Uma ideia pirata

Nesta Democracia social corporativa em que vivemos estamos cheios de partidos que a defendem até aos dentes e parece que todos os dias aparecem novos partidos paladinos de ainda mais socialismo e mais corporativismo. Eu já não peço um partido liberal mas pergunto pelo menos para quando um partido antissistema. Um partido pirata onde possam votar quem se queira abster. Os membros desse partido comprometiam-se todos a suspenderem o mandato. Era a forma de termos mesmo lugares vazios na assembleia representando quem não se revê nos partidos existentes.Imagem

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Da coerência intelectual dos socialistas

Aquele momento zen em que Mariano Gago diz que a pirataria acrescenta valor à obra do autor, que tem assim uma forma gratuita de distribuir a sua obra pelo mundo inteiro.

Ninguém diria que este senhor foi Ministro da Ciência e da Tecnologia (15 anos ao todo) durante os governos que mais contribuíram para a falsa assumpção de que a reprodução de obras prejudica os autores: durante os dois governos de António Guterres, em que nasceu a lei mãe do actual Projecto Lei 118, e durante os dois governos de Sócrates, em que Portugal negociou o ACTA.

Autores de todo o mundo, uni-vos!: os reais perigos do ACTA

Realizam-se amanhã protestos mundiais contra o ACTA. Muito do que se tem escrito internacionalmente, e copiado nacionalmente, introduz medidas que não estão de facto presentes no documento final (traduzido aqui para português). O exercício de fabulação é desnecessário, o que o ACTA assume devia ser suficientemente mau para se temer o acordo.

1. Os Direitos de Autor passarão a ter muito mais probabilidade de serem efectivamente cumpridos.

Os Direitos de Autor são actualmente a anedota da internet. Consciente ou inconscientemente, ninguém os respeita: a reprodução e gravação ilícita de propriedade intelectual tornou-se um hábito consolidado desde o aparecimento do YouTube (as negociações do ACTA começam precisamente em 2006, quando a Google compra o site). O ACTA tem como objectivo número um acabar com o clima de impunidade quanto à violação de Direitos de Autor, introduzindo uniformemente mecanismos dissuasivos e punitivos da prática: o ACTA é uma Ode à chantagem pecuniária, que prevê por isso, claro, «sensibilizar a opinião pública no que se refere à importância do respeito dos direitos de propriedade intelectual e aos efeitos negativos do desrespeito desses mesmos direitos» (Art31º).

2. As associações de autores passarão a ter um poder quase jurídico.

Grande parte da ineficácia da protecção de Direitos de Autor na internet deve-se à natureza dos processos jurídicos. Fazer a avaliação da violação de Direitos de Autor passar pelo tribunal implica perder dinheiro: enquanto o tribunal não se pronuncia, o tempo de reprodução ilícita de dada obra tem, alegadamente, correlato directo para o dinheiro perdido com a sua não venda, e, para além disso, a morosidade e complexidade do processo não tem efeito dissuasivo nos pequenos piratas que acreditam ser peixe demasiado pequeno para serem apanhados pelo sistema.

Com o ACTA, basta à editora lesada apresentar um pedido «com um grau suficiente de certeza» para que sejam automaticamente tomadas medidas provisórias (Art12º). São também as editoras que, obviamente, vão poder requerer o montante das indemnizações, baseado nos «lucros cessantes, o valor das mercadorias ou serviços objecto da infracção medido pelo preço de mercado» (Art9º). Para conseguir calcular em quanto são prejudicadas, as pobres editoras têm de saber qual é de facto a amplitude do roubo, pelo que o ACTA permite ainda que as autoridades lhes cedam directamente toda a informação sobre a mercadoria que o infractor possui (Art22º).

3. Interpretação dúbia.

Se a Google lá se vai defendendo dizendo que só não acaba com a pirataria porque a natureza da internet torna difícil que se impeça infracções e a Google não pode decidir quem está ou não a cometer infracção, a maneira como o ACTA trata a Injunção deixa dúvidas sobre a motivação que sites cujo conteúdo é gerado por utilizadores possam subitamente encontrar para lutar mais activamente contra a pirataria: «emitir uma injunção a uma parte para que cesse uma infracção, inter alia, uma injunção contra essa parte ou, se for o caso, uma parte terceira, em relação às quais essa autoridade é competente, para impedir que entrem nos circuitos comerciais as mercadorias que envolvem a infracção a um direito de propriedade intelectual» (Art8º).

