Portugal, rumo ao default, mas não à salvação: o exemplo da Argentina

O futuro do Navio Escola Sagres. Por João Miranda.

A Argentina fez default em 2002. Passados 10 anos o país ainda não conseguiu restabelecer uma relação normal com o mercado da dívida. Nem todos os credores aceitaram um haircut de 65%. Quem não aceitou mantém o direito de cobrar a dívida pelo valor antigo, o que confere o direito de apreender bens do Estado argentino um pouco por todo o mundo. Foi o caso do navio escola Libertad apreendido no Gana.

Entretanto, o default não tornou os governos argentinos menos gastadores nem menos propensos a opções irresponsáveis.

Argentina’s sovereign debt: A matter of time Continuar a ler

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Mais uma Cidade Americana entra em Default

Harrisburg, Pa. to skip two debt payments.

Excerto:

In a sign that Harrisburg’s financial crisis was expanding to affect additional types of debt, Unkovic noted that this is the first time the city has defaulted on its general obligation debt. It has previously defaulted on revenue bonds tied to its incinerator project, and continues to not make those payments.

The payments that will be skipped consist of: $2.735 million due on the city’s general obligation refunding bonds, Series D of 1997, and $2.53 million due on the city’s general obligation refunding notes, Series F of 1997, Unkovic said.

The city filed a rare municipal bankruptcy, but a judge threw out the case last year.

Creio que estou a ser burro. Isto de pagar dívidas é cada vez mais para tansos. Tenho de me desfazer dos meus bens e fazer o meu próprio default pessoal como o Olavo Billac. Vale e Azevedo é que era um visionário…

A culpa é do CDS

Estes “seguros de crédito” tiveram um papel fundamental na crise subprime e estão a ter um papel fundamental na crise das dívidas soberanas.

O CDS é uma ferramenta muito interessante. Eu empresto 1000 milhões de Euros à Grécia por Euribor+4%. Eu crio 1.000.000 de títulos CDS que dizem o seguinte:

- Eu pago a quem me os comprar Euribor+3% até a dívida estar paga – O equivalente ao prémio do seguro

- Quem me compra os CDS paga 0 Euros (Eu não recebo uma torradeira ou uma máquina nespresso de bónus)

- Se existir um evento de crédito, definido como tal pelo ISDA, quem me comprou o CDS e esteve a receber o “prémio” até lá tem de pagar a mim o valor em dívida correspondente à base do que esteve a receber – Recebo o capital seguro.

Estes CDS transformaram desde bancos a empresas a pequenos investidores em pequenos seguradores. Esta é a primeira consequencia.

Como acontece normalmente nos mercado de activos derivados, o que é que foi feito de seguida? Emitiram-se CDS sem se ter dívida! A verdade é que o título tem um valor económico por si mesmo. O Mercado de derivados é assim muitas vezes maior do que o do activo subjacente.

É desta forma que a exposição do exterior à Grécia esteja estimada em mais de 10 vezes o total da sua dívida.

A crise do subprime, nomeadamente a falência de grandes Bancos de investimento deveu-se à exposição a CDS sobre dívida imobiliária. O mercado de CDS’s não só valia centenas de vezes o do mercado de dívida imobiliário como ainda por cima permite alavancamento. Alavancamento feito sobre bancos com autorização do FED (os big 5) para não terem limites de alavancamento.

Depois da crise do subprime afigura-se como possível a crise da dívida soberana. A verdadeira crise da dívida soberana ainda não chegou. Chegará no momento em que a ISDA disser que existiu um evento de crédito, por exemplo, com a dívida soberana grega.

Se esse momento chegar vão exisitir consequencias imprevisiveis. As perdas não são limitadas aos “haircuts” falados, são perdas totais, multiplicadas e alavancadas. Não são apenas os CDS em carteira dos Bancos. São os CDS em carteira dos clientes dos Banco que vão entrar em falencia e originar defaults de pagamento de dívida aos Bancos e imparidades. É o impacto na economia de falencias de empresas que embora sólidas no seu core vão sofrer do aventureirismo financeiro dos seus decisores.

É este momento que se está a tentar evitar. O default técnico grego é assustador por ter consequências imprevisíveis por serem muitas vezes multiplicadas pelo mercado de CDS. Todos nós que assistimos de fora apenas podemos esperar o melhor e preparar para o pior.

E se os EUA entrarem em bancarrota?

Creio que este artigo de opinião é bastante interessante.

Stanley Druckenmiller, investor “lendário” que já foi gestor de fundos para George Soros – tendo afundado a Libra em 1992 -,  aborda aqui a possibilidade de o Ministério das Finanças Americano entrar em bancarrota.

