Um bom “furo”

Se um jornal conseguisse provar que os membros do governo tinham votado a decisão relativa à resolução do BES em benefício próprio, isso seria um “furo” jornalístico. Diria mesmo uma notícia bombástica. Parece, no entanto, que os factos não vão de encontro a essa ideia. Nada que tenha impedido o Público de tentar passar essa ideia através de insinuações rasteiras indignas de um jornal supostamente sério: Uma notícia cheia de disparates e um editorial deliberadamente obscuro que tenta retirar uma lição de moral de factos supostos.

Em primeiro lugar, dizer «Membros do Governo tinham mais de um milhão de euros no GES quando decidiram o seu futuro» é uma frase manhosa. Lendo a notícia, percebe-se que o «mais de um milhão» é o total de investimentos no GES de 16 membros do governo. Uma média de pouco mais de 62 mil euros cada um. Nada de espantoso, portanto. Aparentemente o grosso deste milhão pertencerá a apenas três membros do governo. Poderiam este três ter beneficiado da resolução do governo? Como veremos adiante, não.

Em segundo lugar, a listagem de bens detidos pelos membros do governo no GES sugere que se estes foram afectados pela a decisão do governo, isso foi mais no sentido negativo e não positivo. Investimentos em obrigações do Espírito Santo Financial Group ou do Espírito Santo Banque Privée perderam com a falência dessas entidades. No limite, a passagem do BES a Novo Banco poderá ter diminuido ainda mais as possibilidades de recuperação dos investimentos, uma vez que o banco era o principal activo do grupo. Aparentemente, metade de toda a exposição dos membros do governo ao GES eram investimentos deste género. Isto para não dizer nada das acções do próprio banco, que passaram a valer (muito) perto de zero.

Em terceiro lugar, ter investimentos num banco e ter depósitos num banco não é a mesma coisa. Depósitos são passíveis de ser perdidos em caso de falência do banco. Outros investimentos podem ser recuperados ou não dependendo da sua natureza. Acções, fundos de investimento e outros títulos de entidades terceiras estão no banco apenas para ser guardadas. Todos estes títulos são dos seus donos não do banco. Se este entrar em insolvência, os títulos continuam lá. Já os depósitos são usados para conceder crédito a outros clientes, pelo que no caso de prejuízos – e se as reservas do banco forem insuficientes – podem ser perdidos.

Quando a notícia do Público liga a questão dos depósitos acima de 100 mil euros com os membros do governo que tinham mais de 100 mil euros no banco, está deliberadamente a confundir as coisas: Não eram mais de 100 mil em depósitos. Eram mais de 100 mil na carteira completa, incluindo títulos diversos que não têm nada a ver com a questão dos depósitos. «Deliberadamente» porque a associação feita é negada pelos próprios factos relatados na notícia.

Por fim, o que ocorreu no Chipre foi bastante diferente do caso BES/GES. Os dois maiores bancos do Chipre tinham activos totais que eram 400% do PIB do país. E tiveram prejuízos que em termos relativos foram o dobro dos prejuízos do BES. No Chipre não houve outro remédio que não o “bail-in”. O Banco de Portugal e o governo não impuseram um “bail-in” no BES porque quiseram evitar esse estigma. Não por ser do interesse particular deste ou daquele membro do governo. Até podemos questionar se esse caminho não teria sido melhor, tanto para os bancos do Fundo de Resolução como para os contribuintes, via CGD, mas não neste contexto desonesto de tentar mostrar algo que parece ser o contrário da realidade.

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Um bom presságio

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A esquerda portuguesa congratula-se pela vitória de Dilma. Não pela vitória em si, mas porque parece que os mercados não estão a gostar lá muito de ter mais 4 anos de alguém que conseguiu fazer de uma economia com tanto potencial um anafado e atrofiado gastrópode. E se os mercados estão descontentes, isso só pode ser bom, topou?

Sobre as pressões de França e Itália para acabar com a disciplina orçamental

O meu artigo hoje no Observador – Europa: a esquerda não é solução.

A Comissão Europeia analisou as propostas orçamentais dos seus estados-membros para 2015, e verificou que algumas se arriscam a incumprir as regras orçamentais europeias. Pediu esclarecimentos. Em plena crise, a questão não é um pormenor. Até porque, em último caso, está em causa o próprio Euro. Que países são esses? França, Itália, Áustria, Eslovénia e Malta. E o que têm em comum? São governados por líderes de centro-esquerda. Não é uma coincidência: começou um combate ideológico na Europa.