4. A criação de mais um grupo de burocratas.

O ACTA prevê a criação de um Comité (Art36ª) que funcionará em loop, aprovando o seu regulamento interno após a entrada em vigor do ACTA. O Comité irá avaliar o funcionamento do ACTA, ajudar potenciais novas adesões a adequar a sua legislação ao ACTA, e escolher as alterações ao Acordo.

5. Uniformização da regulação a nível global.

A uniformização de medidas para a aplicação das já uniformes leis de protecção de Direitos de Autor promove uma centralização de poderes a nível global, e a consequente difusão das fronteiras nacionais, assim cada vez mais obsoletas. O ACTA não pretende ficar-se pelos países da primeira adesão, prevendo uma campanha de sedução de outros potenciais aderentes. A promoção de uma defesa eficaz global dos Direitos de Autor é indubitavelmente sinónima de um ataque à liberdade que caracteriza a internet tal qual a conhecemos.

6. Impacto imprevisível na economia e na criatividade.

O que acontecerá quando as pessoas tiverem de facto medo de partilhar obras? Que impacto terá esse freio na própria promoção do trabalho dos autores?

Leitura recomendada: O estranho mundo dos Direitos de Autor: O estranho mundo dos Direitos de Autor III

ACTA e privacidade online

Ainda sobre o argumento usado pela esquerda para rejeitar o ACTA, ser a favor do respeito pelos Direitos de Autor na internet será compatível com ser a favor da privacidade on line?

Como é que se calcularia o montante em que o autor foi lesado sem violar a privacidade do consumidor?
ARTIGO 9.º
Indemnização por perdas e danos
As presunções referidas no n.º 3, alínea b), podem incluir uma presunção de que o montante da indemnização é constituído por: i) a quantidade de mercadorias que infringem o direito do titular do direito de propriedade intelectual em questão e realmente destinadas a terceiros, multiplicada pelo montante do lucro por unidade das mercadorias que teriam sido vendidas pelo titular do direito se não tivesse existido o acto de infracção; ou ii) um royalty razoável; ou iii) um montante fixo com base em elementos como, pelo menos, o montante de royalties ou direitos devidos se o infractor tivesse solicitado autorização para utilizar o direito de propriedade intelectual em questão.

Como é que se protegeria os autores do prejuízo económico causado pela pirataria se se esperasse por cada processo judicial em vez de tomar medidas provisórias contra «utilizadores que “possam” estar a violar direitos de autor»?
ARTIGO12º.
2. Cada Parte deve prever que as respectivas autoridades judiciais têm poderes para adoptar medidas provisórias inaudita altera parte sempre que necessário, especialmente nos casos em que um eventual atraso seja susceptível de causar prejuízos irreparáveis ao titular do direito, ou quando exista um risco comprovável de destruição dos elementos de prova.

Como é que se criminaliza um infractor online sem saber a sua identidade?
ARTIGO 27º.
4. Cada Parte pode, em conformidade com o respectivo ordenamento jurídico, outorgar às autoridades competentes o poder de ordenar a um prestador de serviços em linha que divulgue rapidamente ao titular do direito as informações suficientes para permitir identificar um assinante cuja conta se presuma estar a ser utilizada para cometer uma infracção ao direito do titular, caso este último tenha apresentado um pedido, suficiente no plano jurídico, relativo a uma infracção a uma marca ou a direitos de autor ou a direitos conexos e caso essas informações sejam pedidas para efeitos de protecção ou aplicação dos referidos direitos.

Como é que se faz valer a aplicação dos direitos de autor na internet sem partilhar informação sobre os criminosos globalmente?
ARTIGO 33º.
Cooperação internacional
1. Cada Parte reconhece que a cooperação internacional é vital para proteger eficazmente os direitos de propriedade intelectual, e que deve ser incentivada, independentemente da origem das mercadorias que infringem os direitos de propriedade intelectual ou da localização ou nacionalidade do titular do direito.

