“Portugal é o país que mais defende a ‘troika’ entre os resgatados”

Ronaldo Vs Mourinho

Hollande em 2014 compreendeu que apostar no social implica ter políticas que tornem o modelo sustentável. E em Portugal?

Há uns meses atrás, em Agosto, Mourinho desprezou Ronaldo. Questionado sobre a sua reação, Ronaldo respondeu com o velho adágio “Não cuspo no prato em que como“. Pessoalmente, sempre acreditei nessa máxima. Acredito que uma empresa que critique os seus clientes, um funcionário que critique o seu gestor ou um governo que critique os seus credores na praça pública não só demonstra uma falha de carácter como, a prazo, compromete o pão sobre a sua mesa.

(Ler o meu artigo de hoje no Diário Económico completo)

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O Pai Natal De Visita A Portugal

Parece que o Pai Natal (também conhecido às vezes como o bicho-papão) se encontra de visita a Portugal esta semana. Os meninos portugueses já por lá andam dizendo que se portaram muito bem este ano e a entregarem-lhe a lista de presentes que querem receber neste Natal. Temos o António Saraiva da CIP a pedir juros mais baixosPaulo Portas a pedir um défice de 4,5% e o Tó Zé Seguro que se sobrepõe com um pedido de um défice não inferior a 5%.

Que falta de ambição! Eu proponho que se peça um défice de 100%, uma taxa de juro dos empréstimos de 0,000001% e um prazo de pagamento nunca inferior a 100.000 anos. Ah, e já agora, um cheque de 100.000 biliões de euros… por ano – afinal de contas, o Banco Central Europeu não pode emitir o dinheiro que quiser?

Dois Erros Do Memorando De Entendimento

Olhando para os últimos dois anos, creio que a troika cometeu dois grandes erros no memorando de entendimento celebrado com Portugal em 2011- que convém relembrar, foi negociado e assinado pelo PS em nome do estado português tendo sido subscrito pelo PSD e pelo CDS:

  1. O memorando estabelece várias metas de redução de despesa em termos nominais, mas sem especificar as medidas concretas que ficariam a cargo do governo. Isto permitiu ao partido da oposição se demarcar destas medidas e de acusar o governo de ir para além da troika.
  2. O memorando define várias medidas que poderiam levantar dúvidas quanto à sua constitucionalidade (e face a desenvolvimentos recentes, poucas coisas neste país parecem não levantar dúvidas constitucionais). Tendo os partidos que subscreveram o memorando de entendimento a capacidade de alterar a constituição, deveria ter sido exigido o compromisso da alteração da constituição por parte destes partidos quando tal se revelasse necessário para implementar as referidas medidas.

Estou convencido de que um destes três cenários seja inevitável para Portugal: segundo resgate, saída do euro ou bancarrota. No caso de se concretizar o segundo resgate, espero que a troika corrija os dois pontos acima.

Quem Detém a Dívida Pública Portuguesa?

Segundo uma estimativa do Deutsche Bank publicada num artigo do Financial Times que estima a dívida pública Portuguesa em cerca de 200 mil milhões de euros, os detentores da dívida pública portuguesa são:

  • A Troika (FMI, BCE, UE), que detem cerca de 43% – aquela que nos cobra os juros “agiotas” de 3,6% quando os juros da dívida pública Portuguesa a 10 anos rondam os 7%
  • Investidores Portugueses (essencialmente a banca e as seguradoras), que detêm cerca de 35%
  • Investidores Estrangeiros, que detêm cerca de 22%

DividaPublica

De referir ainda que algumas notícias recentes dão conta de que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) irá investir em até cerca de 90% em dívida pública Portuguesa e que Vítor Gaspar, num dos seus últimos despachos terá deixado ordens para o FEFSS comprar até 4.000 milhões de euros em dívida pública até 2015.

Esta composição é importante para perceber o impacto de um cenário de reestruturação da dívida – seja através de um “haircut” ou através de um prolongamento das maturidades.