Nesse combate, sabemos quem está de que lado, o que defende a Alemanha e o que consta do Tratado Orçamental. O que não sabemos é o que defendem os outros. Perante as primeiras trocas de tiros, é essa a questão que sobressai: para além de reflexo do desgaste social e político causado pelas políticas de austeridade, qual o conteúdo desta posição de resistência? Sem contar com intenções nobres acerca do crescimento económico, o que defendem França e Itália de concreto em alternativa à disciplina orçamental? Ninguém diz. Provavelmente, porque ninguém sabe. E, certamente, porque isso já não interessa. (…)

OCDE: É preciso continuar a reduzir funcionários públicos

Diário Digital

De acordo o relatório «OECD Economic Survey» hoje divulgado, a Organização considera que Portugal deve “continuar a melhorar a eficiência do setor público continuando a reduzir o número de funcionários públicos”.

Para a OCDE, esta será também uma forma de continuar a reduzir o peso da despesa com salários da administração pública.

Por outro lado, o relatório refere que apesar de o emprego público ter caído cerca de 8% desde 2012, ainda há “excesso de funcionários em áreas específicas, como as forças de segurança e a educação.

“Com mais de 450 polícias por 100 mil habitantes, a polícia portuguesa é a segunda maior força na Europa”, em termos relativos, lê-se no documento.

Já na educação, a OCDE considera que as turmas são “pequenas” e defende por isso que “a qualidade dos professores é mais importante no processo de aprendizagem do que o tamanho das turmas”.

A culpa é do mercado

20141024_210450A culpa não é do paciente que tem um obsessão com cirurgia plástica. A culpa não é do cirurgião plástico que quer ganhar uns cobres extra à custa de uma cirurgia que em termos clínicos — e esta é a parte importante — não se justificaria.

A culpa é do mercado, naturalmente, que subverte os pobres indivíduos e os pobres cirurgiões, compelindo-os a fazer cirurgias que ambos rejeitavam com abjecção.

Eleições no Brasil – aftermath

Olá Luana,

Eu gosto muito do Brasil. Tive a felicidade de viver aí durante quase meio ano e fiz muitas amizades. Para além de que brasileiro é meio português, mesmo. Ou como diria um amigo meu brasileiro, brasileiro é português à solta. Agora, eu não sei que versão da história é que vocês dão aí no Brasil. Na versão da história que eu conheço, o Brasil era Portugal, pelo que dizer que o Brasil — que não existia — era explorado por Portugal, faz tanto sentido como dizer que o Alentejo é explorado por Portugal, ou que Minas Gerais é explorado pelo Brasil. Ou seja, não faz sentido nenhum. Quanto à historinha do ouro, a coisa é assim: se você tem um relógio, não pode dizer que o roubou a si mesma. O relógio é seu. Portanto, quando Portugal foi à Terra de Vera Cruz extrair ouro, e já agora deixar umas quantas coisas construídas (conta-se que os Romanos, tirando o facto de terem construído estradas, aquedutos, ordem pública, irrigação, saneamento, instituições jurídicas, não fizeram nada), foi, em boa verdade, ao seu território dispor dele, da mesma forma que quando você está em sua casa vai até à sua sala de jantar e arranja os castiçais como bem entende. Sim, é verdade, atacamos os índios nativos, mas você saberá pelos seus antepassados que Piovani não é apelido de índio nativo, é apelido de italiano colonizador. Portanto, você não se enquadra na categoria de índios nativos que se podem queixar de terem sido expoliados, até porque os seus antepassados eram colonizadores. Ainda assim, não vamos com isso dizer que os Piovanis exploraram o Brasil, ou vamos?

Assim sendo, aproveita essa cara laroca e continua a fazer novelas da Globo, que história não é seu forte. Um beijo, tá?

Adenda: existem rumores de que a conta será fake. Tal seria em prejuízo de Luana Piovani, mas não altera em nada o conteúdo da missiva, até porque muita gente partilha dos disparates implícitos no tweet.

“Carlos Moedas tem cabeça de liberal e não apoia intervenções do Estado, pensa como Passos Coelho”

Houve um tempo em que teria bastado a Ricardo Salgado telefonar a 2 ou 3 pessoas e o problema do GES teria sido resolvido em silêncio. A Caixa primeiro e o BCP depois teriam tratado dos problemas de financiamento. Se algumas perdas daí resultassem, um aumento de capital da Caixa Geral de Depósitos (o nome que se dá ao bail-out quando o banco é público) teria resolvido o problema. O GES continuaria vivo, como se nada fosse. A PT continuaria a ser uma empresa de bandeira com gestores de categoria internacional. E entre os 70 mil milhões de impostos pagos todos os anos, estes 4 ou 5 passariam despercebidos.

