O poder da ilusão sobre os iludidos

Totos

O primeiro-ministro deve “viver” numa realidade alternativa e espera que todos partilhem dessa ilusão. Observador:

António Costa não gosta de pôr as culpas em Bruxelas, mas afirmou, neste sábado, que “o Orçamento do Estado estava melhor antes da intervenção da Comissão Europeia”.

Pois… não olhem aos detalhes. Os números apresentados são mais importantes que as fórmulas usadas para os atingir. Fechem os olhos e acreditem na capacidade da geringonça tornar realidade o mais fantástico sonho. Existem unicórnios!

Só quem já viu o filme Inception (“A Origem”) percebe o seu significado, mas Costa e seus acólitos estão a precisar de um totem (objecto que que permite distinguir sonho de realidade):

 

Um sinal tranquilizador do Presidente Marcelo

Uma escolha realçada por João Marques de Almeida:

Marcelo Rebelo de Sousa escolheu Fernando Frutuoso de Melo para chefe da Casa Civil, A escolha não poderia ter sido mais acertada, dada a experiência e competência demonstrada por FFM nos anos que trabalhou na Comissão Europeia. Além disso, Rebelo de Sousa terá um canal directo para Bruxelas, sem depender das informações dadas pelo governo. Num momento em que Bruxelas faz parte da política nacional, o novo Presidente escolheu muito bem.

As charlatanices orçamentais da “geringonça”

Artigo do André Azevedo Alves no Observador

A vontade de poder a qualquer custo de Costa depois da derrota eleitoral colocou o PS, o governo e o país reféns da extrema-esquerda. Os efeitos desse preocupante arranjo começam a tornar-se evidentes(…)

O resultado final, bem patente no duro parecer da Comissão sobre o esboço orçamental apresentado pelo Governo de António Costa, dificilmente podia ser mais claro: em poucos meses, a “geringonça” destruiu o (frágil) capital de credibilidade lenta e dolorosamente acumulado ao longo dos últimos 4 anos.

O descrédito é evidenciado desde logo na (expectável) rejeição da inacreditável tentativa de classificar como medidas temporárias a reposição de salários na função pública e a anulação dos cortes aplicados às pensões mais altas(…)

A vontade de poder a qualquer custo de António Costa depois de uma pesada derrota eleitoral colocou o PS, o governo e o país reféns da extrema-esquerda. Os efeitos desse preocupante arranjo – afinal a grande inovação da “geringonça” – começam a tornar-se demasiado evidentes. O caminho que leva das charlatanices orçamentais até uma nova bancarrota pode ser muito curto e a “geringonça” arrisca-se a sair muita cara aos portugueses.

Barcos, ou Bancos ao fundo na Europa?

Hoje , dia 3 de Fevereiro, as 10 empresas financeiras do índice europeu de referência desvalorizaram-se 3.5%. Nada de especial se não fosse no seguimento de uma desvalorização de magnitude semelhante no dia anterior e de uma desvalorização acumulada de 27% desde o início de Dezembro, há meros dois meses. Em praticamente todos os dias a direcção tem sido a mesma: na vertical e para baixo.

Tudo associado a quê ? À forma leviana como a resolução bancária tem sido tratada na Europa desde que o projecto da União Bancária está a avançar  e a burocrática solução do BCE de impor regulações e soluções que obrigam a mais capital, a cada momento (sem que se vislumbre que a FED imponha o mesmo aos bancos americanos) quando com a mesma veemência , criando custos de contexto, afugentam esse mesmo capital de que tanto necessitam muitos dos bancos Europeus.

Por isso ontem, um ex – gestor da GLG, Raoul Pal, dizia em público na CNBC que muitos dos bancos europeus tendiam para valer zero. Sim, leram bem, valor de capital igual a ZERO, o que significa que depois de terem perdido uma capitalizacao bolsista aproximadamente  equivalente ao valor do PIB português em cerca de dois meses, já só falta perderem o equivalente ao PIB da Suíça. Nada de extraordinário para um impressor de nova moeda via QE.

