de um pais e dum povo internacionalista, que recuperava lentamente da destruição da Guerra Cívil.
    Poderão citar muitos historiadores de meter no bolso. Mas quem analisar a história de forma séira e sem o objectivo de criar a história reconhecerá estes factos históricos.

  12. Fernando S

    “uma curiosidade que não me parece genuína”

    Não percebo o que quer dizer ou insinuar com isso … mas pouco importa !!

    “Para se condenar esse regime, não é (repito NÃO É e volto a repetir NÃO É) preciso ser-se defensor do comunismo soviético ou cubano.”

    Ponto 1. Afinal, pelo menos até agora, a “discussão” é …. a mesma !!….

    Ponto 2. Eu até estou de acordo com esta sua frase : pode-se condenar o regime salazarista sem ser “defensor do comunismo soviético ou cubano”. Não é nada “difícil de compreender”. Tanto mais que, por sinal, é exactamente o meu caso !

    Ponto 3. Não sou “porta voz” da Patricia Lança, que nem sequer tenho o prazer de conhecer, mas suponho que também é o caso dela. Pelo menos, é assim que eu tenho percebido os textos que ela tem colocado aqui. Não vi nada que permita concluir que considere quem não concorda com a sua perspectiva sobre o salazarismo, isto é, numa frase, que o salazarismo foi uma ditadura mas não foi um regime fascista, é necessariamente “defensor do comunismo soviético ou cubano”.

    Ponto 4. Já o inverso é verdadeiro : os defensores do comunismo consideram que o salazarismo foi necessariamente fascista (haverá alguma excepção que confirma a regra ?). E foi também dito que normalmente não se trata de simples ignorância ou de um mero erro de apreciação ; foi desde o início um programa ideológico destinado a apoiar a política soviética no exterior e a escamotear a verdadeira natureza totalitária do regime comunista.

    Ponto 5. Eu também não considero que quem condena o regime salazarista e não concorda com a perspectiva defendida pela Patricia Lança é necessariamente comunista. Escrevi aqui em cima (na tal discussão que não interessa) :
    “O que é espantoso, e difícil de compreender, é que mesmo uma parte significativa da esquerda moderada (sociais democratas e socialistas) e uma parte da direita (cristãos democratas, centristas, radicais, etc … e até alguns liberais), acabaram por aceitar e integrar a ideologia “anti-fascista” nos respectivos discursos políticos e ideológicos.”

    Ponto 6. Folgo em saber que é um leitor atento de textos de Francisco Sá Carneiro. Não sei a que textos se refere e é até possível que não os tenha lido. Pelo menos nos últimos vinte ou mais anos. Colho a sua sugestão. De qualquer modo, tanto quanto sei, Sá Carneiro destacou-se nomeadamente pelo facto de se ter demarcado e oposto ao salazarismo antes do 25 de Abril e de ter combatido com determinação as manobras anti democráticas protagonizadas e hegemonizadas pelo PCP depois do 25 de Abril. Não sei o que diria Sá Carneiro sobre o salazarismo 26 anos depois do seu desaparecimento. Imagino que não diria em 2007 exactamente o mesmo que disse (ou não disse) até 1980. Não apenas porque o seu pensamento poderia ter evoluído, mas sobretudo porque o contexto político e ideológico se alterou consideravelmente. Seja como for, muito embora eu me reconheça em diversos aspectos do seu legado político, nada me garante que não pudessem existir diferenças de perspectiva quanto a diversos assuntos de carácter político e ideológico, do passado e da actualidade. Incluindo a avaliação histórica do salazarismo.

  13. “sublevação fascista de Franco e o apoio que os falangista obtiveram de Berlim e Roma”

    Ah, afinal temos aqui duas entidades. E já agora, os Carlistas também eram fascistas?

