Os sinos dobram por nós

8180_11716-m.jpg

Pieter Jansz Saenredam, 1642.

A hora dos católicos liberais?

Sexta-feira passada, na sua coluna no jornal ‘Público’, Vasco Pulido Valente mencionou os católicos portugueses que fizeram ouvir a sua voz no referendo de dia 11. A chamada de atenção de VPV é interessante porque lembra um ponto muito interessante na vida política portuguesa. Que os católicos, na sua larga maioria, nunca largaram os Estado, nutrem por ele uma admiração estranha e nessa dependência minaram a direita política em Portugal.

Já por diversas vezes tive oportunidade de conversar com pessoas que, sendo católicas, votam PSD ou CDS, mas nem por isso deixam de ser socialistas. Não acreditam no indivíduo, mas na missão de grupo. Gostam da família, mas não confiam na sua ímpar capacidade de sobrevivência e propugnam medidas de apoio familiar por parte do Estado. Preocupam-se com condição miserável do ensino, mas não pedem liberdade na escolha dos programas escolares, nem a privatização das escolas. Acreditam nas obras públicas e no papel dos impostos para a canalização dos investimentos privados. Querem que o Estado interfira na vida privada das pessoas, para protecção daquilo em que acreditam. Vêem no Estado o árbitro da vida em sociedade.

Os católicos portugueses estão encurralados na disputa histórica que começou em finais do século XIX e que coloca de um lado o socialismo e de outro a direita, mas sempre com o Estado no centro. O preço ainda está a ser pago. Os católicos estão há 100 anos na defensiva procurando que o Estado os proteja e zele os seus interesses. Estão na defensiva e lentamente vêem-no abraçar causas com as quais não concordam. A derrota no dia 11 de Fevereiro foi a última, mas haverá mais. Outro problema com que se deparam os católicos é o serem mal interpretados. O André Azevedo Alves, por exemplo, é o único católico liberal que conheço. Outros haverá, mas a forma como todos os dias ele é mal interpretado e confundido com a extrema-direita, unicamente por ser católico e, por isso, nunca liberal, demonstra como em Portugal liberalismo e catolicismo ainda são encarados como realidades completamente distintas.

No entanto, e como já Pedro Arroja o lembrou diversas vezes, a Igreja Católica chegou a ter um papel fulcral no surgimento das ideias liberais. O discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, que deu tanta polémica mas ninguém leu, vai um pouco nesse sentido. O papel da razão na busca de uma sociedade melhor e mais livre.

Os católicos devem afastar-se do Estado, realizando fora dele a sociedade em que acreditam. Preocupando-se com o que estudam os seus filhos, devem propor a livre escolha dos programas que consideram mais convenientes. O direito de planearem eles próprios as suas reformas, sem interferência estatal. A liberdade de construção de hospitais e centros de saúde, mesmo que sem apoio dos governos. Desistindo do Estado, os católicos, nas suas preocupações e cuidados, passam à ofensiva e, creio, colocam a extrema-esquerda a defender o indefensável: Um Estado que protege quem não quer por ele ser protegido. Julgo que o resultado do referendo de dia 11 último já fez muitos perceberem este ponto. É engraçado perceber a forma como a direita portuguesa se está a aproximar do liberalismo: Através de derrotas eleitorais. Foi há dois anos com a eleição de Sócrates que o liberalismo se exprimiu livremente na blogosfera. Mencionei na altura que estava na hora dos liberais. Foi o que se tem visto. Veremos o que os próximos dias e meses nos trarão no que se refere aos católicos.

16 pensamentos sobre “Os sinos dobram por nós

  1. CN

    Muito bem. Apoiado.

    O Catolicismo tem o legado de se reunir à volta da maior organização da sociedade civil (ombreando com os próprios Estados) e assim tem mesmo o dever de enriquecer a autonomia dessa sociedade civil.

    Tem também o dever de contribuir para evitar os erros da tentação de aproximação ao poder político, seja ele qual fôr (origem dos seus erros históricos). A independência organizacional e financeira é o único garante da sobrevivência a longo prazo.

    É até na ICAR que existiu (e existem ainda) até fontes de direito (e de direitos e deveres) alternativas ao monopólio legislativo do Estado. É ai que reside a liberdade e a ordem.

  2. “Que é a doutrina social da Igreja senão o o ajiornamento religioso do socialismo laico do século dezanove?”

    Presumo que se esteja a referir à Rerum Novarum (de 1891). Não sou especialista no assunto mas parece-me que a Centesimus Annus (de 1991) se afastou dessa linha de pensamento.

  3. Excelente e oportuno texto.

    “Os católicos estão há 100 anos na defensiva procurando que o Estado os proteja e zele os seus interesses. Estão na defensiva e lentamente vêem-no abraçar causas com as quais não concordam. A derrota no dia 11 de Fevereiro foi a última, mas haverá mais.”

    Nem mais. Nao num qualquer sentido de faccao, mas houve de facto uma derrota para a Igreja (nao era essa a “motivacao”, mas e’ um “efeito colateral” obvio), ja’ que o Estado deixa de “proteger e zelar pelos seus interesses” (e valores).

    “Outro problema com que se deparam os católicos é o serem mal interpretados. O André Azevedo Alves, por exemplo, é o único católico liberal que conheço. Outros haverá, mas a forma como todos os dias ele é mal interpretado e confundido com a extrema-direita, unicamente por ser católico e, por isso, nunca liberal, demonstra como em Portugal liberalismo e catolicismo ainda são encarados como realidades completamente distintas.”

    Temos de separar o “extrema-direita” dito como “factual” e dito como “arremesso”. Deixo o arremesso de fora. Quanto aos factos, o proprio Andre’ se assume muitas vezes como sendo de extrema-direita, e nem sempre sera’ na brincadeira ou na mera provocacao. Sera’ – ou nao – de extrema-direita, factualmente, por defender um liberalismo extremo, quer dizer, pugnando por uma ausencia do Estado quase total para alem do Estado minimo. O “extremo” nao e’ usado, mais uma vez, como arremesso.

    De qualquer modo, nao acredito que alguem apelide o Andre’ de “extrema-direita” por ser um liberal catolico – ou melhor, um libertario catolico – mas pelas posicoes que toma no debate politico. Enfim, nao e’ meu intuito pessoalizar a coisa, mas apenas referir que nao ha’ necessariamente uma ligacao logica entre o ser-se “liberal catolico” e ser-se – factualmente, whatever that means – de extrema-direita.

  4. O André Azevedo Alves é interpretado como de extrema-direita, por mim, por exemplo, não por ser católico e liberal, mas pelas posições que toma. Nâo existe, evidentemente, qualquer incompatibilidade entre ser católico e liberal. Já entre ser “liberal” e citar textos nacionalistas escritos por dirigentes do PNR… Ou Escrivá de Balaguer… Enfim, vcs é que tem a obrigação de saber o que será um “liberal”, que eu não pertenço a esse clube. Insisto, no entanto, que o “liberalismo” em Portugal é muito estranho.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.