A Grécia está pronta…

…era muito importante que a União Europeia também estivesse: Grécia está pronta para “rutura” nas negociações

Coincidências

“CML permite que empresa ligada ao BES construa quase o dobro do que o dono anterior” no Público

Manuel Salgado, vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa, informou em 2011 o proprietário de quatro edifícios situados na Av. Fontes de Pereira de Melo, destinados a ser demolidos, de que lá poderia construir uma área total de 12.377 m2, para comérico e serviços, em sete pisos acima do solo.

Em 2012, o terreno mudou de mãos e foi adquirido por uma empresa então criada por um antigo governador do Banco de Portugal e antigo presidente da Caixa Geral de Depóitos, António de Sousa, e pelo Banco Espírito Santo. Em Janeiro deste ano, o mesmo vereador Manuel Salgado propôs, e a câmara aprovou, apenas com os votos do PS e de um vereador dos Cidadãos por Lisboa, a viabilização, para o mesmo local, de um total de 23.386 m2 de comércio e serviços em 17 pisos.

Revolução francesa

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Revolução francesa

A França tem sido muito criticada pela sua imobilidade económica e política. É muito comum dizer-se que os franceses estagnaram perante os desafios que os assolam há vários anos. Paralisados, entorpecidos com a crueldade de um mundo que não se revê neles, os franceses enfiaram a cabeça na areia e ignoram o que se passa à sua volta, mesmo quando dentro das suas fronteiras. Mas isso já não é verdade.

Pelo menos desde há uns tempos a esta parte, a França está a reagir. E o rumo dessa reacção tem tanto de interessante quanto de relevante para o debate político português. Na verdade, a cultura política do nosso actual regime, e da geração que o moldou à sua imagem e semelhança, deve muito da sua essência à experiência, percepção e modo de pensar francês.

São vários os exemplos dessa mudança, desde as continuadas provocações de Éric Zemmour que culminaram com a publicação, em 2014, do seu último livro, Le Suicide français, no qual o autor culpa a geração de 68 pelo declínio do Estado francês e pelos problemas sociais, e raciais, que assolam aquele país. Mas também o filósofo Alain Finkielkraut com as suas críticas ao relativismo, ao progressismo e, novamente, ao Maio de 68.

A revista Le Point, cujos editoriais do seu director Franz-Olivier Giesbert têm um forte pendor liberal, fez há semanas primeira página deste assunto. Não se limitou a referenciar os líderes mais mediáticos deste fenómeno, mas apresentou outras individualidades que fazem a nova geração, bem como outras tendências dentro do, podemos defini-lo assim, movimento. Porque é disso que se trata: de uma verdadeira deslocação do discurso político francês para a direita.

Os partidos de direita, neste caso a UMP e o UDI, este fundado há pouco mais de dois anos por Jean-Louis Borloo, ainda não encontraram a melhor forma de integrar no seu discurso político o novo pensamento da direita. Mas será uma questão de tempo. O certo é que a força motora do debate político francês já não se joga à esquerda. A França do Maio de 68 acabou.

Não se espere, no entanto, grande originalidade. Afinal, trata-se da França especialista em revoluções que, sabemos também por experiência própria, mudam pouca coisa ou quase nada. Tirando alguns sector mais liberais, os intelectuais franceses que estão a levantar a voz em nome da direita, apelam ao conceito de um Estado forte que se imponha a todos.

As consequências em Portugal são evidentes, pois muito brevemente a esquerda portuguesa ficará politicamente órfã. Talvez por isso, o que se passa em Paris não seja notícia em Lisboa, o que revela o quanto esta nova realidade afectará o nosso regime. Aliás, se há político francês que interessa seguir é Manuel Valls. É que, ou o PS de António Costa deriva à esquerda, ou o líder do PSF é um bom prenúncio das escolhas ingratas que terão de ser tomadas no Largo do Rato.

