Uma união cada vez mais dividida

Desunião europeia Desde o seu início, o “projecto europeu” assentou em criar uma interligação (e interdependência) entre os vários países que o integravam em áreas estratégicas fundamentais para que nunca voltasse a ser do seu interesse entrarem em guerra uns com os outros. Tudo começou com a comunitarização dos recursos energéticos de França, Alemanha, Itália, Luxemburgo, Holanda e Bélgica na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. E foi crescendo, não só geograficamente com os vários alargamentos a novos estados-membros, como em âmbito, com sucessivos avanços na atribuição de poderes e “competências” (segundo o jargão bruxelense) à “Europa”. Afinal, não fora em vão que o “projecto” sempre tivera inscrito em si o objectivo de “uma união cada vez mais aprofundada”.

Os “fundadores” da “Europa” entendiam, no entanto, que esse constante aprofundamento deveria apenas ser feito através de “pequenos passos”, para assegurar que nenhum desses passos pusesse em causa os interesses fundamentais de nenhum dos membros do clube. Mas a partir dos anos 80, com o Acto Único Europeu e o caminho para o Tratado de Maastricht de 1992, e culminando na década passada com o Tratado-de-Lisboa-Anteriormente-Conhecido-por-Constituição-Europeia, essa prudência perdeu-se por completo.

Assim, nos últimos 30 anos, os “passos” dados pela “Europa” foram não só em grande número como bem largos, com tristes consequências para todos. O aumento do número de políticas sujeitas a votação por maioria qualificada e de transferência de poderes dos parlamentos nacionais para a esfera “comunitária” fez com que num número crescente de áreas da governação, os países da União tenham perdido a autonomia para defender aquilo que os respectivos eleitorados entendem – com ou sem razão – ser o interesse nacional. O resultado, para além de fragilizador da qualidade das democracias dos países europeus e dos mecanismos de controlo do poder político por parte dos cidadãos, foi a transformação da “Europa” num elemento gerador de conflitos entre os países europeus, em vez da entidade potenciadora de paz no continente que foi concebida para ser.

O caso da moeda única é exemplar. Infelizmente, só é “exemplar” no pior sentido que a palavra pode ter. O euro nasceu, como quase tudo no “projecto europeu”, de um negócio entre a França e Alemanha, em que os primeiros apoiavam a unificação dos segundos, e estes, em troca, abdicavam da sua moeda própria e cediam parcialmente o controlo sobre a sua tradicionalmente apertada política monetária. De caminho, dava-se um enorme salto, simbólico e prático, no sentido da transformação da “Comunidade Económica Europeia” numa verdadeira “União Europeia”, uma entidade política à qual se atribuíam funções até então intrinsecamente ligadas à soberania nacional. O que produziu, no entanto, foi tudo menos a idílica transformação do espaço entre o Cabo da Roca e Capo Greco e Limassol e Nuorgam numa extensa região liberta de nacionalismos e egoísmos, banhando-se em solidariedade e cantando em várias línguas mas em uníssono e tom afinado o “Hino à Alegria”.

Juntando na mesma zona monetária realidades económicas tão distintas ao ponto de terem necessidades praticamente incompatíveis, o euro mais não significou que, por um lado, uma subvalorização monetária na Alemanha pós-Marco, com (mesmo que apenas de forma relativa, e nunca a níveis gritantes) a correspondente perda do valor dos rendimentos e poupanças dos seus cidadãos; e por outro, uma sobrevalorização da moeda em países com economias menos competitivas e atractivas (como a portuguesa) criando dificuldades significativas a quem, no seu interior, pretendesse exportar bens ou serviços que beneficiariam teoricamente de uma moeda mais fraca que os tornasse apetecíveis a portadores de moedas mais fortes.

