Cada um tem o jornalismo que merece

Ou “Está na moda bater nos bancos“.

Os bancos nacionais não estão a reflectir nos depósitos a prazo o aumento da taxa de juro de referência definida pelo Banco Central Europeu.

Esta realidade, denunciada pelo Jornal de Negócios, contraria a política bancária para, por exemplo, os juros associados aos empréstimos à habitação.

O jornal cita o Boletim Estatístico de Dezembro do Banco de Portugal, o qual refere que a taxa de juro média ponderada de saldos dos depósitos com prazo superior a dois anos era de 2,51% em Outubro.

Uma remuneração que fica abaixo da taxa de juro de referência da zona euro no mesmo período: 3,25%.

[DD]

Antes de mais tenho que fazer a ressalva que os factos indicados na notícia são verdadeiros. No entanto, padecem de dois problemas: um, é a sua irrelevância para o que se pretendia comprovar; o outro, é a má vontade com que são apresentados.

A grande maioria dos depósitos a prazo realizados em Portugal são feitos com uma taxa fixa acordada no início, havendo uma penalização (total ou parcial) no juro, em caso de desmobilização antecipada. Dessa forma, a taxa de juro média ponderada em depósitos a prazo (superiores a 2 anos) reflecte as taxas estabelecidas no início de cada um dos depósitos vivos. Assim, é um erro grosseiro comparar essa taxa com a taxa de referência do BCE em vigor em Outubro passado.

Existem duas formas correctas de fazer esta comparação. Uma seria fazer uma média das taxas de referência do BCE no momento do início de cada depósito a prazo vivo. Tal é, no mínimo, impraticável. Para além disso, não nos dá uma ideia do impacto do aumento das taxas de referência nas taxas dos depósitos a prazo. O que se pode, se deve fazer é observar as taxas de juros de novos depósitos e comparar com as taxas de referência do BCE.

  Dezembro 2005 Outubro 2006
Taxa Novos Depósitos a Prazo 1,99% 2,91%
Taxa de Referência BCE 2,25% 3,25%

Esta comparação permite verificar que os bancos praticamente mantiveram a diferença na remuneração dos depósitos face à taxa de referência do BCE. Mas, aproveitando o boletim estatístico do Banco de Portugal, podemos ainda constatar que a taxa média praticada em novos empréstimos à habitação passou de 3,53% (em Dez/05) para 4.32% (em Out/06).

Concluindo, não só os bancos acompanharam, praticamente na totalidade, em taxas dos depósitos a prazo, a subida das taxas de referência do BCE, como a variação nas taxas dos empréstimos à habitação foi inferior à dos depósitos a prazo. E assim se consegue ter uma notícia falsa com factos verdadeiros.

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