CURIOSIDADES DO PORTUGAL DO SÉCULO VINTE (I)

Intróito

No século XXI ainda há quem pensa que procurar ou enunciar a verdade sobre determinados assuntos são provas de perigosas tendências fascistas. Ainda há gente cuja abordagem da política assemelha-se ao espírito clubista característica do desporto. Para iluminar as mentes mais turvas segue uma primeira listagem de alguns factos pouco conhecidos nos meios futebolísticos.

Pede-se ao leitor que não faça juízos precipitados sobre o que vem a seguir. São simples factos históricos. Deploráveis, sim, mas ajudam a explicar o que motivara Salazar e os que o apoiavam. A desordem não é mãe nem do liberalismo nem dum capitalismo florescente. A anarquia leva tempo e muito sacrifício para limpar das ruas e dos espíritos. Quando persiste normalmente acaba em ditadura.

PRIMEIRA REPUBLICA (1910-1926)Ordem pública:

No ano 1918 em que Major Sidónio Pais, autor do golpe que prendeu Afonso Costa, governou o país, houve dois levantamentos, em Coimbra e Évora. No dia 14 de Dezembro, 1918, o Major foi assassinado.

Em 1919 houve quatro governos e um levantamento monárquico dirigido por Paiva Couceiro que ocupou o Porto, Braga, Viseu, Coimbra e Aveiro.

Em 1920 houve nove governos, um dos quais durou seis dias e outro que durou 24 horas.

Em 1921 houve cinco governos.

No dia 19 Outubro de 1921, no decurso de mais um golpe falhado, foram assassinados cinco homens públicos: entre eles o Primeiro Ministro António Granjó e um dos líderes da revolução de 1910 Machado dos Santos.

Entre Março e Julho de 1926 houve cinco governos; grupos militares organizaram mais três golpes falhados.

No total, entre 1910 e 1926, Portugal teve oito presidentes e quarenta-e-quatro governos—o primeiro durou menos de dez semanas e nenhum  mais de um ano.  Nestes dezasseis anos houve vinte e quatro revoltas e levantamentos; de 1920 a 1925, segundo registos policiais, 325 bombas rebentaram nas ruas de Lisboa.

O sufrágio eleitoral

O governo de Afonso Costa, através de uma Lei Eleitoral de 3 de Julho de 1913 reduziu o eleitorado a menos de metade, de 850 000 para 400 000, restringindo o voto a alfabetizados masculinos e excluindo as mulheres.

Alguns números económicos

De 1910 a 1925 o custo de vida aumentou 2 500% (25 vezes!) e a moeda caiu para 3,03% do seu valor ouro. O escudo valia 22,1% de uma libra em 1891; 18,7% de uma libra em 1913; 1,0% de uma libra em 1922; menos de 0,8% de uma libra em 1925.

E depois admira-se que o país em 1926 estava um bocado cansado da democracia e do liberalismo. Ele simplesmente  não estava disposto a saber do tipo de desculpas que hoje podemos encontrar para explicar o estrondoso fracasso da Primeira República.

7 pensamentos sobre “CURIOSIDADES DO PORTUGAL DO SÉCULO VINTE (I)

  1. Cristina Ribeiro

    Exactamente.A confusão e o caos traz consigo o desejo da autoridade;penso que não estou a ser alarmista quando penso que estamos a caminhar perigosamente nesse sentido(veja-se,p.ex.a situação nas escolas,o aumento dos assaltos-por cá todos os dias temos notícia de mais dois ou três-,o aumento insuportável do custo de vida,com uma alta taxa de impostos).Bem sei que temos o “guarda-chuva”da UE,mas já se ouve muita gente a clamar por alguém “que ponha isto na ordem”.

  2. António Bastos

    Mais uma vez um excelente artigo da Patrícia. Parabéns, está a fazer um óptimo trabalho, Patrícia, continue. A verdade é uma arma poderosa! Abomino visceralmente a esta maldita república jacobina, bem como a “monarquia” liberal (um pouco menos naturalmente)que nos foi imposta pela guerra civil de 1833-36 e que foi uma “pré-república”. Hoje, graças a este maldito regime,somos um país em auto-fagia, devorado pelo seu próprio Estado.

  3. Apenas uma ligeira correcção

    Afonso Costa nunca excluiu as Mulheres do Recenseamento eleitoral. Elas até então não tinham direito a voto. Apenas o adquiriram (Em teoria e no papel da lei) em 1931.
    Nas eleições de 1911 houve umas excepções, destinadas apenas a uma ou duas senhoras de carácter comprovadamente republicano, para aparecerem na Fotografia.

    Em termos eleitorais apenas a eleição de Sidónio Pais (Que é apresentado pela História aprovada pelo GOL como ditador)teve um recenseamento de 900 000 eleitores (500 000 votantes), isto para cerca de 7 000 000 de habitantes.
    Em 1890 existiam 950 000 eleitores recenseados (90% da população masculina > 21 anos) em 5 000 000 de habitantes. A História de Portugal aprovada pelo GOL, continua a apresentar a Monarquia Constitucional como um regime não democrático.

  4. Um bom artigo não haja dúvida. Mas gostava que a autora deste post, realizasse outro post com as razões que levaram ao 25 de Abril. Vai ver que também encontra excelentes razões para a revolução ter surgido. E esteja descansada que nao a vou chamar de comunista ou outros nomes similares.

  5. Dubia Bush

    Ai sim? E como era no resto da Europa? Encontrar justificações para o salazarismo nos 7 ou 8 anos precedentes é um exercício histórico notável. E, claro, o André AA baba-se todo…

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