Daniel Hannan on Douglas Carswell

Douglas Carswell will win big – with implications for both Conservatives and Ukip. Por Daniel Hannan.

I have no doubt that Douglas will win comfortably. He is immensely popular in his patch. As I’ve observed before, he is a Roundhead of the finest sort: an authentic champion of the brave, undeferential, independent-minded Essex people whose fathers rode with Cromwell’s troopers.

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Norman Tebbit on Douglas Carswell

The House of Commons needs men like Douglas Carswell: I would not campaign against him. Por Norman Tebbit.

For reasons which I have explained many times in the past, I have not resigned the Conservative Whip in the Lords and therefore cannot campaign against any Conservative candidate who might be put up against Douglas Carswell, much as I might wish to do so.

However I most certainly could not bring myself to to campaign against Carswell, either.

The House of Commons needs men of his quality.

Senhor jihadista, posso ter a Grã-Bretanha de volta? Obrigada.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Sou anglófila até à medula. Contado depressa: adoro all things british. O folclore da finest hour, a forma como valorizam a excentricidade, o Yes, Minister e o Fawlty Towers, as livrarias e os autores curiosos que descubro nas livrarias (de fugida, nomeio a Charlotte Mendelson e o autor sino-americano de policiais Qiu Xiaolong), a Tate Modern, as latas de chá da Fortnum & Mason (e estou eternamente grata à East India Company por ter surripiado os arbustos do chá à China para os cultivar no norte da Índia e no Ceilão), as capas para ipad da Smythson, o Colin Firth.

Bom, tudo, tudo, não. Na verdade a Grã-Bretanha tem algo dentro de si verdadeiramente funesto. Algo cuja mais recente manifestação ocorreu algures pelo Iraque quando um londrino decapitou um inocente americano em frente a uma câmara de filmar. E que gerou ondas de choque, ai Jesus, como é possível que na Europa rica, democrática, tolerante, das Luzes germinem jihadistas? Cameron interrompeu até por uns dias as suas férias na Cornualha (região que também adoro e admito até uma leve paixoneta por St Ives, que seria o meu local de veraneio de eleição não achasse eu uma anedota fazer férias ditas de praia em locais como Moledo ou S. Martinho do Porto que, afinal, são vários graus de latitude a sul de St Ives) para, presume-se, curar a arritmia dos membros do governo por tão inesperada notícia de que há malucos extremistas in the making em Londres.’

O resto está aqui.

De facto, é surpreendente que tenhamos tido o resultado que cozinhamos

‘There are now thought to be more British-born members of Isis than there are Muslims in the British Army, leading lots of people to ask how they could hate us so much. After all, we did everything right: we imported low-skilled migrants from among the most clannish and socially conservative societies on earth to do badly-paid industrial jobs that were disappearing, ensuring their children grew up in unemployment; then we taught those children that our culture was decadent and worthless and our history tarnished with the blood of their ancestors; then we encouraged them to retreat into their religion through financial subsidies to the most openly sectarian and reactionary members of their community. What did we do wrong?’

Pires Veloso: quando o Norte era de facto outro país

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Um excelente artigo de Rui Ramos: O norte da democracia.

A integração europeia nem sempre favoreceu a sociedade e a economia nortenhas, fê-las mais fracas e mais dependentes. A democracia portuguesa perdeu com o fim do norte de Pires Veloso.

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Jogos de guerra

Twilight Struggle

Ora deixem-me ver se percebi bem: a União Europeia, através da mesma PAC com que já distorce a produção agrícola europeia, prepara-se para, por via de uma intervenção com dinheiro dos contribuintes comunitários, financiar a remoção – leia-se a mais que provável destruição – de produtos agrícolas. Desse modo pretende-se assegurar que os consumidores (comunitários, veja-se lá) vão ter que pagar preços mais altos pelos produtos que os produtores produziram em excesso e que só venderiam a menor preço, tudo isto em virtude das sanções impostas pela mesma União Europeia à Rússia. No final do dia, garantir os proveitos do costume aos seus produtores. Ou sejam, pagamos todos para assegurar o sucesso e os proveitos dos produtores agrícolas, e entretanto financiamos os joguinhos de guerra da baronesa Ashton et al. É isso, não é?