  14. “O Pacto Germano-Soviético foi, reconhecido pelos historiadores, uma táctica de Moscovo ganhar tempo e criar uma cortina de protecção de um pais e dum povo internacionalista, que recuperava lentamente da destruição da Guerra Cívil.
    Poderão citar muitos historiadores de meter no bolso. Mas quem analisar a história de forma séira e sem o objectivo de criar a história reconhecerá estes factos históricos.”

    É fantástica a quantidade de historiadores “de meter no bolso” e “pouco sérios” que existem…

  15. Ricardo

    Miguel, curioso que não faças qaulquer referência ao resto do texto.
    Já agora essa tua piada de duas entidades é memso uma piada, de meter no bolso.

  16. Fernando S

    Com o devido respeito … o que o Ricardo escreve aqui em cima ilustra perfeitamente a instrumentalização do termo “fascista” por parte da União Soviética e dos PCs por ela controlados no sentido de colocar no mesmo saco todos os que se opunham à sua estratégia de expansão e dominação. Incluindo forças da esquerda não comunista que combateram sem ambiguidades os fascismos e o nacional socialismo. Se alguém tinha ainda dúvidas !…

    Além disso, repare-se na significativa disparidade de critérios. O não envolvimento directo dos governos francês e inglês na guerra civil espanhola (apesar de se saber que apoiaram indirectamente os anti-franquistas), é suficiente para justificar a respectiva classificação como “fascistas”. Poderia ter sido criticada a excessiva prudência e o eventual oportunismo egoísta destes governos. Não, foram acusados de cumplicidade com o fascismo e apelidados de “social-fascistas”. Em contrapartida, a celebração de um pacto diabólico (e secreto) entre a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler, de não agressão, de partilha de territórios a conquistar, e de outras formas de colaboração (incluindo a entrega de opositores políticos, que se verificou), que deixou na primeira fase da guerra as democracias ocidentais sozinhas perante a agressão militar nazi e fascista, que foi rompido apenas porque Hitler decidiu de modo insensato que poderia fazer e ganhar a guerra em duas frentes, …. é apresentada como “uma táctica de Moscovo para ganhar tempo e criar uma cortina de protecção de um país e dum povo internacionalista” !!….

    Quanto ao “…quem analisar a história de forma séria e sem o objectivo de criar a história …” … não tenho nada a dizer !!!!…

  17. Ricardo

    Fernando S cai no erro de considerar que o objectivo primário de Hitler era frente ocidental. Erro crasso. Se o objectivo era a frente ocidental porque não continuou até Portugal? Porque não avançou pelas ilhas britânicas? Porque será que Hitler decidiu entretanto concentrar a maioria e as maiores forças do exército alemão na frente oriental? Será que Hitler foi assim tão desleixado ao esquecer-se que os minérios, e os combustíveis se encontravam em França? Não talvez se encontrassem nos Países Baixos.
    Será que Fernando S esquece-se dos apelos do governo republicano para a ajuda de França e da Inglaterra? Será que quando vemos o mundo nazi-fascista a experimentar e a avançar no militarismo e na guerra nos campos de Espanha, mesmo junto à fronteira francesa, deixando a França praticamente crecada de regimes nazi-fascistas não é condenável?
    Será que Fernando S esquece-se, num campo claramente anti-comunista, por exemplo das críticas de Churchil sobre a passividade britânica em relação à Alemanha?

  18. Fernando S

    Caro Ricardo,

    Sei lá qual era “o objectivo primário de Hitler”, sei lá porque é que ele não avançou até Portugal em vez de se virar para Leste e atacar a União Soviética, sei lá porque é que o Hitler fez o que fez !…. A verdade é que ele atacou primeiro a Oeste. O objectivo final dele era certamente o de conquistar e dominar primeiro a Europa e depois o mundo inteiro (com alianças, naturalmente) . Incluindo o campo do outro grande totalitarismo, o soviético. Tal como o objectivo do “internacionalismo” comunista era também o de dominar o mundo. Incluindo naturalmente os países capitalistas das democracias ocidentais. Sobretudo esses. Passando pelos outros tipos de totalitarismos, os fascismos e, sobretudo, o mais poderoso de todos, o nacional socialismo. De qualquer modo, dois grandes totalitarismos, revolucionários e socialistas, não poderiam coexistir a longo prazo. Eram concorrentes directos no mesmo terreno, o do ódio à liberdade e às democracias. Mais cedo ou mais tarde, antes ou depois de derrotadas as democracias liberais, acabariam de qualquer modo por se confrontar duramente e violentamente. Como aconteceu.