Boa sorte Mário…vais precisar dela. O Draghi e não o Centeno…

Os fins não justificam todos os meios

Um artigo significativo e importante, em especial nos tempos que correm: A Europa e a liberdade. Por José Conde Rodrigues, Professor universitário e secretário de Estado em três governos do PS.

Diz Pablo Iglésias, líder do Podemos: “o que interessa é ganhar (…) a obrigação de um revolucionário é sempre, sempre, sempre, ganhar”. Ora, isto é pura conquista do poder. (Filipe Gonzalez, na passada semana, em entrevista ao El País, chamou o Podemos de “puro leninismo 3.0”!) Isto é dizer que os fins justificam todos os meios.

Estamos de regresso à democracia radical, de convenção, de assembleia, totalitária, tal como no período do terror de Robespierre (que Iglésias evoca, aliás, a abrir o seu último livro Disputar a Democracia), em pleno final da revolução francesa que tanto inspirou regimes sanguinários de todo o mundo.

Um plano para o desastre

ApresentacaoCenarioMacroEconomico

CGTP quer que Governo resista às pressões da Comissão Europeia
Costa acrescenta mais medidas para a banca no Orçamento do Estado
Risco da dívida sobe para máximos do pós-troika

O cenário de uma bancarrota sem resgate

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Uma reflexão muito pertinente: E se não houver segundo resgate? Por Rui Ramos.

Algures, Lovecraft explica que no género fantástico é um erro exagerar na fantasia. No caso do Esboço do Orçamento de Estado para 2016, o governo exagerou. Os leitores reagiram: a Comissão Europeia, o Conselho de Finanças Públicas, a Unidade Técnica de Apoio da Assembleia da República, as agências de notação, a imprensa nacional e internacional – começam a ser demasiados os que não acreditam na ficção governativa de que gastar mais é a via para equilibrar as contas.

(…)

No meio disto, começa a haver quem receie o pior. E o pior, segundo consta, seria um “segundo resgate”. É curioso. Os portugueses conseguiram mesmo convencer-se de que o ajustamento financeiro negociado em 2011 com a Comissão Europeia, o BCE e o FMI foi a maior calamidade que nos podia ter acontecido. Nunca quisemos compreender que foi uma ajuda. Nunca chegámos a entender que, sem o programa de ajustamento, teríamos tido uma bancarrota, em relação à qual a “austeridade” está como um resfriado para uma pneumonia. Não, o pior que nos pode acontecer não é um “novo resgate”. E portanto, há que fazer a pergunta: se não houver outro resgate? E se, quando nos faltar o dinheiro e o crédito, não houver ninguém para nos emprestar, para nos dar tempo, para confiar em nós?

Quem tem pára-quedas?

Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, ontem em entrevista à SIC Notícias (video):

Bruxelas chumbou o orçamento de França, chumbou o orçamento de Itália, chumbou o orçamento de Espanha e portanto a Comissão Europeia está numa deriva de destruição das economias e portanto cabe aos países e aos governos dos países serem claros na defesa da economia e emprego desses países.

A preocupação não deve ser a Comissão Europeia mas, sim, a agência de notação financeira DBRS. Talvez o inglês técnico dos deputados e governantes do Partido Socialista não seja o melhor para chegarem, rapidamente, ao entendimento de que aquela agência espera o cumprimento das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, conforme relembra João Caetano Dias:

DBRS_PT

Em Novembro do ano passado, a DBRS manteve o rating da dívida pública portuguesa um patamar acima de lixo, o que permitiu não só aos bancos portugueses usar tais títulos como colateral junto do Banco Central Europeu como, também, esta instituição proceder à sua compra no mercado secundário. A redução do rating (já a ser ponderada) seria, consequentemente, desastrosa para o financiamento de toda a economia portuguesa (pública e privada), elevando a probabilidade de novo pedido de resgate.