Ao mesmo tempo, e para piorar as coisas, criou também uma bolha nos títulos de dívida pública desses países: confortavelmente sentados debaixo do mesmo chapéu monetário da Alemanha; em princípio obrigados a respeitar uma série de regras orçamentais visando manter a estabilidade do euro; e com a implícita promessa que, em caso de descalabro, o simples facto de partilharem a mesma moeda faria com que países como a Alemanha nunca deixariam cair países como Portugal, Grécia ou Itália; estes Estados puderam endividar-se a juros (quase) “alemães” enquanto seguiam políticas orçamentais “gregas”. E quando se abateu a crise do subprime americano e a “Europa” temeu uma recessão, todos os países da “zona euro” foram alegremente incentivados pelos vários “responsáveis” da União a atirarem mais despesa pública para a economia com o propósito de a “reanimar”. Se esta política podia talvez fazer sentido em países com uma escassa dívida pública e políticas orçamentais mais ou menos equilibradas, não tinha pés nem cabeça em países já extraordinariamente endividados e em que o Orçamento de Estado era usado como instrumento de compra de votos e satisfação de vastas e sequiosas clientelas. Como seria de esperar, não demorou muito para que nem o chapéu monetário do euro chegasse para proteger países como a Grécia e Portugal dos ardentes raios dos temores dos “mercados” de dívidas soberanas. À beira da falência, viram os mesmos políticos (José Manuel Durão Barroso, “a senhora Merkel”, Juncker) que poucos anos antes encorajavam Primeiros-Ministros como Sócrates a seguirem os seus piores impulsos, a cantarem as virtudes da parcimónia e a pregarem violentos sermões contra os vícios do “endividamento excessivo”.

Claro que mais graves que o sempre incómodo espectáculo da hipocrisia dos (como diz um amigo meu) “poderes que são”, foram as consequências económicas e políticas da aventura. A necessidade de resgatar os países “incumpridores” sem pôr em causa a credibilidade do euro como moeda estável criou a terrível combinação que nos trouxe ao infeliz estado de coisas actual: o financiamento dos “programas de resgate” por parte dos países mais ricos revolta os seus eleitores pela sua percepção de que estão a pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos países resgatados; nestes últimos, as medidas “duras” e a perda de autonomia orçamental inerentes a esse programa e ao Tratado Orçamental da EU causam no eleitorado o descontentamento contra a “falta de solidariedade” dos “austeritários” ricos e o “desrespeito pela democracia”; e as soluções que poderiam servir para ultrapassar as piores consequências económicas e financeiras deste arranjo – um salto para uma maior integração económica e política, com meios de mutualização dos títulos de dívida pública, as tão faladas “transferências financeiras”, e atribuição de novas e mais extensas “competências” sobre os orçamentos nacionais às instituições (não-democráticas) da União – acabariam por agravar não só o problema da perda de controlo democrático do poder político, como em particular o do conflito de eleitorados a que os arranjos do euro e da União deram origem.

Por estes dias, as “classes conversadoras” do continente vão-se entretendo a discutir quem merece mais ser culpabilizado pela crise grega, se o governo grego se as instituições da União. Não percebem que o problema realmente grave já existia, e que continuará a existir muito depois do Syriza voltar à proveniência e independentemente de se chegar a um acordo sobre o que fazer na Grécia ou não: A “Europa” foi durante décadas um factor de estabilidade porque servia os interesses dos países que a ela pertenciam. Mas, ao dar passos gigantescos e pouco cuidados no sentido da “união cada vez mais aprofundada”, fez com que esses mesmos países perdessem capacidade de defender o que julgam ser o seu interesse. A sua arquitectura institucional tornou-se assim incompatível com a satisfação dos interesses de todos os seus membros, e não pode portanto gerar outra coisa que não conflitos. A continuar neste caminho, a “Europa” chegará ao dia em que, não servindo os interesses dos seus membros, deixará de ter interesse para eles. E nesse dia, até o que ela tem de bom, que apesar de tudo não é pouco, se perderá.

A culpa é dos políticos hiperativos

O meu texto desta semana no Observador.

