Uma nova religião

Vivemos no século do bit. Palavras, sons, imagens, tudo é digitalizado e comprimido de modo a caber no nosso universo ipod.

A bem-vinda conveniência da era digital não deveria, no entanto, fazer-nos esquecer que aqueles conjuntos de zeros e uns são apenas uma versão simplificada da realidade.

Tomemos como exemplo o formato mp3. Através da eliminação de frequências inaudíveis ao ouvido humano, foi possível armazenar no mesmo espaço físico um maior número de músicas. Ora, tal conveniência tende a tornar o ser humano preguiçoso por conhecimento. Se a versão “computorizada” não é, para ele, diferenciável, então esta passa a ser a sua realidade. O ser humano torna-se, assim, a pouco e pouco, um “ser digital”, sem percepção do mundo real e com absoluta fé no seu “arquitecto”: o computador.

Esta pequena introdução a propósito de uma perigosa vertente da nova religião: o que designo por ambientalismo digital.

No passado mês de Setembro, o canal 2: emitiu um documentário em que o apresentador se propunha procurar as justificações científicas para o fenómeno que conhecemos como Aquecimento Global, desvendando a forma como o elemento humano o influencia.

A “viagem” começa pela Gronelândia onde – todos nós já ouvimos – existem glaciares em rápido recuo. Porém, verifica o apresentador, o evento não é inédito. Um milénio atrás o aquecimento ali ocorrido possibilitou a colonização, por parte de populações viking, daquele até então inabitável território. E, afinal, este não foi um fenómeno climático local, pois, segundo vestígios arqueológicos, semelhantes colonizações aconteceram em hoje inóspitas regiões das ilhas britânicas. O abandono dessas localidades deveu-se, sobretudo, ao posterior e – em termos climáticos – curto período de arrefecimento, ao ponto dos londrinos, há menos de dois séculos atrás, conseguirem, durante o Inverno, realizar feiras no congelado rio Tamisa.

Próxima paragem: Antárctica. Neste imenso continente gelado (152 vezes o tamanho de Portugal ou 1,6 vezes a área do Brasil) o documentarista apresenta ao espectador o desmantelamento do gelo numa determinada Península da qual não recordo o nome. Mesmo assim, ele não considera o fenómeno prova suficiente do elemento humano como causa principal do Aquecimento Global dado que, no fim da última Idade do Gelo (e não estou a referir-me ao filme!), as temperaturas subiram abruptamente uns 10º C(?). Os geólogos ali residentes e que investigam o evento tinham uma teoria explicativa. Perante as lentes das câmaras testaram-na e… não a conseguiram validar. Prometeram, portanto, continuar a investigação para melhor compreenderem aquele fenómeno climático.

Assim, o apresentador, dado que não conseguiu obter as necessárias provas científicas através da observação empírica do mundo real, ao invés de concluir o programa com a necessidade da continuação de novos estudos, decide não esperar e acaba por recorrer ao novo “profeta”.

Ora, apesar de não haver, ainda, total compreensão do funcionamento do muito complexo sistema climático, o autor do documentário – tal como a maioria dos actuais ambientalistas – “pede” ao computador que preveja o futuro do clima para os próximos 100 anos. O resultado será baseado, pois, em hipóteses teóricas inseridas em softwares de simulação que, pela natureza do parcial conhecimento do fenómeno climatológico (como se viu na experiência antártica), pode induzir em erro os utilizadores menos cépticos. Como analogia, imaginem um programador tentar simular a queda de um objecto sem compreender a lei da gravidade. Ou considerem as razões porque um simples carro (ou avião) criado em computador ter de, mesmo assim, efectuar testes reais antes de ser comercializado. Simulações da realidade não substituem totalmente a realidade!

Infelizmente, ao ambientalista digital a complexidade do sistema climático é de evitar. Para ele – e para o resto do público (principalmente para a classe política) – a simplicidade de um gráfico com projecções a 100 anos são a única “realidade” que necessitam. Tudo o resto é heresia…

22 pensamentos sobre “Uma nova religião

  1. Parabéns pelo número de visitas e pelo aspecto!!
    Bem, agora que até aquele que é apelidado por “alguns” como um blog ultra-conservador, mudou (e muito bem) de aspecto, a Sónia (Monteiro) não me vai dar descanso enquanto não fizer qualquer coisa no nosso! 😉

    SErá que alguem me ajuda a encontrar um template catita lá para “casa”??!

  2. Excelente texto!
    Muito bom mesmo!
    Fala de forma sucinta do que nos consome hoje em dia. Todos dependemos do “bit” de qualquer forma.
    A tecnologia apoderou-se de nós devido à maneira com que nos facilita a vida.
    Num futuro não muito longínquo estaremos todos “adictados” a ela..