"Preikestolen" - Anna Bialkowska @flickr.com (creative commons)

“Preikestolen” – Anna Bialkowska @flickr.com (creative commons)

António Costa está, deste modo, “preso” entre a avaliação da DBRS e a teimosia ideológica da geringonça que, a ser contrariada, significará o início da queda do seu governo.

Vivemos numa época… (no mínimo) interessante. Cabe a cada um de nós não enfiar a cabeça na areia e preparar o nosso pára-quedas. Até pode ser que não seja necessário. Mas é sempre bom de ter à mão.

Charlatanice pura

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Mesmo pelos padrões da geringonça, isto é tão absurdo que custa a acreditar: Governo quer excluir recuo nas medidas da austeridade do défice estrutural

Entre as medidas extraordinárias que a equipa de Mário Centeno estará a excluir do défice estrutural, estão a reposição dos cortes salariais da Função Pública e a redução da sobretaxa do IRS.

Não percebo como pode Mário Centeno prestar-se a este papel e como pode o resto do PS permanecer em silêncio face a algo como tão absurdo como catalogar uma série de medidas que geram (obviamente) despesa corrente como “medidas extraordinárias”.

Brevemente, num país perto de si…

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Parece estar em avançada fase de preparação o remake de um blockbuster de 2011. O filme de 2011 não deixou boas recordações, mas convém não esquecer que os remakes costumam ser ainda piores do que o original…

Bruxelas pede explicações e avisa que pode mandar orçamento para trás
Costa não fala em mudar rascunho do Orçamento e diz-se confiante
PS critica Fitch e considera que está a comparar “alhos com bugalhos”
Porfírio Silva diz que Bruxelas pode estar a “tentar tramar o governo português”
Esquerda quer Costa a bater o pé a Bruxelas como os grandes
Avaliação preliminar da Comissão aponta para défice de 3,4% este ano

je suis estátua romana com nu

O meu texto de hoje no Observador.

‘Já tinha um texto escrito, só a precisar de revisão e apuro do tom cáustico e irónico, a verberar os moralistas anti-abstenção que atacam em cada ato eleitoral, e a explicar como a abstenção é, algumas vezes, mesmo aquilo que os políticos e os partidos merecem e de forma nenhuma um desinteresse pela política e pela participação. Mas não estava destinado a ser, porque de repente apanhei no twitter a notícia de que o governo italiano tinha coberto as estátuas de nus do Museu Capitolini para que estas não ofendessem o suscetível presidente do Irão, pelas Europas em visita oficial.

E depois de se ter dissipado o encarnado que tomou conta do meu campo de visão com esta notícia, lá me decidi que afinal devia escrever sobre os governantes que temos que teimam em esterilizar – ou, se calhar, deformar seria melhor palavra – a realidade em que vivemos na prossecução dos seus objetivos progressistas.

Neste caso do presidente do Irão versus as estátuas de nus romanas, há que ser taxativa.

1) Cabe-nos defender e orgulharmo-nos da cultura europeia, e proclamar que é, até ver, a mais justa, decente e (sim, não tenho medo da palavra) civilizada que o mundo produziu. O facto de ter falhas e imperfeições e potencial de ser melhorada não nos pode levar a um relativismo amoral de fazer equiparar – ou, em alguns casos, denegrir – a nossa cultura ocidental aos barbarismos mais ou menos declarados de outras zonas do globo. E se dizia no outro dia que para defender a Europa temos de defender o Natal, também é verdade que temos de defender as esplendorosas estátuas de nus renascentistas que o génio europeu produziu. É degradante cobrirmos as expressões artísticas da nossa cultura e da nossa História para agradar a um visitante.

