A tristeza é marxista

O meu artigo publicado na Dia D da passada Sexta-feira.

Johan Norberg é um liberal sueco (!), que proferiu no dia 11 de Outubro de 2005, no Centre for Independent Studies em Sydney, uma palestra sobre a importância do capitalismo na conquista do bem estar e na crença no futuro. Segundo Norberg, os filósofos Iluministas dos séculos XVII e XVIII, demonstraram que o mundo podia ser compreendido de forma racional e que, através do uso da liberdade, melhorado. Daqui em diante, fruto da cooperação entre os homens e das trocas comerciais, o progresso foi alucinante. O nível de vida melhorou e continua a melhorar todos os dias e em todos os pontos da Terra. No entanto…No entanto, há quem diga que o passado era melhor que o presente. E mais ainda quem tema o futuro.

Como Norberg bem explica, a desconfiança perante o sucesso da humanidade tem raízes profundamente marxistas. A noção que alguém tem de pagar para que outros vençam, prosperem e que o enriquecimento de uns é sempre proporcional ao empobrecimento de outros. A teoria da soma zero. Estes preconceitos ideológicos, que a história demonstrou estarem totalmente errados, ainda se mantém. Os socialistas de hoje já não têm coragem de falar em luta de classes, mas transferiram o seu discurso para o que qualificam de problemas ambientais. A nova tese é que o aumento do consumo e da produção conduz à poluição e escassez dos recursos naturais. Esquecem que o progresso leva ao desenvolvimento de novas tecnologias mais limpas e menos poluentes. Da mesma forma que sucedeu no passado, não vêem o lado bom do bem estar, desconfiam do homem e das suas virtudes.
Outro novo argumento socialista, que Norberg salienta, é que crescimento económico não produz felicidade porque estamos sempre preocupados com a nossa posição relativamente aos demais. Por cada trabalhador aumentado, haverá um número abissal de outros, tristes por não o serem. É novamente o conceito da soma zero e um novo fôlego intelectual para que todos sejam tratados de forma igual, mesmo que uns sejam mais empenhados que outros.

Mas será esta visão marxista verdadeira? Não. A história da humanidade mostra-nos o contrário. Que em todos os continentes se vive melhor que no passado. Que uns seres humanos beneficiaram mais que outros com o desenvolvimento, mas ninguém ficou para trás. Esta minha última frase é capaz de levantar o sobrolho do leitor, mas a desconfiança que sente resulta da propensão para reter o que corre mal. Ninguém recorda os sucessos porque são as dificuldades que não nos saem da cabeça. Se na Europa se perdem 100 postos de trabalho, ninguém se dá ao cuidado de ver os 1000 empregos criados na China. Somos demasiado parciais e nessa parcialidade queremos fazer julgamentos universais. A nossa análise subjectiva diz-nos que o mundo está pior, quando ele melhora todos os dias.

Para um socialista impregnado que está do vício mental marxista, apenas a regulamentação da nossa vida impede que nos estraguem a felicidade. Acontece que, ser marxista hoje é o equivalente a no passado acreditar em bruxarias. Sem liberdade empreendedora, desregulamentação social, não há desenvolvimento, não surgem oportunidades, nem desafios para serem vencidos. A vida estagna e entristece. Ao contrário, numa sociedade liberal, verdadeiramente livre, sem barreiras à criatividade humana, existe mais variedade profissional, mais escolhas e maior troca de interesses e conhecimentos. Há sempre uma janela aberta que não tínhamos visto. O conhecimento é, aliás, uma arma fundamental para combater o novo ópio do povo que é o pessimismo marxista. É o conhecimento que nos leva a ver as coisas em perspectiva, no seu conjunto e de forma isenta. Ultrapassar de vez o colossal erro marxista, que nos empobrece económica e culturalmente, é dos maiores desafios que se nos apresentam hoje.

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18 pensamentos sobre “A tristeza é marxista

  1. Tal como as derivadas de ideologias puramente marxistas, essa “sociedade liberal, verdadeiramente livre”, no estado de pureza que sugere, também já ficou provado no início do século passado que não resulta.

  2. “Como Norberg bem explica, a desconfiança perante o sucesso da humanidade tem raízes profundamente marxistas.”

    Terá? É que em termos de acreditar na ideia de um progresso indefinido em direcção a niveis cada vez melhores de bem-estar, acho que o marxismo é igual ao liberalismo.