O PSD poderia ter feito muito melhor enquanto governo, e certamente que a falta de dinheiro e a supervisão internacional ajudam a fugir a tentações destas, mas vale a pena ler este excerto de uma excelente peça do Público para perceber as diferenças entre este governo e os que o antecederam:

“(…) Este é um período sombrio na vida de Salgado, com o grupo à beira da falência. E é obrigado a sair do seu casulo para pedir ajuda ao Estado. Dispara, então, nas várias direcções. Todos o ouvem, mas ninguém se compromete. Vai sozinho a Belém falar com Cavaco Silva, seu convidado de casa, que lhe terá dito: pouco posso fazer.

O banqueiro chega à Praça do Comércio para uma audiência com a ministra das Finanças, acompanhado de José Manuel Espírito Santo e de José Honório. Os três têm grande urgência e tentam convencer Maria Luiz Albuquerque a autorizar a CGD a emprestar 2500 milhões à Rioforte para suavizar a dívida de curto prazo. O envolvimento do banco estatal ajudava a que o BCP viesse a colaborar também. Pedem juros generosos. Maria Luís Albuquerque torce o nariz e terá notado que “não dispõe de instrumentos” para apoiar o GES (não financeiro).

No caminho está agora o primeiro-ministro. Quando entra em São Bento, Salgado não se sente confortável. Sabe que Pedro Passos Coelho não sente empatia por ele, mas acredita que o pode sensibilizar, pois a queda do GES terá impacto no BES (e na PT). E admite que os efeitos colaterais se farão sentir. O banqueiro é afirmativo: a situação é crítica, daí o pedido já endereçado de viva voz à ministra. De pouco servirá o encontro, pois Passos Coelho é vago, não tem nada para lhe dizer. E vai dar instruções políticas a Maria Luiz Albuquerque para manter a recusa.

Entre outros dirigentes políticos e governamentais com quem Salgado falou naquele período, mais de uma vez, está Carlos Moedas, na época secretário de Estado adjunto de Passos (e agora comissário europeu). “O Moedas, o Moedas! Eu punha já o Moedas a funcionar.” Foi a frase de José Manuel Espírito Santo (gestor do BES) que incentivou o banqueiro, pela segunda vez, a ligar ao secretário de Estado para que ajudasse a encontrar um plano de salvamento do grupo. Carlos Moedas ia a conduzir quando o atendeu e lembra-se de ter pensado: “Está assustadíssimo.” O Sol já relatou: “Carlos, está bom? Peço desculpa por estar a chateá-lo a esta hora. Tivemos agora uma notícia muito desagradável. Tem a ver com a procuradoria no Luxemburgo [onde a ESI e a Rioforte têm as sedes], que abriu inquérito a empresas. Temos medo que possa desencadear um processo complicado sobre o grupo. Porventura temos de pedir uma linha através de uma instituição bancária. Seria possível dar uma palavrinha ao José de Matos [presidente da CGD], para ver se recebia a nossa gente da área não financeira? Temos garantias para dar.”

    Carlos Moedas tem cabeça de liberal e não apoia intervenções do Estado, pensa como Passos Coelho

. Já veio garantir que “o tema morreu ali”, não passou do telefonema. É a sua versão.

As diligências feitas pelo clã terão chegado a José Luís Arnaut, amigo de Barroso, e a Paulo Portas. O vice-primeiro-ministro chama a atenção de Passos para “a gravidade de deixar cair o GES” e recebe um chega para lá. Ao presidente do BES restam agora poucos amigos. Um deles é Durão Barroso, com quem fala várias vezes. Barroso ainda se movimentou (por Lisboa e Luxemburgo) mas, do ponto de vista de Salgado, depois de tudo o que terá feito pelos amigos, Barroso [a quem o BES pagou um curso nos EUA] não se empenhou o suficiente e, hoje, o sentimento é de desconforto. É a síndrome de quem deixa a crista da onda. Este terá sido, provavelmente, um dos primeiros momentos em que Salgado sentiu que a idade, 70 anos, e o ambiente não lhe permitiram “brandir a varinha mágica”. Fecham-se todas as portas que interessam. O banqueiro já não tinha flexibilidade para manter e gerar conivências. (…)

Este é o retrato de um presidente sem poderes, um governo sem a abertura a que Ricardo Salgado estava habituado, de um vice-primeiro-ministro há demasiado tempo nos círculos de poder, e de um grupo empresarial do regime a cair de podre (como o próprio).