A TSF no seu melhor

O tema escolhido para o tribunal popular revolucionário Fórum TSF de hoje foi a “lista VIP”. Mais uma vez os seus autores demonstram mestria na arte de direccionar as intervenções (meu destaque):

O caso da lista VIP de contribuintes já está resolvido, em termos políticos, ou são necessárias mais explicações? Quanto à questão do sigilo fiscal, é necessário tomar medidas que travem as consultas abusivas? Deve existir uma lista VIP ou as regras devem ser iguais para todos?

Contrariamente à lista VIP do amigo Pinto Monteiro que alegadamente conferia imunidade judicial aos seus titulares a actual, que se saiba, constitui apenas um sistema de alerta contra pesquisas injustificadas na base de dados das finanças. Contrariamente ao que o texto supra sugere, e pelo que sabe, dificilmente se pode considerar que os seus titulares beneficiavam de “regras” diferentes. Mas assim iria retirar alguma animação ao fórum TSF.

Taxistas uber alles (2)

Na mesma petição onde se exige a interdição da Uber, a ANTRAL pede a liberalização do serviço de transporte de doentes. Pela liberdade dos utentes em escolher o prestador do serviço e contra a sua apropriação por (outras) corporações (meus destaques):

O que justifica, no entender dos profissionais e peticionantes, a imediata recomendação ao Governo para actuar:

a) no sentido de fazer cumprir a lei e determinar o impedimento da instalação e funcionamento da empresa Uber em Portugal e como reforço, se necessário for, da promoção de enquadramento legislativo clarificador;

b) Em simultâneo, promover a reabertura do processo de enquadramento do transporte de doentes não urgentes e de simples utentes, do serviço nacional de saúde, de forma a clarificar que o serviço em causa não pode ser apropriado por qualquer coorporação ou profissão mas, ser efectuado no âmbito da actividade comum de transporte de pessoas, de forma a ir ao encontro do desejo dos utentes e contribuir para reduzir a factura deste serviço, quando requerido através do serviço nacional de saúde.

Taxistas uber alles

Paulo Ferreira no Observador

Quem não gostava de ter um mercado reservado para si, impedindo a entrada de concorrentes e, sobretudo, travando qualquer inovação que possa tornar o serviço mais fácil, mais cómodo, mais conveniente para o utilizador final e até mais barato?(…)

Infelizmente são muitos os que gostavam e gostam de operar assim. E os taxistas não são excepção(…)

A polémica sobre a Uber é simbólica das forças que opõem a velha à nova economia. É uma boa oportunidade para os legisladores mostrarem claramente de que lado estão desta barricada. É de liberdade económica que se trata e aqui não pode haver hesitações. A menos que queiramos recuar um século no tempo.

crónica social

INSURGENT_BANNER-TOP-SITE_AT-CINEMA_1024X270px_V2Para verem bem a importância que tem este blog, Hollywood já se vergou à nossa inevitabilidade e está em exibição agora por aí o filme Insurgente (que não, não é um home movie connosco a fazermos graçolas). Para cuja estreia - na sala xpto do @Cinema do Saldanha Residence, que muito recomendamos – os representantes do blog foram convidados para que déssemos a benção. Infelizmente não recebemos royalties.

Portugal’s Syriza

No The Portuguese Insurgent, estará Portugal a caminho de ter um governo Syriza?

(Certamente por coincidência os links para site estiveram bloqueados logo após pblicar este artigo há 2 dias. Estão a funcionar normalmente agora)

Palavras e ventos de paz

IRAN-TURKEY-DIPLOMACY-KHAMENEI-ERDOGAN 

Turkey’s Erdogan says can’t tolerate Iran bid to dominate Middle East

Turkish President Tayyip Erdogan accused Iran on Thursday of trying to dominate the Middle East and said its efforts have begun annoying Ankara, as well as Saudi Arabia and Gulf Arab countries.

Turkey earlier said it supports the Saudi-led military operation against Houthi rebels in Yemen and called on the militia group and its “foreign supporters” to abandon acts which threaten peace and security in the region.

“Iran is trying to dominate the region,” said Erdogan, who is due to visit Tehran in early April. “Could this be allowed? This has begun annoying us, Saudi Arabia and the Gulf countries. This is really not tolerable and Iran has to see this,” he added in a press conference.

