Os sinos dobram por nós

scotland-flag.jpg

O 28.º Estado?

A 3 de Maio de 2007 vão ter lugar eleições para o Parlamento escocês. Serão as terceiras desde a sua criação em 1999 e, ao contrário das duas anteriores, está a causar crescentes expectativas no Reino Unido. Tudo porque o Scottish National Party (SNP), que defende a independência da Escócia, tem fortes probabilidades de vencer. A acontecer, a única certeza é que, precisamente 300 anos depois da sua origem, o futuro do Reino Unido é incerto.

O SNP tem como principal objectivo político a independência da Escócia. A sua base ideológica é de uma esquerda moderada, mas muitos dos votos conquistados ao longo dos anos, vêm do Partido Conservador. O SNP foi conseguindo cativar antigos tories, como sejam Michael Fry que, na edição de Dezembro da Prospect, explicou o porquê do seu do voto no SNP.

Porque é que o Reino Unido, que tem sido um sucesso desde 1707, está em risco de acabar? Uma das coisas que mais irrita os escoceses, é a complacência dos ingleses. A Escócia é mais pobre que o resto do Reino Unido e, para colmatar essa realidade, passou a receber uma variadíssima panóplia de subsídios aprovados por Londres. O objectivo era nobre, muito à semelhança do que por cá se quer fazer em relação ao interior, mas não ajudou a melhorar o nível de vida na Escócia. Pelo contrário, o fosso aumentou e os escoceses, sentindo-se cada vez mais dependentes da Inglaterra, só na independência encontram a solução dos seus problemas. Mas as razões não se ficam por aqui.

É preciso enquadrar os actuais ímpetos independentistas com aquilo que é hoje o Reino Unido. E ele é muito menos apelativo que em 1707. Nessa altura, a Inglaterra batalhava por um Império que se antevia o maior de sempre. A Escócia falhava as suas tentativas de se estabelecer na América, tanto do Norte como do Sul, nomeadamente na Nova Escócia e no Panamá. Perante os seus fracassos em encontrar novas terras aráveis, a solução encontrada foi a união com a Inglaterra. Com ela e através desta, os escoceses tinham, como cidadãos britânicos que eram, livre acesso a um enorme império. A sua economia podia brilhar e muito do Iluminismo escocês deve o seu desenvolvimento ao Reino Unido. Hoje nenhuma destas vantagens existe. O Império Britânico terminou e a Escócia nada tem a receber da Inglaterra. Nem sequer a Europa, onde os escoceses querem vir a ser o 28.º Estado membro da União Europeia, já depois do alargamento à Roménia e Bulgária.

A União Europeia pode, no entanto, ser uma faca de dois gumes. É que, se por um lado permitirá a sobrevivência de mais um pequeno país europeu, por outro, caso atulhe a Escócia com subsídios, corre o risco de fazer com esta o que ela não quis da Inglaterra: Ser dependente de dinheiros alheios. Mas o fenómeno escocês pode ter sérias influências em outros países europeus, nomeadamente a Bélgica e a Espanha. No passado dia 13, um canal de televisão belga iniciou o noticiário informando que a Flandres tinha proclamado a sua independência. O susto foi geral e demonstra a fragilidade belga. Para a Espanha, que negoceia o Estatuto de Autonomia das suas comunidades, o fim do Reino Unido pode ter consequências graves na sua sustentação, com efeitos fortes e profundos em Portugal.

Trata-se de uma mera hipótese, que pode nunca suceder mesmo que o SNP vença. Na verdade, Gordon Brown é escocês e o fim do Reino Unido seria o desfecho da sua carreira política… De qualquer maneira, pouco se fala, e menos ainda se ouve nos noticiários, sobre as eleições escocesas de Maio próximo. O que é pena já que elas serão essenciais na Europa e cruciais para muitos países. Porque é sempre desta maneira que os grandes equilíbrios acabam: Numa região remonta que poucos lembram e de que nunca se fala.

28 pensamentos sobre “Os sinos dobram por nós

  1. CN

    Como já tenho dito, a Secessão será o factor supresa na política internacional na próxima dezena de anos.

