Pinochet – Uma opinião divergente

A notícia da morte do antigo ditador chileno Augusto Pinochet motivou mais um episódio de uma antiga disputa acerca dos méritos deste e (em segundo plano) do deposto Salvador Allende. Confesso que não partilho de algumas opiniões que aqui foram expressas.

Sendo certo que o governo de Allende foi autor de graves atropelos às liberdade individuais, não me parece que Pinochet possa servir de modelo àqueles que se reclamam herdeiros da tradição liberal clássica. Segundo me parece, esta reclama existir um conjunto de liberdades individuais inalienáveis, não hierarquizáveis e inseparáveis.

Embora tenha voluntariamente abandonado o poder (o que o coloca acima de muitos outros ditadores – alguns ainda no activo e frequentemente apontados como modelos), a ditadura chilena perseguiu, prendeu e matou violando liberdades e garantias. Se em seu favor se credita o derrube do governo anti-liberal de Allende, por outro lado temos 17 anos de restrição da liberdade. Poder-se-á argumentar que outras foram mais restritivas, duradouras ou mortíferas. Contudo, não me parece lícito que possamos relativizar os seus crimes dizendo que tudo foi feito em nome de um bem maior. Devemos regermos por princípios absolutos e não por critérios de escala ou de resultados. Não é credível que pretendamos menorizar os seus crimes e ao mesmo tempo considerar “violações inaceitáveis” regulamentos que proíbem o fumo em locais fechados. Congratulemo-nos pelo processo de transição ter sido pacífico e voluntário mas não desculpemos os 17 anos que o antecederam.

Algumas mentes ínvias (e com propósitos bem conhecidos) pretendem fazer crer que o liberalismo económico é indissociável da ditadura. Nós sabemos que se trata de uma falácia e conhecemos vários casos em que governos democráticos procederam a reformas similares sem que para isso tenha sido necessário cercear as liberdade políticas. Podemos louvar que tenha sido esse o caminho seguido e que isso tenha implicado conceder mais liberdade aos chilenos. Convém, no entanto, deixar bem expresso que não é isso que o torna um regime exemplar. Caso contrário estaremos a concordar com aqueles que defendem que os fins justificam os meios ou que é aceitável reprimir algumas liberdades em prol de outras. (Outras ditaduras latino-americanas – não necessariamente de esquerda – preferiram políticas socialistas com resultados desastrosos mas ninguém parece interessado em fazer a mesma associação.). O liberalismo não se esgota nas liberdades económicas nem as coloca acima das de carácter político.

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0 thoughts on “Pinochet – Uma opinião divergente

  1. CN

    Muito bem.

    Mas não punha tanto ênfase nas “liberdades políticas”.

    Um (acho eu) minarchist, deve realizar que quanto menor for o intervencionismo menos precisamos de eleger políticos. Num paradigma de só segurança/justiça, precisamos de polticos para quê?

    Precisamos sim de liberdade economica para eleger adminstradores de empresas, associações, condomínios, quem sabe até os municipios estariam organizados sob forma proprietária.

    É apenas uma imagem para evidenciar que “Liberdade politica” é importante quando temos de escolher entre um menor mal de intervencionistas.

    No limite, Pinochet deve ser criticado porque pisou mutas liberdades não politicas. A liberdade de imprensa não é uma liberdade politica. É um liberdade económica dos proprietários poderem usar da sua propriedade: publicar os textos que entenderem. E assim por diante.

    E esta é precisamente a visão do liberalismo clássico. As nossas liberdades estáo directamente ligadas ao direito de propriedade. Não à capacidade de escolher entre intervencionistas. A democracia é uma forma de comunismo, apenas dá a hipótese de poder disputar e (restringir? nem sei) alguma coisa o grau de socialismo.

    Mas acho que se percebe bem o que quiseste dizer.

    Também nunca saberemos se o desastre a que Allende conduziria a economia, não serviria de exemplo aos prprios para mais tarde o derrubarem de forma mais pacifica e at´´e servir de exemplo de utopia falhada aos vizinhos.

    È por isso qur devemos deixar Chavez e os outros afundar as suas economias na America Latina, e deixar também que mais uma ilusão caia, sem interferências externas.

    Um passo atrás, dois à frente mais tarde. E sem grandes revoluções violentas.

  2. Cristina Ribeiro

    Para mim,o mal de certos ditadores é que até começam por desenvolver actos de crucial importância para o desenvolvimento do País, salvando-os de males inomináveis ,mas,depois,levados não sei por que “poder maléfico” ,acabam por descarrilar num verdadeiro atropelo dos direitos humanos,não se podendo,a título nenhum branquear as atrocidades por eles cometidas ou consentidas.