‘Devo começar esta crónica esclarecendo que temo pela saúde do meu computador (já de si uma fraca máquina, que eu acredito em poupar dinheiro nas tecnologias para gastar em sapatos e maquilhagem – e livros e viagens, acrescento só para os sexistas de serviço não virem a correr chamar-me fútil) se volto a ouvir ou a ler, a propósito da interminável novela grega, que ‘a Europa está dominada por contabilistas’ ou ‘as pessoas são mais importantes que os bancos’. (E uma pergunta de passagem: saberão que os bancos é onde está guardado o dinheiro das pessoas?)

Por várias ordens de razões. Uma. Não respeito a falta de originalidade. Duas. Repudio a ignorância. Três. Não aprecio líricos moralistas, sempre prontos a darem sentenças sobranceiras sobre o que os outros devem fazer com o seu dinheiro e a mostrar tão publicamente quanto possível como são pessoas de coração mais benévolo que os bárbaros materialistas que contam tostões da dívida grega (vejam bem que a discórdia entre gregos e eurogrupo era ‘só’ – li eu por aí – 0,01% do PIB europeu, que ninharia).

Bom, eu não sou contabilista, nunca achei piada a Contabilidade, mas sou liberal. Donde: muito ciosa da minha liberdade de gastar o meu dinheiro como bem entendo. Tenho o bom hábito de ficar ofendida sempre que encontro as almas anticontabilistas ‘o que conta são as pessoas não os números’ que querem fazer boas ações com o meu dinheiro (ou com o dos alemães). O dinheiro é como as barrigas: é meu, faço o que quero. Não sou política, não tenho de dar estas satisfações, entretenham-se com a vossa vida sff.

E, reconheço, fico à beira da apoplexia com a beatífica repugnância à ditadura que os malévolos fenómenos económicos estendem sobre a virtuosíssima política.’

O resto está aqui.

Grécia em incumprimento

FMI: Grécia entrou em incumprimento

“Confirmo que o reembolso de 1.5 mil milhões que a Grécia deve ao FMI não foi recebido hoje. Informamos o nosso Quadro Executivo que a Grécia está agora em incumprimento e só pode receber o financiamento do FMI quando o atraso for compensado”, lê-se no comunicado que o FMI enviou para as redações, citando Gerry Rice, director de comunicação do FMI.

“Posso ainda confirmar que o FMI recebeu hoje um pedido das autoridades gregas para uma extensão do cumprimento do reembolso grego que venceu hoje, que segue agora para o Quadro Executivo do FMI em curso”, diz ainda o documento.

A Grécia é assim a primeira economia avançada a entrar em incumprimento com o FMI. Mais: é o maior pagamento em falta na história do Fundo Monetário Internacional.

When ‪‎‪Tsipras‬ was saying that a ‪‎referendum‬ equals ‎Grexit

When ‪‎Greek‬ Prime Minister Alexis ‪Tsipras‬ was saying that a ‪‎Referendum‬ Equals ‎Grexit

Logo à noite, no Prós e Contras

Logo à noite, no Prós e Contras, o insurgente Mário Amorim Lopes estará a debater o futuro de Portugal juntamente com Francisco Mendes da Silva, Ricardo Paes Mamede e Margarida Vieira da Silva.

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Leitura complementar: A vida difícil de António Costa.

Put your money where your mouth is

Uma oportuna sugestão do LA-C face à preocupação manifestada por Obama: E telefonar ao Tsipras, não?

E telefonar ao Tsipras a dizer que os EUA emprestam à Grécia o dinheiro necessário para pagar o empréstimo do FMI que vence amanhã, não seria uma excelente forma de demonstrar solidariedade? Put your money where your mouth is.

A Grécia e nós

Um domingo em Atenas, ou o que nos podia ter acontecido. Por José Manuel Fernandes.

