Até agora, o debate entre os prós e contras da wikileaks nas redes sociais e blogosfera resume-se aos prós e contras da bondade da transparência de organizações públicas.
Caricaturando, do lado dos contras há os que defendem que a política não deve ser o domínio dos cidadãos (logo que a wikileaks é ilegítima), e aqueles que não percebem sequer que a questão é política e perguntam porque é que a wikileaks não revela documentos sobre direitos humanos, etc (logo que a wikileaks não é moral). Do lado dos prós estão aqueles que defendem que a transparência é em si benéfica.
Enquanto o debate se centrar num debate teórico, a wikileaks será um projecto falhado. A transparência é por si só inútil se o conteúdo daquilo que é publicado não for moralmente interpretado pelos visados: os cidadãos.
As próprias instituições políticas (ou as pessoas que fazem directa ou indirectamente parte delas, ou almejam um dia vir a fazer), têm obviamente interesse em manter o debate num nível meramente teórico em que o conteúdo da wikileaks é posto para segundo plano (ilegal ou irrelevante). O lado do prós que se define apenas como oposição teórica aos defensores do status quo, ou apenas como defesa de Assange-herói, está na prática a ter efeito zero sobre o mesmo.
A atitude de no pasa nada só pode ser combatida com a moralização daquilo que a wikileaks traz à luz do dia, mostrando que de facto há algo de errado na maneira como os Estados gerem a vida de pessoas. Sem essa moralização, depois do choque a transparência servirá apenas para aumentar a aceitação do status quo. Ou alguém acredita, como se conta nos livros de História, que “o povo” nunca esteve consciente das atrocidades dos seus regimes?