 

Entretanto, as reformas continuam a ser implantadas a bom ritmo.

Tradição fratricida

shootingyourselAs reacções desmedidas de algumas pessoas no PS à candidatura presidencial de Henrique Neto dão que pensar. Talvez fosse bom os socialistas lembrarem-se do que aconteceu das vezes que destrataram os seus militantes que concorreram contra o candidato oficial do partido.

Segurança

A tese do suicídio, na queda do avião da GermanWings, vai ganhando consistência e, a confirmar-se, a seguinte conclusão é inevitável: um mecanismo de segurança, implementado após os atentados de 11 de Setembro de 2001, frustrou qualquer tentativa de impedir o desastre. Há sempre gente disposta a trocar qualquer coisa por segurança, até a liberdade e a dignidade, e os voos comerciais são o laboratório perfeito para se estudar até que ponto os seres humanos aceitam submeter-se a todo o tipo de procedimentos invasivos quando aliciados pelo logro securitário. Não será este um caso claro de violação da liberdade individual, mas fica a lição: não há almoços grátis.

52-15

o perigo são os outros

Eu sei que ainda persiste a mania de que as doenças psicológicas são sintomas de fraqueza de gente de pouca qualidade; que a introspeção é para mulheres e sissies, nunca para homens de barba rija – que, como se sabe, não têm estados de alma; que as crianças não são hiperativas, são simplesmente mal educadas; que os suicídas não são doentes, são egoístas; que os depressivos são uns mandriões à procura de atenção alheia. No fundo não está muito distante do preconceito (e crueldade) que levava a que os militares com sintomas de trauma durante a primeira guerra mundial – com aquilo que então se chamava shell shock, por se supor ocorrer devido a alguma alteração fisiológica em quem esteve exposto de perto ao rebentamento de uma bomba – fossem muitas vezes fuzilados por cobardia. Passado quase um século depois da primeira teorização de Freud sobre trauma (em 1919), cheguei a uma criatura que escrevia sobre estes assuntos e dizia que trauma era algo que ocorria a gente impressionável de baixo QI. (Quando o meu palpite – por não ter qualquer fundamento em estudos existentes, tal como o palpite da dita criatura – vai no sentido contrário: se o QI influencia, provavelmente serão as pessoas de mais alto QI as mais suscetíveis, desde logo por perceberem melhor como o evento traumático é algo de fora do arco do que conseguimos saudavelmente integrar na nossa vida.)

Não sei se isto leva a que estes perigos psicológicos sejam descurados ainda hoje. Mas, se são, começamos a estar no campo da negligência – que nem se desculpa por causa do sacrossanto preconceito. Quando estava a fazer a licenciatura, na cadeira de Comportamento Organizacional recordo-me de ter estudado o caso dos operadores das gruas. Eram muito suscetíveis ao stress e a problemas daí recorrentes, devido a trabalharem isolados, num local alto e, sobretudo, por terem um trabalho que se mal executado podia acabar na morte de alguém. Os operadores das gruas. Certamente que haverá estudos semelhantes para outras profissões, incluindo os pilotos e co-pilotos de aviação comercial. Não entendo como os pilotos de avião não são psicologicamente avaliados com frequência e, se em risco, arredados dos comandos de um avião – e da vida de centenas de pessoas – até melhoria consolidada. E não são só os pilotos de aviões. Polícias (suicídios de polícias não são uma raridade) e juízes, por exemplo, também necessitam de avaliações psicológicas. Não podemos colocar a vida (e a liberdade) das pessoas nas mãos de quem está doente.

Barrigas e peitos de aluguer

O meu texto de ontem no Observador sobre maternidade e amamentação de substituição.

‘A vida moderna está cheia de perigos. Isto é o que deve ter pensado Carrie Bradshaw, a personagem da série televisiva O Sexo e a Cidade, quando, num encontro casual nas ruas de Nova Iorque com um casal de gays, estes lhe propuseram o fornecimento de um óvulo. Queriam ter filhos, de espermatozóides não tinham falta, a barriga de aluguer já estava contratada e Carrie, achavam, produzia óvulos de boa qualidade. A proposta terminou com a entrega a Carrie do cartão de um deles: a escritora que lhes ligasse se afinal resolvesse alinhar.