Acerca das presidênciais brasileiras

Depois do resultado do 1º turno, escrevia um conhecido meu a residir no Brasil: “Uma coisa eu sei, o Brasil não aguenta mais um governo do PT.“. Foi renhido. Mas apesar da boa prestação eleitoral Aécio Neves não conseguiu afastar a quadrilha do PT do Planalto. Para um país que no início do Século prometia tanto, as perspectivas são sombrias. Pelo menos caberá a Dilma e não a Aécio pagar o custo das suas políticas desastrosas.

Dilma reeleita Presidente do Brasil

No Brasil, ganhou a candidata de esquerda e perdeu o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira, que defendia a “reestatização” da Petrobras e a ampliação do programa Bolsa Família: Dilma Rousseff reeleita presidente do Brasil

Dilma conseguiu 51,56% dos votos, Aécio Neves 48,43%. Minas Gerais, o segundo maior círculo eleitoral do país, e terra de Aécio, acabou por ser decisivo: Dilma venceu lá.

Deve a Igreja preferir a facilidade do julgamento ou a enorme dificuldade do Amor e da Misericórdia?

A Daniela respondeu ao meu artigo no Observador e apesar de já ter prometido abster-me de temas beatos por muito tempo, é um post com partes tão erróneas no que refere sobre Igreja e fé que deixo aqui algumas notas.

1. As bitolas da fé católica são o Amor e a Misericórdia de Deus. As virtudes teologais são a Fé, a Esperança e a Caridade (i.e., Amor). Qualquer pessoa que leia o Novo Testamento entende o feroz combate que Jesus e, depois, os Apóstolos fazem ao justicialismo e a visões justiceiras de Deus. Além das parábolas que referi (e mais há), temos o ‘não julgueis para não serdes julgados’, temos a teologia da cruz de Paulo, temos o ‘se Deus está por nós, quem está contra nós?’ paulino, temos o Espírito Santo paráclito (i.e., temos o ES – Deus – como nosso advogado de defesa), e um quilométrico etc. Querer elevar a justiça a um papel que não tem – e propositadamente não tem – pode ser muita coisa, mas não é catolicismo. O tema da justiça, que aparece ao nível da praxis e não de virtude de fé, está sempre relacionado com a justiça de reconhecer a cada pessoa um reduto de dignidade e tratá-la dessa forma, não de recompensa dos justos e punição dos incumpridores. A justiça vista da forma terrena é tão ausente do catolicismo que a Igreja – como se viu no caso dos padres pedófilos ou do assassino ‘inconseguido’ de João Paulo II (para dar um exemplo criminoso e outro misericordioso) – tem mesmo dificuldade em ver-lhe utilidade e usá-la.

2. A Igreja não tem de ficar de porta aberta à espera de que quem concorde queira entrar. É certo que há muito setores que querem ser um grupo pequenino de puros, com regras de entrada estreitas, mas também não é isso o catolicismo. Inerente ao catolicismo está – e, mais uma vez, vem no chato que é o Novo testamento – a missionação e a evangelização. Foi isso que transformou a Igreja no que é hoje. E usaram-se argumentos tão avassaladores e intelectualmente refinados como o da imagem que deixo abaixo, do Qorikancha, um mosteiro dominicano construído literalmente em cima de um local de culto inca, em Cuzco. Ou seja, através de esquemas como por os locais de culto cristãos onde estavam os anteriores pagãos conseguiu-se converter os nativos de um continente. Imaginam-se portanto os critérios exigentes para com os fieis que vinham associados a esta fineza teológica. A ideia: preferia-se ter as pessoas dentro da Igreja, mesmo que devido ao hábito de ir prestar culto à divindade no local do costume, do que exigir-lhes concordâncias absolutas com isto e com aquilo antes de as deixar entrar. Conclusão: estar dentro de uma Igreja com um porta aberta onde ninguém entra – não vamos olhar para o lado da crise de vocações ou dos números de católicos nas missas e nas outras atividades da Igreja a diminuirem, ou vamos? e também vamos fingir que a inveja e a bufaria dentro da Igreja católica não eram incentivadas em setores tradicionalistas perante o sucesso dos progressistas? – pode ser muita coisa mas, mais uma vez, não é catolicismo.

Qorikancha3. Quanto à parábola do aluno da Daniela, é rápido. De facto o difícil nesta maluquice do cristianismo inventado por Jesus é que foge completamente aos critérios humanos. Todos passariam, mesmo, desde logo porque não falamos de recompensas profanas. É uma religião que até tem um ‘bom ladrão’. A parábola da Daniela é precisamente o oposto da parábola dos trabalhadores da vinha. Eu, que tenho como fé o cristianismo, prefiro a versão de Jesus à da Daniela.