  3. Olhe que o formato mp3 não funciona pela “eliminação de frequências inaudíveis ao ouvido humano”. Após este claro exemplo de falta de fluência científica, ou simplesmente de vontade de ler os links que afixa, estamos conversados, não é?
    Depois, se bem percebi, a sua alternativa é ficarmos à espera para ver o que acontece. E se estivermos mesmo a dar cabo do clima? Quem o arranjará, e como?

  4. “Olhe que o formato mp3 não funciona pela “eliminação de frequências inaudíveis ao ouvido humano””

    Caro Luís Rainha, queira, então, avisar os editores do Wikipedia:
    “MP3 is an audio-specific compression format. It provides a representation of pulse-code modulation-encoded audio in much less space than straightforward methods, by using psychoacoustic models to discard components less audible to human hearing, and recording the remaining information in an efficient manner”

  5. Não são frequências inaudíveis propriamente ditas, são frequências que, por muito fracas (intensidade) serão (de acordo com os defensores da coisa) inaudíveis.

    O problema é que uma montanha de frequências de intensidade fraca, somadas, não são de desprezar. E são muitas as removidas pelo MP3, especialmente nas taxas de compressão mais ‘apetecíveis’.

    Bom artigo.

    .

  6. “Depois, se bem percebi, a sua alternativa é ficarmos à espera para ver o que acontece.”
    Não necessariamente. “Global Causes, global solutions” do Consenso de Copenhaga (este sim é um consenso) 2004 é um dos caminhos possíveis.

  7. Se toda a vossa argumentação contra este assunto se baseia num documentário simplista e ainda por cima têm de fazer omissões de conteúdo para levar a vossa ideia por diante então tudo o que se lê aqui sobre este tema não vale mesmo nada. Isso para não falar na cultura cientifica adquirida via wikipedia.
    Quanto aos modelos, é melhor deixarmos de os usar em todas as áreas, sejam elas a metereologia, a economia, a engenharia, a biologia, a quimica, a geologia, etc etc etc.
    Deus vos proteja das pessoas que questionam o vosso direito á poluição.

  8. Caro Rui Miranda,

    Os modelos econométricos são, por exemplo, desenvolvidos e utilizados tendo em atenção as insuficiências destes em conseguirem realizar previsões pormenorizadas em relação a um complexo sistema resultante da acção humana: a Economia. Daí que as previsões anuais do Banco de Portugal sobre o crescimento do PIB sejam frequentemente revistas!!!

    Esse é o cuidado técnico que ambientalistas digitais não têm quando baseiam as suas afirmações em simulações para os próximos 100 anos…

  9. Boa, um concenso derivado de uma conferencia de economistas organizada pelo Bjorn Lomborg, um gajo cheio de credibilidade dentro da área. E ainda por cima alguns dos problemas escolhidos como prioridade (fome, malária, qualidade da água) podem ser agravados com o aquecimento continuo do planeta. Realmente inteligente.

  10. Pronto, os efeitos não são a curto prazo, os economistas não ligam nenhuma. Está feito.
    O sistema é obviamente complexo e não muda á mesma escala temporal que o “clima económico”. Aliás, é tão complexo que não há produção de dados novos em quantidade suficiente para o modelo ser revisto tantas vezes como as previsões do banco de Portugal, mas vai sendo actualizado e as previsões revistas, o proximo relatório do IPCC (o equivalente ao bando de portugal no caso das alterões climáticas) sai em 2007.

  11. “um concenso derivado de uma conferencia de economistas”

    Não são só economistas, cada grupo é composto por pessoas de várias áreas e orientado por um especialista no tema.
    O Lomborg tem no mínimo a mesma credibilidade que o IPCC. Senão mais. Pelo menos interroga-se.

  12. “E ainda por cima alguns dos problemas escolhidos como prioridade (fome, malária, qualidade da água) podem ser agravados com o aquecimento continuo do planeta. Realmente inteligente.”
    O que é que sugere? Parar o aquecimento ou investir na prevenção e minimização desses problemas?

  13. A.Pinto

    “Como analogia, imaginem um programador tentar simular a queda de um objecto sem compreender a lei da gravidade. ”

    Erro grave da sua parte, por hiperbólico. O senhor, tal como os seguidores da sua falaciosa e pouco cientificamente informada doutrina, transformam grau de incerteza em incerteza total. Não compreendemos os fenómenos climáticos? Toda essa gente que trabalha em Ciência(incluindo eu) que julga perceber alguma coisa do assunto, está redondamente enganada e necessitada iluminação providenciada pelos economistas?