Nestes dias em que regressamos a casa sem novos sobressaltos e, ao abrir a televisão, vemos o que se passa em Atenas ou Salónica, é bom recordar que nos podia ter acontecido o mesmo. Que até esteve quase a acontecer-nos o mesmo na crise do verão de 2013. Há por aí muita falta de memória, mas há coisas que não podem nem devem ser esquecidas.

Leitura complementar: A vida difícil de António Costa.

Conquistas do syrizismo

Bancos gregos fechados até ao dia do referendo

Esta segunda-feira os bancos já não abrem e podem ficar fechados até 5 de julho, dia do referendo. O controlo de capitais também vai avançar. Governo grego convocou reunião de emergência.

Syriza: um governo de medricas (qual governo que faz frente à Europa toda, qual carapuça)

filas grecia atm(o sucesso do Syriza, segundo os critérios da esquerda lunática nacional)

Estou como a Helena Matos (que bom texto), um tanto irritada por perder tempo com estes pantomineiros gregos (e as sucursais nacionais), e estou apertada com prazos para escrever outras coisas, mas tem de ser. Ora vamos lá.

1. O referendo às propostas das ‘instituições’ é algo que faz muito sentido, e não me venham com argumentos ‘a questão é muito técnica, os pobres e vulgares cidadãos gregos não percebem nada’. Tanto percebem que acorreram às caixas multibanco para levantar euros, membros do parlamento grego incluídos. Faz-me todo o sentido perguntar a uma população se quer cortes de despesa e aumentos de impostos para continuar a ter financiamento externo. O que já é evidente chantagem e má-fé do governo grego é marcar o referendo para DEPOIS de a Grécia já ter falhado um pagamento ao FMI, estar em default e falida. E, como é óbvio e diz a adulta Lagarde, quando já nem se mantêm as propostas das ‘instituições’. Se Tsipas e Varoufakis tivessem negociado seriamente nestes cinco meses, em vez de engonharem e escreverem no twitter e apostarem em deixar a decisão para o limite a ver se a UE tremia dos joelhos e ajoelhava perante as imposições gregas – e sim, aqui quem tem feito imposições é a Grécia, que pretende ter o dinheiro dos outros segundo o diktat grego – e, de seguida, levassem a necessária austeridade a referendo, teriam sido políticos sérios (mas, quiçá, a seriedade é um conceito burguês e reacionário). Com este timing, apenas se trata de chantagem, manipulação e desonestidade. (E o BCE, ainda assim, vai continuar a ajudar a Grécia. Se isto não é solidariedade europeia, não sei o que é.)

2. Não dei por tanques prussianos junto às fronteiras terrestres gregas, nem que tivesse sido imposto um bloqueio marítimo na extensa costa grega. Ninguém está a obrigar a Grécia a nada. A Grécia tem toda a soberania para decidir recusar as propostas dos que estão dispostos a financiá-la. Não quer a austeridade imposta pela troika, não tem; como se vê, nenhum país se prepara para invadir a Grécia caso recuse financiamento das ‘instituições’. Não há, portanto, nenhum ataque à soberania grega. Claro que se recusar a austeridade da troika, terá a austeridade do default. E se sair da posição de ‘lacaio de Merkel’ (que pelos vistos tem quem não sofre de pulsões suicidárias) tornar-se-á lacaio de Putin – mas quanto a isso já se percebeu que Tsipras não tem grandes problemas.

3. E a falta de solidariedade europeia, que tanto apoquenta os corações da boa gente da esquerda lunática nacional? Eu, por mim, estou de consciência tranquila. Estive uma semana o ano passado de férias na Grécia, este ano planeio ir lá mais uns dias e não vejo maior solidariedade com um país do que decidir livremente gastar nele o meu dinheiro. A crise humanitária grega até teve a simpatia de se ocultar enquanto eu por lá andei, a ponto de não a ter vislumbrado. E eu sou daquelas pessoas sensíveis a imagens de pobreza, ir à Índia para mim é um tormento (da única vez que lá fui de férias perdi o sono durante alguns meses, e isto não é força de expressão; e das vezes que lá ia em trabalho fazia por estar fechada no hotel o máximo tempo possível), recuso-me a ir à África subsahariana, e não consigo apreciar o pitoresco de hordas de pedintes. Quanto ao resto, era o que faltava qualquer porção do meu dinheiro contribuir para manter gastos militares gregos (onde ‘as instituições’ pedem o dobro das poupanças que pretende o governo grego, ao contrário da notícia que por aí circulou) ou para sustentar a tv pública syrízica de propaganda ou para pagar pensões gregas mais elevadas do que aquela a que eu, um dia, com sorte, terei direito. Não gosto de parasitas nem de predadores.