Defende que o Limite ao Endividamento só deve ser elevado mediante um plano sério de combate ao défice e que os EUA devem atrasar o pagamento de juros ou reestruturar a dívida para dar mais credibilidade à sua dívida (que ainda goza de nível AAA!), completamente em desacordo com Timothy Geithner.

Recomendo.

Adiar o inevitável

Lew Rockwell sobre O colapso da União Europeia:

O caso de Portugal e a reação finlandesa deveriam servir de alerta. Todos esses pacotes de socorro e de estímulos não podem ocultar o fato de que os governos e os sistemas bancários dos EUA e da Europa estão fundamentalmente quebrados, e são sustentados apenas pelo poder de seus respectivos bancos centrais de criar dinheiro do nada. Cada intervenção serve apenas para comprar tempo e adiar o inevitável; elas não atacam os problemas fundamentais. E, a cada vez que os problemas reaparecem, eles são piores do que antes.

Não é necessário ser um Verdadeiro Finlandês para reconhecer a injustiça de se dar pacotes de socorro para governos estrangeiros. Nem nacionalismo nem pacotes de socorro irão corrigir os problemas reais. O mundo eventualmente terá de voltar a uma moeda sólida. Porém, o caminho até esse fim será árduo, e haverá grandes convulsões.

O FMI é o nosso salvador (2)

A direita que chama caloteiros aos que avisam que a reestruturação da dívida portuguesa é necessária (como se os credores não fossem profissionais da avalição de risco e não merecessem, pobrezinhos, sofrer as consequências das suas escolhas) não parece ter problema moral algum com o facto de o FMI ir buscar o dinheiro do bailout ilegitimamente aos contribuintes internacionais já de si endividados, assim obrigados a endividarem-se ainda mais para “salvar” Portugal. Essa direita estatista, geneticamente determinada a proteger o status quo, a salvar a cara do Estado, à custa dos sacrifícios individuais, não se distingue em nada da esquerda colectivista.

O Socialismo Global riscou “absurdo” do seu vocabulário e vetou a matemática à arte praticada por aqueles a quem falta a Fé.

Leitura complementar: O FMI é o nosso Salvador!

Still, few dare defend the most effective policy option: a managed sovereign-debt default

Bailout proponents continue to sing its praises. By forcing the troubled government to change its economic policy, it supposedly fosters growth and prevents further debt crises. By imposing the majority of the costs on the rescued countries, it purportedly stiffens their fiscal discipline. Finally, by preventing a sovereign default by a member of the eurozone, it allegedly stabilises debt and currency markets.

Upon closer inspection, however, none of these benefits materialise. In Greece and Ireland, bailouts did not stabilise markets, did not encourage economic growth, and did not inspire a change of heart about credit. If anything, these cases suggest that, within the straitjacket of a monetary union, the bailout mix does not work. It requires strict fiscal measures that discourage economic growth and make it impossible to lower the debt-to-GDP ratio.

On the contrary, the conditional bailouts imposed on Greece, Ireland, and, now, Portugal, lead to an insidious cycle of spending cuts and tax rises which produce economic stagnation, social unrest and political turmoil.

(…)

A managed default could bring three benefits.

The immediate debt relief would make space for growth-oriented reforms with visible short-term results.

A sovereign default would also give markets a firm signal about the EU’s commitment to limit moral hazard. Whereas a bailout supposedly disciplines the demand side of credit markets, a default effectively disciplines both demand and supply, producing a long-term stabilising effect.

(…)

Pretending the default option does not exist violates fundamental economic principles that will eventually override any political preference. To avoid wasting a decade, the governments of Greece, Ireland and Portugal should force Europe to discuss a debt restructuring.

Dr. Pangloss e o melhor dos mundos possíveis

Rui Esteves, um dos cinco economistas em mesa redonda no Expresso:

Tirando talvez os casos do Reino Unido e dos EUA, não há memória de uma dívida desta dimensão ter sido realmente paga. As reformas estruturais de que agora tanto se fala são fundamentais para o futuro do crescimento económico em Portugal, mas é preciso ser mais otimista que o Dr Pangloss para esperar que sejam suficientes para resolver o problema da dívida nos três anos concedidos pelas operações de resgate grega e irlandesa.

(…)

Sejam realistas e transparentes. Realistas, pois não vale a pena prometer aquilo que não é possível humanamente conseguir no curto prazo dos empréstimos do FEEF. Mas como esta reestruturação parece inevitável a partir de 2013 é preferível não perigar mais as possibilidades de recuperação da economia para acabar no mesmo ponto de chegada. Esse foi um dos erros dos governos argentinos entre 1998 e 2001. Nem todos os sacrifícios valem a pena.

O FMI é o nosso Salvador!

Mas os seus poderes de Super-Herói, capazes de fazer países crescer ao mesmo tempo que se aumenta os impostos, caducam em 2013. Aí, quem nos vai dar mama é o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, explica a Standard & Poor’.

