Os sinos dobram por nós

Bush venceu

Na edição de Setembro da revista The Atlantic Monthly, o jornalista James Fallows, num artigo de enorme coragem, defendeu que os EUA teriam ganho a guerra contra o terrorismo e que seria agora hora de declarar vitória. A vantagem estaria no esvaziar do conflito e consequente canalização das atenções para outros pontos estratégicos mais importantes, como a China, a Rússia e já agora, África e América Latina. Sendo a grande potência mundial que é, os EUA têm interesses em todo o planeta e não podem correr o risco de gastar as suas energias apenas no Médio Oriente.

Na madrugada do passado dia 9 de Outubro, a Coreia do Norte juntou-se ao pequeno grupo detentor de armas nucleares. A preocupação foi mundial e todos se viraram para os EUA. Uns a apontar os erros de Bush, outros a exigir-lhe acção. O engano é geral, porque nem o presidente norte-americano se enganou, nem sequer cabe aos EUA fazer o quer que seja. O episódio norte-coreano, além de não revelar estarem erradas as políticas do presidente Bush, acentuará a atitude de distanciamento da administração norte-americana relativamente a este país comunista. No entanto, podemos arriscar que a experiência nuclear da Coreia do Norte acabará por ter um efeito a um nível muito mais global.

Vaticinar o falhanço da chamada doutrina Bush tem sido o entretém preferido de muitos, mas o que os acontecimentos dos últimos meses vêm demonstrar é o quanto ela foi bem sucedida. É certo que o mundo não está mais seguro que em 1998, mas está bastante menos perigoso que o esperado no dia 11 de Setembro de 2001. Os EUA nunca mais foram atacados, várias células terroristas foram destruídas, esquemas de financiamento aniquilados. Hoje é bastante improvável um ataque da mesma envergadura ao ocorrido em Nova Iorque e Washington. Também não falhou com a Coreia do Norte, um dos países do eixo do mal, porque desde o princípio este problema foi deixado ao cuidado também da China, Coreia do Sul, Japão e Rússia. Ou seja, o falhanço não é norte-americano, mas da diplomacia multilateral. No futuro, mais países terão uma palavra dizer e as responsabilidades serão repartidas. Ora, é precisamente aqui que devemos começar a sentir arrepios.

Não tendo um milésimo da experiência de Fallows, arrisco-me a adivinhar as mudanças que aí vêm. O mundo será multipolar. A China lidará com a Coreia do Norte. Tentará ser cordata com a Coreia do Sul e o Japão. A Rússia venderá a sua energia à China e à Europa, permitindo-lhe modernizar o exército e guardar as suas enormes fronteiras, para uma população cada vez menos numerosa. Os EUA serão forçados a recuar de certos locais e, em certas matérias, obrigados a confiar nas outras potências. Todos negociarão uns com os outros. O mundo será dividido à vontade dos ‘grandes’ e de acordo com as suas forças e interesses. Os anos mais próximos vão ser de recuo norte-americano. Não é a, para alguns, tão desejada decadência, mas o reajustar de forças. Se quiserem vencer este desafio os EUA (e o Ocidente com ele) precisam de arrumar a casa. Para tal, sem querer fazer de adivinho, acredito numa possível aproximação à América do Sul, com o Brasil à cabeça, e numa viragem para África, onde a China está instalada na corrida às matérias primas. Arrisco falhar quando escrevo como vai ser, mas digo com confiança que, tanto o terrorismo como a Coreia do Norte são problemas do passado. O futuro guarda-nos outra história para viver

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14 thoughts on “Os sinos dobram por nós

  1. Captain Mission

    Sr. Andre… Arranja-se com cada desculpa, vira-se or argumentos do avesso so para se ter um pouquinho (bastante pequenino) de razao.

    Com que entao a guerra contra o terrorismo esta ganha??? Ja podemos todos dormir descansadinhos???
    Sabe… eu durmo descansado (pelo menos em relaçao a este assunto) ha varios anos. Isto è, para mim e para muito boa gente esta guerra nao passou de um bluf… um bluf para se ir roubar petroleo mesmo ali ao virar da esquina!!
    Portanto declarar vitoria como??? Ou a guerra nao existe, e logo nao ha vitoria, ou a guerra existe, e como bem sabe, ao existir nao pode ter acabado!!!