A esquerda ANTI-ACTA

O eurodeputado Rui Tavares escreveu um panfleto informativo ANTI-ACTA em que conseguiu não usar nem uma única vez o conceito de propriedade intelectual, e usar uma vez o conceito de Direitos de Autor apenas para dizer que o acordo faz com que seja possível denunciar utilizadores que “possam” estar a violar direitos de autor. As aspas não são minhas, são mesmo do eurodeputado a insinuar que toda a maldade do ACTA se concentra no facto de este se basear falsamente na questão dos Direitos de Autor para melhor poder pôr em prática o seu obscuro plano de pôr fim à privacidade on line.

E se o ACTA fosse mesmo só um acordo internacional que permite que a já existente legislação de cada país sobre o que constitui crime contra os Direitos de Autor fosse efectivamente aplicada, alimentando o lobby da propriedade  intelectual, e defendendo genuinamente os autores contra a imoralidade totalitária dos consumidores, como votaria Rui Tavares?

ACTA: Revolução Francesa, round 2

Enquanto este o congressista republicano Darrell Issa alerta publicamente que o ACTA só foi camuflado de «acordo comercial» para não ter de passar pelos parlamentos nacionais (Nigel Farage já disse também que votará contra o ACTA, apesar do seu país ter assinado o acordo, precisamente por isso), outros parecem acreditar genuinamente na filosofia de mercado subjacente ao ACTA. Um deputado alemão do partido da Merkel teve todas as suas contas de internet assaltadas depois de publicar um artigo em que compara os que protestam contra o ACTA a uma minoria de reis totalitaristas que a Revolução Francesa – a iluminada maioria (e a sua invenção dos Direitos de Autor) – veio destronar.

‘Dear Netsociety:’ you will lose the fight. And that is not a revelation from a lonely politician, it is the perspective of a politician who is cognizant of history.

He then goes on to cite the French Revolution, which is when he says the idea of intellectual property was born in 1789. Supporters of the net movement, he writes, just want “digital totalitarianism,” and are involved in an unholy alliance of “digital Maoists” and “monopolists with an accumulation of capital.”

O dogmatismo com que a afirmação de que indústria do entretenimento é prejudicada devido à pirataria tem sido repetida lembra de facto os períodos mais negros do terror revolucionário francês, tempo de execuções sumárias sem julgamento (que o ACTA aliás prevê no conceito de “medidas provisórias” a serem aplicadas antes de qualquer processo).

Momento Zen na Aljazeera quando, em resposta a uma porta-voz do ACTA que explica que o acordo é meramente comercial pois temos de proteger a propriedade intelectual contra os prejuízos económicos, um jornalista lê alto os lucros crescentes de um dos lobistas do ACTA, a Motion Picture Association, e põe a senhora a gaguejar que afinal é tudo uma questão de direitos.

Os rendeiros do ACTA

Um panfleto que explica aos deputados europeus porque devem ratificar o ACTA começa assim: «Effective intellectual property protection and enforcement are essential to fostering creativity and innovation, creating jobs and increasing cultural diversity». A lista de patrocinadores do panfleto fala por si:

Para além da famosa americana Motion Picture Association; existem coisas como a Federação Internacional do Vídeo, que aparentemente serve simultaneamenente para proteger e taxar o consumidor; associações anti-pirataria holandesas (BREIN), francesas (BIEM), alemãs (VAP), etc; outras tantas associações contra a contrafacção; e obviamente, a indústria farmacêutica.

ACTA, a Era do Ambiente Digital Mundial

Alguém pergunta na caixa de comentário de um post anterior o que é afinal o ACTA que Portugal assinou a 26 de Janeiro. Em português Acordo Comercial de Anti Contrafacção, é um acordo internacional que tem como objectivo número um «a aplicação efectiva dos direitos de propriedade intelectual como primordial para garantir um crescimento económico sustentável em todas as indústrias a nível mundial». Estamos a falar de uma série de mecanismos legais que permitirão aplicar efectivamente e globalmente sanções a quem desrespeita Direitos de Autor, aplicando-se quer a «mercadorias em trânsito aduaneiro», quer a «mercadorias pirateadas».

Como tenho vindo a dizer nos últimos posts sobre os Direitos de Autor, eles não são efectivamente respeitados na internet, quer porque grande parte das pessoas parece não compreender bem que os estão a violar (a partilha de ficheiros tornou-se um hábito desde o aparecimento do YouTube), ou simplesmente porque os autores que de facto se insurgem contra a partilha livre do seu trabalho são raros, existindo até uma nova cultura de marketing de partilha voluntária da propriedade intelectual.