Bom, tanto pragmatismo no meio da azáfama nova-iorquina tira romantismo à ideia de produção de descendência. Tal como as notícias dos profícuos dadores de esperma que acabam transmitindo o seu sorriso a largas dezenas de filhos. Ou a clínica de esperma dinamarquesa que tem exportado ‘bebés vikings’ para todo o mundo. Ou os filhos do esperma anónimo (no caso da Grã-Bretanha, não anónimo) que em adultos vão à procura de quem lhes deu metade do DNA.

Mas, em boa verdade, uma gravidez resultante de um preservativo que se rompeu num caso de uma noite também não é romântica. E um casal com problemas de fertilidade que se dedica mês após mês ao método tradicional de conceção de crianças acaba usando mais teimosia e voluntarismo do que desejo ou romantismo. Mais: o casamento por amor é uma realidade com pouco mais de um século e sempre houve numerosos filhos fora do casamento; não vale a pena exigirmos agora purismos às conceções que quantas vezes ocorreram distantes do ideal.’

O resto está aqui.

 

Acerca do “manual dos espiões” do SIS

Parece estar a ser dada pouca atenção ao manual do SIS supostamente aprovado e em vigor desde 2006 que previa a utilização de métodos ilegais de recolha de informação. Será coincidência ou talvez fruto da “boa imprensa” que beneficia o então Ministro da Administração Interna.

Uma questão de interpretação

Um estudo (eles precisaram formalizar isto – e provavelmente gastar umas dezenas de milhares de euros para terem a certeza) do Parlamento Europeu descobriu que os países-membros forma obrigados a cortar no estado social por falta de dinheiro. É claro que não era fácil para eles admitir a insustentabilidade do “modelo social europeus”. por isso decidiram que a culpa não foi da falta de dinheiro mas sim da austeridade.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje ‘i’.

A defesa da Europa

Foi há poucos dias, e perante a Comissão Europeia, que Manuel Valls apelou a que os 28 países da União Europeia (UE) se unissem e comparticipassem no custo da luta contra o terrorismo. Perante o esforço que o governo francês para fazer frente a esta ameaça, o primeiro–ministro francês chegou mesmo a dizer que “l’armée européenne existe, c’est la France”.

Quem diria. Quem diria há 15 anos que ouviríamos a França falar deste modo, chamando atenção para a necessidade de a Europa financiar a sua defesa. Na verdade, não é só o terrorismo que a ameaça. Os EUA têm outros desafios na Ásia e no Pacífico e a Rússia está novamente a levantar um muro que a separa do velho continente.

Sem esquecermos a Grécia, que, saindo do euro, cairá num limbo para o qual arrastará aquela zona do Mediterrâneo e afastará a Turquia do Ocidente. Não é por acaso que Obama se preocupa com a situação grega e apela a que a UE reconsidere  a cobrança da dívida daquele país.

Aquilo que os europeus estão a começar a perceber é que o guarda-chuva norte-americano já não é suficiente. A Europa precisa de fazer por si. O que cria um desafio militar acrescido, pois implica um aumento da despesa pública, precisamente quando a maioria dos estados europeus estão fortemente endividados. Como é que países com já tão pouca margem de manobra vão financiar o tão necessário armamento, aumentando o orçamento no sector da defesa? Como é que uma Europa atulhada em despesa investe na defesa?

As eleições na Madeira

Diário de Notícias

A sondagem da RTP aponta para 49% dos votos no PSD, 18% para a coligação Mudança (PS/PTP/MPT/PAN) e 11% para o CDS. A quarta força nesta sondagem é o JPP (Juntos Pelo Povo) com 6% dos votos, seguido da CDU (5%), BE (3%), PCTP/MRPP (2%), PND (2%), MAS (1%), PPM/PDA (1%) e PNR (0,5%).

A verificar tal disparidade na votação entre os principais partidos (e não esquecer o resultado do CDS) trata-se de uma pesadissima derrota para o PS, especialmente tendo em conta o resultado das autárquicas. E também para Alberto João Jardim.

