O ódio ao totalitarismo não é cegueira

The doctrines which had guided the ruling elements in Germany for the past generation were opposed not to the socialism in Marxism but to the liberal elements contained in it, its internationalism and its democracy. And as it became increasingly clear that it was just these elements which formed obstacles to the realization of socialism, the socialists of the Left approched more and more to those of the Right. It was the union of the anticapitalist forces of the Right and of the Left, the fusion of radical and conservative socialism, which drove out from Germany everything that was liberal.

HAYEK, Friedrich, The Road to Serfdom, The University Chicago Press, Fiftieth Anniversary Edition, 1994, p. 184.

O Luís Rainha pegou num meu comentário, no qual afirmei que era tão grave ser membro do Partido Comunista como de um partido ou organização nazi, e respondeu.

Fê-lo afirmando, muito resumidamente, que os membros do Partido Comunista, no mais, só podem ser culpados do “pecado da ignorância voluntária”. Que, ao contrário, os cúmplices de Hitler que por aí pululam (e são em número mais que suficiente, bem o sei…) já não têm pejo em defender o extermínio de raças ou a sua deportação. Tudo certo. Mas, ao mesmo tempo, tudo mal.

O Luís confunde a forma com a substância. Que não querer saber iliba a culpa. Como se a pureza dos fins justificasse a mancha dos meios. Só que não justifica. Admirar Estaline e o regime soviético e não querer abrir um qualquer livro que mencione os seus horrores, apenas para ter a desculpa da ignorância, não serve.
Existe, sem dúvida, uma complacência portuguesa no que diz respeito ao comunismo, que se deve a 50 anos de ditadura de direita. As sem vergonhas que o PCP fez em Portugal no pós-25 de Abril, com os saneamentos, roubos, nacionalizações, destruição do tecido económico português e por aí fora, não têm comparação temporal com a ditadura de Salazar. Ademais, a oposição ao Estado Novo não permitiu que a imagem comunista se sujasse muito.

A palavra ‘imagem’ foi usada por mim de propósito. É que esta tem sido de uma importância crucial para o PCP. Primeiro, com a APU e as suas argolas que lembravam os Jogos Olímpicos, depois com o símbolo da CDU e a abelha à volta dos favos de mel. A imagem ‘salvou’ a foice e o martelo comunista, bastante mais cruéis e, acrescente-se, verdadeiros. Alicerçada na oposição ao Estado Novo, a legitimidade política do PCP escondeu o seu lado negro. Cunhal foi encarado como um combatente que acreditava em causas, Jerónimo de Sousa um avô simpático. As lutas pelos trabalhadores um combate sempre justo, mesmo que à custa dos seus próprios empregos. O nunca termos verdadeiramente sofrido com o comunismo, somado à sua actual ineficácia, tornou os comunistas nuns tipos simpáticos e inofensivos. O mesmo não sucede com a sua ideologia.

O comunismo é algo atroz. É contra-natura. Pretende impor uma sociedade contrária à vontade da pessoa humana e fá-lo através da força. À custa de milhões de mortos. Da privação da liberdade. Da destruição da família. Do fim da dignidade humana. O comunismo não tem nada de bom. E na sua maldade em tudo é igual ao nazismo e ao fascismo. Pode-se reger pela melhor das intenções, o mais bem intencionado dos homens. A mim, pouco me dá ser morto com ódio ou com uma palmadinha nas costas. Mesmo que a bem da comunidade.

8 pensamentos sobre “O ódio ao totalitarismo não é cegueira

  1. lucklucky

    “Fê-lo afirmando, muito resumidamente, que os membros do Partido Comunista, no mais, só podem ser culpados do “pecado da ignorância voluntária”.”

    Pecado da ignorància voluntária após o golpe contra Kerensky?

  2. José F.

    Caro André
    “Ignorância voluntária” todos têm. Ou você acha que a grande massa dos apoiantes de Hitler sabia o que se passava verdadeiramente? Estamos a falar de regimes que tiveram a sua época (e os seus apoiantes) mas que hoje em dia é (quase)impossivel mantê-los. Em Portugal, o PCP ainda mantém a força significativa porque temos 2 milhões de pessoas que vivem nos limites da miséria. E são essas pessoas que não podemos “ignorar”.