4. É sempre muito prático ignorar a História da Igreja e assumir que esta é a primeira vez que a Igreja tem convulsões que levam a que trema e se transforme. Voltando à Bíblia, está lá bem explicada a guerra entre a fação conservadora (Pedro e Tiago) que queria manter o respeito à lei mosaica e a de Paulo, que via como desnecessários os preceitos judaicos. O que se adotou foi esse grande abandalhamento da Igreja (como agora se diria) proposto por Paulo. Mesmo a comunhão tem vindo a ser cada vez mais democratizada, depois de séculos em que foi algo reservado para os dias de festa e para as pessoas mais importantes. A comunhão como algo corrente e que até pode ser diário, a comunhão de crianças,… é tudo recente na Igreja. E não deixou de ser considerado mais um abandalhamento da Igreja pelos conservadores de cada altura.

5. Concordo com a Daniela: a Igreja não pode comprometer as suas verdades fundamentais para agradar ao mundo. Sucede que para mim as verdades fundamentais são a vida, a morte e ressurreição de Jesus (por sinal a tradição oral mais antiga de todas do cristianismo) e o amor e a misericórdia de Deus. Segundo o post da Daniela, a verdade fundamental presume-se serem o catecismo e a lista dos que podem comungar.

6. A Igreja é e deve ser diversa. Continuar a ler

Sem stress

lemmingsSaíram hoje os resultados dos testes de stress aos bancos europeus. Vinte cinco bancos chumbaram. Dos três (sim, apenas 3) bancos portugueses que cumpriam os critérios para fazer parte do teste, apenas dois passaram: a Caixa (bem capitalizada graças às intermináveis injecções de dinheiro dos contribuintes) e o BPI. O BCP foi um dos 25 que falhou.

Para além do banco que mais dinheiro sacou aos contribuintes nos últimos anos (a Caixa Geral de Depósitos), apenas um banco está suficientemente sólido no país para passar os testes de stress. Por coincidência, ou não, um banco com sede no Porto e o que mais se tem mantido afastado dos jogos de poder. O BPI conseguiu, para já, travar antes do penhasco.

Sobre os testes de stress do BCE

ECB Announces Stress Test Results: Here Are The 25 Banks That Failed

The central bank’s punchline: “[the] Exercise delivers high level of transparency, consistency and equal treatment. Rigorous exercise is milestone for the Single Supervisory Mechanism starting in November.”

And this is what it’s all about from Vítor Constâncio, Vice-President of the ECB. “This unprecedented in-depth review of the largest banks’ positions will boost public confidence in the banking sector. By identifying problems and risks, it will help repair balance sheets and make the banks more resilient and robust. This should facilitate more lending in Europe, which will help economic growth.” Or, as Bloomberg called it, “The ECB has staked its reputation on Monday’s stress test results”… what reputation?

(…)

Some quick observations: not a single major bank failed the stress test and the cumulative capital shortfall among the 25 failures is precisely €25 billion, less than the €27 billion shortfall reported during the 2011 stress test when 20 banks failed, and when Banco Espirito Santo, Dexia and Bankia all passed with flying colors. Oh, and just in case it was lost the first time, the Bank of Cyprus supposedly passed.

O chumbo do BCP no teste de stress

BCP um dos 25 bancos da zona euro a chumbar testes de stress com rácio de 3% no cenário adverso
Défice tarifário da EDP ditou “chumbo” do BCP
BCP: Carência de capital relevada no teste de stress “já se encontra suprida”

Passos Coelho, o PSD, e a dúvida de Mick Jones

“Não pensem que me vou embora”, terá dito, segundo o Sol, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho, quando na passada semana se reuniu com dirigentes das estruturas distritais do PSD. Passos terá garantido às “hostes laranja nervosas com os problemas na coligação, a eleição de António Costa e o Orçamento do Estado” e “a quem lhe cobiça o lugar”, que, tal como “a política não acaba” e “o PSD não acaba”, também o próprio Passos Coelho não se deixará finar: “vou estar aqui”, terá dito.

A 10 de Junho de 1982, os The Clash lançavam uma canção, aparentemente escrita pelo guitarrista Mick Jones, em que este deixava no ar uma interrogação a quem o ouvisse: “should I stay or should I go?”. Passos Coelho, aparentemente, não se deixa assaltar pelas dúvidas de Jones, mas talvez devesse. Se porventura Passos se dirigisse a mim e, como Jones, me dissesse “come on baby let me know, should I stay or should I go?”, eu dir-lhe-ia, primeiro, que agradeço a simpatia mas que não me tratasse por “baby” já que não temos familiaridade para isso, e segundo, que sim, devia ir. Mas não de qualquer maneira.