    Quanto aos “apelos do governo republicano para a ajuda da França e da Inglaterra”. Já disse que admito que se possa discutir se esses governos deveriam ter intervido directamente e militarmente na guerra civil espanhola. Não era certamente uma decisão fácil. De qualquer modo, tratava-se de uma guerra civil. Os “bons” não estavam todos só de um lado e os “maus” só do outro. Não existiam condições claras decorrentes de tratados internacionais. Os 2 países que intervieram militarmente, a União Soviética e a Italia, embora com meios apesar de tudo limitados, eram dois regimes ditatoriais e militaristas, que não se preocupavam com subtilezas diplomáticas. A União Soviética interveio não tanto para defender a democracia contra os franquistas mas sobretudo para reforçar a componente comunista no seio da frente republicana (de resto os agentes do Komintern despenderam uma boa parte do tempo e das energias a combater, muitas vezes violentamente, outras componentes desta frente, algumas verdadeiramente republicanas e democráticas, outras revolucionárias e de esquerda mas adversas a uma hegemonia soviética). Não era uma decisão fácil para os governos da altura. O contexto internacional era complexo e perigoso. As opiniões públicas não queriam que os seus países entrassem em guerra. Tinham um forte sentimento pacifista (tal como hoje, curiosamente). Na mesma altura, perante uma ameaça e uma agressão ainda mais preocupantes, os governos da França e da Inglaterra deixaram Hitler invadir a Checoslováquia (Conferência de Munique). Talvez se possa hoje dizer que se as democracias tivessem intervido directamente mais cedo poder-se-iam ter evitado algumas da tragédias da 2ª guerra mundial. Efectivamente, Churchill e outros, assumiram na altura essa posição (já que se invoca este personagem histórico, é bom recordar que foi ele também que, alguns anos depois, se referiu à “cortina de ferro” para caracterizar a ocupação implacável e feroz da Europa de Leste pela União Soviética ; “cortina” que, por sinal, ainda estava de pé há pouco menos de 2 décadas). Mas, dito isto, e sobretudo por tudo isto, não me esqueço que nada justifica que se acusem esses países democráticos de cumplicidade com os fascismos. Ainda mais chocante é ver um regime totalitário como o soviético, que na mesma altura negociava em segredo com a Alemanha nazi, dar lições de anti fascismo a governos democráticos. Sobretudo, não me esqueço que na mesma altura reinava na “pátria internacionalista do socialismo” um ditador feroz, Staline de seu nome, responsável por uma repressão implacável que meteu no gulague e mandou para debaixo da terra milhões e milhões de pessoas.

    Já agora, confirmo : efectivamente sou “claramente anti-comunista” ! Considero-me liberal e, como tal, sou antes de mais contra todas as formas de repressão das liberdades fundamentais dos indivíduos, contra todas as ditaduras, contra todos os totalitarismos, de direita e de esquerda !

    Um abraço

  19. Fernando S

    “Os 2 países que intervieram militarmente, a União Soviética e a Italia,”
    … e a Alemanha, que enviou sobretudo alguns aviões e pilotos para apoiar os franquistas.

  20. Ricardo

    « De qualquer modo, dois grandes totalitarismos, revolucionários e socialistas, não poderiam coexistir a longo prazo. Eram concorrentes directos no mesmo terreno, o do ódio à liberdade e às democracias.»

    «Os 2 países que intervieram militarmente, a União Soviética e a Italia, embora com meios apesar de tudo limitados, eram dois regimes ditatoriais e militaristas, que não se preocupavam com subtilezas diplomáticas.»