Primavera persa, parte enésima

Youness Asakeree

Youness Asakeree

Iranian vendor dies after setting himself on fire

Youness Asakere, an Iranian fruit vendor who set himself on fire in front of the Khoramshahr municipality in protest after his fruit stand was confiscated by authorities, died March 22. His death, and the lack of broader attention by Iranian society, has stirred many questions among activists and analysts on social media.

Henrique Neto

Mas por que raio está Henrique Neto a apresentar a sua candidatura à Presidência a esta hora (16h), em vez de às 20 horas? Sou tudo menos um adepto de se fazerem as coisas em função dos telejornais, mas se há candidato a quem, pela sua falta de notoriedade junto da população em geral, dava jeito um directozinho às oito da noite, é Henrique Neto.

Os amigos são para as ocasiões

Reforma do Mapa Judiciário

A lista VIP de Pinto Monteiro.

O novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) ainda não tomou posse, mas lança já uma forte acusação. António Ventinhas diz que Pinto Monteiro não apoiava investigações a pessoas poderosas.

É uma acusação direta ao antigo Procurador-Geral da República Pinto Monteiro.

O recém-eleito presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, diz que o antigo PGR não apoiava investigações a pessoas poderosas e que muitos procuradores envolvidos em processos mediáticos enfrentavam processos disciplinares.

Na entrevista à jornalista da Antena 1 Cristina Santos, António Ventinhas afirma que o Ministério Público tem agora mais apoio por parte da Procuradoria. Algo que não acontecia no tempo de Pinto Monteiro.

 

Péssimo começo

A notícia da entrega das assinaturas pelo movimento Nós Cidadãos [NC] no Tribunal Constitucional levou-me a querer saber algo sobre as suas propostas. E a surpresa não podia ter sido pior.

NOSCID-SS

Como se pode ler na imagem supra o NC partilha a ideia que a Segurança Social deve ser financiada por um imposto que incide sobre terceiros e completamente desligado do força laboral. Ainda para mais cometem um erro de palmatória. No regime actual, a tributação incide sobre a massa salarial e não sobre o número de trabalhadores.

Leitura recomendada

“A importância dos cofres cheios” de Pedro romano (Desvio Colossal)

Qual é a importância de ter os cofres do Estado cheios de dinheiro? Depende muito das circunstâncias. Mas, na actual conjuntura, há óptimas razões para que o Estado português tenha muita cautela em relação ao futuro.

Recomendado especialmente ao Dr. António Costa et al

Votar de joelhos em situações extremas

O último Domingo, dia 22 de Março, trouxe-nos mais dois bons pretextos – a 1ª volta das eleições locais em França e as eleições autonómicas na Andaluzia – para reflectirmos sobre um facto incontornável para o futuro da política, nacional e supranacional, no espaço europeu. Sejamos ou não parte interessada na manutenção do actual sistema ou na sua eventual derrocada, encontremos ou não representantividade em algum partido, do sistema ou anti-sistema, é impossível ignorar ou negar que o centrão político está a esvaziar-se e a despertar indignação nas urnas, em diferentes graus e por meio de diferentes forças políticas (e sublinho “diferentes”). O maior drama dos partidos de centro é a sua incapacidade de renovação e de apresentação de temas mobilizadores; e é logo aqui que encontramos a primeira diferença entre partidos de extrema-direita e partidos de extrema-esquerda, e sobre a qual me alongarei mais à frente: os partidos de esquerda esgotaram as bandeiras que podem usar, quando comparando com o espaço de manobra gozado pela direita.