Eu também gosto de jogar, mas pago os meus próprios jogos e não ando a brincar com a vida dos demais por conta.

Precisa-se: empregada de mesa (M/F)

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Na distinta taberna aqui ao lado assa o frango no espeto, o prego no prato e o presunto no pão. O expresso, cimbalino para os de outrora, sai ao preço da uva mijona. Tabernáculo do vinho de tostão, ainda o sol não raia e já transborda bagaceira no balcão. Magistral recato onde a ASAE não paira, a comida é boa, verdadeira, genuína e autêntica, como se adjectivos houvessem para descrever o empenho de dois irmãos originários das beiras que vieram para o Porto em busca de melhor futuro. Enquanto outros ainda dormem e metabolizam o que ficou por fermentar, já eles arregaçam as mangas e dão o litro, sempre bem servido. Seis e meia da manhã já a luz está ligada, apenas para ser desligada 16 horas depois, e ainda conseguem ter mulher e filhos que vão vendo por trás do balcão. Luz que sai a 1400 euros por mês, confessaram-se, o que acresce à renda, aos salários das cozinheiras e dos empregados de mesa, aos custos da matéria-prima, aos diversos e variados impostos, ao infindável investimento numa cozinha que cumpra toda e qualquer norma e regulação cozinhada em estrugido na cabeça de um burocrata, à contribuição para a sociedade Ponto Verde porque o cartão da embalagem de leite paga-se a triplicar, às taxas de derrama e a todos os artifícios que vagarosamente espoliam o cidadão comum a frio. Ainda assim, volvidos trinta anos de monumental esforço, juntaram o suficiente para construir uma casita no lugar que os viu nascer. Esforço que lhes permitiu perceber que até no recato de sua casa o Estado se mete — foram obrigados a cumprir dura legislação no que concerne ao isolamento, milhares de Euros que são muitos pratos para quem vende diárias a 3.90€, devidamente guarnecidas.

Não obstante este esforço homérico em manter a casa aberta, pese embora todo o peso do Estado em cima deles, estão à procura de empregada de mesa. Enquanto uns falam, estes dão mesmo emprego. Pede-se alguém trabalhador e esforçado, que tire aquele fino, o café perfeito. Alguém disposto a tolerar o cheiro a fritos e grelhados. O salário não é muito, é o que pode ser pago. Preocupado com o flagelo do desemprego, tento sempre referenciar alguém que me pareça compatível com o que está disponível. Enfim, voluntarismos que dispensam reconhecimento, tento ajudar quando posso. Soube que Maria João Rodrigues estava à procura de emprego ou pelo menos de um tacho, pelo que a parelha é perfeita: tachos ali não faltam. O currículo não precisa de ser dactilografado nem vir sob a forma de pranto em prosa servida no Público. Basta vir cá falar com o Sr. Alberto e mostrar como se fazem umas boas pataniscas enquanto bota o olho na batata que ainda frita. Arregace é as mangas que a clientela é muita e fiel. Também não precisa de encarnar Roosevelt e vir com New Deals, com macronegociações, com contributos, sempre escritos ou falados, para qualquer cena ou estratégia de crescimento europeu, governo ou governança lá de Bruxelas. Aqui serve-se feito, o que requer mais do que faladura. E aqui basta falar da bola, assunto tendencialmente menos perigoso que a conversa política de político.

Penso que tem as qualificações perfeitas para o lugar. Lutadora indelével pela igualdade, estou convicto que não se sentirá diminuída por tão real e prático emprego. Não paga muito, mas paga a tempo e horas. É salário português, não é salário europeu, mas imagino que isso não preocupe uma genuína socialista que não vê classes ou castas. Alerto-a, porém, para o seguinte: aqui não basta conhecer este ou aquele, não basta prometer isto ou aquilo. Não basta ter legitimidade democrática nem de votos secretos. Não basta ir piscando o olho aos colegas de bancada. Sabe, é que isto não é cargo político. Isto é o que vem antes: é cargo dos que trabalham para sustentar os outros que se empoleiraram no pardieiro onde todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros. Tirando isso, não tenho dúvidas que será uma boa escolha, agora que o outro lugar lhe escapou.

