É consensual e ninguém minimamente sério (i.e., tipos cuja prima da vizinha do sobrinho do cunhado tenha acções da Exxon não têm direito a opinar, a menos que concordem) o pode negar mas, pelo sim pelo não, é melhor continuar a confirmar repetidamente as coisas acerca das quais já temos certeza absoluta, não vá o diabo tecê-las – que é como quem diz, não vá o pessoal ficar com a sensação de que há um grau de incerteza tão reduzido que isto deixe de parecer uma coisa respeitável e passe a ser visto como um excelente negócio de troca entre o que o político quer ouvir e o que cientista deseja receber.
Mês: Fevereiro 2007
Agradecidos (lista actualizada)
Os insurgentes agradecem a todos aqueles que assinalaram o segundo aniversário deste blog,
(por ordem alfabética)
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NAZIS E COMUNISTAS: 2ª Parte
Resposta a Miguel Madeira
Agradeço os seus apontamentos. Escrevi os dois artigos sem consultar qualquer texto e simplesmente baseada na minha experiência própria da esquerda dos anos 50 e 60 e, igualmente, o conhecimento do que se passa actualmente na academia anglo-americana. Se tivesse consultado a Wikipedia, como fiz há momentos, não me tinha enganado quanto à morte em liberdade de Gramsci. Realmente foi muita espalhada a ideia que ele tinha morrido de doença na prisão. Que não me enganei quanto ao alcance de Gramsci, vem confirmado nesta entrada na Wikipedia, onde o Miguel Madeira encontrará uma lista das importantes figuras influenciadas pelo seu pensamento.
Quanto ao que parece um anacronismo, admito que deveria ter escrito ‘os futuros soixante-huitards’. Para melhor fundamentar o meu argumento (a desejada economia de espaço limita-nos) devia ter referido que a grande crise no interior do comunismo iniciou-se em 56-57 a seguir ao discurso de Khruchtchev e a esmagada revolução húngara. Daí em diante foi um sem fim de debates entre os intelectuais comunistas e a edição de centenas de revistas. Foi em 56-57 que surgiram o nome de Gramsci e a procura das suas obras ‘esquecidas’ pelo comunismo oficial. Ecos desta efervescência lá fora rarissimamente chegavam a Portugal. Cá dentro havia a censura que condenava os oposicionistas a uma ignorância aflitiva. No exílio, os raros oposicionistas portugueses, até a aventura argelina e o conflito ideológico sino-soviético, não ousavam contactar meios críticos da ortodoxia comunista. E, sempre exceptuando Pacheco Pereira, quantos são hoje em Portugal os que se interessam pela verdadeira história do comunismo? Evidentemente que essa história nunca foi linear e varia de país para país. O que eu conheço razoavelmente são as esferas anglo-saxónicas e francófonas. E havia grandes diferenças entre elas. O que eu tentava nestes dois artigos (e que vai continuar) era de fazer um apanhado global—o que é sempre arriscado. Iremos voltar a falar.
E acredito que ele esteja lá
China’s prime minister promised to maintain “socialism for 100 years” yesterday as the Communist Party tried to play down media discussion of political reform.
“We must keep a firm grasp on the basic principles of the Party in the initial stage of socialism, without wavering, for 100 years,” Wen Jiabao, said in an article reproduced in the People’s Daily newspaper and other centrally-controlled state media.
E amanhã o que é o jantar? Pode ler a notícia no Telegraph.
Sinceros “não” parabéns
Se o Blasfémias celebrasse hoje três anos, muitos parabéns seriam devidos aos seus colaboradores (presentes e passados).
Mas não.
Só daqui a um ano é que celebram… um ano.
Por isso, e até lá, “não” parabéns.
NAZIS E COMUNISTAS: 2ª Parte
Uma explicação mais complexa
A sobrevivência do comunismo e a sua continuada capacidade de ganhar adeptos é evidente para todos. Talvez o que mais surpreende é a sua resuscitação nos Estados Unidos da América. Quanto aos Nazis estes, de modo geral, se encontram reduzidos a pequenos grupelhos compostos de patéticos rúfiões e sociopatas que vivem à margem da sociedade. Os comunistas confessos, as toupeiras e os simpatizantes são em muito maior número. Alguns ocupam lugares de destaque e de real poder no Partido Democrata dos EUA. No Reino Unido, os comunistas há muito se converteram em New Left, em trotskistas em socialistas da esquerda de toda a espécie.
As cabeças pensantes
Mas tanto no mundo anglo-saxónico como no continente europeu as cabeças pensantes desta esquerda, seguiram de maneira cuidadosa e coerente uma política que começaram a elaborar durante os primeiros anos da New Left e a seguir à turbulência de Maio de 1968.