2) Se o presidente do Irão não consegue conviver mantendo a sanidade (supondo que a tem) com estátuas de nus, que fique no Irão. Ou, querendo fazer negócios com os europeus e mante relações diplomáticas, engole os puritanismos e aprende a desviar os olhos das partes baixas das estátuas italianas. Ou – já que os progressistas barra lunáticos apreciam tanto ensinar os outros – destaca-se um guia para ensinar ao presidente Rouhani que o mal das estátuas está todo, afinal, no conservador iraniano. Há dois anos estive em Florença com as minhas crianças, que também aproveitaram para se escandalizar (e rir) muito com as estátuas renascentistas de pessoas despidas pelas ruas da cidade. E lá levaram a necessária lição de que os meus filhos querem-se cosmopolitas e não puritanos. Forneço com gosto o conteúdo dos ensinamentos para crianças sub 10 que ofereci às minhas, que aparentemente aproveitaria ao presidente iraniano.’

O resto está aqui.

“examples of breath-taking stupidity”

guia-imigrantes

“Na Alemanha não se dão palmadas no traseiro das mulheres”. O novo guia para imigrantes

A Alemanha tem sido um dos destinos de eleição para a maioria dos refugiados que têm chegado à Europa, naquela que é a maior vaga de imigração desde a Segunda Guerra Mundial. Por isso, foi lançada uma aplicação que serve de guia de comportamento aos migrantes que cheguem ao território germânico.

Por exemplo, explica-se que na Alemanha quando duas pessoas se cumprimentam dá-se os bons dias e olha-se nos olhos. Para além disso, não se dão palmadas no traseiro das mulheres e tanto homens como mulheres podem escolher livremente com quem formam casal ou que religião praticam.

Não acontece muitas vezes, mas neste caso vou recorrer a um artigo de Zizek com que concordo parcialmente: Slavoj Žižek: The Cologne attacks were an obscene version of carnival

This is why the naive attempts to enlighten immigrants (explaining to them that our sexual mores are different, that a woman who walks in public in a mini skirt and smiles does not thereby signal sexual invitation, etc.) are examples of breath-taking stupidity – they know this and that’s why they are doing it. They are well aware that what they are doing is foreign to our predominant culture, but they are doing it precisely to wound our sensitivities. The task is to change this stance of envy and revengeful aggressiveness, not to teach them what they already know very well.

Um “tempo novo” no policiamento na Suécia

Swedish police banned from describing criminals anymore in case they sound racist

The crimes “involve everything from lighter traffic accidents to serious crimes like muggings, beatings and murder,” the paper reported.

The letter specifies that, for everyday crimes such as burglary, basic information such as ethnicity, nationality, skin colour and height should not be given.

Suicídio civilizacional

Do temor que nos assola. Por José Manuel Moreira.

Ora, um tal desprezo pela herança cultural – assumido pelos seus beneficiários directos – pede causas. Uma delas é a perda de fé no cristianismo: religião a que a maioria dos ocidentais diz aderir. Mal que afecta dirigentes políticos e até religiosos, unidos na equivalência moral entre culturas e nas dúvidas sobre se a sua fé é verdadeira. O que ajuda a perceber como um mundo tão próspero deu azo a sociedades tão à deriva: repletas de pessoas inseguras do seu valor e envergonhadas do seu património cultural. Talvez o historiador Arnold Toynbee tenha razão ao dizer que as mais sérias ameaças vêm de dentro: “As civilizações morrem por suicídio, não por assassinato”.

Divergir é preciso

A última crónica de João Carlos Espada no Público, que assim perde um dos seus cada vez mais escassos pontos de interesse e pluralismo na opinião: A sociedade aberta e os seus inimigos.

E divergir é preciso. Antes de mais, é preciso divergir da patética aliança dos socialistas com a extrema-esquerda e os comunistas. É uma aliança contra-natura que foi recusada pelos socialistas nos quarenta anos da nossa democracia.

É bom deixar claro que não se trata de um governo ilegítimo, nem de qualquer tipo de fraude. A “geringonça” é legítima, uma vez que tem maioria parlamentar — ainda que intermitente, como observou Francisco Assis. O grande problema da “geringonça” é outro: trata-se de um arranjo terceiro-mundista que nos aproxima de experiências não recomendáveis.