As Dúvidas Da Troika Que o Governo Parece Querer Converter em Certezas

Pelos vistos, a Troika saíu esta semana de Portugal com dúvidas que o governo consiga cumprir o anunciado plano de redução na despesa do Estado.

Diz a notícia que “a troika viu com maus olhos a negociação de Nuno Crato com os sindicatos dos professores e considera que o ministro da Educação cedeu às reivindicações dos docentes. Esta situação pode revelar a outras áreas da administração pública que as contestações e as greves podem compensar. Ou seja, que o Governo não tem força política para fazer os cortes previstos e já anunciados. A troika duvida da vontade e da capacidade do Executivo para executar os 4,7 mil milhões de euros de cortes na despesa pública.”

Esperam-se as alternativas…

Vamos lá a ver: eu também não gosto de cortar nas minhas despesas.

Eu também gostava de ter rendimentos sem trabalhar. Eu também gostava de ter um trabalho em que quando fingia que trabalhava ganhasse o suficiente para uma vida descansada e sem preocupações. Eu não sou masoquista e certamente aprecio um suave “dolce far niente”, seja ele absoluto ou pelo menos relativo – i.e., finjo que faço e ganho como se fizesse.

Eu também gostava que o Estado tivesse dinheiro infinito vindo de Marte para me proporcionar a continuidade do “modelo social” que gerações anteriores “conquistaram”. Que fechando os olhos o problema desaparecesse. Que palavras doces resolvessem o problema actual e pudéssemos todos regressar aos abusos de 2006, 2007 e 2008. Que os “credores” não esperassem que lhes pagássemos de volta.

Eu também gostava de acreditar em todas as fantasias que por aí se dizem em todas as sedes partidárias. Eu também gostava de ignorar a economia, a história, a matemática e a lógica e acreditar na poesia e nos amanhãs que cantam. Eu também gostava de não ter qualquer pudor em mentir, qualquer moral para poder ser popular e qualquer inteligência para permitir ser feliz sem grandes preocupações.

Mas infelizmente sou realista e sei o que se está a passar. A “pool” de recursos físicos a diminuir, o crédito a aumentar, a pirâmide demográfica a inverter, a taxa de juro a evoluir n direcção contrária à necessária, … Sei demais para acreditar que esta “austeridade” seja passageira – sobre a necessidade de equilíbrio de contas, sobre as estratégias dos demagogos (ex: Galamba e a tentativa de sair do Euro para roubar as poupanças dos cidadãos para o estado via cunhagem), sobre a dificuldade de reversão da demografia, sobre como evoluíram no passado sociedades sobre-endividadas e crescentemente avessas aos conceitos de risco, lucro, brio e liberdade.

É assim com um sorriso triste que leio mais esta notícia: Sondagem mostra vontade de renegociar ou denunciar acordo com a troika. Tantos a querer acreditar que não é preciso esforço para sair da solução actual. Se a política do estado se alterasse – no sentido de mais despesa, sublinhe-se – tudo se resolveria. Faz-me lembrar esta imagem: o povo prefere uma mentira piedosa. E já agora a citação da tecnologia “fascismo” no Civ4.

Mostra porque chegamos ate aqui. E mostra que não há muito que se possa fazer. Ou nos adaptamos ou emigramos.
PS: Isto não quer dizer que eu concorde com tudo o que diz a Troika (por exemplo, não concordo com o aumento do imposto sobre os combustíveis). Mas caso não tenham reparado, se não houver o dinheiro deles, muita coisa teria de ser cortada de emergência. O que se calhar também não era mau de todo…

Sobre os tais cortes na Educação

Concordando com o Relatório do FMI no que toca à Educação, devo acrescentar que não admito que o Governo mexa nas propinas sem antes tratar dos professores, seja na quantidade, seja na remuneração A raison d’être do sistema de ensino é, em primeiro lugar, a formação, não o emprego dos formados.