4. Voltando ao referendo, não entendo por que razão o Syriza – que diz ter um mandato que não lhe permite aceitar as propostas das ‘instituições’ e que afirma ir fazer campanha pelo não – não recusa simplesmente a proposta e vai à sua vida. Tsipras e sus muchachos, além de irresponsáveis e incompetentes, são uns medricas que nem conseguem aceitar o ónus e a responsabilidade da decisão de entrar em default, falir e sair do euro. Até parecem pretender continuar a governar como se nada fosse se perderem o referendo.

Tsipras elogia estratégia negocial dos governos português e irlandês

Um dos argumento mais lidos entre os apoiantes locais do Syriza é o de que o Syriza, com a sua posição de força, tem atingido mais vantagens negociais do que Portugal alguma vez conseguiu. PHoje Tsipras queixou-se precisamente o oposto: que a estratégia negocial mais discreta de Portugal e Irlanda lhes permitiu obter maior flexibilidade negocial do que a Grécia:
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(Em português: “A repetida rejeição de medidas equivalentes por parte de certas instituições nunca ocorreu antes – nem com a Irlanda, nem com Portugal)

Socialismo e rigor orçamental

Será o socialismo compatível com o rigor orçamental a que o euro obriga? Os meus comentários ontem na Edição das 12 do Económico TV.

O PS, a linha do Syriza e o próximo Governo de Portugal (4)

Não foi combinado (ainda que provavelmente vá ser impossíovel convencer disso os habituais teóricos da conspiração), mas verifico que eu e o João Pereira Coutinho começámos os nossos artigos de ontem quase exactamente da mesma forma, ainda que o João prossiga depois no seu estilo bastante mais assertivo: Humilhação.

Em 8 meses, Costa destroçou o PS como alternativa. Porque cometeu três erros: não cortou com o passado socrático, que os portugueses abominam; associou-se às fantasias gregas, que os portugueses temem; e distribuiu promessas sobre promessas, que os portugueses já não compram. Só isso explica que os mesmos que consideram o actual governo ‘mau’ ou ‘muito mau’ sejam aqueles que ainda ponderam dar-lhe a vitória. Haverá maior humilhação para Costa?

Leitura complementar: A atracção fatal do PS pelo Syriza.

O PS, a linha do Syriza e o próximo Governo de Portugal (3)

Acto final da farsa grega. Por Ricardo Reis.

O mais interessante nos últimos meses, mas também mais assustador, são as comparações que alguns historiadores fazem com a subida do partido nazi ao poder. A Alemanha no início dos anos 30 recuperava de uma crise económica e, apesar de um perdão de dívida em 1929, elegeu um partido que misturava nacionalismo de direita com socialismo de esquerda e que de imediato renegou todos os compromissos internacionais, culpando os europeus por todos os seus problemas, mobilizando o seu povo contra esse inimigo. Todos estes pontos se aplicam à Grécia em 2015.

Os historiadores do futuro vão realçar a culpa dos dois lados. Não se diz suficientemente o óbvio: o Syriza é profundamente incompetente. A figura de Varoufakis é embaraçosa. Vai há meses para reuniões europeias sem apresentar um único numero, ou uma única proposta com detalhes, porque é incapaz de fazer esse trabalho. Vive para a vacuidade do twitter. No final de 2014, a Grécia tinha um excedente primário nas contas públicas, a economia a crescer mais depressa do que Portugal, e a semelhança dos seus problemas com os de outros países europeus dava-lhe peso na zona euro. A Grécia estava a sair da crise, e um governo competente talvez fosse capaz de renegociar a dívida. Mas, em menos de seis meses de um governo Syriza de políticas desastrosas e discursos desavisados, a Grécia está sozinha a viver um cataclismo.