Portugal, Cuba e as consequências das ideias

Muito bem Francisco Assis, que infelizmente é uma voz quase isolada no actual PS: Assis critica Governo e presidente do parlamento por não receberem dissidente cubano Guillermo Fariñas

O eurodeputado socialista Francisco Assis criticou o Governo português e a presidência da Assembleia da República por não terem recebido o dissidente político cubano Guillermo Fariñas, acusando-os de cedência a pressões diplomáticas de Cuba.

Numa nota enviada à agência Lusa, o ex-líder parlamentar do PS e cabeça de lista socialista nas últimas eleições europeias refere-se a Guillermo Fariñas como “um cidadão cubano profundamente empenhado na luta pela democratização do seu país” e salienta que “a sua corajosa intervenção pública foi devidamente reconhecida pelo Parlamento Europeu que em 2010 lhe atribuiu o Prémio Sakharov”.

“Na minha qualidade de membro da Comissão dos Direitos Humanos do Parlamento Europeu, não posso deixar de lamentar o facto de o Governo português e a presidência da Assembleia da República se terem recusado receber e dialogar com tão eminente personalidade. Nada justifica tão insólito comportamento”, defende Francisco Assis.

Leitura complementar: As derrotas da esquerda radical na América Latina.

Sem inflação, há que mudar de vida; ou cair

O facto de os governos de Estados soberanos democráticos poderem controlar a criação de moeda a seu bel-prazer é quase invariavelmente uma calamidade. Permite a tais governos os mais sinistros desmandos recorrendo às fraudes mais desonrosas.

Permite a esses governos gastarem o que não têm, endividando-se para não terem de pagar o preço político do levantamento dos impostos em falta (mais tarde alguém há-de pagar. Ou não).

Mas isso é em boa medida possível porque, criando moeda, esses governos podem, num segundo momento, desvalorizar a unidade monetária em que antes emitiram dívida, inflacionando, dando dois golpes com um só tiro: nos cidadãos, a quem cobram um imposto não declarado, num acto que só pode ser classificado como extorsão, e nos credores, a quem pagam menos do que se comprometeram a pagar, violando materialmente o contrato de dívida, já que pagam numa moeda degradada, num acto que não estou a ver como possa ser compreendido senão também como a mais pura extorsão.

A ilusão fiscal casa-se assim com a ilusão monetária para criar o grande jogo de sombras que vicia e – sejamos claros: desnatura, desvirtua – a democracia.

Neste sentido, a criação da moeda única, da União Económica e Monetária, ao retirar aos governos nacionais a prerrogativa da criação monetária, não só desgovernamentalizando, mas desnacionalizando até o controlo da moeda, acaba por se ser, paradoxalmente, um corretivo extremamente salutar às regras do jogo democrático, diminuindo significativamente a possibilidade de fraude e extorsão. Politicamente falando, digamos, o euro limpou o ar democrático.

O problema português, o nosso problema, foi o não ternos sido capazes de nos adaptarmos a uma atmosfera mais sadia, menos propícia ao desmando e à mentira.

Muitas vezes se tem referido que viver com moeda sã implica depender na íntegra dos ganhos de produtividade e da capacidade de inovar, se quisermos conservar a competitividade; que tudo se passa a jogar no lado real da economia; e que, ao termos descurado essa lei de ferro, caímos numa armadilha, que nos atolou numa crise gravíssima, de que ainda não saímos inteiramente.

O diferencial de inflação que registámos face aos nossos parceiros ao longo das últimas décadas traduziu-se numa apreciação real, que erodiu a competitividade das nossas empresas e exilou tendencialmente a economia no sector de bens e serviços não transaccionáveis, protegidos da concorrência externa e alimentados por uma procura interna insustentavelmente inflacionada.

Já não é tanto costume relacionarmos a mudança de regime monetário com o imperativo de mudança de regime fiscal – por razões internas, e não apenas para pouparmos os nossos parceiros aos efeitos predatórios da irresponsabilidade financeira doméstica. Vejamos o que significou deixar de ser possível recorrer à inflação para «liquidar» dívida.

Com auxílio da seguinte tabela, explico melhor a dimensão do problema.