    Em primeiro lugar cai no erro de distanciar o nazismo do fascismo. A análise de classe demonstra de forma clara as suas similitudes. o nazismo não pode ser encarado de socialismo e muito menos de revolucionário.

    Em segundo lugar esquece-se de enumerar a Alemanha como interveniente directo, já para não falar de Portugal através da Legião e da GNR na busca aos Republicanos na raia. Lembra-se do quadro pintado por Picasso? O primeiro bombardiamento aéreo de população cívil?
    Em segundo não se pode comparar a intervenção directa da Itália e da Alemanha em Espanha com a Soviética que não enviou o exército vermelho. Apoiou os republicanos em material e viveres. Um apoio internacionalista, sim.

    Por fim cai no erro quando fala em intentos dominadores da União Soviética. Desde a Revolução Bolchevique existe um apelo e apoio aos povos do mundo para prosseguirem a revolução operária internacionalista. Não se trata de dominação.
    Reparo que ignora a problemática do abastecimento de matérias primase energia da indústria PRIVADA e monopolista da grande burguesia alemã nas razões da guerra. A invasão não se iniciou a ocidenta mas pelo centro e leste europeu. Só depois a alemanha avançou pelos Países Baixos e França.
    O desinteresse sobre as causas, os factos e as consequências da história só serve para construir estórias.

  21. Fernando S

    Reparo que, para além das divergências que possamos ter relativamente ao assunto em discussão, ou por causa disso, adopta um tom menos cordato. De facto, neste contexto, o uso que fiz na mensagem anterior do “caro” e do “abraço” não faz sentido. Lamento. Mas não me espanto !

    Reparo na sua preocupação em distribuir professoralmente sentenças sobre os meus “erros”, a minha “ignorância”, o meu “esquecimento”, o meu “desinteresse sobre as causas, os factos, e as consequências ”, a minha tendência “para construir estórias”. Efectivamente, eu, que julgo ter pelo menos a consciência de ser uma pessoa limitada e imperfeita, não nego que “caia” muitas vezes em muitos “erros”. Defendo as minhas ideias mas não tenho a pretensão de conhecer e deter a verdade. Pelos vistos não é o seu caso. Que lhe traga muito proveito !

    “cai no erro de distanciar o nazismo do fascismo.”
    Eu não “distanciei” coisa nenhuma. Embora não fossem a mesma coisa. Por isso é que existem termos distintos.

    “A análise de classe demonstra de forma clara as suas similitudes.”
    Não basta invocar a santa “análise de classe” para demonstrar o que quer que seja. Tanto mais que já poderia ter percebido que nem toda a gente reconhece valor demonstrativo à análise marxista. Se você tivesse procurado demonstrar alguma coisa, ainda poderia tentar responder, concordando ou discordando. Mas não discuto argumentos de autoridade !

    “o nazismo não pode ser encarado de socialismo e muito menos de revolucionário.”
    Por sinal o nazismo era “nacional” e socialista”, contra a democracia, contra a liberdade e as ideias liberais, pela tomada e conservação do poder através da violência. Nestes aspectos não era diferente do comunismo ! Um e outro tinham um ódio profundo ao capitalismo, ao liberalismo e às democracias !

    “Em segundo lugar esquece-se de enumerar a Alemanha como interveniente directo,”
    De facto esqueci-me inicialmente. Mas, por acaso, e apenas por mero acaso, corrigi antes de você colocar aqui a sua resposta. O seu reparo denota evidente má fé. De qualquer modo, não me parece que seja um aspecto indispensável, nem à minha nem à sua argumentação.

    “já para não falar de Portugal através da Legião e da GNR na busca aos Republicanos na raia.”
    E depois ? Se é por isso, não falei de tantas e tantas outras coisas, tão ou mais importantes. Mas você pensa que num texto curto, numa conversa deste tipo, se pode e deve falar de tudo ? Espero que não seja assim tão convencido e presunçoso ao ponto de pensar que consegue falar de tudo o que se relaciona com o assunto em discussão, seja ele qual fôr !!… Eu, e qualquer outra pessoa, poderia apresentar-lhe um lista interminável de aspectos, detalhes, assuntos, etc, que você não mencionou. Não faz sentido !

