Pontos de Fuga

José Sócrates e a lei pós referendo

A esquerda maioritária lá fez a sua “lei do aborto”, afastando da sua elaboração todos aqueles que, não fazendo parte da esquerda, aderiram ao voto “sim”. Nunca esperei que assim não fosse. Sempre disse que esperava coragem política de uma futura nova maioria para corrigir os erros da regulamentação que a esquerda seguramente aprovaria. Afinal de contas, votei “sim”, mas não sou de esquerda. Faz todo o sentido que discorde dos seus métodos e das densificações das suas opções genéricas.

É um facto que José Sócrates poderia ter optado por uma regulamentação mais consensual, integrando as vozes do “sim” que não partilham do seu socialismo. A questão é saber se ele tinha, na realidade, algum incentivo político para o fazer.

Ora, o referendo serviu para mostrar um José Sócrates de esquerda. Esse era um dos seus objectivos, de forma a neutralizar a colagem à direita que fazem das suas políticas. E para esse efeito, era essencial que PSD (absolutamente colado ao “não”) e CDS cometessem todos os erros que cometeram na campanha para o referendo.

Sabendo que a questão levada a referendo mexe com as profundas convicções do cidadão, e não com os arranjos partidários do costume, José Sócrates sabia que o “sim” se alargaria até à direita. E sabia que apareceriam nesta campanha, devidamente destacadas, vozes moderadas e insuspeitas de apoio ao “sim”. Mas também sabia, para proveito da sua estratégia, que CDS e PSD tudo fariam para desvalorizar e menorizar essas vozes. Ou seja, sabia que poderia contar com os dois partidos para ganhar com votos da direita, sem perder a imagem de esquerda. Perfeito, portanto.

Acaso o CDS e o PSD tivessem feito uma campanha diferente, sem colagem do “sim” à esquerda, sem menorização dos votos “transfugas” (que, em alguns casos, roçou a humilhação), as coisas poderiam hoje ser diferentes. Se acaso o CDS e o PSD se tivessem dispensado à apresentação de propostas de “sim” encapotado, esticando o “não” para além dos limites do aceitável e empurrando o “sim” muito mais para a esquerda, talvez José Sócrates tivesse hoje mais dificuldades em explicar a elaboração da nova lei.

O facto é que a esquerda saiu vitoriosa do referendo. E, ao contrário do que tanto soe dizer-se por aí, a culpa de tal vitória não foi dos moderados que votaram “sim”, mas da direita que insiste em não saber acolher tal moderação, de tal sorte que transformou este referendo numa verdadeira batalha entre esquerda e direita, aliás bem patente nas reacções pós-referendo.

Resulta de tudo isto que José Sócrates nada tem a ganhar com uma “lei do aborto” feita a par com os partidos da chamada direita. Antes pelo contrário.

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8 pensamentos sobre “Pontos de Fuga

  1. Tenciono, evidentemente, escrever sobre as soluções propostas na lei, no A Arte da Fuga. Este post não procura, portanto, legitimar do meu ponto de vista a opção de José Sócrates, que considero infeliz e pouco vocacionada para uma lei equilibrada.

  2. De facto tenho pena que pelo menos os deputados que apoiaram o Sim não tenham participado na elaboração da lei (foi um prazer encontrar-me com tanta gente de direita neste debate). Mas seriam esses os designados pelo PSD e CDS, ou antes defensores do Não, mais preocupados com subverter o sentido de voto do Referendo do que com encontrar uma proposta de lei equilibrada? E convenhamos, o que apareceu em cima da mesa agora parece bastante bom. Festejemos, pelo menos, este resultado.

  3. Um post um pouco rebuscado. Parece-me que Sócrates não teve qualquer motivação para incluir na realização da nova lei alguma moderação porque os supostos moderados do lado do “sim” em quase não se diferenciaram da extrema-esquerda.

    Marcador: Idiota útil

  4. “Mas seriam esses os designados pelo PSD e CDS, ou antes defensores do Não, mais preocupados com subverter o sentido de voto do Referendo do que com encontrar uma proposta de lei equilibrada?”

    Parece-me que está a imaginar um problema que não existe.
    O PS tem votos suficientes para alterar a lei. Qualquer proposta que não fosse do seu agrado não teria a mínima hipótese de ser aprovada

    “Festejemos, pelo menos, este resultado.”

    Parece-me que esta lei deve ser tudo menos festejada. Mas isto sou eu a falar.

  5. Sim, eu falava obviamente do ponto de vista de quem defendeu o Sim no Referendo. Parece-me que esta proposta é uma boa expressão do resultado, bem equilibrada nos termos. Mas para quem era pelo Não, percebo que não haja nada a festejar.

    Por esse mesmo motivo, disse que era compreensível que não fossem convidados para a elaboração da lei partidos que se manifestaram contra a existência dessa lei, seria algo estranho. Mesmo que acabe por ser algo injusto para os membros desses partidos que se mobilizaram pelo Sim.

  6. Cristina Ribeiro

    Miguel,junto-me a si na convicção de que “esta lei deve ser tudo menos festejada”;e olhe que somos muitos a falar assim.

  7. Jose Sarney

    Até parece, pelo escrito, que Sócrates é um estratega nato! A Esquerda que em 1998 ficou em casa, foi desta vez votar mais. Nada mais.

    A fractura que fica? Ainda bem, que fica. E ainda bem, que a Lei é feita claramente à Esquerda. Antes, a clareza, do que as “meias tintas”!

    Só que a malta não se pode esquecer, é dos problemas que ficam. E aí, o “idealismo” da Esquerda, que tem como exemplos: as Nacionalizações, as Leis da Educação, da falta de Autoridade do Regime, da bagunça que é a Função Pública, alguém as vai pagar. Ai paga, paga!

  8. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Re: José Sócrates e a lei pós referendo

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