    Existe uma razão económica: o seu custo cada vez é menor porque o proteccionismo (nacional) económico já está ultrapassado em parte.

    Existe uma razão democrática: Já não estamos em tempo de assistir a outra guerra civil americana em que o Estado Central inicia uma guerra para esmagar a vontade democrática (a secessão foi decidida por cada uma das legislaturas estaduais) de um circulo mais pequeno de se tornar autonómico ou independente.

    Dito isto não sou ingénuo, será um processo conturbado e fará estremer com o actual paradigma. O meu princípio é: não me meter demasiado, nem a favor nem contra, nos processo que vão aparecer e popular por todo o lado.

    PS: A própria UE, sem o querer, está a incentivar o aceleramento deste processo ao diminuir a soberania dos Estados, “namorando” as regiões.

  2. José F.

    Este post analisa bem as tendências “nacionalistas” na Europa. Mas, dos exemplos que deu, a menos imediata parece-me ser a da Escócia. A desintegração da Bélgica parece uma inevitabilidade a curto prazo. “Bruxelas EU district” avizinha-se.
    Tenho pena que o autor não tena analisado mais profundamente o fenómeno da Peninsula Ibérica. É que se a Espanha evoluir para uma Confederação de Estados Portugal não pode ficar de fora, sob pena de aprofundar irremediavelmente a sua situação (ultra)periférica.
    Porque é que não se assume que 1640 foi um erro histórico que teve consequências negativas nas nossas mentalidades e na nossa economia. A Ibéria poderia ter sido uma grande potência europeia. A separação de Portugal e Espanha correspondeu a interesses imediatos de alguma classe politica. mas foi um erro estratégico. Ontem e hoje.

  3. CN

    Caro José F.

    Foi Herculano que disse que se is Iberistas querem arranjar uma Irlanda para Castela não era necessário porque esta já tinha a Galiza para se governar.

  4. André Abrantes Amaral

    Gabriel, Blair é escocês mas já não será o primeiro-ministro do Reino Unido, caso a Escócia se vá embora. De toda a maneira teria a sua graça assistir a um novo confronto entre ele e Brown pela liderança do governo escocês…

    CN, partilho da mesma opinião no que diz respeito à não interferência. Deixemos as coisas andar (também não podemos fazer muito mais) e veremos o que acontece.

    Se a independência dos Estados (tal como aconteceu com os EUA que marcou o fim do mercantilismo) leva ao fim dos proteccionismos, é interessante perceber o quanto estes movimentos poderão ter um caráter, não de nacionalista, mas de verdadeira liberdade.

    José F, não analiso melhor a Peninsula Ibérica por limitação do assunto. Quem sabe um dia. Não sei se 1640 foi um erro estratégico, mas nada se perde em analisar a ‘coisa’ desse prisma. Não esquecer que várias vezes Portugal se quis juntar a Castela, desde que não numa situação de subalterno. No entanto, é preciso ter em consideração que 1640 salvou a nossa presença no Brasil. Não creio que a Ibéria possa ter sido uma potência, na medida em que o engenho humano estava à época com outros povos, nomeadamente ingleses e holandeses.

  5. Um pormenor importante nesta questão é que ao contrário do passado, os ingleses não terão muito a opôr à independência da Escócia. O efeito eleitoral que permite aos deputados escoceses votar no parlamento nacional leis que só se aplicam a Inglaterra e País de Gales, bem como assegurar a maioria absoluta trabalhista em troca de subsídios generosos para a Escócia, não é algo que agrade ao ingleses. Além de ser muito pouco democrático…

    E a consequência para a política interna inglesa será brutal, pois os trabalhista não só perdem muitas das suas estrelas, como perdem umas dezenas de lugares “garantidos” em Westminster…

  6. “A sua economia podia brilhar e muito do Iluminismo escocês deve o seu desenvolvimento ao Reino Unido.”