O custo médio de um aluno nos ensinos básico e secundário, que ronda os 4415 euros, deve servir de base para uma reforma estrutural, que reduza custos, aumente a concorrência e, sobretudo, a autonomia e a competência das escolas. O mesmo vale para o ensino superior onde, a serem aumentadas as propinas, não poderão deixar de ser criados/reforçados mecanismos – envolvendo ou não a banca privada – que possibilitem a todos o acesso. Se é verdade que uma visão estritamente social condenou a geração presente, uma visão estritamente tecnocrata nesta área poderá vir a condenar a geração futura.

Mais Imprevisões

Já dizia o Niels Bohr que “É difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro”. O que acho preocupante é que em intervalos de tempo tão curtos, as previsões estejam sistematicamente a ser ajustadas por várias entidades – Governo, Banco de Portugal, Troika, OCDE e União Europeia – sempre na pior direcção, o que leva a crer que ainda possam ser actualizadas brevemente para valores ainda piores.

Previsoes

Pessoalmente, já não atribuo credibilidade praticamente nenhuma tanto às previsões dos indicadores económicos como às metas do défice e da dívida pública. Aparentemente é sempre possível conceder mais tempo e adiar as reformas inadiáveis. O dinheiro para pagar as contas, esse pequeno pormenor, há de surgir por milagre – a constituição portuguesa é capaz de conter uma fórmula mágica algures por entre os seus 296 artigos.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 (a, b) e 11 (a, b).

Unlucky Number Seven

O press release conjunto da Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu (aka ‘A Troika‘) relativo à sétima avaliação do programa de ajustamento pode ser encontrado aqui e aqui. Aguardamos pelo relatório final.

A apresentação de hoje do Vítor Gaspar encontra-se aqui.

Leitura complementar:

Os números que não foram contados na manifestação de 2 de Março

No dia 2 de Março muitos milhares de Portugueses saíram à rua para manifestar-se. Entre 10.000 e 10.000.000 de pessoas foram manifestar-se, não a favor de medidas ou política concretas, mas sim contra o Estado do país. É fácil estar contra a situação em que vivemos. Pessoalmente também estou contra. Conheço poucas pessoas que não estejam contra.

Interessante seria saber quantos é que estarão de acordo se fossem colocados a votos medidas em concreto. Por exemplo, quantos, dos que estavam na manifestação seriam a favor de, de facto, mandarmos lixar a troika. De dizermos, queremos abandonar o programa, não contamos mais convosco. Nem com o vosso dinheiro nem com as vossas políticas. Nas últimas eleições apenas o PCP foi claro, como sempre foi, em relação ao Euro. Tiveram menos de 10% dos votos. Porque o mandar lixar a troika implica mandar lixar o Euro. Será que mais de 10% dos que se manifestaram no dia 2 votariam a favor de uma política coerente com o título da manifestação?

A verdade é que esta manifestação foi, como as anteriores, foi o único meio de expressão da frustração que a maioria sente. O único.

E se existissem outros grupos de activistas? E se a manifestação fosse com um título diferente? “Contra os aumentos de impostos!, Pela Liberdade! Exigimos uma reforma do Estado!. Quantos manifestantes seriam? Esse é o cálculo que gostava de estar a fazer um destes dias.

Quantos estiveram em Lisboa no 2 de Março?

O 2 de Março foi um aglomerado de pessoas muito diferentes mas, que no seu conjunto, defendiam ideias inconciliáveis. O  facto de que é este grupo que está nas ruas e não outros, é em si preocupante. Mas o mais difícil de aceitar em todo este enredo é a contagem das pessoas envolvidas.