  3. Carlos Carvalho

    Nada seria pior para o Chile do que um governo comunista liderado por Allende. Nao posso concordar com as atrocidades que foram cometidas por Pinochet, assim como nao concordo com as atrocidades cometidas por Stalin, Lenin, Che Guevara, Kim Jung Ill (e o seu irmao, Mentally Ill :-)) e outros “democratas”.
    Mas eu sou mais pragmatico, nada e’ pior que o comunismo, nao houve na historia recente mundial, sistema de governo mais ineficaz, mais atentatorio das liberdades individuais. Nao e’ so’ a ditadura, e’ a destruicao do individuo, dos seus sonhos, das suas ambicoes, do querer ser melhor todos os dias, da vontade de mudar e de inovar. Alguem concebe um Bill Gates nascido na URSS? Nunca poderia acontecer. E’ um sistema concebido em tempos diferentes, quando as condicoes de trabalho eram de facto miseraveis. O mundo mudou, moralmente evoluiu, ja’ nao temos os atentados que tinhamos no virar do seculo XIX, somos pessoas diferentes. Nao vejo razao para o comunismo existir hoje em dia, assim como nao vejo razao para os sindicatos existirem.

  4. Muito bem, Miguel. Parabens pela lucidez e pela moderacao.

    Claro que ao ler isto, sera’ dificil a muitos nao o subscreverem. Contudo, o que releva e’ a “enfase” que tu escolhes – a tua “escolha”, consciente e assumida, de dar a enfase merecida ‘as violacoes cometidas. Ja’ outros preferirao optar o “enfoque” de barricada, contra a extrema-esquerda, etc e tal. Outros, ainda, optarao pela “contra-barricada”, criticando o Pinochet apenas para ser do contra. Acho que o texto do Miguel nao se encaixa em qualquer destas prateleiras viciosas, o que e’ assinalavel.

    PS: so’ apontaria, mas percebe-se e aceita-se, no contexto, o “absolutos”, quando te referes aos “principios absolutos”. Sera’ uma discussao que nao cabe aqui, mas a palavra “absoluto” e’ um pouco perigosa.

  5. Se há alguém a ser celebrado pelo sucesso chileno é Milton Friedman e não o Pinochet. Por mais “ordem” que o ditador tenha conseguido impor no Chile, se tivesse adotado as reformas erradas, não teria dado certo.

  6. Luis Moreira

    Só há ditadores!

    Maus e bons ditadores não há!

    Allende cometeu erros grosseiros,ninguem nega, mas foi eleito democraticamente, e deveria ter sido democraticamente deposto!

    É preciso ser democrata em todas e quaisquer circunstâncias !

    Assassinar pessoas de esquerda ou de direita é, rigorosamente, o mesmo! Um CRIME!

  7. antonio

    Nao sei se o Luis Moreira concorda que Hitler devesse ter sido democraticamente deposto? Afinal de contas foi eleito mais de que uma vez por via eleitoral…. E nos casos em chegam ao poder pela força, como o caso de Fidel? Esperemos que ele convoque eleiçoes? Vamos la dar-lhe uma cacetada?

  8. Marco

    Sei lá, é fácil falar sem conhecer…
    É muito fácil escrever sobre o purismo da ideologia quando não há nenhum comuna apontando uma arma para sua cabeça…
    Os meios moldam os fins, disso não há dúvida, mas as condições são determinantes e é uma questão de amadurecimento entender que às vezes na vida deve-se optar pelo mal menor.
    Se não pudermos reconhecer o valor de ninguem que não seja puro, então devemos esquecer e repudiar todos os grandes nomes da história.
    Algum relativismo deve existir, senão vira a ditadura da democracia, a ditadura do liberalismo, e há aí um paradoxo…Popper explica!

    Pessoalmente, só pelo que o Pinochet aprontou com a argentinada eu já tenho simpatia pelo velho! Por ter enfrentado a comunada então, dava um beijo na testa do filho da mãe!

  9. dlm

    Um excelente texto. E muito provavelmente traduz a opiniao da maioria dos insurgentes, como liberais que são.
    Penso eu

  10. Os clichés habituais, arvoram-se em juízes da democracia…
    Vocês fazem-me lembrar aqueles doutos democratas de uma célebre assembleia nacional francesa…só que quando apertados até legitimaram Vichy.
    É muito fácil fazer julgamentos destes ao teclado de um PC, o mundo fica tão simples…
    Os atropelos do governo de Allende… Sincera/ duvido da vossa escala de valores, quando comparada com um homem que pautou a sua vida pela ética.
    Allende governou em circunstâncias extremamente difíceis, sabotado pela oligarquia imemorial (natural/ vocacionada para o exercício do poder) e pelo governo dos Estados Unidos; não tinha pratica/ aliados na região. Durante a sua governação, pairou sempre o fantasma do golpe de estado. Jacarta era a palavra de ordem que a direita escrevia nas paredes dos edifícios, em Santiago do Chile. Era o prenúncio de um banho de sangue inspirado no exemplo indonésio.
    Mas o iliberal Allende, que cometeu à época o crime de tentar governar à esquerda, é que era o ogre, na sombra a preparar um golpe. Seria até hilariante, não fosse a tentativa de aviltar a memória de um homem que decidiu ficar e enfrentar as consequências. A morte.
    Mas, neste mundo feito de vulgaridade e de consumo presente, percebo que o gesto de Allende nada signifique.
    Reinam os democratas encartados, os tais senhores do CATO + insurgentes dotados dos mais Altos Valores…

    P.S. falei no plural pq este post é em nome dos liberais

  11. dlm

    Em nome dos liberais uma porra.
    Quanto muito dos adeptos das ideias ressessa que o luis marvão defende. A verdade é que allende não foi muito melhor que pinochet. Perseguiu, prendeu, assassinou. E o facto de ter chegado ao poder via democracia não lhe limpa a folha.
    Ora, é hitler um democrata dos quatro costados só por ter alcançado o poder pelas urnas?