Leitura complementar: A atracção fatal do PS pelo Syriza.

O estranho caso do milagre económico comunista que ainda não apareceu para picar o ponto

soviet unionFaz agora 5 meses – quase ao dia certo – que percebemos a extensão da personalidade adorável dos atuais líderes gregos, com a sua mistura de ar desdenhoso e arrogante, ofensas e insultos proferidos em abundância e mentira continuada sobre vontade de encontrar compromissos (que sabemos inexistente, que não há nada que comunistas gostem mais do que caos e confusão para lá no meio do turbilhão arrecadarem poder que de outra forma não conseguiriam).

Mas nestas negociações com a Grécia – que são muito mais do que uma forma de encontrar acordos financeiros – há dois pontos importantes a ressalvar.

1. A negociação com a Grécia não deixa de ser uma batalha civilizacional – como são todas as guerras que se fazem ao comunismo, essa ideologia profundamente imoral. É muito importante que as instituições formerly known as troika não permitam que um governo comunista reclame sucessos económicos obtidos à custa do dinheiro dos capitalistas (também conhecido como poupanças dos restantes cidadãos europeus, que por acaso têm direito de as gastar como bem entendem, ao contrário dos gregos e outros comunistas avulsos com a mania que têm direitos sobre o dinheiro e a propriedade alheios).

2. E a propósito de sucessos económicos, chego ao 2º ponto. Não entendo. Estou confusa. Então mas onde estão a abundância e crescimento económico que os comunistas e esquerdistas radicais nos garantem vir com as políticas defendidas pelo Syriza? Ao fim deste tempo todo, o milagre económico comunista na Grécia devia já ter tornado irrelevante a necessidade de financiamento externo. Cinco meses já deveriam fazer a diferença na criação de riqueza devido a tão avassaladoramente fantásticas propostas económicas do Syriza. Onde está a taxa de crescimento da economia a triplicar a da zona euro? Onde estão os lucros estonteantes e a receita fiscal a crescer? Onde está o emprego a multiplicar-se e os ordenados a engordarem? Por que diabo necessitam que outros lhes emprestem dinheiro? É muito estranho que as políticas económicas comunistas afinal destruam centenas de empregos por dia (fora o que aí virá depois de a troika mandar o Syriza para as caves conspirativas de onde nunca devia ter saído). A realidade não pode continuar a contrariar desta maneira as boas teorias.

A Alemanha e o impasse grego

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Grécia não quer extensão do programa

Porta-voz do Governo recusa extensão do programa e reitera recusa da proposta dos credores. Europa diz que ainda não recebeu contra-proposta.

Críticas à Grécia sobem de tom na Alemanha

Líderes da coligação entre conservadores e sociais democratas que governa a Alemanha têm assumido críticas ao Executivo liderado por Alexis Tsipras, com membros do SPD, partido que demonstrava maior flexibilidade perante a Grécia, a culparem o país pelo prolongado impasse nas conversações. Sigmar Gabriel, líder social democrata, afirmou que a “Europa já esgotou as possibilidades” de oferecer compromissos a Atenas, refere o Financial Times. O vice-chanceler da Alemanha e ministro da Economia acrescentou que o primeiro-ministro grego “não está preparado para encarar os problemas que ele próprio tem de resolver”.

Também Martin Schulz, social democrata e presidente do Parlamento Europeu, tem uma posição crítica em relação à atitude da Grécia. “A teimosia do governo grego é irritante”, disse Schulz, que considerou que a União Europeia já tinha ido muito longe na tentativa de acomodar as pretensões de Atenas que, agora, “devia caminhar em direcção a um compromisso”.