    Heresia! Heresia! Como pode o nobre Iluminismo escocês dever algo aos bárbaros ingleses? 😉

  7. Migas, o seu comentário toca num ponto bastante importante que é, ao contrário do que tem sido costume nestas práticas, o povo ‘dominador’ querer a independência do país ‘subalterno’. A independência da Escócia não é, de facto, muito mal vista pelos ingleses.

  8. marco

    Agradeça à Portugal que tenha se mantido independente, não vou nem me meter em discutir a história para não apanhar por besteiras, agradeço por não falar a nojenta lingua espanhola. Viva a lingua portuguesa, mesmo essa rancheira e de pé quebrado que se fala na Terra dos Tupis!

    Olavo Bilac – Última Flor do Lácio

    Última flor do Lácio, inculta e bela,
    És, a um tempo, esplendor e sepultura:
    Ouro nativo, que na ganga impura
    A bruta mina entre os cascalhos vela…

    Amo-te assim, desconhecida e obscura.
    Tuba de alto clangor, lira singela,
    Que tens o trom e o silvo da procela,
    E o arrolo da saudade e da ternura!

    Amo o teu viço agreste e o teu aroma
    De virgens selvas e de oceano largo!
    Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

    em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
    E em que Camões chorou, no exílio amargo,
    O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

  9. CN

    “Se a independência dos Estados (tal como aconteceu com os EUA que marcou o fim do mercantilismo) leva ao fim dos proteccionismos, é interessante perceber o quanto estes movimentos poderão ter um caráter, não de nacionalista, mas de verdadeira liberdade. ”

    Até pode ser que não nasçam própriamente liberal. O facto é que quantos mais países existirem e de menor dimensão, maior é a concorrência entre diferentes sistemas e menor a capacidade de impôr tarifas sem sofrer as consequências. A secessão é, em útlima análise, um factor de mudança sistémica de descentralização. Além disso, é até suficiente a própria ameaça de secessão mais do que a concretização, que pode ser suficiente para equilibrar o centralismo que se forma inevitávelmente em qualquer desenho constitucional alargado, como a própria evolução dos EUA o demonstra.

  10. José F.

    Caro Marco,
    Em Espanha há 4 línguas oficialmente aceites. Podemos afirmar que há um respeito muito grande pela diversidade. Que o mesmo é dizer, também, pela língua.
    Julgo que anteriormente, tal como hoje no mundo globalizado, defendemo-nos melhor juntos que separados.´`A espanha sempre fez falta a nossa frente atlântica para se afirmar como potência europeia. A nós sempre fez falta o um mercado de mais de trinta milhões de pessoas. Ficámos reduzidos ao nosso rectângulo, a ouvir fado e guitarradas.

  11. “O facto é que quantos mais países existirem e de menor dimensão, maior é a concorrência entre diferentes sistemas e menor a capacidade de impôr tarifas sem sofrer as consequências.”

    Esse é um aspecto muito importante e frequentemente ignorado. Não explica nem resolve tudo mas a sua compreensão é fundamental para qualquer perspectiva liberal das relações internacionais.

  12. macmahon

    Este José F. é um belo duque d’ouros.
    Joga no “el gordo” a ver se vais de vez para Madrid. E não voltes.

  13. Pedro Rodrigues

    Em Madrid chamaram a D. João IV ” Rei de Inverno “(nessa altura as Campanhas militares eram levadas a cabo só na Primavera).

    O Padre António Vieira escreveu em 1665: “Chamaram-lhe Rei de Inverno; já passaram vinte e cinco invernos”.
    A maior Potência do mundo, a Coroa Ultramontana-Inquisitorial dos Austrias, com a revolta da Catalunha, saíu derrotada por Portugal.

    Fernando Pessoa exaltou Vieira. Exaltou também Bandarra, sobre quem escreveu: “afirmou a existência Sagrada de Portugal, perante a defeccção de nobres e clérigos”.

    Deus proteja Portugal – e a Galiza, Albuquerque e Olivença.

    DEUS proteja Portugal

  14. Marco, eu preferiria falar castelhano, haha. Meio mundo fala castelhano, e quase ninguem fala portugues. Seria mais facil para nos.