Leituras adicionais: A triste figura de Maria João Rodrigues que queria ser comissária; Maria João Rodrigues: a mulher que queria ser comissária; Comissão europeu e periferia política.

A triste figura de Maria João Rodrigues, a mulher que queria ser comissária

Almoço debate no Gabinete do Parlamento Europeu sobre a governação economica

Se tivesse sido um pouco mais contida, Maria João Rodrigues poderia ter facilmente evitado este desmentido e a consequente humilhação pública, mas há egos demasiado inchados para se deixarem influenciar pela realidade: Bruxelas desmente Maria João Rodrigues

“A senhora (Maria João) Rodrigues, a eurodeputada que tem estado a escrever artigos nos jornais, nunca esteve na wish list do senhor Juncker. A senhora [Maria Luís] Albuquerque sim, ela não”. É assim, sem rodeios e sem esconder o desagrado, que Bruxelas reage aos artigos publicados pela socialista Maria João Rodrigues, na sequência da escolha de Carlos Moedas como futuro comissário português.

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BCE obrigou Banco de Portugal a agir no caso BES

A confirmar-se, creio que a notícia só reforça o que escrevi aqui, em particular a parte relativa ao vilão: Banco Central Europeu obrigou Portugal a enterrar o BES

A decisão portuguesa de partir o BES foi forçada pelo Banco Central Europeu (BCE). Após a publicação dos enormes prejuízos do Banco Espírito Santo no primeiro semestre de 2014, na ordem dos 3500 milhões de euros,o BCE reagiu na sexta-feira 1 de agosto. Suspendeu o estatuto de contraparte que era devido ao BES e exigiu o reembolso imediato de 10 mil milhões de euros até ao fim do dia útil seguinte — 4 de agosto, segunda-feira.

Leitura complementar: BES: o bom, o mau e o vilão.

Um político modelo

Sete dias após chegar, Marinho Pinto anuncia saída de Bruxelas

O eurodeputado do MPT Marinho Pinto revela-se, apenas sete dias depois de chegar a Bruxelas, descontente por ter percebido que “o elemento agregador da Europa não está nos ideais nem nas políticas, mas no dinheiro”. Ao Jornal de Notícias garante, por isso, que “os problemas nacionais são mais graves do que os europeus” e que no próximo ano tenciona candidatar-se à Assembleia da República,” sem prejuízo de, depois, poder também candidatar-me às presidenciais”.

Irrelevantes

Com a nomeação de Carlos Moedas para integrar a Comissão Europeia, ou seja, com a nomeação pelo governo de um seu membro para o cargo, fica mais uma vez demonstrada a absoluta irrelevância das eleições europeias, agora mais uma vez no que toca a eventuais leituras internas dos seus resultados.

Depois da campanha de propaganda protagonizada pelas (sempre iluminadas) mentes federalistas, entusiasmadas a vender a ficção da “eleição do presidente da Comissão” no último momento eleitoral, fica assim confirmada a sabedoria da imensa maioria que deu às últimas eleições a relevância que estas efectivamente merecem.

E ainda bem que assim foi.

Burrell e Valcheck

Valcheck e Burrell Uma das “teses” da série televisiva The Wire – uma das melhores de sempre – é a de que, em determinadas instituições (para não dizer todas), só são promovidas a cargos de liderança dois tipos de pessoas: as que estão tão integradas no sistema que não têm qualquer vontade de o afrontar, e as que são tão incompetentes que não terão qualquer capacidade para o fazer. Resta saber a qual das duas categorias pertencerá o nosso novo comissário europeu.