Os textos inspiradores já não eram dos clássicos, mas de um marxista italiano, suspeito por Moscovo de desvios. Se não tivesse morrido numa prisão de Mussolini e tivesse saido em liberdade é muito provável que viesse a morrer às mãos de algum assassino ‘amigo’. Chamava-se António Gramsci e não pregava a revolução por meios violentos. A revolução sim, mas uma silenciosa e pacífica. Chamava esta política a da ‘longa marcha pelas instituições’. Gramsci era um homem muito inteligente e já nos anos trinta tinha percebido que a velha política de confrontação não seria a mais aconselhável. Ele preconizava esta caminhada num mundo onde imperava o fascismo. Depois da Segunda Guerra Mundial os ‘soixante-huitards’ mais perspicazes e a esquerda anglo-saxónica descobriram Gramsci mais de vinte anos depois de sua morte. Andavam à deriva, agastados com a evidente decadência do mundo soviético. Agarraram-se a Gramsci como a tábua de salvação. A perspectiva dessa longa marcha era aliciante para jovens universitários radicais nos anos 60 e 70. Era a perspectiva de uma vida ‘revolucionária’ confortável. Apesar da guerra fria a prosperidade crescia em toda a parte. As universidades proliferavam. Os organismos não-governmentais também. E, inacreditavelmente, o Mercado Comum (que tinham começado por condenar)dava passos de gigante. Eis as instituições cujos corredores convidavam quem quisesse embarcar numa longa e lucrativa marcha. Foram muitos que aceitaram.
Foi a política do cavalo de Troia. A fortaleza do capitalismo tomava-se por dentro. As barricadas seriam só por uso ocasional, oportunista. Não serviam para os novos assaltantes da cidadela. A via de penetração para estes seria a burocrática. Chegariam a serem membros duma nomenklatura sem ter que passar pelas etapas espinhosas da militância.
Que estrutura mais perfeita que a União Europeia? A sua política socialista que se chama ‘social-democrata’ ia gerindo cada vez mais organismos estatais, por todo o continente. Cada vez mais legislação, cada vez mais controlo sobre o cidadão. Um poder quase ilimitado. Um parlamento europeu decorativo e quase impotente. Um orçamento gigante acompanhado por um tribunal de contas inoperante. Governos e parlamentos dos países membros subornados e reduzidos à servidão.
O proletariado é substituido pelo arco-iris
Quando finalmente cairam os regimes comunistas da Europa, os Gramscianos constataram que também estava a definhar o suporte tradicional do comunismo a nível interno: o proletariado industrial. À procura de novas bases de apoio perceberam que havia uma caminhada a fazer em parallelo com a das instituições. Existia uma parte da sociedade civil, um arco-iris composto das minórias marginalizadas:; pela sua etnia, pela sua orientação sexual ou, pasma-se, pelo seu sexo. As feministas radicais reivindicavam para as mulheres o estatuto duma ‘minória’ e a esquerda, com alguma relutância abandonou o seu costumado machismo e a grande aliança nasceu. Havia também os ambientalistas e novos grupos acitivistas de várias origéns. E estavam todos aí prestes a serem seduzidos pela nova cruzada anti-capitalista.
Era um panorama para deliciar o olho de qualquer aspirante ao poder político.
(Amanhã 3ª parte: O Politicamente Correcto.)
Vamos ver o que sai daqui
Penso que, quem se interessa minimamente por música não ignora a revolução que internet operou no mercado. Esta possibilitou aos artistas ou pequenas editoras novas formas de promover e distribuir os seus produtos contornando, por completo, os circuitos tradicionais. Aliás, neste momento, o problema não é a escassez mas sim o excesso de oferta. Artistas que dantes apenas teriam acesso a um pequeno mercado local podem hoje chegar a qualquer parte do globo bastando apenas que esteja disponível a ligação à internet.
Pensava eu que isto seria do conhecimento geral. Pelos visto não. Pelos menos para o Parlamento Europeu que pretende legislar a fim de “proteger a diversidade cultural europeia”.
UMA QUESTÃO GENEALÓGICA
Resposta a um comentário sobre Nazis e Comunistas.
Um comentário à Primeira Parte chama atenção para a minha referência ao socialismo como ‘filhote do comunismo’, sugerindo que na realidade é o comunismo filhote do socialismo. Tem toda a razão do ponto de vista histórico. Eu estava a pensar na situação actual. Para onde é que vai a maior parte dos comunistas dissidentes senão para as várias versões do socialismo? No entanto, se quisermos falar de uma genealogia correcta teríamos que atribuir a paternidade do socialismo/comunismo aos conservadores, esses tories do século dezoito que abraçaram a ideia socialista. Eram apoiantes da ideia do Estado forte, um Estado que mandasse em tudo. Que maneira melhor de mandar em tudo de que comandar a indústria, o comércio e a banca? Poucos se lembram hoje quem eram os primeiros socialistas. Um próximo post irá recordar a Lost Literature of Socialism (livro do mesmo nome de George Watson, professor de St, John’s College, Cambridge.)