
O Governo faleceu, morreu, faliu, extinguiu-se, acabou, quinou, encalhou, bateu no fundo, bateu a bota, apodreceu, pifou, sucumbiu, pereceu, saíu para comprar cigarros, está arrumado. Não sei até quando durará, de jure, visto que, de facto, o Governo foi-se. Talvez até ao OE, talvez até depois do OE. Talvez até ao final desta semana ou talvez até ao próximo ano. Mas daqui para a frente, o Governo está derrotado. Não por uma hábil oposição, como poderia ser o caso. Não por iniciativa de um Presidente – até ver – como também já foi o caso. E muito menos pelo peso das ruas – a credibilidade da multidão que Sábado gritou “que se lixe a Troika” não é muita.
O Governo chegou a este estado de coisas pela forma descuidada, tímida e ignorante como lidou com as coisas do Estado. O que levou a que, da esquerda à direita, de conservadores a liberais, de jotas a senadores, de analfabetos a doutores se exija a queda do Governo não foi a TSU, como tem sido afirmado por muitos. E muito menos será o recuo da TSU que levará as hastes anti-governo a recuar. A questão da TSU é apenas a machadada final na paciência de muitos e o clímax de um conjunto de políticas recessivas, inimigas de quem trabalha, arqui-inimigas de quem o tenta fazer.
Os Tecnocratas perderam o jogo. Tomaram a economia por uma ciência matemática e não uma ciência social. No fim de contas, as contas estavam erradas. Não era preciso ser doutor para prever que o aumento de impostos ia fazer baixar a receita. Não era preciso ser sociólogo para prever que, especialmente, o aumento dos impostos indirectos iria criar uma inflacção de preços que depauperaria famílias e criaria um clima de instabilidade social, até nos mais fiéis apoiantes dos partidos do governo. Não precisamos de génios para prever que o défice ia derrapar. Não foram os buracos, os tais desconhecidos buracos – hoje – mas de que Passos já falava – em eleições. Foi a maneira leviana como foram aplicadas as mais importantes medidas do Memorando. Assegurando um interesse aqui, protegendo um interesse acolá. Foi a incapacidade para cortar despesa. Não umas migalhas, mas o pão inteiro. E foi, repito, esta sádica, anti-social, anti-crescimento ideia de aumentar os impostos até o país morrer de fome. Para trás ficam outros momentos menos felizes que fizemos questão de recordar. Falou-se em chips em humanos, expropriações, proibições disto e daquilo, regulações disto e daquilo.
Mas, caros leitores, migalhas comparados com a imbecilidade que se apoderou dos homens do Governo em matéria de Política Fiscal. E que dizem agora os senadores? Dinossauros de serviço deste forrobodó? Com apoios semanais e desculpas embasbacadas a quase tudo que vinha sendo feito? E os papagaios, nos partidos e nas jotas, sempre sugerindo mais uma taxa, mais uma regulação. Sempre com uma voz de apoio. Que fazer dos papagaios televisivos? Economistas de renome, ex-políticos, gente que fazia contas aqui, apresentavam uns gráficos, ladravam uns números e puf: estava a crise resolvida. Que fazer dos arautos das políticas sectoriais, dos matemáticos das taxas, das importações canadianas da produtividade. Que dizer das Câmaras Corporativas alaranjadas que por aí se multiplicaram, outrora blogues de renome, hoje antros de prostituição política e jornalística da pior espécie. Todos cúmplices do crime que se cometeu contra o país.
E Paulo Portas? Tantas esperanças depositadas no CDS, pelos seus, pelos que acreditaram nas baladas do partido “anti-impostos”. Hoje o CDS treme. Treme perante um partido maior, treme perante umas sondagens que não vê disparar. E neste joguinho, não concorda mas aprova. Tem opinião mas não se pronuncia. O CDS converteu-se no Cavaco do poder legislativo, talvez para bem do seu futuro político, para mal de todos num futuro próximo.
Tantos blogues, tantas crónicas, tantos artigos, tantos prós e contras, tantas grandes entrevistas, tanto paleio para isto. Para o geral desses génios pensantes – excepto uma minoria de apelidas doidos, fascistas, entre outras simpatias – não conseguirem chegar à simples e imediata conclusão de que o país não aguenta, nem sem menos impostos, nem sem menos despesa. Tanto estudo, tanto gráfico, tanto Medina Carreira para aqui, Marcelo para lá e ninguém percebe que a receita é simples. Virá sempre um intelectualóide perguntar em que percentagem, para quem, como, etc… A Academia enferrujou de tal modo a mente dos seus que estes continuam com ideias de “baixa-se tanto para as exportadoras”, “deduz-se tanto para os jovens”.Acordem. O problema do sistema fiscal não é apenas a sua carga, é a complexidade do mesmo. E esses pseudo-liberalismos dos iluminados que nos assombram as televisões só vêm agravar o problema e distorcer os mercados.
Portanto, caro leitor, se alguma vez se deparar na rua com um desses homens, banhados em títulos académicos e\ou cargos políticos, cúmplices da tragédia em que caímos e ele lhe disser que a culpa é dos liberais, dê-lhe uma palmadinha nas costas – de pena – e, se ainda lhe restar algum centavo no bolso depois do terrorismo social perpertado por estes senhores, compre-lhe um Livro. Vai ser a sua boa acção do dia, ajudar um pobre – de mente. Não tenho nada a esconder. Fui apoiante de Passos Coelho, em tempos. Fui militante do PSD, em tempo. Mas vejo-me hoje, pela força das circunstâncias e pelo peso das políticas erradas – e da dívida – forçado a repetir um dos Slogans mais importantes da blogosfera, que data dos últimos suspiros do consulado Sócrates: JÁ BASTA!