Merkel sobre a Grécia: “Não resta muito tempo”

O tempo está a esgotar-se, avisa Merkel; é preciso um compromisso sério dos gregos, diz Obama; a Itália não vai pagar as pensões dos gregos, alerta Renzi. No G7, multiplicaram-se os recados à Grécia.

Leitura complementar: António Costa aprendeu com tontices do Syriza?; O socialismo europeu e o Syriza; O cenário do PS: entre Centeno e Varoufakis; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza; Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; A Grécia e o erro de Merkel.

Et tu, Juncker?

Juncker está a perder a paciência com Tsipras

Não foi um ultimato, mas quase. Para a semana os líderes gregos ainda vão até Bruxelas para negociar uma solução final para o problema da Grécia, mas já contam com uma pressão mais forte do lado europeu: Jean-Claude Juncker diz que está a perder a paciência e que ficou dececionado com Alexis Tsipras. O presidente da Comissão Europeia lamenta ainda não ter recebido uma proposta do lado do Governo do Syriza.

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O PS não tem nada a ver com o Syriza?

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26 de Janeiro de 2015: o líder parlamentar do PS, Eduardo Ferro Rodrigues, defende que o resultado das eleições na Grécia “é a primeira demonstração” de que “há um consenso alargado nos países que são vítimas do fracasso estrondoso das políticas de austeridade, no sentido da mudança”. E acrescenta:“Qualquer ameaça à Grécia deve ser considerada antidemocrática e antieuropeia.”

6 de Junho de 2015: Ferro Rodrigues quis evitar confusões, afirmando que o PS não é o Syriza. “Somos um partido de centro esquerda. Não temos nada a ver com o Syriza”.

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As mentiras do Syriza e a ilusão construtivista da UE

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Um artigo de leitura obrigatória: Grécia: quando é que a história acaba? Por Rui Ramos.

O Syriza prometeu aos gregos que podiam manter o Euro sem “austeridade”. Mentiu. A mentira serviu, no entanto, para Tsipras e os seus camaradas se apossarem do governo, com a ajuda do sistema eleitoral e da extrema-direita. Uma vez no poder em Atenas, calcularam que seriam capazes de assustar e de dividir a zona Euro com a ameaça de uma falência. A chantagem não chegou até agora para obterem todos os empréstimos que pretendem, mas tem bastado para arrastar as negociações indefinidamente. O pior, para o Syriza, é que, dentro da Grécia, a sua chegada provocou a mais perigosa de todas as revoltas: a dos contribuintes e aforradores. Os contribuintes (um terço dos quais são trabalhadores por conta própria, e portanto menos vulneráveis ao fisco), começaram a deixar de pagar impostos, e os aforradores a tirar o dinheiro dos bancos. Bastarão os 7,2 biliões que o Syriza espera dos seus credores para fazer descer esta maré de desconfiança?

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Os resultados da linha do Syriza

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Economia grega está a perder 600 postos de trabalho e 22 milhões por dia

Os cálculos são da Confederação grega de Câmaras de Comércio e Indústria que fala de “sangria” e pede ao Governo que feche rapidamente um acordo com a troika.

Leitura complementar: António Costa aprendeu com tontices do Syriza?; O socialismo europeu e o Syriza; O cenário do PS: entre Centeno e Varoufakis; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza; Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; A Grécia e o erro de Merkel.

Razões para a Grécia sair do euro

Sete razões para a Grécia sair do euro. Por José Manuel Fernandes.

Pode ser chocante, mas é verdade: há boas razões para a Grécia sair do euro. A primeira, é que isso é melhor para ela. Depois, é melhor para a democracia. Por fim, é melhor para a União Europeia.

Leitura complementar: O cenário do PS: entre Centeno e Varoufakis; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza; Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; A Grécia e o erro de Merkel.