    “Lembra-se do quadro pintado por Picasso? O primeiro bombardiamento aéreo de população cívil?”
    E depois ? Eu disse algo que o leve a supor que não me lembro ou, sobretudo, que nego o episódio ilustrado pelo famoso quadro do Picasso e que foi o bombardeamento de Guernica pela aviação alemã ? Não é que isso interesse muito para o que está em discussão mas, por sinal, eu até referi que os alemães enviaram aviões e pilotos. O que é que você não teria dito se eu nem isso tivesse acrescentado ?!

    “não se pode comparar a intervenção directa da Itália e da Alemanha em Espanha com a Soviética que não enviou o exército vermelho. Apoiou os republicanos em material e viveres. Um apoio internacionalista, sim.”
    Claro, não podia faltar a sua já habitual disparidade de critérios. A intervenção da União Soviética é “internacionalista”, as da Alemanha e da Italia são … o quê ?… “nacionalistas” ? Num dos seus comentários anteriores criticava a França e a Alemanha por não terem intervido militarmente. Agora já não vê mal no facto de a União Soviética não ter enviado o Exército Vermelho. Se é assim tão significativo, então a Alemanha também não enviou a Wermacht. E, para todos os efeitos práticos, a União Soviética, para além de ter fornecido material (isto é armamento), encheu a Espanha de militares e agentes russos, que tiveram um papel importante no decorrer das operações militares. E o que é que eram e estiveram a fazer as “Brigadas Internacionais” ? Sinceramente, independentemente das divergências de fundo que temos, tenho dificuldade em perceber o sentido da sua argumentação nesta “comparação” (você é que compara !) entre as intervenções de uns e outros !

    “cai no erro quando fala em intentos dominadores da União Soviética. Desde a Revolução Bolchevique existe um apelo e apoio aos povos do mundo para prosseguirem a revolução operária internacionalista. Não se trata de dominação.”
    Você acredita mesmo nisto que escreve ?!!!…. Não sei o que lhe responda !!…. É que nos dias de hoje até já é raro encontrar “comunas” (o termo é seu !) que utilizem esta retórica antiquada e tipicamente stalinista !…

    “ignora a problemática do abastecimento de matérias primase energia da indústria PRIVADA e monopolista da grande burguesia alemã nas razões da guerra.”
    Lá vem você com a conversa de que eu “ignoro” tudo !… Torna-se repetitivo e cansativo ! Passando à frente desta sua presunção e arrogância, até reconheço que houve razões económicas e estratégicas por detrás do projecto expansionista da Alemanha hitleriana. Mas, o nazismo era acima de tudo ideologicamente expansionista e Hitler tinha um programa militar de dominação do mundo. Sabe-se que bem antes do começo da guerra já a Alemanha hitleriana tinha planos militares de invasão para Oeste e para Leste. É verdade que, como você diz, as primeiras intervenções militares foram dirigidas contra países vizinhos a sul e a leste. Até porque eram os mais vulneráveis militarmente, e existia o pretexto de neles viverem populações de língua alemã . Mas, quando o estado de guerra foi declarado, a Alemanha concentrou-se na frente Oeste. E pôde fazê-lo porque podia na altura contar com a passividade da União Soviética. Pura e simplesmente porque Hitler tinha um acordo de não agressão com Staline. Este é o ponto principal, que não perdi de vista !