Para ter uma ideia de como funcionaria a internet se os Direitos de Autor fossem efectivamente aplicados, podemos olhar para o caso de Prince. Prince instaurou processos a todas as pessoas que fizeram upload do seu trabalho no YouTube, obrigando em tribunal o site a retirar os vídeos, e chegando até a processar uma mãe que postou um vídeo de 30 segundos do filho a dançar ao som de uma das suas músicas: o caso arrasta-se em tribunal desde 2007 e complica-se porque a mãe respondeu com um processo à editora Universal por esta violar os seus direitos de expressão.

Há, na lógica dos defensores dos Direitos de Autor, três problemas nesta técnica pré-ACTA de aplicar sanções: sai caro em custos jurídicos; é preciso estar permanentemente atento a infracções; e a instauração de processos desgasta publicamente a imagem do autor.

 E como é que se consegue então  aplicar efectivamente as sanções? Entrando na Era do Ambiente Digital em que o policiamento não vem do exterior mas sim do próprio interior das redes digitais, instaurando medidas desenhadas para dissuadir à partida a pirataria.  Os artigos do ACTA são um sem fim de medidas que visam impedir que direitos de autor sejam ou venham a ser lesados, auxiliados das devidas ferramentas de dissuasão pecuniária. O conceito de medida provisória é até introduzido para garantir que mesmo antes do processo judicial os autores possam ser ressarcidos e protegidos (ou seja: há sanção antes do julgamento).

Em consonância com o Ambiente Digital em que pretende actuar, O ACTA dilui as fronteiras físicas nacionais que comummente dificultavam a aplicação de sanções, como nos casos em que os sites se alojavam no domínio de um certo país para fugir ao domínio legal de outro. Com o artigo 33º sobre a Cooperação Internacional, a nacionalidade torna-se obsoleta: «Cada Parte reconhece que a cooperação internacional é vital para proteger eficazmente os direitos de propriedade intelectual, e que deve ser incentivada, independentemente da origem das mercadorias que infringem os direitos de propriedade intelectual ou da localização ou nacionalidade do titular do direito».

Todo este dispositivo de aplicação efectiva de sanções baseia-se supostamente na crença de que a violação de Direitos de Autor «prejudica o comércio legítimo e o desenvolvimento sustentável do mundo económico, provoca significativas perdas financeiras aos titulares de direitos e às empresas legítimas». Já tentei aqui demonstrar que esse conceito de remuneração justa assenta na realidade numa maneira errada de perceber como é que o «mundo económico» funciona.

Extremistas polacos queimam bandeira da UE em protesto contra lei anti-pirataria

Se o facto de que os polacos têm saído à rua e tomado conta das redes sociais para protestar contra o ACTA – que o seu primeiro ministro assinou no dia 26 – tivesse saído nos jornais portugueses, o título da notícia poderia ter sido algo semelhante ao título deste post.

Por cá, os portugueses usam redes sociais para partilhar o seu profundo desdém ideológico pelo extremismo que conspurca ocasionalmente as nossas ruas, e o nosso bom senso e bom gosto é de tal ordem que o facto de Portugal ter também assinado o ACTA nem chegou a enfeitar jornais, quanto mais t-shirts.

O estranho mundo dos Direitos de Autor IV

Desde ontem, quem abre o Pirate Bay depara-se com esta imagem:

O famoso site de pirataria lançou a campanha The Pirate Bay proudly promotes. O primeiro autor a assumir o potencial promotor da pirataria é o escritor Paulo Coelho (na imagem) que escreve no seu site que as vendas dos seus livros subiram desde que os seus leitores os partilham através da internet.

Pode-se aqui saber mais sobre a interessante experiência do escritor desde que publicou o seu primeiro livro até ao seu sucesso, levando-o a concluir sobre a pirataria:

With an object of art, you’re not buying paper, ink, paintbrush, canvas or musical notes, but the idea born out of a combination of those products.

‘Pirating’ can act as an introduction to an artist’s work. If you like his or her idea, then you will want to have it in your house; a good idea doesn’t need protection.

The rest is either greed or ignorance.