    Mas sabe quem nao dorme descansado??? sao os povos afegao, iraquiano… esses vivem bem pior de quando os americanos nunca tinham la posto o pe (basta ver as ultimas estatisticas fornecidas pela ONU… entidade alias controlado por alguem como bem sabe:))

    O que o sr. bem ve, è que os EUA ja nao sao a tal grande potencia mundial:)… graçAs a DEUS!!!

    Se eles sao tao bonzinhos e querem tanta democracia porque tanta gente os odeia e eles teem tanto medo de tanta gente???
    E sendo tao bonzinhos como sao/foram dos principais financiadores/criadores de alguns dos piores crapulas e ditaduras do ultimo seculo (acho que nao vale a pena relembrar-lhe…)

    Ja pensou que o perigo real do terrorismo nunca existiu mesmo (o que ate daria para começarmos a inventar mais umas teorias da conspiraçAo)… ja pensou que isto do terrorismo foi e è uma grande palhaçAda???
    Ja pensou que se inventou um fantasma para o combater e depois reclamarmos uma vitoria???

    Todos os imperios tem a sua agonia… duvido que nao esteja na hora da norte americano (analiso, nao regozijo)… a china ja tem uma importancia mto superior aos EUA… a diferença è que em politica externa sao mais moderados, e para ja nao querem mostrar a sua verdadeira força (infelizmnete… que tem tanta forçA). Como admitir casos como Taiwan, Coreia do Norte??? Relembrar que ha 30 anos houve um Vietname… e agora nao tem coragem para repetir.

    Peço-lhe um favor: releia o seu texto com olhos de gente!!! Voce parece aqueles meninos vestidos de anjinho que iriam na vanguarda de um exercito Hitleriano ou Estaliniano apregoando as bondades inumeras destes dois senhores.

    Ao ler este texto nem se pode sentir raiva, ve-se que è escrito por uma pessoa que deve ter bom coraçao… mas da para sentir misericordia, esse sentimento tao cristao, que è aplicado aos inocentes e ingenuos!!

  2. CN

    Um exercicio de wishfull thinking caracteristicos de um certo “liberventionism”.

    “É certo que o mundo não está mais seguro que em 1998, mas está bastante menos perigoso que o esperado no dia 11 de Setembro de 2001.”

    Nem comento

    “Também não falhou com a Coreia do Norte, um dos países do eixo do mal, porque desde o princípio este problema foi deixado ao cuidado também da China, Coreia do Sul, Japão e Rússia. ”

    Era bom. O bullying da não diplomacia de “Bush” é largamente responsável pelo sucedido. A Coreia do Norte na altura tinha anunciado a criação de uma zona economica liberalizada. As conversaçeos com a Coreia do Sul decorrriam o seu caminho.

    “Hoje é bastante improvável um ataque da mesma envergadura ao ocorrido em Nova Iorque e Washington.”

    Nunca foi provável. o 11/9 foi um golpe de sorte. Mas entretanto apesar de ser muito dificil voltar a algo semelhante
    o numero de pessoas com vontade de faze-lo aumentou em muito.

    “O mundo será multipolar.”

    Sempre foi, sempre será. Os Impérios fazem sempre nascer uma reacção e a prazo fomentam as sementes do seu fim, tal como o Imperio Britânico o fez, que desapareceu pelo mão do seu maior defensor: Churchill.

    Quanto à China e Rússia, estão a aprender com a politica recente dos EUA e vão evocar os precedentes abertos em futuros desenvolvimentos.

  3. «A vantagem estaria no esvaziar do conflito e consequente canalização das atenções para outros pontos estratégicos mais importantes, como a China, a Rússia»

    Nada que não estivesse já previsto há muito:

    Em Setembro de 2000, poucos meses antes do acesso de George W. Bush à Casa Branca, o “Project for a New American Century” (PNAC) publicou o seu projecto para a dominação global sob o título: “Reconstruindo as defesas da América” (“Rebuilding American Defenses”).

    O PNAC esboça um roteiro da conquista. Apela à “imposição directa de bases avançadas americanas em toda a Ásia Central e no Médio Oriente” tendo em vista assegurar a dominação económica do mundo, e ao mesmo tempo estrangular qualquer potencial “rival” ou qualquer alternativa viável à visão americana de uma economia de mercado”.