“Uma pipa de massa”

“Que se calem”, disse, com a classe que lhe é reconhecida, o senhor que à primeira oportunidade virou as costas aos seus compromissos com o país para ocupar um cargo europeu, “aqueles que dizem que a Comissão não é solidária com Portugal”. Tudo porque, com pompa inversamente proporcional à vergonha na cara, Durão Barroso e Passos Coelho vieram hoje anunciar os 26 mil milhões de euros de fundos estruturais que a União Europeia atribuirá a Portugal ao longo dos próximos anos. “Uma pipa de massa”, segundo Barroso, que “é preciso gastar bem”. Pois é aí que está o problema. A experiência do país com os fundos europeus não augura nada de bom nesse capítulo.

Há uns anos, em Março de 2003, a The Economist publicava um artigo que punha em dúvida a ideia de que os fundos europeus beneficiavam os países que os recebiam. O artigo citava o português Pedro Pita Barros, que contava como, quando fez um comentário semelhante numa conferência, muitas pessoas comentaram em privado – e em privado – que concordavam com ele. “The most obvious way that regional aid might be damaging”, lia-se no artigo, “is by distorting priorities”: “businesses spring up to exploit the availability of subsidies, most obviously for construction and “training”, rather than responding to the real demands of the market. In order to qualify for it, recipient countries usually have to chip in around half of the cost of an EU-financed project. That tempts them to spend taxpayers’ money on schemes that they might otherwise not bother with. This is a potential headache in a country like Portugal, which is undergoing a ferocious budgetary squeeze to keep within the euro area’s fiscal rules but which is nonetheless tempted to press ahead with new infrastructure projects of marginal value—for fear of losing “European money”“.

Um argumento semelhante é desenvolvido pelos nossos Carlos Guimarães Pinto, Miguel Botelho Moniz e Ricardo Gonçalves Francisco no seu O Economista Insurgente: “os subsídios europeus foram bem aproveitados no desenvolvimento de infraestruturas públicas e no crescimento de certos sectores”. O problema esteve em que “a simples transferência de fundos vem com poucas exigências para além de um caderno de encargos e, por vezes, cofinanciamento dos investimentos. Os beneficiários apenas se têm que preocupar em preencher todas as exigências burocráticas exigidas pela autoridade gestora dos fundos”. E assim, “pessoas e empresas que teriam aplicado os seus esforços noutro tipo de actividades” deslocaram-nos para actividades que apenas eram rentáveis por decisão, não das preferências das pessoas através de cuja procura se criasse um mercado para determinadas actividades, mas das estruturas políticas europeias e nacionais, que definiam o que era “estratégico” e “prioritário”. O grande problema dos subsídios europeus, dizem o Carlos, o Miguel e o Ricardo, foi “terem deslocado recursos de actividades produtivos para actividades rentistas”. Substituiram o mercado da interacção dos indivíduos pelo mercado da influência política. E com isso, claro, vem sempre corrupção.

No seu artigo, a The Economist citava Pita Barros, que argumentava que “it’s when you hear people seriously suggesting that Portugal should fiddle its official statistics, so that we are still rated poor enough to qualify for European subsidies, that you wonder if this has gone too far”. Um funcionário comunitário também citado pelo artigo acrescentava que “the best thing the EU could do for Greece is to cut off the structural funds immediately. They’re turning Greece into Europe’s Mezzogiorno [the depressed southern part of Italy]. Anybody who works hard at a regular business is regarded as an idiot, since it’s much easier to set up a project to draw in European subsidies.”
O artigo terminava lamentando o facto de ser muito provável que estes erros fossem mantidos, porque os fundos estruturais eram vistos pelas estruturas comunitárias essencialmente como um instrumento de propaganda, tanto da própria União como a nível interno de governantes sempre dispostos a fazerem anúncios que lhes pudessem dar votos. Onze anos depois, pelos vistos, não aprendemos nada, e o lamento da revista pode infelizmente continuar a ser feito.

Eurocepticismo

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Poucas semanas depois das últimas “europeias”, uma amiga minha, satisfazendo a minha curiosidade, dizia-me estar “desiludida” com a “Europa”. “Dantes”, disse ela, “acreditava mesmo no ideal europeu, mas agora não tenho grande esperança naquilo”.