    Esta nossa discussão começou precisamente por este aspecto. A União Soviética e os comunistas procuraram sempre aparecer como os campeões do anti fascismo e do combate ao nazismo. A verdade é que numa altura decisiva da ameaça do nacional-socialismo, a União Soviética e os comunistas fizeram um pacto com o “diabo”. E colaboraram inclusivamente com ele na perseguição a opositores do regime nazi. Que retribuiu entregando à União Soviética comunistas e esquerdistas (trotskystas, nomeadamente) alemães e europeus que tinha nas suas prisões e que acabaram por ir juntar-se aos milhões de vítimas das grandes e sucessivas purgas e chacinas estalinistas. Se, pecando por imprudência e excesso de confiança, Hitler não tivesse decidido atacar a União Soviética antes de vencer as democracias ocidentais, quem sabe até onde poderia ter ido a coexistência e a colaboração entre os dois mais importantes e poderosos totalitarismos do século XX, o nacional-socialismo hitleriano e o internacional-comunismo estalinista ??

    Foi igualmente para esconder e escamotear a cumplicidade e as afinidades do comunismo com o nazismo que a União Soviética montou a gigantesca operação de propaganda destinada a associar ao fascismo o maior número possível de críticos e opositores do comunismo. Mesmo os mais democratas e liberais eram sistematicamente acusados de cumplicidade ou condescendência com a extrema direita.

    Em Portugal, o salazarismo não foi completamente isento de influências ideológicas fascistas, sobretudo na sua fase constitutiva, antes da 2ª guerra. Mas estas influências não foram determinantes, não foram estruturantes, e não duraram no tempo. O salazarismo foi uma ditadura de direita, conservadora, nacionalista. Mas não foi nenhum regime fascista. Foi um regime de partido único e repressivo. Mas o nível e o grau de violência da repressão ficou quase sempre aquém do da grande maioria das outras ditaduras de direita da altura. E ficou certamente bastante aquém do que caracterizou a barbárie do nazismo e dos comunismos. Sim, dos comunismos, desde o soviético até aos cubano e norte coreano, passando por tantos outros por esse mundo fora. Durante muitas décadas, até aos dias de hoje, durante bem mais tempo do que duraram a maior parte dos fascismos e ditaduras de direita. Os comunistas portugueses foram efectivamente duramente reprimidos pelo salazarismo. Como não teriam sido se em Portugal existisse então uma democracia. Mas os comunistas não se batiam pela liberdade. Quando muito pela liberdade deles próprios. Mas certamente que não se batiam pela liberdade para todos, pela democracia. Os comunistas defendiam e procuravam substituir uma ditadura de direita por uma sociedade ainda mais totalitária e repressiva. Tentaram fazê-lo mesmo depois da queda do Estado Novo, a seguir ao 25 de Abril de 1974. Os comunistas portugueses não eram sequer patriotas. Como eram em geral os nacionalistas. Estavam essencialmente ao serviço da política internacional de uma potência estrangeira, a União Soviética.

    Quem são pois os comunistas portugueses dos nossos dias, herdeiros e defensores assumidos de um passado e de um presente vergonhosos, para vir dar lições de anti-fascismo, de defesas dos ideais de liberdade e de democracia ? Quem são os comunistas portugueses para vir ditar as regras das análises que podem ou não ser feitas sobre o salazarismo ? Quem são os comunistas portugueses para virem sequer exigir que sejam excomungados e banidos todos aqueles que aderiram e aderem ou simpatizam com as ideias e o regime salazarista ? De que direito e com que moral se pode reclamar e assumir com orgulho e convicção a adesão a uma ideologia comunista e exigir ao mesmo tempo que se recuse o mesmo direito e a mesma legitimidade àqueles que ainda acreditam ou têm alguma nostalgia pelo regime que vigorou até ao 25 de Abril ?

  22. Usualmente, a palavra “fascista” hoje costuma ser um mero xingamento que alguns, em geral esquerdistas, gostam de lançar contra seus adversários, sejam quais forem.

    E uma verdade, facilmente constatável, é que, na atualidade, quanto mais uma sociedade está sob o domínio de governos e idéias esquerdistas, mais a censura é ali praticada, como observado em alguns exemplos citados no artigo e em comentários acima.

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