GetimageasJpegPoderemos reconhecer que, frequentemente, as campanhas políticas anti-sistema enveredam pela vitimização fácil e pela sobrevalorização exclusivista da missão mítica da sua nação, em aberta hostilidade em relação ao exterior. É uma estratégia, admito eu, pouco sensanta e que revela sofreguidão pela ambição de explorar ao máximo as frustrações prolongadas do eleitorado, especialmente em contexto de crise económica. Parte-se de verdadeiros problemas, até com justificada indignação, mas pode ocorrer que “pior seja a emenda do que o soneto”, neste caso por se incorrer no risco de alienação de amizades com nações vizinhas, minando a cooperação económica e o trilho cultural comum. Não precisamos de reduzir a escolha a duas opções: o projecto imperfeito ou a sua total aniquilação. Reconhecida esta insensatez visível em alguns partidos dos “extremos” (designação que serve os propósitos do discurso oficial de quem se quer perpetuar no poder, como já referi noutra ocasião), repare-se agora, sem surpresa, como a mesma estratégia de vitimização fácil contra um inimigo externo é igualmente usada pelos próprios partidos do mainstream e seus lacaios que vão instruindo a opinião pública. Mesmo que o desgaste destes partidos seja óbvio aos olhos de todos – a começar pelos próprios –, a existência de partidos com um discurso de ruptura acaba por ser um oportuno autogolo oferecido de bandeja aos que não se dispõem a admitir incompetência própria nas fragilidades institucionais, promiscuidade inerente ao crony-capitalism, e degenerações burocráticas que têm afectado directamente a vida dos cidadãos que só são solicitados para verem acrescida a carga fiscal.

Usar o medo contra estes extremos pode ter sido uma ajuda decisiva para que o esvaziamento do centro não tenha sido assim tão expressivo como seria de esperar. Por enquanto, não houve sismo mas parece que entrou um fantasma na sala e que deitou algumas molduras abaixo. A democracia é um jogo em que, geralmente, ganha quem estiver disposto a rebolar na lama. E é com esse entendimento que temos de partir para qualquer análise de um processo eleitoral, para que não haja tanta espanto quando nos deparamos com as mais inverossímeis coligações e as mais desenvergonhadas contradições programáticas.

Dizia eu que existe uma primeira diferença fundamental que separa partidos de extrema-esquerda e partidos de extrema-direita: a maior variedade de temas mobilizadores que dá vantagem à direita, uma vez que já se constatou a rapidez com que caem por terra os encantos messiânicos de um Syriza. É bastante óbvio que as diferenças existem e não são diferenças acessórias. Sou levada a abordar o assunto a partir daí porque me parece importante contrariar a tendência de simplificar novos fenómenos complexos, afirmando que os novos partidos “são farinha do mesmo saco”, indistintos de todo. Não falta por aí quem queira refugiar-se constantemente na “teoria da ferradura” como explicação para tudo o que se passa nas democracias ocidentais nos nossos dias.

Cada um de nós preocupa-se mais com umas questões do que com outras e as preocupações pessoais acabam por ficar espelhadas na forma como todos, mesmo involuntariamente, nos inclinamos a construir uma visão totalizante da realidade. Assim sendo, não podemos esperar que todo o eleitorado encare os partidos da mesma forma. Se determinado observador se posiciona num ponto de regular defesa do liberalismo económico acima de tudo, é natural que uma FN e um Syriza sejam olhados como iguais e mereçam igual repúdio. Para um observador que privilegie a defesa de valores morais tradicionais, o caso muda de figura porque poderá ver-se a votar num partido que revele preocupação pelas políticas da família e que se oponha à agenda progressista, independentemente da política económica preconizada pelo mesmo partido. Depois existirão aqueles cujo eurocepticismo é de tal forma impetuoso, urgente e inegociável que tanto poderiam votar num PCP, numa FN, num UKIP, num Syriza ou num PNR, desde que houvesse alguma forma de mostrar cartão vermelho às políticas europeias. Num último exemplo, imaginemos a diferença decisiva que existe entre estarmos a julgar programas políticos sujeitos a sufrágio num país que não é o nosso ou estar a votar numas eleições departamentais que poderão fazer toda a diferença no ambiente à porta de casa.