DívidaTabela

O grande ciclo de dívida que atravessa toda a história democrática divide-se em quase exactamente duas metades. A fronteira foi a adesão de Portugal ao mecanismo europeu de taxas de câmbio (1992), que implicou a passagem a um regime de baixa inflação. A adesão foi, no fundo, o passo fundamental que nos preparou para a moeda única.

A inflação média (deflator do PIB) na primeira fase do ciclo (1974-1993) foi de 16,3% ao ano. Depois, foi de 2,8% (até 2007, 3,8%). Foi o suficiente para perdermos competitividade (pequenos excessos têm efeitos enormes quando acumulados anos a fio), mas deixou de nos permitir dar o golpe aos credores e defraudar os contratos de dívida. Pelo menos na dimensão gigantesca em que o fazíamos.

Nos primeiros 20 anos de democracia (1974-1993), a inflação abateu 100 pontos percentuais de PIB ao stock de dívida. Nos 21 seguintes, apenas um terço desse valor (34 p.p.), quase todos eles acumulados até 2007 (29 p.p.). Dito de outro modo, sem o expediente da inflação, a dívida pública, em 1993, não seria igual a 54% do PIB, mas 154%. O golpe da inflação possibilitou o regime gerador de dívida que caracterizou o funcionamento das instituições até aí.

Na fase da moeda forte pós-1992, deveríamos ter criado muito menos défice, porque deixara de ser possível defraudar os credores. Em vez disso, vivemos com défices bem maiores (ver o efeito do saldo primário para dois períodos de tempo praticamente idênticos). Para crescer, como querem os galambas e outras espécies exóticas deste mundo e do outro? Entrámos também num regime de fraco crescimento, cada vez mais fraco até à estagnação e, depois, em crise, crise profunda.

Sem inflação e mantendo o mesmo regime de funcionamento em défice das instituições (de facto, aprofundando-o), a dívida perdeu o seu grande amortecedor. Ou o crescimento real aumentava significativamente, pelo menos na exata medida em que a inflação diminuía, ou acontecia o que aconteceu: o diferencial negativo entre a taxa de juro e o crescimento (em preço e volume) torna-se num propulsor mecânico do aumento da dívida.

No preciso momento em que seria crucial ajustar as instituições a uma regra qualquer obrigatória de equilíbrio orçamental, ampliámos os défices. Sem inflação, não é possível. Ou por outra, possível, é: mas acabamos onde acabámos.

Pagar dívida numa moeda que não se cria é outra coisa. Não sendo previsível o fim do regime de baixa inflação característico do euro, não controlando o governo o crescimento (qualquer governo que diga que o faz, mente desavergonhadamente), não temos outro remédio senão: ajustar o saldo orçamental – mudar de vida.

Defender a Europa implica defender o Natal

O meu texto de ontem no Observador.

‘Não falha: de cada vez que há um atentado terrorista há vozearia alertando para a necessidade de não deixar que o combate ao terrorismo cerceie as nossas liberdades nem ponham em causa o nosso modo de vida. As preocupações vão para os excessos de vigilância, a limitação (legal ou efetiva – pelo medo) da liberdade de expressão, a segurança cada vez mais apertada em aeroportos (e qualquer dia sabe-se lá onde).

E fazemos bem em perceber que os ataques terroristas são acima de tudo um atentado ao nosso modo de vida ocidental. É corriqueiro viajarmos de avião, usarmos os transportes públicos (os alvos dos atentados de Madrid e Londres), irmos a um espetáculo e jantarmos fora ou tomarmos um café com amigos numa sexta-feira à noite. Matar infiéis é tanto um objetivo dos terroristas como torpedear as receitas com o turismo (e parar esses atos satânicos que são os divertimentos de férias, quase todos muito pouco piedosos, dos turistas) nos locais que atacam – Sharm El Sheik e Paris, com os turistas a fugir, que o digam.

