O exemplo de Francisco Sá Carneiro

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Francisco Sá Carneiro conseguiu conciliar inúmeras características, todas elas raras num governante português. Sá Carneiro gostava do poder. Lutava por ele e nessa luta dava tudo o que tinha. Arriscava. Avançava e recuava. Baralhava os adversários e surpreendia os aliados. Tinha um projecto em mente, mas adaptava a estratégia de acordo com a maré do momento. Era um animal político excepcional. A juntar a esta inestimável qualidade, Sá Carneiro não queria o poder pelo poder, mas com o intuito de o usar para os fins que considerava dignos. Em 1980, esses eram um Portugal não socialista, europeu e pronto na sua aliança atlântica, naquela que era uma luta contra o comunismo soviético que à data ameaçava um Ocidente sem perspectivas de vitória. Sá Carneiro não era um liberal no sentido que utilizamos hoje mas, ao não partilhar dos ideais socialistas, era contra sistema. Outra característica muito pouco portuguesa. Era contra, mas quis mudá-lo por dentro, de forma pacífica, sem revoluções, através de uma reforma digna desse nome, profunda e que limpasse o país de décadas de paternalismo. O então líder do PSD, que nunca receou enfrentar os barões do seu partido, julgava ser a altura de acreditar (julgo ser essa a sua mensagem mais importante) nos portugueses. Nos homens e mulheres que todos os dias trabalham, pensam e sabem como preparar a sua vida melhor que ninguém, melhor que qualquer governo. Viver a política sem limites, ter uma perspectiva a longo prazo, adequando as mudanças possíveis às condições do presente, conseguir forçar as mudanças, dramatizando mas sem radicalizar a acção política. Eis algo que falta aos nossos políticos. Algo que não prezam os que hoje analisam e comentam a política. Num momento em que sentimos os momentos difíceis que atravessamos, em que adiamos a única solução possível, num país com um receio enorme de analisar o seu passado, o exemplo de Francisco Sá Carneiro é sempre de relembrar. A melhor forma de derrotar o imobilismo que de nós se apoderou. A mediocridade de quem todos os dias condescende dizendo que nada é fácil. Como se fácil fosse o mesmo que simples.

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Um pensamento sobre “O exemplo de Francisco Sá Carneiro

  1. Pingback: As elites gostam dum país sossegado – O Insurgente

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