Em 2005, o então líder do Partido Conservador britânico, Michael Howard, não conseguiu derrotar o então Primeiro-Ministro Tony Blair nas eleições gerais que tiveram lugar nesse ano. Howard rapidamente percebeu que não teria grandes condições de continuar na liderança do seu partido, e por isso, logo após a derrota eleitoral, anunciou que iria abandonar o cargo. Mas anunciou também que as eleições para a escolha do seu sucessor teriam lugar apenas seis meses depois. À data, lembro-me que a decisão de Howard foi muito criticada, por prolongar excessivamente uma campanha eleitoral interna que iria pôr a nu – e talvez provocar – profundas divisões internas que apenas desagradariam ao eleitorado. Mas essa decisão veio a mostrar ter sido acertadíssima. Pois a tal campanha longuíssima a que deu lugar, longe de danificar a imagem do partido, foi essencial para a sua recuperação: todos os candidatos foram testados, tanto na sua capacidade de captar votos como na consistência e coerência das propostas que apresentavam, e ao fim desses seis meses, não só o partido tinha conseguido ultrapassar muitas das divisões que o haviam atormentado nos anos anteriores, como a qualidade dessa discussão (principalmente, entre David Cameron e David Davis) mostrou aos eleitores que o Partido Conservador já não era um simples clube de boxe, mas um partido com uma alternativa para oferecer. Quando David Cameron, nos anos subsequentes, conseguiu mudar o seu local de residência para o Nº10 de Downing Street, muito ficou a dever a essa decisão de Howard de prolongar a campanha para a sua sucessão.

Quer queira aceitá-lo ou não, Passos Coelho não terá condições para ficar como líder do PSD por muito mais tempo. Quer queira aceitá-lo ou não, Passos pode ter impedido a bancarrota de Portugal, mas foi incapaz de impedir a falência da sua governação. Sem ter controlado de forma efectiva a despesa pública, e sem ter feito a “reforma do Estado” que Paulo Portas foi forçado a tirar da gaveta mas que nunca passou do papel, Passos Coelho não fez mais do que manter o sistema estatista que herdou dos tristes tempos do socratismo, apenas com menos dinheiro no bolso dos eleitores, fruto das subidas da carga fiscal e cortes de salários e pensões que operou. O resultado desta sua política, infelizmente – para ele e para todos nós – juntou o pior de dois mundos: provocou contra si o descontentamento que medidas impopulares sempre provocam, sem que essas medidas impopulares se tenham traduzido numa correcção dos problemas que afectam o país, que – ao contrário do governo em acelerado estado de zombieficação – continuam aí bem vivinhos.

Por isso mesmo, seria bom que Passos (e Portas, já agora, mas isso são outros quinhentos) deixasse de “estar aqui”. Se a sua política faliu, seria do mais elementar bom senso permitir a quem eventualmente tenha uma outra ideia do que deve ser o papel do PSD no país e no seu governo tomar-lhe o lugar, e apresentar essa mesma ideia aos portugueses, e ver o que eles acham dela. Ora, para que esses mesmos portugueses não se limitem a fazer orelhas moucas ao que essa hipotética pessoa lhes tivesse para dizer, Passos Coelho não poderia sair de qualquer maneira. Teria de sair como Howard saiu: no seu caso concreto, dizendo que iria continuar no Governo até ao final do mandato (ou até umas eleições legislativas marcadas para uma data no início do Verão), mas que não se recandidataria ao cargo de Presidente do PSD, e marcando as eleições directas no partido para um prazo nunca inferior a seis meses. A razão é simples: a governação de Passos Coelho não só foi um fracasso como, ao agravar a já anteriormente enorme desconfiança dos eleitores em relação à classe política, tornou muito difícil que quem vier a seguir possa vir a ser melhor sucedido. Em particular, o PSD ficou bastante fragilizado pela imagem do Governo e a associação (natural e inevitável) do partido à sua política. A única forma de uma futura liderança com ideias alternativas à actual ser ouvida pelos portugueses como algo real, como algo que não um mera encenação oportunista para se “afastar” da “imagem” do passado recente, será com um debate sério e demorado entre os putativos candidatos, em que todos eles sejam testados e os portugueses possam, com tempo e atenção, ver quem tem realmente algo a dizer-lhes e quem não passa de fogo de vista. Só uma verdadeira discussão, e uma discussão longa e o mais aberta possível, poderá mostrar aos eleitores que o PSD não é apenas o partido do governo falido que se vai arrastando no poder, mas também um partido onde há quem tenha soluções alternativas para o país. Isto, claro, se o PSD for mesmo esse partido. Mas para termos uma oportunidade de verificar se é ou não é, Passos terá que sair, e sair de uma forma que mostre que pensa mais no país do que na imagem que tem de si próprio de alguém nunca desiste.