  3. António Bastos

    Que belíssimo texto. Poucas pessoas compreendem verdadeiramente o qual é o espírito do socialismo, e o mito da revolução que lhe é consubstancial. Não é o desejo de progresso mas antes o medo do mesmo, nem o da liberdade mas antes a recusa da responsabilidade que lhe está indissociávelmente ligada. Criar “leis para a história”, isto é a “Miséria de historicismo” para utilizar a expressão de Karl Popper, é um pecado contra a Esperança e resulta do medo de ser livre. É por isso que é TOTALMENTE IMPOSSIVEL ser católico e socialista ou social-democrata (entre eles venha o diabo e escolha!), ou seja defender uma ideologia. São os homens que fazem a história e não o contrário por muito que isso desagrade aos orfãos de Lenine. Os dinossaurios que vão para os paços de concelho no dia 5 de Outubro estão contaminados por esta gangrena mental que lhes deestroi os neurónios, todos eles fumaram o “ópio dos intelectuais” como dizia R. Aron, isto é, o marxismo. É por isso que este abjecto regime jacobino é um óbice ao progresso do nosso país.

  4. André,

    Desculpe lá mas se há coisa que liberalismo utópico e marxismo tradicional partilham é o optimismo iluminista-progressista. A “tristeza” ou melancolia moderna tem origens românticas anteriores ao marxismo. Estas manifestam-se em tipos como Nietzsche (que não é propriamente romântico, longe disso), etc… Há elementos românticos no Marxismo -sobretudo no Marx inicial- mas este também é profundamente optimista, pois defende ou aspira a uma unidade expressiva-criativa do homem.

  5. «… a desconfiança perante o sucesso da humanidade tem raízes profundamente marxistas.»

    É verdade apenas em parte. Há outra lógica anti-moderna, bastante mais permanente, apostada em criar a “ilusão da infelicidade” e em denegrir a capacidade racional do homem em gizar, por si mesmo, o seu destino.

  6. “Como Norberg bem explica, a desconfiança perante o sucesso da humanidade tem raízes profundamente marxistas.”

    Nos bancos da escola ensinaram-me que a crença no progresso era parte indissociável da ideologia/pensamento marxista. Leituras posteriores da obra de Marx vieram reforçar essa ideia. Mas vem agora um guru sueco dizer o contrário. O mais provável é nunca ter lido Marx, ou tão-só ter-se “inspirado” em alguma literatura de duvidoso gosto.

  7. André,

    Apesar de não ter comentado o que escrevi, gostava de lhe perguntar o que acha da posição tradicionalmente conservadora, pelo menos em Inglaterra, em defesa da causa ambiental. Também são Marxistas? E a tradição modernista na literatura (pound, ts eliot, musil, etc..). Ainda acha a sua ideia plausível?

  8. Caro Miguel Madeira,

    O liberalismo não acredita num ‘progresso indefinido em direcção a niveis cada vez melhores de bem-estar’. Acredita na pessoa humana encarada individualmente. Se esta decide bem ou mal é outra história. Já escrevi sobre isto no blogue, julgo que na anterior versão ‘blogspot’.

    O que sucede é que as decisões humanas dos últimos séculos têm sido bastante melhores que aquelas que os marxsitas esperavam.

  9. «O liberalismo não acredita num ‘progresso indefinido em direcção a niveis cada vez melhores de bem-estar’.»

    Se é assim, o marxismo acredita ainda mais no “progresso” que o liberalismo.

  10. André,

    Apenas achei que o meu primeiro comentário (e o do Miguel Madeira) poria em causa o conteúdo do seu artigo. Mas o André tem obviamente todo o direito de ignorar a crítica

  11. “Há outra lógica anti-moderna, bastante mais permanente, apostada em criar a “ilusão da infelicidade” e em denegrir a capacidade racional do homem em gizar, por si mesmo, o seu destino.”

    Suspeito que a dita lógica envolva monges albinos…

  12. doomer

    “A nova tese é que o aumento do consumo e da produção conduz à poluição e escassez dos recursos naturais. Esquecem que o progresso leva ao desenvolvimento de novas tecnologias mais limpas e menos poluentes.”

    Pois, e como é que o aumento do consumo não leva á escassez de recursos naturais (finitos)?
    A tecnologia? – Não evitou que os EUA atingissem o seu pico petrolifero em 1972 e desde aí a sua produção esteja em declínio (o que estará prestes a acontecer á produção mundial).

    Da ultima vez que reparei a nossa civilização era inteiramente dependente de recursos naturais não renováveis (petróleo, gás natural, minérios, solo aravel, etc), de uma forma insustentável, admitindo o business as usual.

    O crescimento exponencial num mundo finito não é sustentável e é impossivel a longo termo.
    É a realidade.

    Dizer isto faz de mim um marxista?

  13. “Dizer isto faz de mim um marxista?”

    Não. O marxismo, à semelhança do capitalismo, assenta no primado do crescimento. A sua crítica emana do ecologismo.
    O problema é que, no mundo insurgente, o marxismo é ampliado e de que maneira 😉
    Esta gente vê marxismo em cada esquina.

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