O estranho mundo dos Direitos de Autor III

Lizzy Grant lançou um álbum em 2010 que não levantou ondas. Hoje Lana Del Rey, a autora comprou os direitos de autor do seu primeiro álbum e vai relançá-lo daqui a dois dias. A estratégia com a nova editora passou por uma renovação total da imagem da cantora (comparar Lizzy Grant e Lana Del Grey ao vivo) e, estranhamente, pela partilha gratuita de todo o álbum no youtube meses antes da sua saída oficial.

Os apologistas de que a partilha gratuita de propriedade intelectual tem efeitos negativos para o autor, nomeadamente na quantidade de dinheiro que o artista deixa de ganhar nas vendas (ou perde mesmo, segundo os mais fundamentalistas) devem estar atónitos. Então a rapariga prejudica voluntariamente as vendas do seu álbum ao distribuí-lo gratuitamente?

Só este single tem 23078903 visitas no YouTube, sem contar com as visualizações de uploads feitas por anónimos, os vídeos gravados ao vivo da cantora, e as covers. Veremos nos próximos dias que tipo de impacto teve esta estratégia na venda do seu CD e no sucesso da sua tournée de concertos.

Coisas a reter preliminarmente:

1. É falso que as editoras sejam um agente passivo da exploração do autor. As estratégias de marketing e de compreensão do público alvo são determinantes na comercialização do próprio autor. O fenómeno Lana Del Rey prova que o mesmo artista com o mesmo álbum pode ter um sucesso radicalmente diferente dependendo da editora que acrescenta ao valor do artista o seu know how. Não faz sentido encarar os Direitos de Autor como um mecanismo que protege  o autor da ganância de quem o comercializa.

2. É falso que proteger o trabalho dos autores de um uso gratuito do mesmo seja o garante da justa remuneração de um artista. O caso Lana Del Rey mostra que a tendência é ganhar consciência do potencial da gravação e reprodução gratuita para a abertura de mercados, o que terá um efeito positivo a médio prazo na remuneração do trabalho do artista. Não faz sentido encarar os Direitos de Autor como um mecanismo que protege o autor da imoralidade do mercado.

O estranho mundo dos Direitos de Autor II

A quantidade de auto-proclamados defensores de Direitos de Autor e de opositores à imoral pirataria que partilha vídeos de música no Facebook.

Não devem ter lido a notificação do YouTube sobre o assunto:

O que é uma violação de direitos de autor? Ocorre uma violação de direitos de autor quando um trabalho com direitos de autor é reproduzido, distribuído, exibido, mostrado publicamente ou transformado num trabalho derivado sem a permissão do proprietário dos direitos de autor.

O estranho mundo dos Direitos de Autor

Há várias coisas estranhas nos debates que têm vindo a lume acerca dos recentes esforços legislativos para proteger os Direitos de Autor. Há pessoas que são anti-taxas, mas a favor de compensações; ou que são anti-compensação mas a favor de direitos de autor; ou ainda anti-pirataria mas contra leis que protejam direitos de autor.

O artigo 82º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos que estabelece compensação devida pela reprodução ou gravação de obras serviu de base ao Projecto de Lei 118 que prevê que equipamentos de armazenamento de dados sejam taxados pelo seu potencial uso para cópia privada. O argumento de que o PL118 extrai um poder de taxar que não se pode deduzir do conceito de compensação é no mínimo bizarro na medida em que pressupõe outra asserção: que o Direito de Autor não é em si uma taxa.

No site da Sociedade Portuguesa de Autores, pode-se ler nas perguntas frequentes:

O direito de autor é um imposto, taxa?

Uma taxa ou imposto corresponde a uma exigência financeira, pela prestação de um serviço público cobrado pelo estado. Os valores cobrados a título de Direitos de Autor corresponde à remuneração devida ao autor, pela utilização das suas obras.

Um Direito de Autor é então uma remuneração segundo a SPA. Um tipo de remuneração especial que precisa do poder coercivo e sistemático do Estado para ser atribuída. O raciocínio da SPA é que na compra de um CD, uma percentagem do preço vai para os autores, assim pagos pela utilização da sua obra, e que por cada obra vendida os autores têm direito a receber parte da venda feita pelos editores. Neste raciocínio temos três intervenientes: o artista que produz a obra, a editora que a comercializa, e o Estado que protege o artista de uma eventual ganância das editoras, que poderiam explorar o artista ao lucrar enormemente com a comercialização do trabalho. O artista assim protegido recebe uma remuneração devida ou justa pelo seu trabalho e o trabalho de comercialização e marketing das editoras é encarado como meramente vampiresco e não como um acrescento no valor do produto.