Este mecanismo europeu, que só entra em funcionamento a partir de 2013, permitirá, por exemplo, que os países recomprem dívida nos mercados com dinheiro europeu e irá, à partida, incluir um cenário de reestruturação da dívida, onde os países em risco poderiam negociar o reescalonamento da sua dívida de uma forma coordenada a nível europeu.

Ou seja, como já é óbvio para muitos (curiosamente menos para a nossa direita que, talvez com reminiscências salazaristas, não fosse a nossa direita mais moral que intelectual, parece achar que pagar as dívidas se resume a uma questão de honrar compromissos – mesmo que matematicamente impossíveis – sob pena de, vergonha!, sermos vistos pelos nossos superiores colegas europeus como caloteiros), a reestruturação da dívida é  inevitável. O FMI só cá está para nos colocar em banho maria e vigiar enquanto não estreia o novo tabuleiro monopoly 2.0 da EU. Até lá, demos graças pelo FMI e rezemos para que, como que por milagre, a factura a pagar pelo FMI+reestruturação seja menor do que a factura a pagar por uma reestruturação imposta já.

Mais um “esquerdista mimado a querer mandar nos credores”

Tiago Caiado Guerreiro: “Nós vamos incumprir. O Banco Central Europeu, a Comissão Europeia, andam todos a tentar esconder a situação, mas nós vamos ter de renegociar a dívida (…). Simplesmente porque o Estado português, e ninguém tem coragem de dizer isto, está falido.

It’s all so quiet

Os jornais portugueses noticiam que os pobres dos gregos estão chocados com as notícias de que já se fazem avaliações sobre um “corte de cabelo” gigante, entre 40 a 70%, da dívida soberana do país. Um processo de reestruturação da dívida que parece imparável.

Por aqui, os juros da dívida portuguesa disparam com receios de reestruturação de dívida, mas ninguém está chocado, muito menos os principais partidos em campanha que não têm sequer referido o óbvio por não ousarem pôr em causa a bondade do FMI, o nosso omnipotente salvador, como se a hipótese de Portugal vir a devolver o dinheiro aos credores nos prazos estipulados fosse matematicamente possível. Para Pedro Silva Pereira, os níveis actuais das taxas de juro de Portugal reflectem “a irracionalidade que vai nesses mercados” – como é possível que tenhamos os piores resultados desde a nossa entrada no euro precisamente quando entra a ajuda? Os mercados só podem estar loucos.

Enquanto não se conseguem ouvir vozes dissonantes do PS no PSD ou CDS quanto à bondade de nos endividarmos ad infinitum, os tiririca anti-sistema BE e Verdes lá vão apresentando projectos de reestruturação (unilateral) da dívida. E mesmo recebendo dicas insuspeitas sobre usar a reestruturação da dívida como arma negocial, a nossa intrépida direita continua a piar baixinho para não afastar o festim do FMI e assim adiar acordar a ira do povinho, pelo menos para depois das eleições.

Incomensurabilidade de paradigmas

Álvaro Santos Pereira:

Mesmo que cheguemos a uma situação de incumprimento ou de reestruturação da dívida pública, espero bem que não tenhamos de cair nos mesmos moldes que caracterizaram a bancarrota parcial do país em 1892. É que há reestruturações de dívida mais e menos civilizadas e a de 1892 não foi muito abonatória para o nosso país, pois nós declarámos o default parcial sem antes termos tentado negociar com os nossos credores – a negociação, recorde-se, só foi acordada em 1902. O processo foi muito tumultuoso e fez com que ficássemos fora dos mercados da dívida durante várias décadas. Por isso, o modelo de 1892 não é muito abonatório para solucionar os nossos problemas atuais.

(…)

As dívidas da economia nacional são de tal modo elevadas que será muito difícil evitar uma reestruturação a curto ou médio prazo. Porém, terá de ser devidamente negociada com os nossos credores e com os nossos parceiros europeus e não deve ser feita de forma “menos civilizada”, como aconteceu em 1892.

Luís Aguiar Santos:

Diria que o facto marcante em todo o período da crise bancária e financeira de 1890-1891 até à renegociação com os credores externos em 1902 é o relativo controlo do crescimento da despesa pública (que cresce qualquer coisa como 4%, abaixo do crescimento do PIB). A impossibilidade de se financiar no exterior obrigou o Estado português a uma “dieta” que terá sido mais uma inevitabilidade do que uma escolha política.

(…)

As «lições» parecem-me ser que o ajustamento actual será socialmente muito mais doloroso e que o Estado o fará sob um regime de protectorado de instâncias externas que, apesar de tudo,  esteve em condições de evitar em 1890-1902.