Mas curiosamente convivemos muito bem com outros ataques ao nosso modo de vida. Na verdade até há abundantes europeus que os iniciam, muito prestimosos na sua proteção dos muçulmanos residentes na Europa. O André Azevedo Alves já aqui alertou para o perigo de passarmos a vida a repudiarmos a sociedade livre, próspera, diversificada e respeitadora dos direitos e liberdades dos indivíduos que é a Europa. Temos culpa de tudo: da pobreza que se vive nos regimes corruptos aos atropelos aos direitos humanos pelos déspotas. E no terrorismo é como nas violações: a culpa é das vítimas, que estavam a pedi-las. A culpa é inevitavelmente da invasão do Iraque, antes da divisão da Palestina, antes ainda dos protetorados europeus no Médio Oriente, do colonialismo, das cruzadas, do exército de Vespasiano que vergou a Judeia, e um quilométrico etc. até ao Big Bang. Tal como os colonizadores queriam educar os selvagens que governavam porque não lhes reconheciam grau civilizacional, também agora os eternos auto-fustigadores dos males ocidentais tratam os outros povos (ou grupos) como crianças que apenas são capazes de responder a interferências e nunca de decidir o seu destino.

E, cá na Europa, os pobres muçulmanos têm de ser protegidos de uma realidade absolutamente terrível (a ponto de o horror de um genocídio médio empalidecer perante ela): as expressões públicas da religião cristã.’

O resto está aqui.

 

“Há vida para além do défice”

Falta saber quem vai pagar a conta: Austeridade. 13 medidas que sobrevivem ao governo de esquerda (e o que vai cair)

Leitura complementar: A tempestade que paira sobre Portugal; Não há dinheiro para pagar mais socialismo.

“Ninguém”

Pedro Nuno Santos: “Não há ninguém que defenda uma rutura com a UE. Ninguém”

PCP e Bloco propõem rejeição do “Tratado Orçamental”. PS vota diferente
Portugal tem de se “libertar do colete-de-forças” do Euro
PCP propõe em Bruxelas apoios para quem saia do euro

Está encontrada a solução para acabar com o terrorismo

A Successful Climate Change Conference Is The Best Response To ISIS Brutality. Por
Corinne Lepage (Lawyer, former Member of the European Parliament, former French Minister of the Environment).

Nojento

La nausée. Por António Araújo.

Aproveitar os mortos de França para assuntos de política doméstica, num momento como este, é algo que só tem um nome: nojento. Sem tirar nem pôr, nojento.

anagomes

Portugal será a próxima Grécia?

“Portugal. A próxima Grécia?”, pergunta o Commerzbank

Analistas que há alguns meses elogiavam Portugal estão, perante o programa do futuro Governo de esquerda, a perguntar se “Portugal será a próxima Grécia”.

Quando o PS (ainda) não alinhava com o BE (3)

Sócrates critica reestruturação da dívida proposta por Louçã (Maio de 2011)

O primeiro-ministro criticou a proposta do Bloco de Esquerda de reestruturar a dívida portuguesa, dado que «isso significa um calote aos credores e significaria que Portugal passaria a fazer parte da lista negra». (…) Na resposta, José Sócrates insistiu na sua tese e recordou que «reestruturar uma dívida significa pagar um preço em miséria, desemprego e falências e, pior que isso, significa pôr em causa o projecto europeu e a moeda única única».

Parodiantes da Rússia

buk

Buk Manufacturer Sues EU For Costs Of MH17 Test Explosion

The Russian state-owned manufacturer of the Buk surface-to-air missile system is suing the European Union for losses sustained by sanctions imposed against the firm following the downing of the Malaysia Airlines passenger jet over eastern Ukraine in July 2014.

Almaz-Antey Director Yan Novikov said in an interview published in Izvestia on October 16 that the firm will also seek to recover costs incurred when it blew up a similar airliner in a test to investigate how flight MH17 was shot down.

O passo seguinte dos pacíficos fabricantes do míssil Buk passa por processar os irmãos Orville e Wilbur Wright que inventaram o avião e as famílias das vítimas dos aventureiros que estavam no MH17 que atingiu o míssil russo..