Aplicando ao que acredito ter-se verificado nesta 1ª volta em França, recupero o que já escrevi há umas semanas:

As omissões podem ter consequências mais determinantes em política do que aquilo que efectivamente é feito ou dito. É também aqui que o radicalismo vai absorver parte da sua força: no silêncio dos partidos de centro a respeito de problemas que os cidadãos, no terreno, já detectaram há muito tempo – refira-se que os cidadãos, regra geral, não estarão igualmente sensíveis em todos os domínios, pelo que é natural manifestarem rápida e fiel compreensão em assuntos que lhes são caros no dia-a-dia, como por exemplo em matéria de segurança, enquanto, por outro lado, aceitam passivamente o acesso a crédito fácil ou promessas de regalias suportadas à custa dos seus concidadãos.

Ou seja, quando o que está em causa é a questão da insegurança e o sentimento de negligência ou mesmo de “traição” (como Marine Le Pen lhe chama objectivamente quando atribui culpas aos partidos que se têm alternado no poder, a começar por Sarkozy que fez da imigração uma bandeira nas eleições presidenciais de 2007) a respeito dos conflitos étnicos e religiosos que perturbam a ordem pública, é de esperar que as pessoas dêem mais atenção a estes tópicos do programa em detrimento das propostas de política económica ou de política externa. Da mesma forma que o nosso voto pode variar muito consoante estejamos a votar em eleições autárquicas, presidenciais, legislativas ou europeias.

Nicolas-Sarkozy-and-Fran--004Sem estender a análise a outros partidos que vão ganhando protagonismo, vejamos por que razão a Frente Nacional e o Podemos não podem ser alinhados levianamente. O Podemos teve um resultado medíocre se pensarmos que o contexto económico e o mediatismo lhe eram muito favoráveis e que não seria difícil absorver eleitorado tipicamente de esquerda. Ou seja, se os partidos do sistema sofreram alguns arranhões neste Domingo, não parece que tenha sido por força de propostas de política económica de extrema-esquerda e muito menos por alastramento do fenómeno Syriza – é manifestamente exagerado detectar qualquer sinal de vitória e de revolução em curso, a menos que se passe muito tempo em frente ao ecrã.

Posto isto, e admitindo que existem semelhanças formais, a nível de comunicação política, e semelhanças de conteúdo que passam pela oposição à globalização, pelo eurocepticismo e pelo reforçado intervencionismo na economia em áreas consideradas vitais para o bem-estar dos cidadãos (saúde, educação, transportes, serviços bancários e energia), devemos perguntar se é razoável acreditar que um eleitor mediano, um eleitor desiludido com Hollande ou até um eleitor de extrema-esquerda teria inclinação para votar em Le Pen como alternativa socialista e se é mesmo o domínio económico que está a determinar mudanças nos resultados eleitorais. Os eleitores que possam ter fugido da UMP para votar em Le Pen, decerto não o fizeram tendo em vista nacionalizações parciais e proteccionismo, mas sim temas polémicos que já não confiam a Sarkozy. E os eleitores que possam ter deixado de votar em Hollande para votar em Le Pen, não o terão feito com esperança de que esta tenha maior habilidade para dar um novo fulgor às políticas socialistas, porque tal deslocamento do voto seria o mesmo que escolher ir comer sopa ao McDonald’s. Se estivermos lá e quisermos mesmo uma sopa, ela está disponível, mas não é sopa que nos incentiva a ir ao McDonald’s. A mobilização que possa vir de antigos eleitores do PS é feita, provavelmente, na base do eurocepticismo e de questões culturais prementes. E se alguém acredita que o centrão político está a sofrer ameaças pela suposta vontade geral em favor da radicalização de esquerda e de exigências distributivas, como se explica que o Podemos tenha sido tão insignificante e que o PSOE tenha saído ileso?

A FN não é o Podemos e, ainda que possamos identificar um apelo similar a um colectivismo fraterno anti-austeritário e a um patriotismo que poderá, ou não, descambar em reforço do Estado burocrático centralizado e racionalizado na base da aversão ao exterior, é preciso notar que o eixo emblemático da FN não é a política económica e a mistura de economia socialista com posições tradicionalmente de direita, acaba por servir de bengala num partido que reúne sensibilidades diversas e a que já basta ter de arriscar-se muito mais quando dá a cara por temas polémicos como o combate à islamização e a deportação de imigrantes ilegais.