  12. Este post não é exemplo de moderação coisissima nenhuma, é uma tentativa de salvar a face depois das bordoadas pró-Pinochet que por aqui se escreveram.
    A desinformação (para não dizer pior) que por aqui reina sobre o governo de Allende seria grosseira se não raiasse os limites do puro nojo. Uma mentira repetida muitas vezes…
    Diz-se que o governo de Allende torturou, matou opositores… Tudo treta da mais nojenta! Informem-se, “liberais”, mas façam-me um favor, tentem ler só uma fonte que não venha do Cato Institute e seus amigos.
    No tempo de Allende houve de facto “saneamentos” e perseguições, mas nada tiveram a ver com o governo, antes com os m-l, um pouco à imagem do PREC. Os comunistas, como habitualmente jogavam nos dois tabuleiros, no governo e na rua. Agora, fazer crer que se perseguia, torturava e matava, e que era política do governo Allende fazê-lo não passa de uma mentira torpe que define quem a diz.
    O medo dos EUA e da direita era o projecto político de Allende: “chegar ao socialismo pela democracia”. Mas que grande chatice que teria sido, se este projecto tivesse sucesso!
    E o Pinochet, teve o “mérito de derrubar um governo iliberal”! Sim senhor, fico a saber que para estes “liberais” se o governo for “iliberal” então é justificável que seja derrubado pelas armas. Não é nada que me espante, é só mais uma prova de que para os nossos “liberais” da direita, a democracia é secundária quando comparada com a liberdade económica. Corrijo: com a liberdade económica que preconizam, porque não poderá haver liberdade para, p. ex., novos modelos económicos. Enfim, a liberdade será a de as coisas serem como vocês entendem que elas devem ser. Muito bonito.

  13. “A verdade é que allende não foi muito melhor que pinochet. Perseguiu, prendeu, assassinou.”

    Quem é que Allende prendeu?

    Já agora, que jornais fechou?

    Uns meses antes do golpe tinha havido eleiçoes no Chile e, que eu saiba, nenhum dos partidos da oposição contestou a sua validade o que quer dizer que, 3 anos após Allende ter sido eleito, ainda havia eleições livres e justas (comparando com hitler que, 2 meses depois de ser nomeado chanceler já estava a meter a oposição na cadeia)

  14. Estou com o Antonio e com o Marco. Para comecar, falar em “democracia” na Latino America eh ilusao. Nao existe ainda democracia plena (full-fledged democracy) no continente, venhamos e convenhamos. Quanto mais nas decadas de 60/70. A maioria dos paises da regiao ainda eh classificada como uma semidemocracia. Nem o Brasil eh plenamente democratico.

    Entao antes de sairem defendendo a democracia a torto e a direito, e falando que fulano de tal foi eleito pelas “vias democraticas”, vamos definir que tipo de democracia estamos falando. A “democracia” Allende era mesmo uma democracia? A democracia Chavez eh mesmo uma democracia?

    Esclarecendo: sou PRO democracia, totalmente. Sou PRO democracia ao estilo americano, ingles. A democracia latina ainda esta engatinhando.

  15. Muito bem, Miguel!
    Suas colocações são honestas e bem ponderadas. Não posso dizer que assino embaixo, mas concordo com quase a totalidade do seu texto.
    Abraços,
    Claudio

  16. HO

    “Devemos regermos por princípios absolutos e não por critérios de escala ou de resultados”

    É um aspecto lateral ao assunto principal do post, mas esta frase é horrível. O que traz péssimos resultados, na política, é a fidelidade a princípios, independentemente das consequências. Um governante preocupado com a pureza da sua alma acima da consequência dos seus actos (duas coisas conflituantes) é mau e errado.

    E, se concordo que as “contabilidades macabras” têm pouco interesse, acho que duma análise que não tenha em conta a graduação das coisas também não resulta nada de útil.

  17. GPN

    Eu também não assino por baixo, por questões contextuais, embora esteja de acordo com muitos pontos. Gostava, por isso, de lhe fazer algumas questões: como implementava o verdadeiro liberalismo económico no Chile? Como seria possível implementar o liberalismo económico num regime como o do Allende (Miguel Madeira se ler alguns livros vai obter a sua resposta…e muitas mais…)? Quantos anos demoraria? Que resultados traria? É fundamental contextualizar a subida ao poder de Pinochet, e fundamental não se entrar em relativismos como penso que o Miguel fez. Claro que há coisas condenáveis no regime, espero que toda a gente esta de acordo com isso, mas, também há muitas coisas positivas. E é isso que se defende. Claro que há sempre caminhos melhores, mas na altura só havia dois. Tinha que ser feita uma escolha, e ainda bem que foi tomado aquela.

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