João Pedro Pereira, jornalista do Público (!), lançou a dúvida: “Terreiro do Paço, onde não cabem 180 mil, ficou por encher“. Recomendo todo o artigo, mas sublinho que o João Pedro a meio escreve “Com uma multidão de densidade média – cerca de duas pessoas por metro quadrado –, o espaço fica cheio com 88 mil pessoas.” Mas este este artigo não vai ao ponto de dividir a praça em pequenas secções, estimar densidade e a dimensão de cada uma e, baseando-se em matemática “simples”, calcular uma estimativa fidedigna do número de pessoas na praça. E foi isso mesmo que o colega Economista da FEP Fausto Amaral fez e teve o cuidado de me enviar. Ficam aqui o texto e as imagens:

(clicar nas imagens para ver em tamanho original)

Como passei o Sábado em casa a ouvir a SIC Notícias, a RTP e a TVI, das 19:00 até às 23:00, ouvi por diversas vezes que havia quem considerasse que 1,5 milhões de portugueses estavam nas ruas a protestar contra a Troika. De recordar que isto representa 15% da população portuguesa, 27% da população activa, e 51% de todos os individuos que em 2011 tiveram o civismo de sair de casa e votar num dos partidos da esquerda Portuguesa.
É uma estimativa claramente exagerada, que parece criada simplesmente com o intuito de representar um número maior que a estimativa apresentada na anterior manifestação. E este é um problema dos últimos meses/anos, todos os organizadores de manifestações – sejam partidárias, apartidárias ou sindicais – sentem a necessidade de comunicar que tiveram um número cada vez maior de indivíduos a manifestarem-se.
Por sua vez, os jornalistas em vez de verificarem os dados que recebem, passam horas e horas a emitir as mesmas barbaridades e a tecer opiniões positivas sobre um tão elevado número de manifestantes – sem fazer uma simples análise primeiro!
Sectores

Através da recolha de imagens por satélite no serviço Google Maps, é possível dividir a praça do Comércio por sectores únicos.

Ao mesmo tempo, analisando as fotografias aéreas da multidão, e as fotografias retiradas desde o palco é possível chegar a valores mínimos e máximos para cada um dos sectores.

Foto do Palco 4 a 5 pessoas por m2

Não é uma ciência exacta, óbvio, mas conseguimos estimar com alguma proximidade os números de manifestantes que se deslocaram à Praça do Comércio por volta da hora do pico máximo (mas transmitida pela SIC cerca das 20h).

Tendo em conta as fotos retiradas desde o palco, podemos ver que as pessoas estão próximas, agrupadas com a família e/ou amigos existindo grande liberdade de movimentos, contudo é possível ver alguns pequenos espaços vazios entre os grupos.

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Tendo isto em conta não parece provável estarem mais de 6 pessoas por metro quadrado neste sector. Assim este é o nosso valor máximo de densidade para toda a Praça do Comércio, uma vez que não faz sentido as pessoas estarem agrupadas de forma mais compacta noutras zonas que não em frente ao palco.

A estimativa atingida é de sensivelmente 71.100 pessoas, tendo em conta um erro de 10% nos resultados não será erróneo afirmar que estavam presentes na Praça do Comércio entre 64.000 a 78.200 pessoas, visto de outra maneira 0,64% a 0,78% da população portuguesa, ou de outra forma ainda: um pouco mais que a capacidade do estádio da Luz; e menos que um excelente dia de Rock In Rio Lisboa.

Visão-Aerea-Com-SectoresPrevisoes 2 de MarçoComo não há ideias saídas da manif para debater, deixem nos comentários a vossa própria apreciação.
Eu estimo 50.000.

Lembrem-se que o Papa encheu a praça com 80.000 a 100.000.
Por comparação com os 800.000 da organização, recordo…

Infantilidades do 2 de Março

Reivindicações dos dias de hoje – Simultaneamente:

  • Menos impostos – São muito altos, matam a Economia e provocam desemprego.
  • Mais despesa – Há que manter o Estado Social. E o estímulo à Economia. E a cultura. E…
  • Não paguem aos usuários – Mas eles que continuem a financiar o Estado Português.
  • A mim não – Se há que fazer cortes, cortem noutro sector. No meu não dá jeito.
  • A festa é fixe pá – Não há uma alternativa clara e logo não haverá consequências políticas. Mas ao menos a malta juntou-se e esteve junta.

Já agora, ficam aqui o artigo do João Cortez sobre as “propostas” do PS.

A Troika é agiota?