    A sua comparação, insinuando que nada se sabe, é no mínimo infeliz e reveladora do grau de profundidade de conhecimentos que o autor do texto possui acerca de Alterações Climáticas. Zero. E como nada sabe, crê que os outros todos (inclusivé especialistas)também nada poderão saber. Para além disso, é-lhe politicamente conveniente.

    Não há pachorra.

  14. Estamos mesmo conversados quanto ao seu entendimento de temas mais ou menos científicos: “using psychoacoustic models to discard components less audible to human hearing” não é de todo equivalente a “eliminação de frequências inaudíveis ao ouvido humano”. Mas, como sou criatura generosa, dou-lhe uma dica para sua ilustração: comece por pesquisar um tal “efeito de máscara”. Pode ser que daqui a uns dias já entenda mesmo algo do assunto.
    Mas este pequeno disparate é representativo da forma simplista como encara o funcionamento da Ciência: não entende grande coisa mas lá vai postando opiniões e elaborando teorias. Por suprema ironia, estava a acusar os seus “oponentes” desse mesmo pensamento hiper-light…

  15. Comparar um computador a um profeta também é infeliz. O computador só realiza cálculos segundo dados e fórmulas introduzidas pelos investigadores, resolver todos esses calculos á mão não os faria mais verdadeiros.
    Quanto a invocar o Lomborg como especialista na matéria e gajo a transbordar de credibilidade na área das mudanças climáticas há uma série de gente que discorda e que incidentalmente trabalha nessa área ao contrário do senhor Lomborg. O senhor Lomborg não é melhor que todos esses investigadores por se questiornar. Os teus comentários e os de muita gente com opiniões parecidas com a tua partem do sugerem que comunidade cientifíca nunca se questionou. Ora o estudo das alterações climáticas parte de várias questões para as quais se tenta encontrar respostas. Se não gostas delas isso já é outro problema.
    O consenso de copenhaga foi uma conferencia de economistas. Não encontro nada no site deles que aponte para o contrário e para a participação de qualquer cientista de áreas ligadas ás alterações climáticas.
    E por fim, eu não estava a sugerir que se acabasse com o financiamento para melhorar os problemas da fome, malária e acesso á água potável, estava a tentar dizer que as alterações climáticas só vão agravar esses problemas fazendo com que se tenha de gastar muito mais dinheiro para resolve.los.

  16. “A sua comparação, insinuando que nada se sabe, é no mínimo infeliz e reveladora do grau de profundidade de conhecimentos que o autor do texto possui acerca de Alterações Climáticas. Zero.”

    A. Pinto, não “insinuei” que nada se sabe. Quis, sim, evidenciar que o software utilizado nas simulações é resultado de teorias sobre um sistema climático que ainda não não é totalmente conhecido e, por isso, sujeito a erros de previsão como, aliás, se pode ler no comentário do Rui Miranda:

    “O computador só realiza cálculos segundo dados e fórmulas introduzidas pelos investigadores

  17. Sim. E? Qual é o modelo que não é sujeito a erros? Essa margem de erro foi omitida no relatório final? Não me parece.
    Os modelos climáticos ainda são a nossa melhor aproximação á realidade futura baseando-nos nas observações actuais e passadas.Volto a dizer que se estes modelos são rejeitados por serem modelos então também têm de rejeitar o uso de todos os outros modelos em todas as outras áreas.

  18. Já agora, uma nota adicional.

    A questão essencial na discussão do Aquecimento Global é a influência do elemento humano.

    Se o clima se está alterar devido a causas naturais, então à humanidade resta apenas a tarefa de se adaptar o melhor possível a tais alterações climáticas.

    Mas, se pelo contrário, a principal causa é humana então, ao fazerem-se projecções para os próximos 100 anos, ter-se-á de contar com as inovações tecnológicas a desenvolver durante esse período de análise. E todos sabemos que, ainda 20 atrás, foi fácil de prever o crescimento exponencial da internet e suas consequências económicas, sociais e… ambientais.

    O propósito deste post foi, portanto, tentar alertar os mais “fiéis” de que é importante ter em atenção que quando se discute o Aquecimento Global estamos a considerar, conjuntamente, dois sistemas complexos: o climático e o humano!

  19. O que se lê ali em cima, para além da distorção habitual dos factos é:
    “Infelizmente, ao ambientalista digital a complexidade do sistema climático é de evitar.”
    Nada sobre o sistema humano.
    No entanto espero ardentemente que o último consiga produzir algo que nos permita abrandar ou anular este efeito. Infelizmente não me parece que esse momento vá chegar assim tão depressa.

  20. Pingback: Ambientalismo digital necessita de reboot « O Insurgente

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