O enviesamento de esquerda dos jornalistas

Os jornalistas são preguiçosos ou serão todos de esquerda? Por Helena Matos.

O que temos como elemento redutor e distorcivo de boa parte das notícias é uma outra coisa. Uma outra coisa que faz com que o problema não esteja no que escrevem sobre Passos, mas sim no que não escreveram sobre Sócrates. Ou que em algumas redacções tal só tenha acontecido por absoluta impossibilidade de evitar o assunto. Tal como o problema não é o que escrevem sobre os cortes nos salários, mas sim que em quarenta anos de democracia se contem pelos dedos das mãos as reportagens dignas desse nome sobre os sindicatos – de que vivem; quantos trabalhadores representam ou como são realmente escolhidos os seus dirigentes – ou sobre o mundo paralelo das empresas públicas.

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Convencionalismos socialistas de fim de semana

Ontem dei com esta entrevista de Maria Antónia Palla ao i (que ter uma mãe interessante também tem cachet eleitoral). Lá se fala da família de MAP, que, apesar de não católica e republicana, era tão puritana, tradicionalista e controladora dos seus membros femininos como as mais estritas famílias católicas. Não é a primeira vez que me deparo com esta característica – a esquerda progressista e defensora de todo o tipo de igualdade menos aquela que lhes transtorne a vida famíliar e os ponha a ir ao supermercado e a mudar fraldas e dar banho à filharada. (Atualmente a rapaziada esquerdista já é mais partipativa, mas tanto quanto a rapaziada de direita e são mais influenciados pelos ambientes urbanos, educados e cosmopolitas do que pela ideologia.) E esta é uma experiência quase universal das mulheres de esquerda of a certain age. Zita Seabra conta isso mesmo na sua experiência de clandestinidade em Foi Assim, Doris Lessing relata-a de forma mais ou menos autobiográfica através de Martha Quest e as entrevistadas por Cecília Barreira em Confidências de Mulheres, Anos 50-60 lá o confirmam. (Em referência ao Nobel de Lessing, tenho de confessar que os Nobel de Alice Munro e Mo Yan dos últimos anos me reconciliaram um tudo nada com estes prémios.) E basta olhar para as ministras dos governos PS – sempre restritas às áreas tradicionalmente femininas: Saúde, Educação, Segurança Social, Ambiente para a mulher prestadora de cuidados da família, a educadora dos filhos, a dona de casa gestora e poupadora de recursos; Cultura para a tradicional anfitriã que junta nos seus salões a elite social e a elite cultural; e exoterismos como ministra da Igualdade para Maria de Belém continuar a ser ministra – para perceber que esta visão machista é intrínseca ao PS. Na tomada de posse do último governo de Sócrates foi ridículo ver como os quatro últimos lugares da hierarquia do governo eram ocupados por mulheres. (O PSD – que também tem abundantes falhas neste ponto, como a minha amiga Sofia Vala Rocha bem costuma apontar – e o CDS – idem -, apesar de tudo já tiveram por duas vezes ministras das finanças e uma ministra da Justiça.)

E já que estamos a falar de convencionalismos, e porque os ambientes que criamos para viver dizem muito sobre nós próprios, a sala de Maria Antónia Palla não podia ser mais convencional. Bonita, e com as paredes num leve tom de verde, que eu aprovo wholeheartedly (sou uma pessoa incapaz de viver em casas de paredes brancas e os meus quartos são sempre pintados de verde claro), e com as portas e rodapés brancos (outro requisito) e adoro soalhos antigos (e casas velhas, também). Mas oh quão tradicional.

Leitura dominical

Portugal e o futuro, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Numa nação habituada a desprezar os seus melhores em vida para consagrá-los na morte, consola assistir ao exemplo dado pela Câmara Municipal da Covilhã, responsável por atribuir ao Eng. Sócrates a chave da cidade e uma medalha.

Aos distraídos ou incrédulos, convém informar que, ao contrário do que poderia parecer, o Eng. Sócrates está vivo, tão vivo que aproveitou a deixa para brindar a humanidade em geral e os covilhanenses em particular com diversas pérolas de sabedoria: “O interesse individual existe, é certo, mas existe também o interesse colectivo.”