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Ainda sobre o texto referido neste post, do Ricardo Reis no Dinheiro Vivo:

  1. Quem é que com as suas políticas levou à contratação de juros agiotas?
  2. E já agora… o que é um juro agiota? 3,2%?!?

Eu por mim até nem sei se me oponho a que não se paguem juros: corrigia-se já o problema e pronto. Ninguém nos emprestava e para o ano o Défice era 0 de imediato.

Só não sei é se os mesmos que agora pedem o não pagamento dos juros dos empréstimos iriam gostar de não receber o mês de Dezembro…

Saiba o que os Finlandeses pensam sobre Portugal e o Euro

No Diário Económico:

Mas, afinal, o que leva os finlandeses a oporem-se à ajuda? Mika Palo, professor de finlandês e representante em Portugal do Instituto Ibero-Americano da Finlândia, acredita que a resposta está no passado. No início da II Guerra Mundial, o país enfrentou sozinho a vizinha URSS – perdeu algum território, mas não a independência. No final da guerra, foi a vez de lutar contra os alemães. A paz colocou-o no campo dos vencidos, ficando obrigado a pagar à URSS uma pesada indemnização: “Cumprimos até ao último tostão”. Mais tarde, no começo dos anos 90, sofreu uma forte crise económica: “Recuperámos com muito esforço e dor, mas sem pedir dinheiro a ninguém. Há uma cultura de responsabilidade que nos faz achar injustas estas políticas de resgate“.

Selinda traz a casa impecavelmente em ordem, nem um ‘bibelot’ a atrapalhar o design simples, ares de andar modelo em condomínio à venda. Especialista em direito empresarial, sempre acreditou que os finlandeses acabariam por seguir as decisões de Bruxelas: “Ninguém adivinha as consequências da implosão do euro. A maioria é a favor da ajuda, mas a percentagem contra faz muito barulho”. Filha de um engenheiro e de uma gestora de topo, bem se lembra de a mãe lhe repetir vezes sem conta: “Tens de ganhar o teu próprio dinheiro”.

Independência e poupança vincam a identidade nacional. Até aos 20 anos, data em que rumou à Suécia, nunca se apercebera da existência de classes sociais. A Finlândia orgulha-se de ser uma sociedade igualitária, homens e mulheres, ricos e pobres, todos têm acesso ao mesmo mundo. Atravessa a sala descalça, sapatos e casaco são traje de rua, deixam-se à porta: “A principal característica dos finlandeses é o respeito pelas regras“. Talvez por isso, Selinda, férias na Ericeira a equilibrar-se na prancha de surf e nos costumes lusos, muito se tenha admirado de escutar os portugueses: “As regras são feitas para quebrar“. Vagueia o olhar pelas paredes, pelos móveis brancos: “Aqui, tudo funciona”. Tanto que, às vezes, não se respira improviso. Apanha o cabelo, detém-se na janela. Estão 21 graus, à tarde há-de caminhar até um dos parques que povoam a cidade, gente e cerveja na relva.

Da casa de Selina à redacção do Helsingin Sanomat, jornal com famas de conceituado, são quinze minutos de eléctrico. Pintados de verde e creme, cruzam a cidade sem segundo de atraso nem vestígio de sujidade. Elonen Piia, editora adjunta de política nacional, afirma que os momentos de crise evidenciam as diferenças culturais: “Para o povo finlandês é incompreensível que alguns países não tenham cumprido o limite do défice e que agora não paguem as suas dívidas sozinhos”. Anda entre uma secretária e outra: “Confiamos nos bombeiros, na polícia, nos políticos. Até termos um pequeno escândalo no financiamento de campanhas eleitorais, acreditávamos que não existia a mínima corrupção. E, na verdade, quase não existe”. O Índice de Percepção da Corrupção de 2011, elaborado pela Transparência Internacional, dá-lhe razão – a Finlândia partilha com a Dinamarca o segundo lugar, logo a seguir à Nova Zelândia. Portugal ocupa o 32º posto.