O sentimento é compreensível. Em tempos, esse “ideal europeu” anunciava paz e cooperação a um continente que, até há poucas décadas, se entretinha não com noitadas de chefes de Governo discutindo a PAC, mas com guerras sucessivas e quase intermináveis, e o alargamento e “aprofundamento” da UE prometiam o fim dos “egoísmos nacionais” e a prosperidade generalizada. Hoje, se ainda prometem algo, ninguém acredita. E quanto mais a UE se “aprofundou”, mais se dividiu.

Não é nada que não fosse expectável. Entre os vários países membros existem tamanhas diferenças que nenhuma entidade política pode governar sem negligenciar os legítimos interesses de uma parte significativa dos seus cidadãos, que, dependendo da proveniência, ora protestam a falta de “solidariedade” de uns, ou se queixam de pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros. No meio do ruído, todos acabam por esquecer o que a UE nos traz de bom: sem a livre circulação de pessoas, serviços e bens que oferece, a vida como hoje a conhecemos seria impossível. Mas ao avançar demais na integração política, ao alargar o número de questões não sujeitas ao direito de veto dos países membros, a UE fez com que os cidadãos se sintam cada vez mais governados por um poder que lhes é “estranho”, no sentido de vir de outro lugar que não o seu. E assim, arrisca-se a que as pessoas prefiram abdicar do que a UE lhes oferece, em troca de sentirem que o seu país volta a ser dono do seu próprio destino.Por muito mau que esse destino possa ser.

Há dias, um grupo de eurodeputados virou as costas quando o hino da UE foi tocado. Mas é possível ser céptico em relação à UE sem ser “antieuropeísta”. Sou “eurocéptico”, mas na medida em que sou céptico em relação à política: quanto mais tentar fazer, piores resultados obterá, e por isso só uma UE que limite o seu diktat ao que de bom nos traz e na medida estritamente necessária, alargando o que cabe à esfera nacional, poderá permitir que a “Europa” e os “europeus” não fiquem mesmo de costas voltadas.

Última gota?

João, neste momento o debate já não vale muito a pena, porque tu achas que estás a rebater argumentos, como se fosse má avaliação minha que me faz ter a minha opinião, quando é evidente que temos valorizações diferentes que nos levam a posições diferentes, desde logo sobre a burka, a lei e, até, o bom senso das pessoas.

1. Não são a mesma coisa resíduos de sangue menstrual e de muco vaginal ou umas mãos por lavar (e vou mesmo ter de falar de resíduos de fezes?). Ou se percebe a diferença ou não se percebe. E não vejo porque hás-de tu assumir comportamentos de bom senso se a ausência de legislação para ti é benéfica precisamente para permitir todos os comportamentos, os sensatos e os outros. Se as pessoas tivessem todas bom senso e bons propósitos e bons sentimentos (coisas que, de resto, são diferentes para cada indivíduo) não haveria necessidade de criação de leis.

4. Não faço ideia em que te baseias para supor que não havia coação pelo facto de a lei ter sido implementada sem problema. A mim parece-me precisamente o contrário: com a existência da proibição muitas mulheres tiveram a oportunidade de se livrarem daquelas coberturas todas com a desculpa do cumprimento da lei e sem necessitarem de afrontar maridos, pais, irmãos, religiosos, etc. Mais: até me parece que muitos pais e maridos e irmãos tiveram eles próprios a desculpa perante a comunidade de não mais exigirem às mulheres da sua família que se cobrissem. No facebook Nelson Reprezas contava como via mulheres sauditas que mal chegavam ao avião de Riad se desfaziam daqueles panos todos. Eu nunca fui a Riad, espero nunca lá ir, mas também já vi situações semelhantes noutros locais (e muitas sauditas destapadas noutros países). Só não percebe que as mulheres se tapam para não afrontar as convenções sociais do seu país ou comunidade ou família e se destapam logo que podem quem não quer.