    Quanto a Europa, daqui a pouco sera um continente formado por cidades-estado, ou pequenas tribos, cada qual com sua religiao preferida, seu modelo de governo, etc etc etc. A meu ver soa meio assustador. Desestabilizante.

  15. Aproveito para clarificar que não vejo como perigosa a independência da Escócia, essencialmente, se essa for a vontade dos escoceses. Perigoso pode ser o remar contra a maré. Em 1707 a Escócia sentiu interesse em se juntar à Inglaterra. Agora pode ter opinião diferente. Julgo apenas que deveremos estar atentos, porque a acontecer pode ter repercussões importantes a nível europeu e em Espanha.

  16. José F.

    Cara Patrícia
    Não se assuste com as Cidade-Estado. Elas estão muito bem, em qualquer parte do Mundo. Quer exemplos? Luxemburgo, Mónaco, Lichenstein, Andorra, Singapura. Acha que os cidadãos destes Estados se sentem mal com a sua dimensão, ou têm problemas burocráticos de maior?

  17. Jose F., nao ha problemas quando as pessoas que habitam essas cidades tem bom senso. Mas isso eh o que ha de menos no mundo em geral, bom senso. Basta ver o que aconteceu com o fim da Iugoslavia…

  18. marco

    José F. na América Latina espanhola só se fala o castelhano, fora os indios e suas linguas silvículas (brincadeira, acho o tupy uma lingua maravilhosa)

    Se o Brasil fosse território da Coroa Espanhola, Deus me livre, parei, não quero mais pensar nisso, o terror é muito grande, não teríamos o bom D. João VI, nem os excelentes Pedros, nem a bondosa princesa Isabel, nem o COnde D’Eu, ou o Visconde do Rio Branco, os Barões do café, os Reis do Gado, nem a promiscuidade lasciva de nossos antepassados…Que pesadelo!

    Agradeço à Portugal, por ser um país de homens e mulheres valentes, que não se rebaixaram à Castela inquisidora! Mas se vcs quiserem se juntar agora e passar a falar com a lingua inchada, fiquem à vontade!

    Quando alguém se dispõe a perder a nacionalidade, quando o mundo todo luta por obtê-la, ou é um tolo ou um covarde!!!

  19. Marco, rolei de rir: “e passar a falar com a lingua inchada”. Voce nao gosta mesmo do castelhano, heim? Digamos que o espanhol falado pelos sul americanos eh muito mais bonito e harmonioso que o espanhol oficial da Espanha. Pelo menos nao precisam colocar a lingua para fora a cada 3 palavras, haha.

    Quanto a questao de colonizacao, sou suspeitissima para opinar. Digamos que o modelo portugues/espanhol nao foi dos melhores.

  20. Ricardo

    Obviamente que não faz falta ver Rob Roy ou Brave Heart para dar-se conta que os Presbiterianos não aguentam estar submetidos à coroa da pirata inglesa. Essa história vem-se arrastando há séculos, mas algúm dia cairá de quatro patas. Tudo o que não é genuíno cai e normalmente cai feio.

  21. José F.

    Caro Marco
    Você tem espírito de humor. Isso não é muito português. Você já espiolhou as suas origens? Não terá sangue castelhano? Será que o seu anti-castelhano é uma relação de família mal resolvida?
    Mas note. Não digo viva Espanha. Sou favorável a uma Ibéria de Confederação de Estados.
    A propósito se me saísse o “El Gordo”, não ficaria em Madrid. Iria seguramente para Barcelona.

  22. CN

    “uma Ibéria de Confederação de Estados.”

    Humm, sou favorável é a um Portugal Confederação de Regiões.

  23. José F.

    Caro CN
    Os regionalismos em Portugal redundam nos autarcas que a gente conhece e que sinceramente não aconselho a ninguém. Está contente com o resultado? Eu não!

  24. Pingback: A Escócia, o Reino Unido, os subsídios e o império | O Insurgente

  25. Pingback: A Inglaterra – O Insurgente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.