É triste que semelhante portento intelectual receba apenas uma chave e uma medalha municipais, em vez de ter as serralharias e os gravadores de Portugal inteiro a fabricar-lhe resmas de penduricalhos. Se pensarmos bem, o que é que o Eng. Sócrates legou à Covilhã? Que eu saiba, nada, além da honra para a autarquia em contar com ele como técnico enquanto assinava projectos belíssimos na vizinha Guarda. Em troca, a Guarda ofertou-lhe o quê?

O mesmo desprezo que o país, que nem faz o favor de seguir a eucaristia dominical do homem na RTP (aliás abaixo das audiências da própria Eucaristia Dominical, na TVI). E a injustiça dói mais se recordarmos que o homem fez à arquitectura da Guarda o mesmo que fez à economia do país. Desgraçadamente, muitos portugueses teimam em colocar o seu interesse individual à frente do interesse colectivo do Eng. Sócrates: a presidência de todos nós. Ou isso ou uma estátua.

Manuel Pinho e o GES

Lembram-se da candidatura portuguesa à Ryder Cup 2018? Inexplicavelmente o então ministro Manuel Pinho decidiu que o local da prova seria a Comporta em detrimento (por exemplo) do Algarve onde não era necessário construir infra-estruturas de raiz e que já era um destinho turistico de excelênca. Ou se calhar não foi assim tão inexplicável. Manuel Pinho já tinha ligações profissionais ao GES e como explicava o Hélder tentava dar um “empurrão” aos projectos turisticos da familia Espirito Santo que para além da publicidade veria muitas infra-estruturas financiadas com dinheiro dos contribuintes.

Isto valia bem uma choruda reforma antecipada. Entretanto a França ganhou a candidatura e este plano fantástico foi por água abaixo.

Sobre as greves no Metro de Lisboa

O meu artigo de hoje no Observador: Pela libertação do Metro de Lisboa.

No meio desta verdadeiramente deplorável situação – que nenhum Governo parece ter coragem para resolver – a CGTP tem ainda o descaramento de repetidamente invocar que a regular paralisação do Metro de Lisboa é feita em nome da defesa do “serviço público”. Na realidade, o que a CGTP realmente faz é aproveitar a circunstância de basicamente controlar uma empresa estatizada num sector onde é relativamente fácil por razões técnicas bloquear completamente o funcionamento do serviço. A partir daí, e em total desrespeito pelos utentes, as greves e plenários no Metro de Lisboa são convocados ao sabor da agenda política do PCP, compensando mediaticamente a fraca representatividade e capacidade de mobilização dos sindicatos na generalidade dos sectores de actividade.

Na hora H, as pernas que tremeram foram as dos deputados do PS

Prometemos5

Dezembro de 2011
Pedro Nuno Santos: “Os alemães que se ponham finos ou não pagamos a dívida” e se o fizermos “as pernas dos banqueiros alemães até tremem”.

Março de 2014
Manifesto assinado pelos deputados do PS Ferro Rodrigues (líder da bancada), João Galamba (futuro secretário de estado do tesouro), Eduardo Cabrita, Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves: Deixemo-nos de inconsequentes optimismos: sem a reestruturação da dívida pública não será possível libertar e canalizar recursos minimamente suficientes a favor do crescimento, nem sequer fazê-lo beneficiar da concertação de propósitos imprescindível para o seu êxito

Hoje
PS embaraçado com o manifesto da dívida
Com António Costa, a reestruturação da dívida pública deixou de ser uma prioridade do PS. As dificuldades de entrar num processo de negociação internacional contribuíram para os socialistas recuarem em relação aos objectivos que o Manifesto dos 74 (…) ‘Entalados’ por um projecto do BE, que também foi a votos esta quinta-feira, com um texto idêntico ao do Manifesto dos 74, os socialistas tentaram não ser apanhados em contradição e optaram por se abster na votação do projecto bloquista

Ainda não começou, e o regresso da ala socrática ao poder já é divertido.

Manuel Pinho, Ricardo Salgado e o BES

Manuel Pinho exige mais de dois milhões de euros ao BES

O ex-ministro Manuel Pinho vai avançar com um processo judicial contra o Banco Espírito Santo para receber uma reforma antecipada que lhe terá sido prometida por Ricardo Salgado. Em causa está um valor superior a dois milhões de euros.

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Rand Paul, o novo falcão IV

Uma vez mais, o discurso do próprio, repleto de pós de realismo.

Rand Paul: The Case for Conservative Realism.

Leituras complementares: Rand Paul, o novo falcão III;

Rand Paul and ISIL;

Rand Paul, o novo falcão II;

Rand Paul, o novo falcão.