  3. tó-pê

    DIÁLOGO IMAGINÁRIO COM O DANIEL OLIVEIRA

    -Caro Oliveira, a RTP deve ser neutral?
    -Deve.
    -Mas e se aparecer alguém a defender o Salazar?
    -Nesse caso não deve.
    -Mas não estamos numa democracia?
    -Estamos.
    -E um cidadão pode opinar livremente em democracia?
    -Pode.
    -E se for para defender o Salazar?
    -Nesse caso não pode.

  4. Cristina Ribeiro

    “E na sua maldade em tudo é igual ao nazismo e ao fascismo”.
    Exactamente.Os extremos igualam-se.
    E,como diz Lucklucky,hoje já nada pode justificar a ignorância voluntária.

  5. «AAA é tão voluntariamente cego como os comunistas que continuam saudosos da loucura burocratizada da URSS: para ele, é igual o militante comunista que se agarra ao sonho caduco de um mundo mais igualitário e o nazi que prega o ódio racial, a violência, o preconceito animalesco.
    Mas olhe que há um mundo a separá-los caro AAA: uma coisa é fechar os olhos a crimes praticados há décadas, outra bem diversa é lutar para os repetir o mais depressa possível.»

    Está tudo nesta última frase, que tu preferes fingir que não lês.

  6. ARL

    “O comunismo é algo atroz. É contra-natura. Pretende impor uma sociedade contrária à vontade da pessoa humana e fá-lo através da força. À custa de milhões de mortos. Da privação da liberdade. Da destruição da família. Do fim da dignidade humana. O comunismo não tem nada de bom. E na sua maldade em tudo é igual ao nazismo e ao fascismo.”

    Caro André, é possível concordar com cada uma destas palavras e, ao mesmo tempo, perceber a distinção o Luis Rainha tentou fazer, e que não é tanto entre sistemas como entre o perfil típico (e como em tudo, há excepções) entre um militante do PCP em 2007 e um militante do PNR em 2007. Aceito que hajam militantes do PCP que desejem nacionalizações à força e gulags em Trás-os-Montes para os dissidentes políticos; mas nunca conheci nenhum e duvido que sejam a maioria. Da mesma forma, aceito que hajam militantes do PNR que não sejam asquerosos supremacistas brancos, cujas principais preocupações são o excesso de pretos em Portugal e a alucinada “Conspiração Sionista”, mas também nunca conheci nenhum, e é essa a imagem que passa das suas declarações públicas e dos seus blogues; duvido que seja só um problema de imagem. Esta distinção parece-me importante. Posso ter interpretado mal, mas acho que é por aí que o Rainha tentou pegar no assunto.
    Quanto ao resto, completamente de acordo consigo.

  7. Desconversamos. Não o critiquei por comparar ideologias e muito menos me lembrei de afirmar que “não querer saber iliba a culpa”.
    Em causa está, muito simplesmente isto: você escreveu que “ser membro do Partido Comunista é tão grave como ser membro de um partido ou organização nazi”. Estava a falar de militância, não de crenças, amnésias ou seja lá o que for.
    Se acha mesmo que é igual ser militante do PCP ou skinhead, fico bem esclarecido sobre as suas ideias. Se não, não custa nada admitir que se expressou mal.
    Releia, por favor, as minhas palavras: “uma coisa é fechar os olhos a crimes praticados há décadas, outra bem diversa é lutar para os repetir o mais depressa possível.” Não desculpabilizo ninguém; apenas coloco as coisas nos seus sítios.

    Por outro lado, a histeria de tiradas como o “comunismo não tem nada de bom” não ajuda a discussão. Nem diz grande coisa da sua cultura política ou do seu conhecimento da influência que a ascenção da URSS (por horrível que tenha sido) teve nos movimentos sindicais ocidentais ou nos movimentos anti-colonialistas. Aliás, nem vejo o que tem o seu último parágrafo a ver com o actual programa do PCP (que era a organização na berlinda), se é que o leu… Mas isso seria outra conversa.

  8. lucklucky

    “uma coisa é fechar os olhos a crimes praticados há décadas, outra bem diversa é lutar para os repetir o mais depressa possível.”

    Chavez?

    “movimentos anti-colonialistas”

    Milhões de mortos?

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