Selinda gosta de café acabado de fazer. Tira a cafeteira do lume, o cheiro caminha até à sala, acomoda-se nas chávenas. Sabor igual ao lanche de casa dos avós. Ajeita-se no sofá, nas recordações. Uma amiga descobriu em casa da avó uma caixa com ‘collants’ rotos e uma nota: “Para um dia de aflição”. A história é um sorriso triste. As provações passadas na II Guerra Mundial aliadas aos princípios da igreja luterana semearam o valor da poupança. Selinda aquece as mãos na chávena. A recessão, que no início da década de 90, deixou os finlandeses nas mãos da austeridade, foi adubo: “Aprendemos muito com essa crise, o crédito não é amigo”. Agora, anda a poupar para a maior das aventuras. Pediu uma licença sem vencimento e matriculou-se no curso Advanced Internacional Business Law da Universidade Católica de Lisboa. Em Setembro, há-de descobrir quanto custa pagar uma escola. “Poder viajar sem visto nem câmbio para Portugal é uma das maravilhas da UE. Os políticos têm de resolver a crise”. 

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Camilo Lourenço – Está na hora de um safanão da Troika

Está na hora de um safanão da Troika, por Camilo Lourenço no Negócios:

Os últimos dias mostraram bem a indigência da classe política portuguesa. Os que não querem o programa de ajustamento (parte do PS, BE e PCP) exultaram com a decisão do Tribunal Constitucional e recusam novas medidas. Os que não sabem muito bem o que querem (Cavaco Silva) tiraram o cavalinho da chuva, referindo que compete ao Governo tomar decisões. O que toda esta gentinha conseguiu, com os disparates das últimas semanas, foi que lá fora toda a gente percebesse que o risco de Portugal se deteriorou substancialmente. Mais propriamente desde que um Presidente da República resolveu dizer que não vê espaço para novas medidas de austeridade (como se um falido se pudesse dar ao luxo de dizer a quem tem dinheiro para emprestar que tem de ser… nos termos do falido). E desde que um ex-Presidente disse na televisão que o país não é tão sereno quanto o 1º ministro pensa. 

Para os que nos podem emprestar dinheiro o cenário ficou completo com uma decisão duvidosa do Tribunal Constitucional, que parece não perceber que salários do Estado são despesa corrente (e que ela tem de ser reduzida porque ratificámos um Tratado que nos obriga ao equilíbrio orçamental).

Perante esta degradação da imagem do país, que confirma que estamos outra vez a perder o juízo (bem vistas as coisas só fazemos o que tem de ser feito quando alguém de fora nos manda…), começa a ficar claro que precisamos de nova visitinha da Troika. Não, não daquelas missões que vêm cá fazer avaliações de três em três meses. Estou a falar dos chefões da missão, que precisam de cá vir dizer, preto no branco, que ou cumprimos os objectivos do programa… ou não há dinheiro. Ponto final!

Duas enormes falácias numa curta frase

Sérgio Lavos no Arrastão

Está a ser conseguido um dos objectivos deste Governo: destruir o Estado Social (e, recorde-se, sem que o défice seja reduzido).”

A primeira. Infelizmente, contrariamente ao que o Ségio Lavos afirma, até agora não notei que o presente governo tivesse infligido grandes danos ao estado social. Na maior parte dos casos fizeram-se pequenos ajustes para aproximar as despesas das receitas. (Não sei se sabem mas é conveniente que as contas sejam pagas a tempo e horas)

A segunda. Não sei onde o Sérgio Lavos foi buscar a ideia que o défice orçamental não está a ser reduzid. Em 2010 foi de 9.1% e em 2011 de 4.2% (7.3% sem medidas extraordinárias). O que está em causa é o cumprimento das metas acordadas para 2012 e não propriamente uma redução do défice. O Sérgio Lavos parece estar a dizer que a austeridade não está a ter qualquer efeito. Muito pelo contrário. Sem as medidas tomadas para conter o défice público este seria bastante superior. E sem o acordo que nos deu acesso ao financiamento externo onde iriamos nós buscar o crédito para sustentar o défice?