Mais sobre o Reino Unido
O primeiro alvo do multiiculturalismo da extrema-esquerda britânica não foi a imigração mas a classe operária indígena. Aproveitando as marcadas diferenças de classe que existiam tradicionalmente na Inglaterra, os sociólogos esquerdistas dirigiram a sua militância ao ensino básico e secundário. Na formação de professores para as escolas do Estado, a atenção principal deixou de ser a preparação na matéria a ensinar. Agora o que importava era transformar as atitudes dos candidatos a professor. Eram acusados de pertencerem a classe média e serem preconceituosos. Tinham que mudar. A sua tarefa não era de inculcar os modos da classe média nos alunos. Não deviam corrigir nem a gramática, nem o vocabulário, nem as maneiras dos alunos. Gritar e falar alto, interromper, chamar nomes, e tudo o resto que o professor tradicional não tolerava, agora tornou-se aceitável. Porque, diziam os professores de Sociologia da Educação, era assim a cultura da classe operária. Tentar mudar o que os alunos aprendiam em casa constituía uma forma de repressão inadmissível numa democracia. Quanto a corrigir os hábitos ou a fala dos imigrantes das Caraíbas, nem pensar. Até era bom que os manuais escolares fossem escritos em crioulo. Esta iniciativa naufragou nas rochas da diversidade dos dialectos das várias ilhas, facto que os sociólogos só constataram mais tarde. O mais fácil então era simplesmente desistir de ensinar inglês à esta gente difícil. Paralelamente com o laissez faire na sala de aulas, houve o total abandono da aplicação de sanções. Deixou de haver qualquer tipo de castigo. Os ingleses, antes peritos na deplorável prática de castigos corporais, deixaram simplesmente de punir mesmo os piores abusos. Quando um professor era agredido fisicamente só restava a sua expulsão. Quarenta anos da prática desta filosofia nas escolas britânicas agora deram o seu fruto. Os piores números de insucesso escolar da Europa; hooliganismo de crianças nas ruas, a tal ponto que os adultos têm medo das crianças e dos adolescentes; as cidades à noite cheias de jovens agressivos e bêbedos; e um governo desesperado a produzir novas leis que visam, em vão, ensinar respeito. As mudanças de comportamento provocadas pelas políticas delirantes da esquerda foram muitas. Entre elas dois pequenos mas desagradáveis fenómenos: a generalização dos hábitos de urinar e de cuspir na rua. Antigamente isto só acontecia, diziam os ingleses, no outro lado da Mancha. Agora são os ingleses que ficam surpreendidos com a boa educação dos continentais.
Evidentemente que estou a referir as escolas do Estado (onde leccionei durante uns dez anos e sei do que estou a falar). Os colégios particulares (chamados, com essa típica perversidade britânica, “public schools”), muitas vezes internos, beneficiaram com a degradação do ensino estatal. As elites, incluindo muitos ministros de Tony Blair, continuam a enviar os filhos para os colégios particulares. E são estes que continuam a ter maiores possibilidades de entrar no ensino superior e nas melhores universidades. É assim a ‘sociedade sem classes’ do New Labour. E foi esse o modelo de ensino que o Portugal de Abril escolheu.
Não se enganou?
Cheira-me a Benavente Carneiro!
Podemos ainda acrescentar que os “mentores” da politica de educação caseira implementam cá dentro quando lá fora as coisas já estão a dar barraca… umas sumidades completas
Seja bem vinda Patrícia.Gosto de a ver por cá!
Mais uma vez se constata o estado em que culmina a cultura do facilitismo,do deixa-andar,do logo-se-verá;e o problema é que,mais tarde ou mais cedo,se vê que isso só pode conduzir ao caos;e em Portugal a “ferida”já está muito espalhada…
Eu vejo os resultados em primeira mão. Aventurei-me pelo ensino superior no Reino Unido e encontrei muitos, mas mesmo muitos, palermas mal-educados e até violentos. Não são todos, de facto, mas conseguem ser em maior número que nas Universidades Portuguesas.
O chão do campus está cheio de pastilhas elásticas, à noite há pancadaria ao primeiro roçar de ombros, e em geral existe um desrespeito total pela paz alheia. Nas residências as retretes estão constantemente sujas e os duches servem de depósito para os frascos de champô vazios. Fazem barulho dia e noite sem qualquer inibição.
Atacaram amigos meus na rua com fogo de artifício no dia de Guy Fawkes e atiraram-me ovos de dentro de um carro em movimento (por acaso, um Audi dos mais recentes).
Excelente texto. Infelizmente, a descrição aqui feita da desastrosa situação das escolas estatais inglesas não é sequer exagerada.
Parabéns duplos: pela entrada na “equipe” e pelo artigo
Justamente. Tríplice abraço. Impera agora ler os motivos (se algum) por detrás do anestesismo socrático-lurdes-sinistra.
Esta é a situação em Inglaterra? Igualzinha à portuguesa. Mas a n/ está ainda em evolução. Frequentei há vinte anos a Francisco de Holanda, em Guimarães: havia algum facilitismo e ordem. Hoje, as minhas filhas têm facilitismo e desordem total.
Na turma da minha filha do 7ºano, uma aluna de 12 anos socou o prof. O conselho executivo arquivou pois a aluna não tinha registos anteriores de violência!
E depois do desastre chegará a ditadura para apanhar os cacos. Esse alibi dos povos.
Mas afinal a degradação não começou há 40 anos, como refere no texto? A Margaret Thatcher também já é New Labour? A autora escreve sobre a sua experiência pessoal, ou sobre a realidade? A minha experiência é a oposta, curiosamente. Que tal documentar-nos um pouco melhor e não generalizar o seu caso pessoal?