    O projecto do PNAC também esboça uma estrutura consistente de propaganda de guerra. Um ano antes do 11 de Setembro, o PNAC fazia apelo a “algum evento catastrófico e catalisador, como um novo Pearl Harbor”, o qual serviria para galvanizar a opinião pública americana em apoio a uma agenda de guerra (pág 51):

    http://www.newamericancentury.org/RebuildingAmericasDefenses.pdf

  4. CN

    Mas acho justo dizer o seguinte.

    “Bush tentou”

    E tentou tudo, de certa forma no caso do Iraque dá-lhe direito para sair do Iraque e eles que “tratem da sua vida”.

    Mas infelizmente isso nao vai acontecer. Vai existir o potencial de partição do Iraque. O problema Curdo-Turquia. A influencia Shiita.

    Tudo temas irresistiveis para os planeadores internacionais.

  5. Saraiva

    «Uns a apontar os erros de Bush, outros a exigir-lhe acção. O engano é geral, porque nem o presidente norte-americano se enganou»

    Aqui concordo:

    Vídeo 4:29m
    .

  6. Escreve sob a perspectiva de um americano isolacionista: os EUA não foram atacados mas o mesmo não se pode dizer de Espanha e do RU. Isto para nem falar da verdadeira incubadorqa de terroristas em que se está a transformar o Iraque. E concordo com o comentador acima: o 11 de Setembro nunca foi “provável”.

  7. antónio

    Já nada me espanta. Desde que o Mexia declarou o fim da crise, que estou à espera de ver o Bush declarar a vitória sobre o terrorismo. Eu acho que ele só não o faz porque alguém com bom senso ao lado dele lhe anda a dizer que toda a gente se iria rir, incluíndo os seus colaboradores mais próximos.

  8. Bush ainda não ganhou nada contra o terrorismo… quanto à coreia, da mesma maneira que vocês falam da suposta vitória de bush em relação ao terrorismo, falem também da exigência de bush em relação à coreia… assim nota-se que os vossos pesos e medidas deixam de ser dois e passam a ser um.
    Já agora o Iraque continua a ser um destino paradisíaco… não existe risco de atentados…

  9. Captain Mission

    Nao discutamos coisas paralelas!!

    Acho que o que o nosso excelentissimo bloguista desejava era que discutissemos apenas a parte artistica deste texto.

    Assim eu tenho uma duvida: deveremos classificar este texto como Surrealista ou Naif????

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  12. Euroliberal

    Quantos disparates juntos ! Bush, um criminosos de guerra que acabará os seus dias na forca ou desfeito por uma bomba de um shahid vingador, foi derrotado em toda a linha !

    No Iraque há só uma pausa dos sunitas (que não podiam continuar a lutar em 3 frentes, USA, chiitas e AlQaeda) mas a luta será retomada agora em companhia dos chiitas de Al Sadr (uma vez que a guerra civil com os chiitas terminou, uma boa notícia)quando chegar o momento de expulsar de vez os terroristas cruzados, objectivo consensual para mais de 90% dos iraquianos, que como 80% da Humanidade, ODEIAM a camonada assassina.

    No Afeganistão é o descalabro e a deserção dos aliados. 6 anos depois da invasão, a resistência (muito além dos talibans) está mais forte que nunca. No Paquistão o ditador fantoche Musharraf têm os dias contados…

    E sobretudo, a guerra de desgaste para que Bush foi atraído drenou o moral das tropas e as finanças dos EUA, cujo reinado internacional, assente no papel internacional do dólar e na consequente faculdade de o emitir sem limites, está nas horas finais… Os EUA estão à beira de uma recessão catastrófica e falidos ! A gota final foram os triliões para as “wars for oil” (and for iSSrael) !

    Onde estão as vitórias do macaco Bush ? Quem as vir deve precisar de comprimidos para alucinações… A neoconeiragem foi derrotada em toda a linha e escusa de se tentar colar a Obama, o Anti-Bush, porque a politica externa do futuro Presidente vai ser radicalmente diferente. Obama vai ser o De Gaulle americano. De Gaulle também pôs fim à guerra da Argélia de forma radical perante o desespero dos neoconeiros da altura (os da Argélia Francesa…), embora durante as eleições as suas afirmações sobre a questão fossem ambíguas…

    Make no mistake ! Bush is dead ! YES,WE CAN defeat the neocons !

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