Percebe-se porque é que a maioria dos autores sejam a favor de Direitos de Autor, o conceito de “remuneração justa” é sempre mais atraente do que o conceito de que o lucro que o autor consegue extrair da obra depende da capacidade do autor de negociar directamente com as editoras ou ainda de ter ele próprio a capacidade de rentabilizar o seu produto. Claro que esse trágico conceito de artista-vítima da sociedade que dele se alimenta ingratamente se tornou rapidamente útil às próprias editoras que podiam assim comprar o monopólio dos direitos de utilização da obra. Os raros autores que são contra Direitos de Autor são invariavelmente munidos de um certo modo empresarial de pensar, compreendem que estar protegido por uma bolha jurídica é também estar fechado a todas as potencialidades do mercado, que flui tanto melhor quanto mais aberto for: desproteger o seu trabalho, tornando-o acessível gratuitamente na internet por exemplo, é a maneira mais eficaz de fazer publicidade ao seu trabalho e garantir vendas físicas, compras de bilhetes de concerto, compra de merchandising, etc. Para além de perceber como o mercado funciona, estes artistas percebem ainda outra coisa: a sua pessoa e a sua obra não são separáveis. Num mercado livre, uma obra não pode dar lucro em prejuízo do seu autor ou viver independentemente dele: o sucesso da obra implica invariavelmente o sucesso do autor em si enquanto produtor.

Ser anti-pirataria comporta então já em si o admitir que o artista deve ser remunerado pela utilização que é feita da sua obra, desligando-se a obra do artista, como se este pudesse ser prejudicado pela utilização da primeira ou como se se pudesse sequer quantificar quanto ganharia o autor se a obra gravada ilegalmente tivesse sido comprada. Porque não perguntar em quanto cresceu o valor de mercado do artista em si pela sua obra ter sido amplamente reproduzida? Teria Homero sido o poeta que se tornou se não constituísse prática na Grécia Antiga gravar mentalmente e reproduzir a sua obra na praça pública?

O SOPA morreu em 48h

Estes têm sido dias esquizofrénicos nas redes sociais. A campanha contra o SOPA gerida pelos «user-generated websites» tipo Wikipedia ou Google  – que iriam ser obrigados a policiar a violação de direitos de autor – conseguiu fazer com que uma larga massa de ferozes pró-regulação do mercado se insurgisse contra uma lei que visa precisamente regulá-lo. Em 48h de intenso marketing, 24h de divulgação de mensagem e outras tantas de blackout, milhões reagiram à mensagem e passaram-na nas redes sociais, fazendo inverter a intenção de voto dos congressistas.

O truque foi hábil e começa a fazer escola em muitas correntes interessadas em tornar a liberdade de mercado popular, furando espessas camadas de tabus económicos e o politicamente correcto.

1. Ignorar o IngSoc. Não dar voz à lei em si – a terminologia usada pelos legisladores funciona como estimulador instantâneo do sentimentalismo pró-regulação. Conceitos presentes na lei como protect, prevent, theft of U.S properrty, endanger public health, foreign infringers, dangerous goods or property, etc, teriam feito disparar o instinto intervencionista da opinião pública.

2. Despolitizar a mensagem.  Nunca enquadrar o tema politicamente – referir-se à liberdade do mercado ou fazer oposição aberta ao conceito de «Direito de Autor» ou de «Intellectual Property» correria sérios riscos de criar defesas automáticas contra a argumentação. A wikipedia só referiu o problema dos direitos de autor no fim da campanha.

3. Focar-se nos efeitos da lei. Concentrar toda a perniciosidade da lei nos potenciais efeitos pessoais no opinador, apelando ao sempre eficaz self-interest.

4. Usar bandeiras. É essencial para motivar à divulgação da mensagem introduzir passepartouts que tornem socialmente aceitável a defesa de interesses pessoais – ser um acérrimo defensor da liberdade de expressão contra a censura é sempre consolador.