Há gravações mas não há dinheiro…

Mentiras e vídeo. Yanis Varoufakis confirma que gravou reunião de Riga
“Não há dinheiro” para pagar ao FMI em junho, diz ministro do Interior

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O FMI e o triste fado português

Lacunas nacionais. Por Pedro Braz Teixeira.

É lamentável que tenham de ser instituições externas, como o FMI, a apontar o caminho das reformas para a nossa saúde económica.

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António Costa aprendeu com tontices do Syriza?

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António Costa. “Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha” (Janeiro de 2015)

“Temos de travar um combate na UE de forma inteligente, não de forma tonta como o Syriza” (Maio de 2015)

Leitura complementar: O cenário do PS: entre Centeno e Varoufakis; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza; Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; A Grécia e o erro de Merkel.

Uma segunda moeda para a Grécia?

Alemanha não defendeu, mas falou de moeda paralela para a Grécia

Wolfgang Schäuble admitiu que a Grécia poderá necessitar de uma moeda paralela se não houver progressos nas negociações com os credores. Quem o diz são fontes próximas do ministro alemão.

Leitura complementar: O cenário do PS: entre Centeno e Varoufakis; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza; Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; A Grécia e o erro de Merkel.

E se o fantasma da troika não for suficiente?

Porque é que só Cavaco Silva e Evans-Pritchard estão preocupados? Por Rui Ramos.

O regime não está incomodado. Já ninguém lê os relatórios do FMI. Por enquanto, há dinheiro barato. E para o futuro, os sábios esperam que as perspectivas difíceis descritas por Evans-Pritchard, só por si, imponham responsabilidade e disciplina aos partidos do chamado “arco da governação”. No fundo, confia-se no fantasma da troika, isto é, na pressão externa sobre uma pequena economia aberta. A oligarquia não imagina outra base de governo em Portugal. A questão é esta: para aquilo que é preciso fazer, bastarão o medo e o cinismo? Não serão precisos também alguma visão, alguma esperança?

Leitura complementar: O guião do regresso ao passado.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A doença europeia

Depois da sua vitória eleitoral, David Cameron pretende cumprir o prometido e permitir que os britânicos referendem a continuidade do Reino Unido na União Europeia. Os alarmes soaram em Bruxelas, já a braços com a possível saída da Grécia da zona euro, ao mesmo tempo que se deseja que o referendo britânico, com uma vitória do “não”, ponha um ponto final na indecisão e insatisfação britânica.

Numa entrevista esta semana ao “Guardian”, Graeme MacDonald, chefe-executivo da JCB, uma multinacional britânica que é a terceira maior fabricante mundial de equipamentos para construção, defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia, se Cameron falhar a negociação para reduzir a burocracia europeia que prejudica as empresas britânicas.

Admitindo ser, por vezes, mais fácil vender para a América do Norte do que dentro da própria Europa, MacDonald bate num ponto essencial: a União Europeia foi criada para derrubar barreiras, não para as erguer. E o que se passa é que o projecto europeu, tendo sido mais político que económico, tem ido ao desencontro do seu objectivo inicial, que é a criação de um mercado comum, logo aberto.

Claro que os riscos são imensos. Mas estes não advêm apenas de uma possível saída do Reino Unido, mas da dificuldade que é reformar a União. A teia burocrática é de tal forma gigantesca e contorcida que uma diferença natural entre os povos facilmente se torna uma disparidade crónica entre os Estados.

O disparate de canalizar recursos públicos para novos centros de congressos

Subscrevo a preocupação e também espero que prevaleça o bom senso e não se avance para a construção de mais elefantes brancos: Europarque é do Norte. Por Emídio Sousa.

É com base nessa moderação e bom senso que me preocupam as notícias sobre novos centros de congressos. Aconselho os decisores políticos a refletirem. Manter e recuperar o que já está construído parece-me bem. Sem bairrismos bacocos, construir novos centros de congressos parece-me um perfeito disparate e espero que em momento algum o Estado ou os fundos comunitários financiem esse tipo de despesa.