No meio de todos estes desenvolvimentos, uma coisa fica em evidência. Existe um clara incoerência entre aquilo que se entende por democracia, na teoria e na prática, e aquilo que as elites regularmente vencedoras estão dispostas a reconhecer como legitimado pelas mesmas regras que lhes garantiram os cargos, tantas e tantas vezes. Tendo em conta que uma parte da indignação do eleitorado deve-se à percepção do défice democrático de que a UE não se livra tão depressa, era aconselhável tomar mais atenção a esse vício tão feio que consiste em estigmatizar uma parte do eleitorado, caricaturá-lo, analisá-lo com condescendência arrogante e ignorar as suas motivações, enjeitando o montinho de boletins de voto que não agrada tanto.

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Dois lobos e um cordeiro

Os partidos do centro ou do poder estão a perder a hegemonia para partidos populistas à esquerda e à direita. UKYP em Inglaterra, Podemos em Espanha, Syriza na Grécia, Frente nacional em França ganham ou estão à frente de sondagens para eleições. Serão estes partidos assim tão diferentes dos partidos incumbentes? Talvez não.

Benjamin Franklin disse “Democracy is two wolves and a lamb voting on what to have for lunch. Liberty is a well-armed lamb contesting the vote”. O carneiro sacrificial depende da existência de uma constituição que o defenda contra os lobos. As constituições dos países da Europa do Sul não estão lá para defender os cordeiros. E os cordeiros portugueses são os menos defendidos. Estamos lá para pagar impostos hoje e amanhã.

Os países da Europa do sul tiveram partidos populistas do centro a prometerem aumentos de direitos pagos pelo Estado, sem explicarem que se estes não são pagos por impostos, serão pagos com aumento de dívida. Enquanto a realidade não bateu de frente os lobos da maioria dos vários países do Sul da Europa continuaram contentes com os partidos do chamado centro. Podia existir corrupção mas era a festa do modelo social do Norte da Europa, mesmo depois do Norte da Europa ter reformado o seu Estado dado  este não ser viável sem petróleo (a excepção Norueguesa está a para confirmar a regra). Pelo Sul da europa continuou-se a distribuir até ao dia em que não foi mais possível pedir emprestado.

O colapso da credibilidade dos partidos do centro criou espaço para novos entrantes, em especial para novos partidos populistas. Partidos nacionalistas ou neo-Marxistas com caminhos para felicidade que não tocam nos direitos adquiridos e as expectativas dos lobos do sul ficaram com caminho aberto. Caminho aberto para chegarem ao poder e mostrarem ao eleitorado que, sem a possibilidade de aumento do endividamento ou de impostos não há nem sol na eira nem chuva no nabal. Não, estes partidos tendo como base de apoio popular ideias diferentes são na sua essência iguais aos do centrão. Só não passaram ainda pelo crivo do poder.

O que se está a passar na Grécia é o melhor exemplo da igualdade na diferença do Syriza em relação a um PASOK.  Será diferente por não estar corrompida por décadas no arco do poder. Será igual porque chegou ao poder prometendo o que não é possível, a manutenção do status quo e no Euro ao mesmo tempo. O azar de pelo menos o Podemos em Espanha, e da meia dúzia de movimentos e partidos em Portugal que queriam ser os Syrizas lusos é de que vai-se tornando evidente para todos que a única mudança que o Syriza trouxe para a Grécia não foi para melhor. Os eleitores podem ser crédulos mas não são burros. Têm que ter pelo menos a prespectiva que existirá pelo menos um cordeiro à mesa.

Completamente de acordo

Rodrigo Moita de Deus

Não conheço a nova diretora da Autoridade Tributária e prefiro não conhecer. Não faço ideia se tem “mérito” ou não tem. Daí até ter o bom nome “queimado” em praça pública vai um passo do tamanho do mundo. Mas senão passou no “crivo” do Bilhim já gosto dela.

Leituras complementares: CRESAP: uma receita para (agravar) o desastre (2); CRESAP: uma receita para (agravar) o desastre; CRESAP, uma comissão à medida.