Janela Indiscreta

Nota: a partir de hoje passo a publicar uma coluna semanal insurgente com o título em epígrafe; a escolha do nome é, sobretudo, uma homenagem a Alfred Hitchcock (que realizou o filme com o mesmo título) e a Frédéric Bastiat (que, em 1850, descreveu a falácia da janela quebrada para exemplificar a importância dos custos de oportunidade).

Na próxima sexta-feira, 3 de Novembro, o jogo de apostas Euromilhões vai sortear um primeiro prémio estimado em 131 milhões de euros. Até lá, milhares de apostadores de nove países europeus (Portugal incluído) vão continuar a imaginar como gastariam tal quantia, caso fossem o vencedor: nova casa, novo carro, volta ao mundo, os melhores restaurantes, reforma antecipada, um novo futuro…

Mas, considerando as probabilidades inerentes ao referido concurso, quem nele aposta só mesmo em sonhos terá acesso ao multimilionário estilo de vida desejado. Contudo, dado tratar-se de um prémio astronomicamente(!) alto, qualquer evidência estatística é, desde logo, “esquecida”. Tudo em nome da ínfima possibilidade do quase impossível acontecer!

E, no entanto, é curioso verificar que, para uma grande maioria das pessoas, aquela capacidade imaginativa para criar cenários “alternativos” rapidamente desvanece quando se trata de equacionar os benefícios de um Estado com menor peso na economia e, consequentemente, maior liberdade para os cidadãos que, supostamente, deveria servir.

Have you ever chanced to hear it said “There is no better investment than taxes. Only see what a number of families it maintains, and consider how it reacts on industry; it is an inexhaustible stream, it is life itself.”

(…)

The advantages which officials advocate are those which are seen. The benefit which accrues to the providers is still that which is seen. This blinds all eyes. But the disadvantages which the tax-payers have to get rid of are those which are not seen. And the injury which results from it to the providers, is still that which is not seen, although this ought to be self-evident.

When an official spends for his own profit an extra hundred sous, it implies that a tax-payer spends for his profit a hundred sous less. But the expense of the official is seen, because the act is performed, while that of the tax-payer is not seen, because, alas! he is prevented from performing it.

Frédéric Bastiat (1850, “That Which is Seen, and That Which is Not Seen” – inglês, francês ou espanhol)

A fim de termos uma melhor perspectiva do que está aqui em discussão, sugiro que memorizem o seguinte valor: 97 mil milhões de euros. Trata-se da totalidade de despesas que o Governo central português planeia gastar em 2007. Considerando um agregado familiar de três, estamos a falar, em média, de quase 30.000 euros de despesa cuja decisão de “investimento” a maioria dos eleitores decidiu delegar ao actual Governo.

Deste modo, deixo aqui o seguinte desafio aos leitores mais “imaginativos”: se o Estado se limitasse apenas ao que ele próprio designa por “Funções Gerais de Soberania” (6,8% das despesas) como poderiam os cidadãos, de forma voluntária, conseguir os restantes serviços no mercado? As respostas a este importante quesito serão tema de próximas colunas.

You don’t cost the government money, the government costs you money!

Ron Paul, congressista dos EUA

9 pensamentos sobre “Janela Indiscreta

  1. jmmoreira

    Parabéns pela qualidade da janela e profundidade da bela vista.
    Ficaremos à espreita, sem fazer vista grossa

  2. Francamente não percebo o alcance do exercício. Se o Estado ficar resumido à defesa e à segurança interna para que precisamos de Estado?

    A defesa de quem? Dos espanhóis? Ninguém acreditará, honestamente, que os espanhóis sejam uma ameaça.

    Do outro lado, do Atlântico, o que é poderemos recear? Falta de sardinha, talvez, mas para o efeito os submarinos são dispensáveis.

    Quanto à segurança interna, cada um que se governe.

    De modo que, se as premissas são essas, desmantele-se o estado e que cada um vá à sua vidinha.

  3. «Se o Estado ficar resumido à defesa e à segurança interna para que precisamos de Estado?»

    Se encontrar formas alternativas da comunidade fornecer a si própria segurança e defesa, de facto a utilide do Estado tende para zero. Actualmente a sua utilidade também não difere muito, a diferença é que consome metade da riqueza produzida.

  4. “Se encontrar formas alternativas da comunidade fornecer a si própria…”

    Co´a breca! Mas isso não é o Estado? Ou o embrião dele? Cuidado com o embrião, carago! Se não temos cuidado com o embrião nem um referendo nos livra do Estado!

  5. lucklucky

    “A defesa de quem? Dos espanhóis? Ninguém acreditará, honestamente, que os espanhóis sejam uma ameaça.”

    História. Olhe para os ultimos 30 anos (tempo de vida utíl de um submarino) e veja o que mudou. Depois olhe para os 30 anos anteriores e assim sucessivamente.
    Em 1938 estava um cruzador de Hitler no Estuário do Tamisa e em 1913 a Alemanha e Inglaterra tinham um acordo secreto para limitar e dividir as colónias portuguesas. Depois pense com as coisas podem mudar rapidamente.

  6. Olá lucklucky, V. por aqui?

    Pois V. não percebe que estamos num blog liberal onde essa malformação social que se chama estado não faz sentido?

    Se o estado não faz sentido, faz sentido defendê-lo?

    Pense bem antes de responder. Conselho de amigo.

  7. Senhores keynesianos, por favor prestem atenção à interpretação daquela falácia e depois revejam lá a vossa teoria de ser benéfico para a economia o Estado andar a abrir e a tapar buracos como quem diz que basta o Estado consumir que através do efeito multiplicador toda a economia beneficia.

    Até o Gervásio já reparou que o montante gasto em abrir e tapar os buracos teria um efeito multiplicador elevado ao multiplicador se permanecesse nos privados e fosse aplicado pelos mesmos através da sua livre escolha…

  8. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Janela Indiscreta

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