Do resto do ponto só é relevante não considerares a burka degradante, porque tudo gira à volta disso. Tu aceitas que os direitos humanos das mulheres das comunidades muçulmanas sejam ignorados porque assumes que são elas que o querem – e também não sei onde foste buscar a ideia de que essas mulheres já estão protegidas pela legislação contra a coação dos seus familiares, porque à realidade em que elas vivem não foi de certeza. Eu não. E não aceito porque são os meus direitos que ficam assim diminuídos. Isto são valores e opiniões e conceitos de realidade diferente. Não é nada que se rebata. Tu achas uma coisa e eu acho outra. Podes achar-me uma tremenda intervencionista se quiseres, eu acho a tua posição também nada coerente (porque se há algo que deve ser defendido pela lei são os direitos humanos e ou não aceitas que existam tais leis de todo ou, então, não podes defender nenhum absolutismo neste caso) e, como já se percebeu, nada recomendável – porque o que tu defendes diminui os meus direitos. E se calhar tu achas que legislar a forma de vestir (mesmo só recusando os extremos) diminui a tua liberdade. É um conflito e não entendo por que hei-de eu aceitar que sejam os teus direitos a permanecer intactos. O que tem piada – salvo seja – é que tu nem concebas esse conflito. Acho que é porque, no fundo, pensas que sabes melhor do que eu como é que eu devo viver em liberdade. Ou então que o meu conceito de liberdade não vale tanto quanto o teu.

5. As leis obviamente devem ser gerais e abstratas. Mas só devem ser feitas quando existem problemas concretos que surgem e têm de ser enquadrados legalmente. Só faz sentido criar leis para o uso da internet depois de existir internet. Só se legisla o uso de burka depois destas aparecerem em determinado país. A proibição do uso da burka não é apenas para as mulheres muçulmanas, é para todas e, também, para todos, que presumo que os homens não possam agora passar a cobrirem-se totalmente. A lei francesa é uma lei geral criada para responder a um problema concreto. Está tudo bem.

6. Não sei se perante a lei francesa o uso de burka é crime ou apenas infração. De uma forma ou de outra, que digas que ‘não tem vítima’ é muito curioso e apenas uma opinião tua. Mais uma vez desvalorizas inteiramente a vivência da mulher debaixo de uma burka e ignoras aquilo que a burka representa. Não falei em ‘valores coletivos’. Estou a defender os meus valores e, neste como noutros assuntos, puxo para o lado que coincide com os meus valores.

Nota: apanhei estes posts do João Miranda ontem à noite. Não há nada melhor do que palpitar sobre assuntos de que nada se entende. Se bem percebi, é o mesmo um véu de casamento – e mais informo que se há coisas com que embirro são véus e vestidos de noiva e quando casei evidentemente não levei véu, e vestido de noiva foi mais ou menos – que permite ver perfeitamente a cara da noiva, e permite à noiva ver também muito bem, e uma burka ou niqab. E o João Miranda nem entende que a fotografia de uma mulher com uns olhos lindamente maquilhados (coisa não permitida por quem insiste no niqab – com a burka não se vêem olhos -, nem uma musselina amarela é um pano preto ou azul opaco, pelo que a foto é uma fraude) é mesmo o melhor argumento para mostrar como as mulheres não querem prescindir de mostrar os seus encantos. Enfim.

E mais champanhe

Ainda a propósito das burkas, ide ler o José Meireles Graça – que tem quase, quase sempre razão em tudo (e o quase, quase sempre passa a invariavelmente quando me cita, como é evidente) – que faz um bom ponto da situação e termina com um parágrafo que devia ser evidente para toda a gente, mas não é. E nesta questão dos muçulmanos na UE há muita gente que gosta de desconversar, como se a liberdade fosse algo teórico e não algo que se vivencia. Como se as nossas leis não estivessem cheias de infrações e crimes que o são independentemente da vontade/liberdade dos visados. Como se nas nossas sociedades a própria liberdade não fosse imposta devido a considerações sobre a dignidade do ser humano, através da proibição da escravatura, por exemplo (porque alguém até pode gostar de ser escravo de outra pessoa – e há livros sobre os tempos da escravaura nos Estados Unidos, é ir-se ler o Gone With the Wind, para falar só de um, onde os escravos até estão muito satisfeitos com a sua condição).

Sobre os trapos – que o José Meireles Graça referiu e também é uma conversa muito interessante para estas considerações sobre os direitos das mulheres – falo noutra altura.